Algas escuras aceleram derretimento da calota da Groenlândia
De acordo com a NASA, as camadas de gelo armazenam enormes volumes de água doce em terra, mas elas derretem à medida que o ar e os oceanos aquecem. A Antártida perde, em média, cerca de 135 bilhões de toneladas de gelo por ano. A Groenlândia perde ainda mais: cerca de 266 bilhões de toneladas anuais, quase o dobro. Quando o gelo derrete, a água escoa para o oceano e eleva o nível do mar. Entender por que o Ártico perde mais gelo do que a Antártida é simples. A região do Ártico é um oceano cercado por terra – a Antártida é o oposto – é a terra cercada por um oceano gelado. Agora, um novo estudo descobriu que algas escuras estão aumentando sua área na camada de gelo da Groenlândia, o que deve acelerar ainda mais o degelo.

Quanto maiores as superfícies escuras, menor é a refração solar
Já explicamos em matérias anteriores que o Ártico pode ficar sem gelo a partir de 2030. Antes, a previsão apontava para 2050. Essa antecipação ocorre porque o Ártico perde sua camada de gelo de forma contínua. O gelo marinho reflete a radiação solar de volta ao espaço. Quando o gelo diminui, o oceano absorve mais calor. O aquecimento acelera. Esse processo intensifica o derretimento da camada de gelo da Groenlândia. O resultado aparece no mundo todo: o nível do mar sobe.
O novo estudo revela algo semelhante sobre a própria camada de gelo do país. As algas crescem no gelo e na neve sobre a maior ilha do mundo. Elas formam zonas escuras na superfície. Essas áreas absorvem mais radiação solar. O gelo aquece mais rápido. O derretimento se intensifica.
A questão se torna ainda mais grave quando se sabe que, segundo o Artic Council, a camada de gelo da Groenlândia concentra cerca de 90% de todo o gelo terrestre do Ártico — o equivalente a 23 vezes o volume atual de todas as geleiras do planeta. Mesmo a perda de uma pequena fração desse gelo já é relevante, porque hoje a Groenlândia é a principal fonte regional de elevação do nível do mar.
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O New York Times revela que à medida que o aquecimento climático corrói o gelo que cobre a maior parte da maior ilha do mundo, a proliferação de algas está acelerando esse processo, de acordo com dois novos estudos. A Groenlândia está perdendo centenas de bilhões de toneladas de gelo todos os anos e, com isso, elevando o nível do mar.
O vento levanta poeira carregada de fósforo do solo rochoso da Groenlândia e a sopra para o interior. O processo faz crescer a proliferação de algas escuras porque elas se alimentam com o fósforo. Além disso, outros nutrientes presos nas camadas de gelo também são liberados à medida que aumenta o degelo.
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Essas manchas escuras de algas bloqueiam a capacidade do gelo de refletir o calor do sol, acelerando o derretimento. E à medida que a paisagem derrete, mais nutrientes são libertados do solo recém-exposto, num ciclo vicioso que garante que a propagação viscosa continuará a crescer.
As fontes do aumento do nível do mar
O aumento do nível do mar não resulta apenas do degelo no Ártico e na Antártica, como já mostramos.
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Crime organizado controla territórios caiçaras no sul fluminenseOceano supera recorde de calor e amplia riscos globaisDegelo do permafrost contamina os rios do ÁrticoO derretimento das geleiras e glaciares de montanhas também acelera o problema. Esses reservatórios naturais de água doce perdem massa ano após ano e alimentam diretamente os oceanos.
O derradeiro fator é a expansão térmica em razão do oceano absorver mais de 90% do calor retido pelos gases de efeito estufa. Assim, a água aquece e se expande fisicamente. Historicamente, a expansão térmica é responsável por cerca de um terço a metade do aumento do nível do mar.
O que acontece se o gelo derreter na Groenlândia?
Antes de mais nada, saiba que que esta possibilidade já foi sugerida por alguns estudos. A reposta é que o nível do mar poderia subir impressionantes 7 metros, submergindo cidades costeiras em todo o mundo.
O Ártico é uma arena geopolítica crucial e emergente devido ao rápido derretimento do gelo causado pelas alterações climáticas, revelando imensos recursos naturais inexplorados, incluindo cerca de 30% do gás não descoberto do mundo e 13% do seu petróleo, bem como materiais críticos como metais de terras raras, diamantes e urânio.
Com o acelerado aquecimento, surgem novas rotas marítimas como a Rota do Mar do Norte (ao longo da Rússia) e a mítica Passagem do Noroeste (através do Canadá), prometendo tempos de transporte até 40% mais curtos para o comércio global, reduzindo a dependência de pontos de estrangulamento como o Canal do Suez.
Contudo, é bom lembrar que a mineração e a perfuração liberariam outras partículas, como fuligem industrial, que poderiam escurecer ainda mais o gelo e, consequentemente, acelerar o derretimento.
Algas são responsáveis por cerca de 13% do derretimento da Groenlândia
Jenine McCutcheon, professora assistente da Universidade de Waterloo e autora principal de um dos estudos, disse ao New York Times que ‘existem muitos fatores diferentes que contribuem para o derretimento da camada de gelo, e este projeto tentou identificá-los’.
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As algas são responsáveis por cerca de 13% do derretimento no sudoeste da Groenlândia, de acordo com a Dra. McCutcheon. A área é uma das que derrete mais rapidamente e abriga uma zona escura bem documentada.
A pesquisa da Dra. McCutcheon em 2021 na região mostrou que ela era composta por proliferação de algas alimentadas por fósforo presente no pó. Sua nova pesquisa mostra que esse pó provavelmente vem da faixa relativamente estreita de solo exposto ao redor da borda da Groenlândia, soprada para o interior pelo vento.
Portanto, esses fatos se agravam com o tempo. A inação também pesa. Tudo aponta para uma única direção. Ela tem pouco apelo, apesar de óbvia. Precisamos usar menos combustível fóssil, algo que soa como impensável ao menos no curto prazo. Ou seja, quanto mais deixamos de agir, pior fica a situação. Estamos explorando uma espiral para a qual não existe volta.