Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo

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Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo: atualizado em junho de 2017

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo. Em setembro passado fiz uma viagem para Alcatrazes com objetivo de gerar mais um programa para a série Mar Sem Fim. Tivemos que voltar antes de terminar  em razão da entrada de uma frente fria. Retornamos semana passada. E concluímos o programa. Esta não foi a primeira vez. O primeiro documentário que fiz, em 2005, mostrava Alcatrazes. E já tinha como objetivo lutar por sua transformação em Parque Nacional Marinho. Hoje, como se sabe, Alcatrazes é uma REVIS.

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo, uma história antiga

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo, imagem de arquipelago alcatrazes
Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo

O arquipélago de Alcatrazes é um dos mais bonitos e ricos da costa brasileira. E tem uma sina estranha e sinistra: o fogo. Desde que foi avistado pela primeira vez, em 1531, na quarta viagem que os portugueses fizeram ao Brasil, os incêndios não deixam Alcatrazes em paz.

Esta viagem comandada por Martim Afonso de Souza tornou-se célebre por vários motivos. Um deles é que o Diário de Navegação, escrito pelo irmão do comandante, Pero Lopes de Souza, resistiu ao tempo. Sobreviveu ao terremoto de Lisboa no século XVIII e posterior maremoto seguido por incêndios, que destruíram grande parte dos documentos da época das grandes navegações.

Diário de navegação

Tenho comigo uma cópia que nunca deixo de reler.

Os Diários eram parte da estratégia lusa. Em todas as viagens havia alguém relatando milha a milha tudo que acontecia a bordo.

A frota de Martim Afonso descia a costa brasileira em direção ao Rio da Prata, com paradas em vários locais. No sudeste os escolhidos foram Ilhabela, Alcatrazes e Cananéia.

Depois de deixarem Ilhabela e navegarem para o sul, Pero Lopes conta que a nau capitânia, debaixo de forte cerração, “quase deu o com o gurupés nas pedras” (de Alcatrazes). Em seguida informa que desembarcaram e “mataram tantos rabobifurcados (alcatrazes, a ave) “que carregamos o batel deles”. Por último, para reunir a frota que estava dispersa, Pero Lopes escreve: “tornei a ilha a por lhe fogo”.

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo

fragatas alcatrazes
Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo. Os “raobifurcados” ou Fragatas, que fazem da ilha seu ninhal.

História moderna

A sina do Arquipélago de Alcatrazes foi retomada nos anos 80 do século passado quando a Marinha do Brasil escolheu a ilha como alvo para tiros de canhão. isso provou vários incêndios. Só que desta vez havia quem não gostasse. Um tipo novo de cidadão havia surgido. Os “ambientalistas”. Entre eles Fausto Pires de Campos, da Fundação Florestal de São Paulo que, junto com outros, iniciou uma batalha pelo fim dos ‘exercícios’ e a transformação do arquipélago em Parque Nacional Marinho.

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo, imagem de incêndio em alcatrazes
Consequências do tiros, anos 80.

O início de uma longa disputa

Foi o início de uma longa disputa. Entre um tiro e outro os ambientalistas trabalhavam na transformação da área em Parque Nacional Marinho. Um dos lances importantes aconteceu em 1987 com a criação da Unidade de Conservação federal ESEC Tupinambás que engloba quase todas as ilhas do arquipélago (Ilha do Paredão, a Laje de mesmo nome, a Ilha da Sapata e a do Oratório, o Parcel de Nordeste, e ainda mais duas Lajes: a do Pescador, e a da Gaivota) e mais duas próximas a Ilha Anchieta, em Ubatuba.

Enquanto isto a ilha principal, e mais importante, continuava fora da unidade sendo  bombardeada com frequência.

Adesão à ideia do Parque

O movimento cresceu. Pessoas com prestígio no meio ambiental como Judith Cortesão, a jornalista Priscila Siqueira, o fotógrafo Antonio Carlos D’ Ávila, e outros, se engajaram. Começou a pressão da opinião pública. Matérias na imprensa, editoriais e cartas –abertas foram feitas.

