Florestas na Europa, saiba quando começou a destruição

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Florestas na Europa, saiba quando começou a destruição

O caso é antigo mas voltou à tona devido aos discursos oficiais do Brasil em sua vã tentativa de mudar o foco internacional  da Amazônia. Já explicamos inúmeras vezes a importância da Amazônia para um mundo assustado por séculos de arrogância até que uma pandemia o  colocou de joelhos. A partir desta praga mortal, a percepção que atingimos o ponto de inflexão é óbvia. Ou mudamos nossa forma de agir, ou mudamos. Não há meio termo, muito menos culpar quem hoje nos acusa. Florestas na Europa, saiba quando começou a destruição.

imagem de floresta
Imagem, https://www.shutterstock.com/.

Florestas na Europa, saiba quando começou a destruição

Quem nos ajuda nesta tarefa é o belo livro História das Florestas, de John Perlin, de 1989, e publicado no Brasil em 1992. Já no nome da obra há a explicação que os generais de Brasília insistem em não considerar ao ‘acusarem europeus de ter destruído suas florestas’. O  subtítulo: “A importância da madeira no desenvolvimento da civilização.”

Por séculos seguidos, a madeira representou o que no século 19 representava o óleo dos mamíferos marinhos. Neste curto período da história, primeiro quase acabaram com a população mundial de focas e elefantes marinhos.

Depois, quando já estavam escassos de tão dizimados e as baleias circulavam livres pelos mares, passaram a mirar seus arpões nos cetáceos. E quase conseguiram destruí-los de vez (saiba sobre a caça aos mamíferos marinhos e seu ‘santuário’, a ilha Deception). Finalmente, em meados do século 19 um ‘avanço da tecnologia’ salvou o que restava dos leviatãs dos oceanos: ‘o petróleo’.

Mas, enquanto prosseguia a implacável caçada aos mamíferos marinhos das regiões polares, no terceiro mundo iniciava-se o ciclo que os europeus haviam encerrado antes do ano 1000 da era cristã: a devastação das florestas nativas.

Está mais que na hora de termos outros ‘avanços na tecnologia’, ou não?

John Perlin, conheça

Norte-americano, nascido na Califórnia, é um autor premiado. Seu livro História das Florestas foi escolhido pela Harvard University Press  como um de seus “One-Hundred Great Books” publicados pela imprensa, bem como um “Classic in Science and World History”, enquanto a  Geographic Society e o Sierra Club escolheram o livro como sua “Publicação do ano”. É deste clássico que pinçamos as explicações que seguem.

‘A madeira, que nos impulsionou da cultura da pedra e do osso para a época presente’

A história mundial é importante para podermos nos situar no presente, pavimentar o futuro, e evitar os erros do passado. Infelizmente, não é assim que o poder público  vê as coisas. Mas, por um momento, vamos nos esquecer deste presente lamentável e investigar nosso passado.

‘A madeira como principal combustível e material de construção’

“Ao longo das eras as árvores forneceram material para fazer fogo, cujo calor permitiu que a nossa espécie readaptasse o planeta para seu uso. Com o calor proveniente, climas relativamente frios tornaram-se habitáveis; cereais não comestíveis foram transformados em fonte de alimentos; o barro foi convertido em cerâmica, servindo para recipientes úteis para armazenamento de alimentos; as pessoas puderam extrair metais das rochas, revolucionando instrumentos usados na agricultura, embarcações e armamentos.”

O transporte e a madeira: da idade do Bronze até o século 19

“O transporte teria sido impossível sem a madeira. Até o século 19 todos os navios, desde o navio costeiro da Idade do Bronze (3.000 a.C até 1.200 a.C) até a fragata, foram construídos com madeira de lei. Todas as carroças, carruagens e carretas foram também feitas de madeira.”

afresco mostra navio da idade do Bronze
Afresco mostra navio da Idade do Bronze. Imagem, https://www.redbubble.com/.

“A madeira foi a base sobre a qual as sociedades antigas (como a Europa, acrescentamos) foram construídas.”

