Restinga da Marambaia- Baía de Angra dos Reis – Parati

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    Sábado, 12- 08- 2006.

    São três e vinte da tarde. Navegamos desde às seis da manhã. No momento estamos no través da Restinga da Marambaia. Não temos vento suficiente para o Mar Sem Fim, navegamos a motor. Faltam ainda 20 milhas, além das 40 já percorridas, até Ilha Grande, na baía de Angra, para concluirmos nosso primeiro deslocamento. Ainda temos algum tempo pela frente antes de fundearmos, por isto resolvi pôr em dia o relato desta viagem.

    Chegamos ao Rio, para mais esta etapa, na quinta feira, dia 10, por volta da 11h da manhã.

    Almoçamos e tocamos em seguida para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, para nossa primeira entrevista com o professor Paulo Pereira de Gusmão, da cadeira de políticas públicas e ciências naturais. Ele nos deu sua visão sobre a Restinga da Marambaia. Segundo o professor “ a costa brasileira está cheia de exemplos do que não se deve fazer em termos de ocupação”, por isto ele vê a Restinga como um laboratório vivo, “uma oportunidade de criarmos outro tipo de modelo de ocupação”. Apesar dela integrar a região metropolitana do Rio, e haver um milhão e trezentas mil pessoas nas cercanias, especialmente na borda continental onde fica o antigo porto de Sepetiba, hoje Itaguaí, e que engloba os municípios de Mangaratiba, Itacuruçá e Itaguaí, ele encara a área “como um laboratório vivo”. É que a Ilha da Marambaia, onde fica a restinga propriamente, ainda é muito pouco ocupada. O que impede é a presença dos militares, que dividiram o espaço em três partes: uma ocupada pelo exército, outra pela aeronáutica, e a derradeira pela marinha. Foi bom por um lado, porque sua presença impediu a chegada da especulação imobiliária, e o turismo predatório. Mas cedo ou tarde isto vai mudar. Os militares podem sair e então o espaço será ocupado. Que não seja como o resto da costa do Rio, esta é a preocupação do professor Paulo.

    Para ele o “turismo de segunda residência” como aconteceu ao norte, na região dos lagos, até Búzios, ou mais ao sul, na baía de Angra, não é um exemplo a ser seguido. Nestas áreas “estão matando a galinha dos ovos de ouro”. E completa: “O projeto de expansão do turismo no Estado é míope, de curto prazo. Na alta temporada os municípios triplicam sua população. Mas no restante do ano, o terço que fica, aquele que nasceu e mora nestes lugares, não tem poder aquisitivo. A arrecadação é baixa, por isto não há saneamento básico, esgotos tratados, ou coleta eficiente de lixo. Não há como pagar”. Para o professor os empregos gerados pelo turismo são poucos. Alguns antigos caiçaras ou pescadores trabalham como caseiros, mas isto é tudo. O comércio é fraco, os serviços também. E a pesca, a cada dia é mais escassa. Por isto quando chegar a vez da ocupação humana da Restinga, que ela descubra novas possibilidades.

    Em seguida o professor falou um pouco a respeito da ocupação industrial da área fechada, interna, da restinga, onde já existe um porto e um pólo industrial, e um grande passivo ambiental deixado pelo rastro de empresas que atuavam na área química, que se instalaram por ali nos idos dos anos 60 do século passado. Contou também dos enormes investimentos, públicos e privados, que estão previstos para acontecer até o ano 2011.

    O porto será aumentado para que possa exportar soja do Centro- Oeste, desafogando Paranaguá. Existe previsão para duas refinarias, uma da Petrobrás, outra do Grupo Ultra, cujos projetos estão em fase de licenciamento. Para finalizar, mais duas siderúrgicas virão. Uma da Vale do Rio Doce, e outra da CSN. Para este gigantesco pólo industrial prevê-se investimentos da ordem de 13 bilhões de dólares nos próximos cinco anos.

    Vamos checar tudo isto em breve.

    No dia seguinte, sexta- feira, dia 12, tivemos outra entrevista desta vez na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

    Fomos conversar com professores que iriam nos explicar sobre a formação geológica da restinga, das serras cariocas, os costões rochosos tão típicos, as ilhas no litoral, e a própria formação da Restinga da Marambaia, que aconteceu no último movimento de transgressão do mar, ocorrido há cerca de 20 mil anos. Com eles tivemos uma excelente aula particular.

