Atlântico mais quente ameaça o litoral e a safra de ostras
Atlântico mais quente é parte de um problema mundial. Em março, os oceanos do planeta voltaram a ficar perto do recorde de calor. Para o Brasil, isso deveria soar como alarme, sobretudo no litoral. Mar mais quente gera mais vapor na atmosfera, reforça chuvas extremas e também ajuda a elevar o nível do mar. Recentemente, o Mar Sem Fim já havia alertado para a grande chance de volta do El Niño em 2026 salientando a urgência dos municípios do litoral se prepararem para o distúrbio. Entre 2023 e 2024, o mesmo fenômeno contribuiu a catástrofe climática no Rio Grande do Sul, com enchentes, mortes e milhares de desabrigados.

O mar esquenta, sobe e ameaça a costa
Quando o mar aquece, o problema não se resume ao aumento da umidade e ao reforço das chuvas extremas. O oceano também sobe. Como já explicamos, três são os fatores que respondem pela elevação do nível do mar: a expansão térmica da água, o derretimento de geleiras de montanha e a perda de massa das grandes camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica.
Isso significa que o aquecimento dos oceanos pressiona a costa por dois lados. Por cima, porque água mais quente gera mais vapor e pode alimentar chuvas mais intensas. Por baixo, porque a elevação do nível do mar favorece invasões, acelera a erosão e amplia o alcance de ressacas e alagamentos.
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Em Santa Catarina, o calor do mar já dizimou a produção de ostras
Santa Catarina responde por cerca de 90% da produção nacional de ostras. Por isso, o que aconteceu ali não pode ser tratado como contratempo local. No último verão, em áreas de cultivo da Grande Florianópolis, a temperatura da água, que costumava girar em torno de 28 graus, chegou a 34 graus!
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Para a ostra japonesa, espécie de clima temperado cultivada em larga escala no Estado, o calor excessivo cobrou um preço devastador. Houve uma mortalidade sem precedentes. Segundo produtores, as perdas chegaram a 80% e 90% da safra.
Em outras palavras, o mesmo mar mais quente que carrega a atmosfera de umidade e aumenta o risco de eventos extremos no litoral já começa também a destruir produção, renda e alimento. O problema, portanto, não está apenas no céu, nas ressacas ou na erosão das praias. Ele já chegou aos cultivos marinhos e atingiu em cheio o principal polo da maricultura brasileira.
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O caso de Santa Catarina interessa ao País inteiro. Primeiro, porque o Estado concentra a maior parte da produção brasileira de ostras. Segundo, porque deixa claro que o aquecimento do mar não é mais hipótese de laboratório nem assunto para o futuro distante. Ele já desorganiza atividades econômicas, compromete renda e afeta a oferta de alimento. E há mais. O mesmo Estado já convive há anos com praias atacadas pela erosão costeira, outro sinal de uma borda continental cada vez mais pressionada. Santa Catarina, portanto, ajuda a mostrar com clareza crescente o que pode acontecer no restante do litoral brasileiro.
Mas o alerta não para na maricultura. O mesmo oceano mais quente que matou ostras no Sul aumenta a pressão sobre toda a costa brasileira. Mais vapor na atmosfera ajuda a reforçar chuvas extremas. Ao mesmo tempo, a elevação do nível do mar amplia o risco de erosão, ressacas e alagamentos. Para um litoral historicamente mal ocupado, a combinação é explosiva.
Depois de três anos recordes, o calor não dá trégua
Depois de três anos entre os mais quentes já registrados, a possível volta do El Niño no segundo semestre deve agravar um quadro já preocupante. No mar, isso significa queda na produtividade, a cadeia alimentar sofre e a pesca artesanal, responsável por cerca de 60% do pescado consumido no Brasil, tende a ser duramente atingida. Como esses pescadores já sobrevivem em condições precárias, o impacto será também social. Por isso, o Brasil deveria se preparar melhor. Mas não é o que se vê. Infelizmente, o litoral segue ao deus-dará, ao sabor dos especuladores do momento.
Assista ao vídeo e saiba mais sobre o risco do El Niño neste ano