Mesopotâmia e suas florestas

Perlin investigou documentos para observar que “o primeiro relato escrito sobre a procura e subsequente desmatamento se originou da região onde a civilização ocidental surgiu pela primeira vez, ou seja no Crescente Fértil.”

mapa da Mesopotâmia
Imagem, https://br.pinterest.com/.

Uma cidade 4.770 anos atrás

Uruk, há cerca de 4.700 anos atrás: era ‘uma cidade-reino no sul da Mesopotâmia. O regente de Uruk nesta época, Gilgamesh, desejava fazer para si ‘um nome que perdurasse’ através da construção de sua cidade.”

Era preciso madeira

“…antes da invasão das civilizações uma floresta que contínua floresceu nas colinas e montanhas ao redor do Crescente Fértil…Os habitantes de Uruk estremeceram de medo quando Gilgamesh lhes anunciou seu intuito de entrar nela e derrubar seus cedros. Antes, nenhuma pessoa civilizada tinha se aventurado a penetrar aquelas matas.”

mural representando Gilgamesh
Mural representando Gilgamesh. Imagem,https://canyoustandthetruth.com/.

O início do processo de erosão

Sem a floresta começou o processo de erosão. “Sais minerais em quantidades anormalmente grandes eram levados rio abaixo e se acumulavam nas terras de cultivo irrigadas da Mesopotâmia meridional.”

Depois, salinização

“A crescente salinização dos solos aluviais da Suméria coincidiu com o início do domínio da Mesopotâmia sobre a região arborizada setentrional e sua exploração.”

John Perlin explica que o problema se mostrou irreversível à medida que o tempo passou, causando declínio nas safras.”Os registros da época mostram a vagarosa desintegração da agricultura sumeriana.”

Por volta de 2.000 a.C. o centro de poder se desloca

“Por volta de 2.000 a.C., quando as safras de cevada estavam em franco declínio, o último império sumeriano tinha entrado em colapso. Trezentos anos depois, enquanto a produção se reduzia ainda mais, o centro de poder se deslocou em direção ao norte, para a Babilônia, que não tinha sido afetada pela salinização.”

desenho dos jardins suspensos da Babilônia
Os Jardins Suspensos da Babilônia. Imagem,https://www.dailymotion.com/.

O declínio da civilização Suméria

“Inadvertidamente, os planos de construção de poderosos reis, a começar por Gilgamesh, acarretaram a destruição da civilização que se empenharam tanto em construir.”

desenho da civilização sumeriana

Alguma coincidência com o que ocorre hoje?

Depois do Crescente Fértil, vamos finalmente conhecer o processo de desmatamento na Europa. E ele começou lá atrás, no berço da civilização ocidental.

Florestas na Europa: Grécia, o berço da civilização ocidental

“Quando a Grécia miceniana (a última fase da Idade do Bronze na Grécia Antiga) floresceu pela primeira vez, as florestas cobriam grande porções de seu território.”

Perlin explica que “possivelmente, umas das mercadorias mais importantes neste período era a madeira.” Mas esta civilização que nos é cara não agiu diferente da dos sumérios.

sítio arqueológico em Micenas
Sítio arqueológico em Micenas. Imagem,https://www.timetravelturtle.com/.

“Estudos de amostras de pólen, e de perfis de solos e antigos documentos registram a destruição sofrida pelas florestas do Peloponeso causado pelo crescimento econômico e populacional sem precedentes do último período da Idade do Bronze.”

A floresta ao redor de Pilos

“Por esta época, a floresta litorânea de pinheiros, que se localizava ao redor do centro populacional de Pilos, tinha sido completamente dizimada.”

A reação da natureza mais uma vez

E novamente vieram as catástrofes como a erosão. “Os desastres naturais parecem ter-se tornado mais comuns no Peloponeso durante o último período da Idade do Bronze como resultado do desmatamento.”

Deslocamento do centro de poder

Como consequência, houve novo deslocamento do centro do poder, desta vez para a região de Tróia cuja posição geográfica “dava a ela o completo controle entre os mares Egeu e Negro, onde os suprimentos de cereais e madeira de lei, que tanto precisavam poderiam ser obtidos.”