    Estes professores já conheciam nosso trabalho. Alguns já tinham visitado o site, e assistido a alguns programas. Sabiam de nossa viagem e nos respeitavam. Fiquei contente com o reconhecimento. Na verdade ganhei o dia. Esperávamos falar com um só deles, mas ao contrário, fomos recebidos por uma trinca de especialistas: Gilberto Tavares de Macedo, André Luiz Ferrari, e Cleverson Guizan Silva, do laboratório de Geologia. E isto porque “nós temos credibilidade e estamos fazendo um bom trabalho”. Em outras entrevistas que haviam dado para grandes Tvs, “hegemônicas”, ficaram decepcionados com a edição. De modo sutil eles deixaram transparecer que parece que cortam as críticas e só deixam ir ao ar elogios. É o “Brasil oficial”, pensei, que se vê na TV. Um vício que imagino que a maioria que me lê sabe exatamente de onde vem (plim-plim). Amanhã começo a passar as explicações que tivemos.

    Estamos quase chegando na Ilha Grande, na baía de Angra, onde vamos dormir esta noite. Quero ir lá pra fora para ver. O cenário é lindo. Hoje, na altura da Barra, ainda em frente da cidade do Rio, cruzamos com um grupo de baleias. Vi pelo menos três. Uma delas era fêmea e estava com o filhote ao lado. Às vezes subiam à tona tão próximas do Mar Sem Fim que podíamos escutar os esguichos de água de sua respiração. Só mesmo estando num veleiro para observar cenas raras como esta. Para um primeiro dia de navegação foi bom demais.

    Domingo, 13- 08- 2006.

    Dormimos na enseada das Palmas, no lado leste da Ilha Grande, um lugar belíssimo, onde, nos anos 60 e 70, morava um alemão amalucado, que vivia maritalmente com uma macaca.

    Não pense que é história de pescador. Esta não é, ainda que seja absurda e bizarra. Quando criança eu freqüentava Ilha Grande de barco, com a lancha de meu pai e seus amigos, e muitas vezes paramos aqui. Eram famosas as histórias do Peter e suas doentias preferências.

    De madrugada saímos para gravar as praias do lado de fora da Ilha Grande, começando com o Saco da Parnaioca, que fica a 15 milhas de distância. Uma bela praia ainda não ocupada pelo turismo ou veraneio. Aqui moram umas poucas famílias de caiçaras e nada mais. Como sempre eles nos dão uma aula sobre ocupação da costa. Suas casas foram construídas para trás da praia, ainda depois da primeira fileira de árvores. Do mar não se vê quase nenhuma.

    Descemos para fotografar e gravar. Caminhamos até o rio, no extremo sul, e retornamos. A água do mar está clara como a de uma piscina. O céu azul, quase sem nuvens, tudo que precisávamos para fazer bons programas.

    De Parnaioca seguimos para o Saco Dois Rios, deixando do lado direito a Ilha de Jorge Greco. Era em Dois Rios que ficava o famoso presídio. Numa época ele só recebia presos políticos, depois se abriu para vagabundos comuns. Dizem que foi entre seus muros que teria nascido o Comando Vermelho, e outros grupos no gênero, em razão da mistura entre guerrilheiros urbanos, politizados, e assassinos, ladrões, estupradores, vigaristas de todo tipo. Estes receberam aulas sobre organização e guerrilha urbana no convívio diário. Em 1994, depois de fugas espetaculares, o presídio foi desativado. Desde então a cada dois ou três anos surge na imprensa a notícia de que grupos hoteleiros tentam erguer imensos resorts neste ponto.

    A sanha destes grupos por enquanto tem sido contida por ambientalistas, ONGs, e órgãos do meio ambiente do Rio. Parte da Ilha Grande é um Parque Estadual, outra parte uma APA, e outra ainda uma Reserva Biológica. Ainda assim é bom ficar vigilante. Cedo ou tarde vão tentar novamente. Ilha Grande é uma beleza, e como toda ilha, frágil. Seu pior inimigo é o fato de estar muito próxima do Rio de Janeiro, e de São Paulo, dois dos Estados mais populosos e desenvolvidos do país. Ela ainda é coberta por Mata Atlântica, e tem praias lindas, cachoeiras, trilhas, manguezais, lagoas, e mais de 300 ilhas ao seu redor, todas dentro da Baía de Angra.