Kelen Leite, analista ambiental do ICMBio, teve papel importante durante todo este processo, especialmente depois de assumir a chefia da ESEC Tupinambás em 2010. Ela conta que o primeiro processo encaminhado ao ICMBio, ainda nos anos 80, teve boa recepção por parte do diretor Raimundo Melo.

São Sebastião e Ilhabela a favor do Parque Nacional Marinho de Alcatrazes

 “A grande dificuldade para a criação de uma nova UC é o setor econômico ou a população afetada” explica Kelen. No caso de Alcatrazes moradores e prefeitos de São Sebastião e Ilhabela se manifestaram a favor da mudança, e até uma carta do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi anexada ao processo. Os únicos a resistir foram os pescadores que por fim concordaram “desde que não se aumentasse a restrição à pesca” (em algumas UCs as áreas contíguas são vetadas à pesca).

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Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo. Fausto Pires de Campos anilhando filhote de Atobá.

Situação atual

Demorou mas deu certo. Faz um ano que a Marinha do Brasil desistiu dos tiros. Todo o setor ambientalista é favorável a criação do Parque Nacional Marinho. As espécies animais e vegetais, especialmente as endêmicas, agradecem. Durante todos este tempo Alcatrazes esteve “fechada ao público”, isto é, aos barcos privados que só podiam alcança-la com autorização da força naval.

Agora que a restrição caiu, o perigo aumentou

O ICMBio passou a ter nova direção, Ricardo Valentim que, ao assumir, promoveu mudanças em cargos de segundo e terceiro escalão.

Kelen Leite foi afastada da chefia da ESEC Tupinambás. Perguntei o motivo. “Não houve justificativa. Recebi um e mail no final de 2013 falando em mudanças de diretrizes e gestão.”

Não sabe como o processo de mudança é visto atualmente.

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo, imagem de alcatrazes-e-revoada-de aves marinhas
Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo. A quantidade de aves é impressionante

Para Kelen é preciso agir rápido: “só na região de São Sebastião há 25 mil embarcações registradas”.

Biodiversidade ameaçada no Arquipélago de Alcatrazes

“É preciso algum tipo de controle. Alcatrazes abriga 150 tipos de peixes sendo que 50 estão sob algum tipo de ameaça”. Mais importante que a quantidade de espécies é o fato que no litoral paulista há apenas duas ilhas “que têm papel importante na reposição dos estoques: a Laje de Santos, e Alcatrazes.”

E não é só. O arquipélago é o maior ninhal de aves marinhas do litoral Sudeste, e ponto de parada de muitas outras.

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Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo. Fragata no ninho.

Além disto a ilha principal abriga diversos tipos endêmicos entre anfíbios, um tipo diferente de jararaca, e espécies da flora, entre elas uma linda orquídea cujo nome me fascinou: Rainha do Abismo, por nascer nos enormes paredões de granito que formam Alcatrazes.

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Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo. Ruínas da antiga casa de faroleiro em Alcatrazes.

Chegou a hora de Alcatrazes ter a paz que merece

Não há contestação, seja entre ambientalistas, seja entre pesquisadores. Chegou a hora de Alcatrazes finalmente ter a paz que merece e, sua beleza selvagem e  grande biodiversidade, franqueada à todos. Não há outro caminho que não passe por sua transformação em Parque Nacional Marinho.

Dilma mostrou mais uma vez sua insensibilidade ao anunciar esta semana a criação de três novas Resex, no Pará no que se espera, seja o seu último ato como Chefe do Executivo.

A esperança renasce com a possível chegada ao poder de Aécio encorpado com os votos de Marina.

Arquipélago de Alcatrazes, litoral Norte de São Paulo, imagem da ilha de alcatrazes
Por sua beleza e biodiversidade Alcatrazes merece ser nosso próximo Parque Nacional Marinho.