A Ilíada e a derrubada de carvalhos

“As terras ao redor do Monte Ida possuíam tanta madeira nos tempos homéricos que na Ilíada se lê a respeito de lenhadores derrubando ‘árvores de carvalho frondosas, que tombavam com grande estrondo.”

O declínio das condições materiais

“O declínio das condições materiais levou os antigos micenianos restantes a passar dias recolhendo madeira e comida para sua sobrevivência, forçando uma reversão a uma economia primitiva de subsistência.”

A destruição das florestas, a ira de Zeus, e a Guerra de Tróia

“Zeus percebeu a extensão da pilhagem ecológica, segundo narra a lenda, e teve pena das condições debilitadas da terra. Seguindo a voz de ‘seu sábio coração’, o grande deus decidiu que o único modo de a terra se recuperar seria livrá-la da ação dos humanos, os agentes da violência…Zeus deu início à guerra de Tróia, para que ‘o peso da morte esvaziasse o mundo’ e a terra pudesse se recuperar.”

Imagem de cavala de Tróia
A cada guerra mais madeira ía embora. Imagem, https://pt.quizur.com/.

Alguma similaridade com a arrogância atual e a pandemia da covid-19?

A Grécia Arcaica, Clássica e Helenística

Depois de considerações iniciais sobre o período, diz nosso autor: “A atmosfera do sertão na Ásia Menor do tempo de Homero está presente em imagens utilizadas tanto na Ilíada quanto na Odisseia. O som da madeira tombando pontua a tranquilidade dos vales entre as montanhas onde antes se ouviram apenas as cigarras.”

Os ‘primatas’ estavam agindo de novo…”as toras de madeira de lei transportadas por caminhos montanhosos davam ao povo material suficiente para a construção de barcos para a pesca – o meio primitivo de conseguir alimentos – e para o comércio.”

Ásia Menor Grega depois da Era Homérica, 700 a.C. – 200 d.C.

Mais uma vez, explica Perlin, a população cresceu a ponto de que as florestas costeiras se revelaram inadequadas para as necessidades dos gregos Anatolianos…

Houve novas migrações para o interior, “os descendentes dos primeiros colonos gregos se estabeleceram ao longo das bacias dos três maiores rios do sudoeste da Anatólia – o Meandro, o Caicos, e o Caister. Depois de cortarem as árvores, eles transformam grande parte dessas três bacias em terras de cultivo de trigo.”

E as catástrofes voltaram a ocorrer. “Uma vez que a cobertura florestal tinha sido substituída por campos de trigo, a terra farelenta ao longo destes rios erodiu facilmente.”

Século V a.C.

“No século V a,C., o que é hoje o baixo vale do rio Meandro, era mar aberto. Na época, o mar alcançava o porto de Mios, que hoje fica a 24 quilômetros de distância da costa. Nessa época a enseada de Mios comportava 200 navios de guerra (imagine a quantidade de árvores para tanto), mas o sedimento depositado pelo rio Meandro transformou a enseada de Mios em terra pantanosa. No fim do século I a.C., só se chegava a Mios com botes de remo.”

Vitória Ateniense sobre a Pérsia, 480 a.C.

“A abundância de suas árvores provavelmente salvou a Grécia e, consequentemente, toda a Europa do domínio persa. É bem provável que a madeira local tenha capacitado os mestres de estaleiro a construir a frota ateniense que derrotou o monarca persa Xerxes e sua marinha em Salamina.”

gravura da batalha de Salamina
As frotas de ambos os lados consumiam florestas. Ilustração, https://greekcitytimes.com/.

A idade do Ouro de Atenas

“Os gregos foram vitoriosos e o papel preeminente que a frota ateniense tinha desempenhado na derrota dos persas elevou Atenas à liderança do mundo grego.”

Madeira para reconstrução de Atenas

Atenas se tronou o centro de poder. Mas a cidade estava destruída pela guerra e, mais uma vez, muita madeira foi necessária para a sua reconstrução.

Reerguer Atenas não foi a única causa do uso excessivo de madeira. Segundo o autor, os navios da época não duravam mais que 25 anos: “os velhos navios necessitavam de reparos e precisavam ser substituídos…”

E mais florestas tombaram nos processos…

Florestas na Europa e o Partenon

“Esse programa de retomada do desenvolvimento culminou com a construção do Partenon, planejado para ser o maior e mais impressionante templo da época.”

