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El Niño em 2026: o Brasil precisa se preparar

El Niño em 2026: o Brasil precisa se preparar

El Niño em 2026 voltou ao radar. E o Brasil não tem o direito de alegar surpresa.

A NOAA estima 62% de chance de o fenômeno surgir entre junho e agosto. O mesmo boletim aponta 33% de chance de um episódio forte entre outubro e dezembro. O New York Times deu ao tema o destaque que ele merece. O jornal tratou o possível retorno do El Niño como ameaça global capaz de reacender calor recorde, enchentes, secas e incêndios. Em algumas avaliações citadas pela reportagem, a probabilidade chegava a 80%. Mas o dado oficial da NOAA, hoje, é 62%.

O número basta. Não se trata de curiosidade meteorológica. Quando o Pacífico Equatorial aquece acima do normal, a circulação da atmosfera muda. E o mundo paga a conta.

O que o mundo já viu

O último El Niño, entre 2023 e 2024, deixou um rastro conhecido. Seca no sul da África. Enchentes no Chifre da África. Incêndios e estiagem na Amazônia. Estresse térmico severo em recifes de coral. Chuva extrema no sul da Califórnia. Além disso, o fenômeno costuma empurrar a temperatura média do planeta para cima. Por isso, sempre que ele reaparece no horizonte, o alerta sobe.

No mar, o estrago começa antes

Antes de virar enchente, seca ou onda de calor em terra, o El Niño já começou a fazer estragos no oceano. O aquecimento das águas superficiais enfraquece a ressurgência de águas frias e ricas em nutrientes. Sobe menos alimento das profundezas. Cai a produtividade marinha. E toda a cadeia alimentar sente o golpe.

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Ilustração da BBC baseada em dados da NOAA.

Peixes e lulas rareiam ou mudam de área. Aves marinhas perdem alimento, abandonam colônias e deixam de se reproduzir. Baleias, golfinhos e outros predadores também sofrem, porque falta comida na base do sistema. Mas um dos danos mais graves atinge os recifes de coral, um dos mais importantes berçários. Com o mar mais quente, cresce o risco de branqueamento, processo que enfraquece os corais, mata colônias inteiras e compromete abrigo, alimento e reprodução de inúmeras espécies. Num oceano já mais quente por causa da ação humana, o estrago pode ser ainda maior.

No Brasil, o estrago foi grande

No Brasil, o último episódio deixou marcas nítidas. Segundo o Inmet, o El Niño atuou desde junho de 2023 e atingiu intensidade forte em dezembro daquele ano, com aquecimento de 2,0°C acima da média no Pacífico Equatorial. O Rio Grande do Sul recebeu chuva muito acima da média. Em contraste, grandes áreas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste registraram menos chuva que o normal. Ao mesmo tempo, o calor subiu em grande parte do país.

Ecos da tragédia no rio Grande do Sul em 2024. Imagem, redes antissociais.

O próprio Inmet resume o padrão brasileiro sem rodeios: cheias no Sul a partir de setembro, seca no Norte, atraso das chuvas na parte central do país, pouca chuva no começo do verão e ondas de calor. Na agricultura, a conta também veio pesada. A quebra nas culturas de verão chegou a 25,7 milhões de toneladas.

Seca, calor e fogo

Mas houve algo ainda mais eloquente. Segundo o MapBiomas, a área queimada no Brasil cresceu 79% em 2024 e superou 30,8 milhões de hectares. Foi a maior marca desde 2019. O dado ajuda a medir o tamanho do desastre. O longo período seco associado ao El Niño criou ambiente favorável para a propagação do fogo, sobretudo na Amazônia.

A NOAA está pessimista sobre o El Niño em 2026.

Ainda de acordo com o MapBiomas, só a Amazônia concentrou 17,9 milhões de hectares queimados, ou 58% de toda a área atingida no país. O número desmonta qualquer tentação de tratar o fenômeno como abstração. O El Niño não fica preso a mapas e boletins. Ele altera a chuva, eleva temperaturas, derruba safras e ajuda a abrir caminho para incêndios de grande escala.

O clima agrava. A ação humana destrói

Mas seria erro grosseiro jogar toda a culpa no clima. O tempo extremo agrava a crise. Não a cria sozinho. O fogo não brota por geração espontânea. A ação humana acende o fósforo. Desmatamento, queimadas criminosas, ocupação desordenada e falta de prevenção transformam risco em desastre. É bom que a fiscalização do Ibama se prepare.

As diferenças entre os fenômenos. Ilustração, www.world.infonasional.com.

Também convém evitar simplificações. O Inmet mostrou que o Nordeste não repetiu de forma automática o padrão clássico do El Niño no verão de 2023/2024. O Atlântico Tropical mais quente interferiu na Zona de Convergência Intertropical e favoreceu chuva acima da média em partes da região.

O Brasil precisa se preparar

A lição do episódio recente é inequívoca. O Brasil já viu o que acontece quando o El Niño ganha força. Mais calor e  seca em áreas vulneráveis. Mais fogo no Centro-Oeste e no Norte. E, no Sul, mais chuva, mais cheias e mais destruição. O desastre do Rio Grande do Sul, em 2024, deixou isso escancarado. Como o Mar Sem Fim apontou à época, a tragédia não nasceu só da força da água. Ela expôs décadas de desleixo, ausência de prevenção e falta de preparo do poder público diante de eventos extremos que a ciência já anunciava havia anos.

Pior: mesmo depois da devastação, o governo Eduardo Leite decidiu afrouxar diretrizes ambientais no Litoral Norte gaúcho. Técnicos da  Fepam consideraram o texto final menos protetivo que a proposta original. Em trechos sensíveis, o governo trocou linguagem de freio por fórmulas mais maleáveis, justamente numa faixa costeira frágil, pressionada pela urbanização, pelo mercado imobiliário e pelos extremos climáticos. Depois da tragédia de 2024, o mínimo seria mais cautela, mais rigor e mais respeito aos limites naturais. O governo fez o contrário.

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Se o El Niño realmente voltar em 2026, como indicam as projeções, o Brasil não poderá alegar ignorância. Já conhece os sinais. Já viu os efeitos e pagou uma salgada conta. O que falta não é informação. É juízo. É um governo capaz de prevenir em vez de remediar, de respeitar a ciência em vez de afrouxar regras, de proteger ecossistemas em vez de abrir espaço para mais destruição. O fenômeno pode até nascer no Pacífico. Mas o tamanho da tragédia, aqui, dependerá mais uma vez das escolhas feitas em terra.

Imagem de abertura: Ilhas Galápagos, de Pedro Szekely (CC BY-SA 2.0).

Assista ao vídeo para saber mais sobre as consequências no Brasil 

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