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24 COMENTÁRIOS

    • Olá, Maria de Fátima, bem-vinda bordo! Obrigado pela audiência e correio. Se vc é a favor, então faça barulho: ponha suas impressões nas redes digitais, levante este assunto, converse com amigos e familiares. Só conseguiremos a mudança com muita pressão da opinião pública. Há no Congresso fada uma má vontade com relação à criação de movas Unidades de Conservação. Desde a reforma do código Florestal, ano passado, abriu-se um fosso entre Congresso e ambientalistas. Uma separação radical. É preciso saber disto, e lutar com as armas que temos: pressão. Sem ela não há solução. Conto com vc! Abraços e volte sempre.

  1. Sempre que posso pesquiso as fotos do Arquipélago de Alcatrazes, tive a felicidade de assistir o documentário neste domingo 24/01/2015 19:00 na Cultura onde deixo meus abraço a todos responsável em preservar essa linda ilha onde quero poder ir conhecer e mergulhar. Deixo meus parabéns pra esses que cuidam tb do parque arquipélago laje de Santos onde já conheci e fiquei admirado pela quantidade de vidas marinhas no parque assim como laje gostaria muito de conhecer Arquipélago de Alcatrazes e de uma maneira e de outra ajudar cuidar desse paraíso…

    • Edelcio, bem- vindo a bordo! Muito obrigado por seu correio e audiência. Se vc quer mesmo Alcatrazes como Parque Nacional aberto à todos os brasileiros, continue na luta. Coloque o tema nas redes sociais, pesquise zebre o tema no google, converse com amigos e parentes, enfim, filie-se a alguma ONG que batalha pela mesma mudança. Só vamos cxonseguir esta transformação em Parque se TODOS se manifestarem.
      É isto. Abração e volte sempre!

  2. A Marinha deverá manter suspenso o treinamento militar no ARQUIPÉLAGO, bem como ser a responsavel pela preservação, além de organizar a visitação pública e dar todo apoio aos Biólogos,Botanicos para estudos do ecosistema até que o mesmo seja transformado pela Presidente Dilma em Parque Nacional Marinho.

    • Alberto seja muito bem -vindo a bordo do Mar Sem Fim. Quando à Alcatrazes, a Marinha não tem esta responsabilidade. Quem cuida das áreas protegidas é o ICMBio. Pesquise no Google que vc vai entender melhor. Quanto à Marinha, basta ela abrir mão dos tiros como prometeu. O resto é conosco, cidadãos, desde que continuemos a pressionar o poder público exigindo a transformação do arquipélago em Parque Nacional Marinho. Você também pode fazer isto colocando o assunto nas redes sociais, pesquisando pq tem sempre novidades que ‘alimentam’ a polêmica e podem e devem ser discutidos nas redes, com os amigos, família, etc. Existem várias ONGs que participam desta batalha. Porque vc não se filia a uma delas? Aproveite o embalo do programa e mãos à obra!
      Abraços, volte sempre!

    • Oi Sonia, bem- vinda a bordo! Basta vc colocar o nome “Arquipélago dos Alcatrazes” no Google que vc verá uma quantidade enorme de pessoas, instituições (como a USP por exemplo), e dezenas de ONGs que lutam pela transformação. Basta vc escolher uma e se filiar. Sem falar que é muito importante colocar este tema nas redes sócias, hoje um instrumento fundamental para estas questões, para conseguir mais adeptos, etc. Lembre-se que foram as redes que iniciaram as revoluções no Oriente Médio derrubando vários governos. Se eles conseguem, porque nós não fazemos o mesmo? Depende da ação de cada um de nós.
      Maos à obra!
      Abraços e volte sempre!

    • Olá, Peter, obrigado pelo correio. Se vc é favorável peço que “faça barulho”. Coloque nas redes sociais, converse com família e amigos, sem pressão da opinião pública não vamos conseguir. A Dilma está travada. Grande abraço e volte sempre!

  3. Eu não perco nenhum programa. É maravilhoso os lugares que existem no Brasil e fico orgulhosa de ser brasileira. Vocês estão de parabéns pelas reportagens e pela coragem de falar e demonstrar as dificuldades de se cuidar de nosso litoral tão lindo. Gostaria de saber como integro a massa de pessoas que querem a formação de um parque estadual marinho na ilha principal de Alcatrazes? Muito obrigada por fazerem com tanto carinho esse programa.