Imagem do Paternon, Grécia
Paternon, Grécia. Imagem, https://terrasantaviagens.com.br/.

“Embora a maior parte do Partenon fosse construída de mármore, e não em madeira, os pedreiros imitaram o que teria sido feito por carpinteiros. Essa cópia rematada dos templos de madeira indica que a diminuição das reservas disponíveis (de madeira) obrigou os arquitetos a fazerem uso da pedra.”

Atenas e Esparta

“Trinta anos depois, as duas superpotências da Grécia, Atenas e Esparta, estavam engajadas numa guerra fria que logo se expandiria até transformar-se num conflito armado aberto.”

Prelúdio para Guerra do Peloponeso

“Atenas era a maior potência marítima da Grécia enquanto Esparta era a potência terrestre dominante no final do século V a.C. Nenhuma das duas podia aceitar a divisão da hegemonia no mundo helênico. Esta rivalidade estourou numa guerra…”

gravura da Guerra do Peloponeso
Esta gravura em cobre da ilustração de Matthaus Merian retrata a derrota naval ateniense perto de Corinto sobre a frota coríntia e espartana por volta de 430 a.C.. Ilustração, National Geographic.

“Neste conflito fratricida que ficou conhecido como Guerra do Peloponeso foram destruídas mais florestas do que em qualquer outra época.”

A terra sem árvores respondeu…

A terra sem árvores respondeu do mesmo modo que a da Mesopotâmia. “Torrentes fluíam para as regiões mais montanhosas e um grande volume de água ia se acumulando nas áreas mais baixas, formando pequenos lagos rasos e estagnados. Muitas das terras da Ática tornaram-se pântanos cuja água apodreceu no verão seguinte.”

“As doenças se propagaram neste ambiente insalubre…fosse a malária, fosse o tifo…o contágio se espalhou até chegar a Atenas que na época estava cheia de refugiados.”

“Deste modo, a invasão espartana de Ática acarretou uma catástrofe dupla para os atenienses, que morriam dentro das casas, e viam suas terras sendo devastadas.”

Florestas da Europa dizimadas na guerra

Perlin conta que as florestas foram dizimadas na guerra, e conta um episódio quando uma força ateniense na Etólia foi derrotada. “Os soldados bateram em retirada, fugindo para a floresta. Os etolianos esperaram que o último ateniense se embrenhasse na mata e então atearam fogo.”

E mais: “Uma quantidade imensa de madeira era gasta nos cercos. Os atenienses derrubavam árvores frutíferas e florestais para construir estacas em volta de Megara a fim de bloquear a cidade. Os espartanos fizeram a mesma coisa no norte de Ática, cortando árvores para paliçadas que circulavam a cidade de Plateia…”

A Guerra se prolonga

“As batalhas se espalharam por várias frentes sem que houvesse uma vitória decisiva. A perda de Anfipólis preocupou seriamente os atenienses. Eles agora não podiam mais contar com uma importante fonte de fornecimento de madeira para a construção naval.”

Paz de Nícias, 421 a.C.

Não durou muito. Cinco anos depois começaram as desavenças outra vez. “Alcebíades, um impetuoso e jovem estadista ateniense, acendeu a centelha da desconfiança…”

“Os planos de Alcebíades eram bem claros. Atenas enviou uma frota inteira para transformar a Sicília numa colônia da cidade.”

As florestas da Itália tornam-se o objetivo

Mas, o que pretendiam os atenienses? “O objetivo da conquista era o controle das imensas regiões florestais da Itália e da Sicília. Como a Itália tinha madeira em abundância, Alcebíades recordou mais tarde, os atenienses estavam aptos a construir com essa madeira uma enorme esquadra para atacar e subjugar os peloponésios.”

O petróleo do Kuwait e a Guerra do Golfo

É preciso recordar que durante estes séculos de guerra, a madeira ainda era utilizada para atender quase todas as necessidades dos povos de então. Seja para se aquecerem nos períodos de inverno, seja para fazer sua comida, utensílios, mineração, para se deslocarem, enfim, tudo dependia dela.

