Grupo pede apoio para salvar arquivo caiçara de Ilhabela
Apesar do avanço do turismo e das casas de veraneio, a ponto de descaracterizar a paisagem, Ilhabela segue como reduto caiçara. Hoje, porém, os sinais quase desapareceram. O superadensamento e a ocupação desordenada tomaram encostas e costões, estes, muitas vezes cobertos por concreto. O cenário bucólico cedeu espaço ao distópico. Os costumes tradicionais ficaram na memória. Pouca gente lembra que, por séculos, os caiçaras dominaram a ilha com suas canoas de voga, pesca artesanal e roça de subsistência. Eles cultivaram mutirões, festas, tradições e uma rica gastronomia. O poder público ignora esse legado. As posses seguem ameaçadas no Bonete, Jabaquara, Castelhanos, e outros redutos. A cultura some aos olhos dos turistas. Ainda assim, há resistência. Um grupo de pesquisadores pede apoio para restaurar e digitalizar um importante arquivo caiçara de Ilhabela.

O acervo de Iracema França, a Dona Dedé
Iracema França, a dona Dedé, filha de caiçaras, passou sua infância em Ilhabela onde se encantou com os costumes nativos. Foi a primeira secretária de cultura do município, e responsável pela primeira biblioteca da ilha, a Biblioteca Renato Lopes Correia, estabelecida na vila, e era uma folclorista nata.
Ela ocupou, com vigor e sensibilidade, um campo de pesquisa dominado por homens. Na época, estudiosos do folclore defendiam distância entre pesquisador e objeto. Dona Dedé fez o oposto em Ilhabela. Ela rompeu o modelo. Enquanto outros observavam de longe, ela participava. Organizou eventos, buscou recursos e viveu cada manifestação cultural.
Arquivo descoberto em 2009
Dona Dedé deixou um rico arquivo que ficou sob os cuidados da família após a sua morte, em 2009. Entre o material há fotos, áudios, vídeos, cartas, anotações, reportagens, e até áudios de entrevistas. Tão importante como as canoas, ou a pesca artesanal, a música também faz parte do cotidiano caiçara. E era ensinada aos pequenos como mostra a imagem de Dona Dedé.
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É um vasto e diverso acervo que está em fase de organização neste momento. Maristela e Juliana se concentram na terceira parte – e final da catalogação, digitalização e divulgação do acervo através de um site, para mostrar o trabalho da maior folclorista que o litoral norte paulista já teve. Trabalho precioso. A dupla ganhou um edital que trouxe recursos para iniciar o trabalho, mas insuficiente para terminá-lo.
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Além do site, já aberto, o Baú da Dedé, que receberá todo o material, haverá um documentário e, posteriormente, um livro. Atualmente, e em razão do despreparo da prefeitura de Ilhabela, o material recolhido está na Casa do Patrimônio Histórico de São Sebastião, em espaço climatizado, bem protegido e com equipe técnica capacitada.
Poder público de Ilhabela tem vergonha da tradição caiçara
Parece absurdo. E é. O atual Antônio Colucci (PL), em seu quarto mandato, demonstra desprezo pela história de Ilhabela e o papel dos caiçaras. O sobrenome igual ao de uma pesquisadora não passa de coincidência.
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Em um episódio simbólico, retirou da praça central o casco da canoa de voga Vencedora. A centenária canoa é uma joia naval que encantava turistas e remetia à história da ilha. No lugar, mandou erguer um chafariz típico de cidades do interior. Por isso, o trabalho de Juliana e Maristela ganha ainda mais importância.
Faltam recursos para encerrar o trabalho do arquivo caiçara de Ilhabela
O Mar Sem Fim conversou com Maristela Colucci, autora de exposições fotográficas e de livros como Os Meninos da Congada (Grão Editora) e Ilhabela (Metalivros).
Encantada com a história de Ilhabela, Maristela se entusiasma com a descoberta de um acervo tão rico, mas se preocupa com a conclusão do trabalho. Por isso, ela e Juliana estão fazendo um chamado para contribuições financeiras ao projeto. Pessoas e empresas já podem contribuir para viabilizar a divulgação do acervo.
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