Trinity, 63º 54’S – Livingston, 62º 38’S – Rei George nas Shetland do Sul

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    Trinity, 63º 54’S – Livingston, 62º 38’S – Rei George nas Shetland do Sul
    Caía neve quando deixamos a ilha Trinity, ainda atordoados pelo Nordeste (nas rajadas chegou aos 60 nós), um dia depois da refrega. Era 15 de janeiro. Uma sexta- feira fria e cinzenta. Nosso destino, a ilha Deception, outro “hit” da Antártica.

    Deixamos Trinity debaixo de neve
    Deixamos Trinity debaixo de neve

    De manhã recebi um e-mail do Ary Rongel alterando um encontro marcado para 18 de janeiro. O comandante Alessandro, contato a bordo do navio da Marinha do Brasil, informava que em razão do terremoto no Haiti, a logística seria alterada. Eles só estarão em Ferraz, nas Shetland do Sul, em 25 de Janeiro.

    O Mar Sem Fim fundeado em Telefon Bay, Deception
    O Mar Sem Fim fundeado em Telefon Bay, Deception

    A Marinha do Brasil apoia o Mar Sem Fim. Quando tivemos a pane no Drake eles monitoraram nossa posição mantendo contato com a Armada chilena e conosco. Agora, na volta, vão nos reabastecer. Temos combustível suficiente para chegar em Ushuaia. Mas não queremos atravessar o Drake muito leves. Quanto mais peso, maior a estabilidade. Faz um ano que pedi este auxílio. Carlos Brancante, amigo e navegador, fez a ponte. Está chegando o momento da operacão.

    Eu!!!
    Eu!!!

    Desde que saímos das Ilhas Argentinas organizamos o roteiro em função deste encontro. Paciência. É muito difícil manter a programação na Antártica, onde imprevistos são corriqueiros. Não terei como mandar outros programas para a Band, antes do fim de janeiro, como combinado. O atraso derrubou o plano. Apesar disto seguimos viagem. No máximo ficaremos mais tempo em Deception.

    O mar sentiu a ventania. As vagas estão altas. Dois metros. Talvez mais. Felizmente o intervalo entre elas é longo. Escrever torna-se um exercício e tanto. Em compensação basta olhar a janela para assistir um desfile de imagens bizarras. Ora uma vaga ameaçando entrar sala adentro, ora um imenso iceberg a poucos metros do costado.

    O que passa pela janela do meu escritório...
    O que passa pela janela do meu escritório…

    A rotina de bordo nunca é igual. Quando estamos fundeados, com tempo bom, acordo cedo e passo o dia explorando os arredores acompanhado do cinegrafista.

    Enquanto isto Pedrão e os marinheiros dão manutenção nos motores e geradores, organizam o convés, cuidam dos equipamentos. Nos encontramos na hora do almoço e jantar. Então surge o editor. Ele passa o dia todo na cabine, trabalhando.

    No fim da tarde, ao voltar para bordo, registro as passagens, descrevo o cenário, as condições de tempo, e descobertas, para lembrar mais tarde, no roteiro dos programas. Então preparo os boletins para BandNews e BandSports. Em seguida retomo os programas, atrasados quase sempre dois ou três dias.

    Antes de dormir seleciono e edito fotos. Depois escrevo para o site.

    Termino o dia pesquisando material arquivado no computador, em livros, ou em pastas repletas de recortes de jornal e revistas, sobre os locais que visitaremos no dia seguinte.

    É raro ir para cama antes de meia- noite.

    Quando o Mar Sem Fim se desloca, e as condições são favoráveis, ponho em dia todos os textos: o roteiro da TV, o site e os boletins. Mas se o o mar está invocado, querendo briga, acompanho no comando a navegação. Ou faço parte dos turnos.

    Quase nunca sobra tempo. Operações banais dão um trabalhão. Antes de ir ao banheiro, por exemplo, é preciso ligar o aquecedor a gás e esquentar o ambiente.

    Banho nem pensar. Água é lastro. Segurança. Costumo usar lenços úmidos, feitos para bebês. Com eles tiro a gordura do corpo, ou limpo o suor dos dias em que andamos na neve.

    Ao acordar distraído, e sair do saco de dormir sem me preparar, provoco dolorosas câimbras nas pernas, pés ou nas coxas. Dentro do saco é relativamente quente. Fora, estupidamente frio. Choque térmico. Já perdi a conta das vezes que aconteceu. A dor é muito forte, aguda. E não é fácil, nem rápido, alongar para aquecer o músculo. Fico gemendo na cabine até achar uma posição que amenize o sofrimento.

    Outro pepino é fazer a barba, ou pentear o cabelo. Uma das mãos deve estar livre para limpar o espelho, que embaça com a respiração. A temperatura tem oscilado entre -2ºC, até +2ºC. Sem contar o fator vento.