    • Oi,Mônica, obrigado pela audiência e pelo correio. Minha sugestão: leve este assunto para as redes sociais, pesquise no Google. Coloque lá “Alcatrazes” e vc vai encontrar muitos aliados nesta causa. Desde cidadãos comuns, até ONGs. É só vc entrar em contato com uma delas (ONG) e juntar forças nesta briga. Abraços

  4. Sem dúvidas devemos ter o arquipélago de Alcatrazes, reconhecido como parque nacional, para então poder ser preservado, uma vez que é um local de reprodução de várias espécies de aves, répteis e até animais marinhos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • É isto, José! Mas para conseguirmos não vai ser fácil. O Congresso reluta em aceitar a criação de novas Unidades de Conservação. Precisamos pressionar. Leve o assunto para as redes sociais, coloque sua opinião, chame seus “amigos virtuais” para que participem também, pesquise no Google sobre a coração do Parque Marinho de Alcatrazes. Tem muita gente batalhando por isto. Conto com sua ajuda, abraços

  5. O homem vem sem desligando da Natureza, há mais de 3.000 mil anos pensando que Deus e Naturez
    estão dissociados. Eu sou uma pessoa feliz, porém quando penso nessa destruição ambiebtal. dessa ganancia imobiliaria, e tantas coisa mai fico triste de verdade.

    • É para ficar triste mesmo, Maria de Jesus, uma pena o que estão fazendo. E pior são nossas autoridades que se dobram aos poderosos e nada fazem para corrigir os erros cometidos. Lamentável.
      Abraços e volte sempre!

  6. Olá João Lara, assisti o programa hoje e fiquei apaixonada pela ilha de alcatrazes e pedi ajuda para meus amigos nas redes sociais para compartilharem e ajudarem que se torne uma reserva ambiental. Amo a natureza e acho que devemos conviver com sua biodiversidade, afinal nossa sobrevivência depende dela. Quero te parabenizar pelo trabalho bacana que faz divulgando e trazendo todo este conhecimento. Um abraço!

    • Oi, Marina, bem- vinda bordo! Obrigado pelo comentário e audiência. Você fez o certo: barulho! É preciso engajamento de toda a sociedade, só com muita pressão vamos conseguir “dobrar”o Congresso (atualmente o maior inimigo de novas unidades de conservação) e ajudar a criar este novo Parque Marinho Nacional. Conto com vc e agradeço cdd novo sua ação. Abraços, volte sempre!

  7. Acompanho o Mar Sem Fim desde por mar do Oiapoque ao Chui. Infelizmente não vejo muita sensibilidade de nossos governantes para a proteção de nossas riquezas naturais. Apoio qualquer tentativa de proteção a natureza seja mar,terra,ar,rios. O João Lara Mesquita assim como muitos outros apresentadores da Cultura deveriam fazer parte do Governo quando o assunto é Conservação Ambiental.Agradeço pelo trabalho de esperança de que tudo pode ser mudado antes que seja tarde demais.

    • Olá, Vilma, seja bem- vinda a bordo do mar sem fim! Obrigado pela audiência e comentários. Infelizmente não sobra dinheiro para aplicar no meio ambiente. Roubam tanto, usam tão mal o dinheiro de nossos impostos, que o resultado é este que estamos vendo. Mesmo assim temos que pressionar. Se houver pressão da opinião pública teremos dados nossa contribuição. Grande abraço e volte sempre!

  8. Boa noite, adoro o programa assisto sempre. Educativo, informativo, nos permite saber a realidade do nosso ainda Brasil.Gostaria que vcs deixassem os sites para que a gente pudesse participar mais no que diz respeito ao meio ambiente tão maltratado . Sucesso à toda equipe , parabéns . Shirley.

    • Muito obrigado, Shirley. Quando aos sites, basta pesquisar no Google que vc acha. Em todo o caso vou ver o que posso fazer nos próximos episódios. abraços

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