Por isso, o desvio geográfico da guerra, então concentrada na Europa Oriental, Grécia, muda-se para a Europa Ocidental, a Itália. E isso nos faz lembrar o que ocorreu na primeira Guerra do Golfo, quando o Iraque invadiu o Kuwait pelo mesmo motivo: a necessidade de mais combustível, ou seja, o petróleo.

A derrota de Atenas na Sicília

Mas como tudo que é ruim, pode ainda piorar, a frota ateniense levou uma tunda dos sicilianos com ajuda da frota de Siracusa. Atenas então buscou ajuda da Macedônia que concordou em ceder madeira para a construção de navios.

“A nova frota feita com madeira de lei da Macedônia destruiu toda a frota espartana.” Mas, assim como fez Atenas, buscando aliados com fartura do bem, o mesmo fizeram os espartanos, com ajuda de um aliado persa Ásia Menor, Pharnabazus. “Seis anos mais tarde, a marinha espartana capturou toda a frota ateniense ancorada.”

A situação ecológica de Atenas depois da derrota, 404 a.C.

O resultado dos maus tratos não se fez esperar. “O desflorestamento durante os anos de expansão e guerra tinha deixado as montanhas próximas à cidade sem nada, a não ser comida para abelhas…Quando chovia, a água, em vez de penetrar no chão, escorria pela terra desértica até o mar, o que causava um prejuízo considerável ao solo pobre ainda disponível para fazendeiros atenienses.”

Gravura de Atenas em 440 a.C
Atenas foi destruída e teve que se reconstruída. Mais madeira…Ilustração, “O Pireu, o Porto de Atenas (Restauração)” – Morey, 1903.

Florestas na Europa: nasce uma nova consciência ecológica

“Aristóteles considerava a facilidade de acesso à madeira para construção como um dos pré-requisitos ao  Estado ideal. Platão também conferia às florestas um papel importante em sua utopia.”

Novas técnicas de sobrevivência

“Novos métodos foram desenvolvidos para permitir a sobrevivência no ambiente menos-que-perfeito da Grécia no século IV a.C. Xenofonte, aluno de Sócrates, escreveu um tratado para ajudar fazendeiros a obter sucesso no solo estéril devido ao desmatamento e erosão.”

“Aristóteles recomendou que o Estado empregasse magistrados para cuidar das florestas. Muitas cidades-estados seguiram este conselho e adotaram leis para proteger as florestas e regular o uso de madeira.”

Macedônia e suas florestas, na nova potência da Grécia

Não é preciso dizer que os espartanos venceram a Guerra do Peloponeso. A potência seguinte, na escala da história, foi justamente a Macedônia, ainda rica em madeira.

“As florestas da Macedônia representavam uma das duas fontes mais importantes de riqueza e da força militar do Estado, e eles a utilizaram em seu próprio benefício, fazendo com que a Macedônia se tornasse a principal potência da Grécia e de grande parte do mundo conhecido.”

E, depois da Macedônia, Roma foi a potência. E John Perlin explica como a nova força do mundo antigo destruiu não só as suas, como as florestas dos ‘selvagens’ que foram por ela submetidos.

Império Romano dependente da madeira

De acordo com a pesquisa de Perlin, “a ascensão e o declínio dos suprimentos de combustível (leia-se madeira) em Roma correram paralelamente ao das fortunas do próprio Império.”

A lição da história, e uma linha do tempo do crescimento da população mundial

A história é fértil em demonstrar o que aconteceu com civilizações antigas que, sem as informações que temos hoje, abusaram do meio ambiente. Esta foi a causa principal de seu sumiço. E a população mundial era uma ínfima fração do que é hoje.

De acordo com relatório da ONU, “há 2.000 anos, a população mundial era de 300 milhões de pessoas. Em 1800 alcançou um bilhão. A marca de dois bilhões foi batida em 1927. Os três bilhões em 1959 e quatro bilhões em 1974. A população do planeta chegou a cinco bilhões em 1987, seis bilhões em 1999, e sete bilhões em 2011.”