    Mas chega de amenidades. Quem se interessa por elas? Deception é o tema.

    A ilha é a cratera de um vulcão. Tem oito milhas de diâmetro. Ela emerge em pleno estreito de Bransfield, porção de mar que separa as Shetland do Sul da Península Antártica.

    Deception: uma cratera que emerge no Estreito de Bransfield
    Deception: uma cratera que emerge no Estreito de Bransfield

    Deception foi descoberta em 1819 por navios foqueiros. Depois de quase extinguirem estes animais chegaram os baleeiros. Em 1906 noruegueses e chilenos trouxerem a primeira fábrica flutuante. Em 1914/15 já havia 13 estações operando.

    O Mar Sem Fim em Deception
    O Mar Sem Fim em Deception

    A matança, nesta ilha, durou até 1931. E só parou porque o preço do óleo caíu em razão de novas tecnologias. A caça da baleia quase acaba com este animal. Algumas espécies diminuíram para cerca de 5% de seus estoques originais.

    Na temporada de 1930-31, a captura da baleia azul, o maior animal do planeta ( 30 metros, e 120 toneladas em média), chegou ao impressionante número de 31 mil animais (fonte: Alan Gurney, Abaixo da Convergência- Expedições à Antártica 1699-1839). Esta população jamais se recuperou. Estimativas recentes sugerem que não existem mais de 1500 baleias azuis em todo o Hemisfério Sul.

    Então, depois de depredar, o homem decidiu estudar para conhecer, preservar…e repovoar. E vieram as estações científicas. Hoje, Espanha e Argentina mantêm bases temporárias em Deception.

    Mais uma base argentina, desta vez em Deception
    Mais uma base argentina, desta vez em Deception

    O vulcão que originou a ilha não está extinto. Apenas adormecido. A última erupção foi em 1991- 92. Espero que o sono seja profundo, e dure mais dois ou três dias, tempo suficiente para encerrarmos nossa visita.

    O colorido é exótico demais
    O colorido é exótico demais

    Hoje, domingo, 17/1, descemos em terra para as primeiras explorações. O tempo está feio, nublado e chuviscando.

    Andamos um pouco pelo perímetro de Telefon Bay, onde ancoramos. Mas o exibido Nordeste não se conteve.

    Começou soprando a 10 nós. Vinte minutos depois, saltou para 30. As nuvens desceram quase ao nível do mar. Acabou a visibilidade e começou a chover. Antes de chegarmos ao barco já estava na casa dos 40 nós.

    Bikini
    Bikini

    Ancorado, o Mar Sem Fim dança de um lado para o outro ao sabor das rajadas. Estamos fechados na sala. Coloquei música para acalmar: Schubert, Impromptu opus 90, nº 4.

    Aquecedores ligados, esperamos o vento amainar.

    Quando o Nordeste finalmente cansou, pudemos descer em terra, nos locais permitidos. Há vários sítios fechados à visitação, não só aqui, mas em toda Antártica. São frágeis demais para serem liberados.

    O pequeno e o grande...
    O pequeno e o grande…

    Estivemos na base espanhola onde batemos papo com os militares encarregados da infraestrutura. Conhecemos todos os locais abertos ao público. Escalamos morros. Assistimos a chegada de navios de turistas, visitamos as ruínas das estações baleeiras, e da base inglesa destruída por uma erupção nos anos 60. Concluímos as gravações. Pena não termos a sorte de ter tempo aberto num local de visual tão exótico como Deception. Talvez numa próxima viagem…

    Dia 19, às 4 horas da tarde, o Mar Sem Fim saiu pelo boqueirão que dá acesso à cratera, conhecido como Foles de Netuno.

    Foles de Netuno, a entrada da cratera
    Foles de Netuno, a entrada da cratera

    Navegamos para Livingston, nas Shetlands do Sul, a 20 milhas de distância. Esta é uma ilha muito pouco visitada em razão do micro-clima ruim. Ela vive envolta em neblina, por isto é quase inédita na TV. Se pegarmos tempo bom será um feito exclusivo. Vamos tentar.

    Oito da noite. Estamos a um quarto de milha de Livingston e não enxergamos mais que fumaça…de vez em quando a neblina se dissipa. Abre uma janelinha. Conseguimos ver paredões cobertos de neve. A aproximação é tensa. Há pedras em volta, e não temos a carta náutica de detalhes. Navegamos pelo radar. Peço desculpas aos futuros telespectadores, mas não vale o risco.

    Conversei com Pedrão e abortamos. Seguimos para a Rei George, ao lado. É a mesma ilha onde estivemos depois do perrengue da chegada. São mais 40 milhas.

    Era madrugada quando fundeamos na enseada Potter, que fica na baía Maxwell, em Rei George.

    Mais um ou dois dias e estaremos na base Ferraz.

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