“Para 2050 a projeção é de uma população de 9,3 bilhões de pessoas. Espera-se mais de 10 bilhões em 2100.”

O Crescente Fértil, a Grécia, Roma, e a Europa submetida; e o Brasil atual

A obra de John Perlin é uma lição de história que parece não ter sido assimilada até hoje, ao menos pelos países do terceiro mundo. Os europeus, como se sabe, aprenderam; hoje cerca de 40% da Europa é reflorestada.

Os generais de Brasília em seu estupor acusam os europeus por algo que começou séculos antes de Cristo, como se tivesse acontecido ontem por ordem de Macron e companhia.

Esquecem que a ordem para a destruição das florestas no Brasil partiu do capitão antes ainda de ser presidente. Ninguém ousa lhe tirar este mérito. Bolsonaro prometeu em campanha acabar com o ministério do Meio Ambiente. E cumpre a promessa com denodo.

Em vez de assumir a verdade registrada em vídeo e texto por toda a mídia desde 2018, os generais  negam o que acontece hoje no País, à guisa de protegerem o segmento produtivo que mais depende das florestas para continuar a produzir alimentos, e que hoje é o carro-chefe da economia.

A sagacidade presidencial

A atitude, digna da inteligência de um paralelepípedo, provoca rachas no seio daqueles que pretendem proteger, ao mesmo tempo em que agride seus maiores consumidores. Só pode ser cloroquina.

A pandemia não é só do novo coronavírus. A da burrice contaminou o alto escalão de Brasília.

O grande pepino é que não há nenhum ‘aluno de Sócrates capaz de escrever atualmente tratados para ajudar fazendeiros a ter sucesso no solo estéril devido ao desmatamento e erosão’.

É mais que hora do debate mudar; de alvos paranóicos, para a realidade dos desmatadores ilegais acobertados por uma administração irresponsável que, aos poucos, destrói o aparato ambiental do Estado brasileiro, e leva de roldão nossos mais importantes biomas.

Imagem e abertura: https://www.shutterstock.com/

Fonte: A História Das Florestas – A importância da madeira no desenvolvimento da civilização. Editora, Imago, 1992.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo e compilação. Poderia se estender pelo grande interesse que os próprios Europeus tinham pela vegetação nativa no Brasil (pau -brasil) e oak norte americano para fabricação de navios; contudo- a madeira era a essência em matéria prima a este fins, hoje, é a mais utilizada em produções especif. no mundo todo para produção de celulose e sempre através de reflorestamento; o Brasil sequer precisa de novas terras para ampliar sua fronteiras agrícolas e produção; o que precisa é de organização e dar cunho social à terra e sua preservação; agora – o grande problema é a ignorância governamental que se reveste de inteligente; e pior, consegue seguidores

  2. Assino o Estadão e nunca deixo de ler “Mar sem Fim” … mas depois deste artigo, vou rever minha postura ….
    Dizer que 40% da Europa foi reflorestada é uma GROSSA MENTIRA !!! Se ainda fosse considerada somente a região norte, ainda era possível passar … a Europa Mediterrânea é um deserto, basta uma “viagem” pelo Google Earth para se verificar isso. Percorrendo de carro a Itália, França, Portugal não se vê mato …. a Espanha então é pura desolação …. a Grécia é só erosão. Não existe mata ciliar, os cultivos vão até à beira d’água … assim também são os países do Leste Europeu. Por favor, não enganem a opinião pública, deixem desse “complexo de vira-lata”…

    • Caro Orany: ok, vc não acredita no Mar Sem Fim. Mas, e na BBC, acredita? Trata-se um ícone do jornalismo mundial. Vejamos o que disse: “as florestas ocupam hoje 1,8 milhão de km² da Europa — ou 43% de todo o continente, o que faz dele uma das regiões do mundo mais ricas em florestas, de acordo com a EEA.”
      EEA é a Agência Ambiental Europeia. Veja neste link, https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50162105.
      Ou pesquise por sua própria conta e verá.

  3. Bolsolazistas atacando, desqualificando, até xingando, o autor de excelente texto (para quem possui, óbvio, ao menos dois neurônios operacionais) em 5, 4, 3, 2, 1… Segura a bronca desta malta, João.

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