    Até meados dos anos 60 do século passado a região ainda era pouco ocupada. Mas depois da construção da BR 101, no início da década de 70, que hoje circunda quase todo o litoral brasileiro, foi um pega para capar. O Brasil tinha acabado de passar pelo “Milagre Brasileiro”, a época dos militares, quando as classes média alta, e rica, conseguiram formar algumas reservas financeiras. A estrada, por outro lado, foi aberta muito próxima ao mar, passando por manguezais que foram aterrados, morros que faziam parte da Serra do Mar, cobertos com mata nativa, e muitas praias. Como sempre não havia um plano de ocupação. O resultado não poderia ter sido outro: uma ocupação desordenada, com grande adensamento. As reservas financeiras, fruto do “milagre”, tornaram-se casas de veraneio. Praias inteiras foram ocupadas, caiçaras venderam suas posses e se transformaram, no máximo, em caseiros dos ricos. Até costões foram ocupados. Marinas, iate clubes, hotéis, resorts, pousadas e favelas. Veio de tudo para cá, e de uma só vez. Em pouco mais de cinco, seis anos, uma brutal ocupação tomou conta do entorno da baía, e de muitas de suas ilhas. Explodiu a especulação imobiliária. O “paraíso” estava definitivamente contaminado.

    A infra-estrutura das cidades em volta, como Parati e Angra, não conseguiu acompanhar o movimento frenético, e ficou para trás. Em Angra dos Reis moram cerca de 120 mil pessoas, a cidade sobe em favelas pelas encostas dos morros (vide fotos). Sua população é dividida em 33 mil domicílios particulares, e apenas 48% deles têm rede geral de esgotos. O caso de Parati é ainda pior. São 30 mil habitantes em 8 mil domicílios. Destes, menos de 15% contam com esgotos tratados (fonte: IBGE ano 2000). Hoje é preciso conviver com esta situação, e com o passivo ambiental, porque depois que se constrói raríssimas vezes se derruba. Mesmo que seja totalmente ilegal, como é o caso de grande parte das construções que aqui existem.

    E isto sem falar nos portos, nas indústrias, nos estaleiros de construção naval, que foram instalados.

    A quantidade de lanchas, veleiros, e jet esquis que cruzam estes mares no verão e feriados é impressionante. Todos os anos são milhares de barcos de recreio que cortam estas águas, provocando acidentes, muitas vezes com vítimas fatais, fruto do mau uso e da imprudência. Já cansei de ajudar iates caríssimos que, mal conduzidos, viram cinzas, literalmente, ou sobem em cima de lajes e ilhas. Há muitas lajes submersas na baía, nem todas com sinalização aparente. Quando venho em férias nesta época, não consigo sequer fundear na parte da ilha que dá para o continente, tal o tráfego de barcos. De todos os tipos e tamanhos, são centenas, sempre com música ligada no mais alto volume, como se ninguém mais existisse. As lanchas produzem marolas altas, mas seus comandantes demonstram não ter noção, além de educação, e passam por entre os barcos fundeados em velocidade de cruzeiro, fazendo com que joguem como se estivessem em alto mar. Jet esquis tiram finas, se exibem, e tal qual um torpedo, às vezes explodem bem no meio do costado de um barco, fazendo jus à pontaria perfeita de alguma criança destrambelhada. É um inferno.

    Mas tem mais: traineiras passam redes de arrasto dentro da baía de Angra e Sepetiba, sem serem incomodados por quem quer que seja, e o pescado diminui a cada ano que passa. Ainda assim a região toda é de muita beleza. A serra do Mar aqui está quase colada ao oceano. Seus contornos criam paisagens exuberantes. Ainda se vê a Mata Atlântica em suas encostas e morros, e como a baía é aberta, apesar da poluição industrial, e os dejetos humanos, muitas vezes a água é transparente dando uma falsa idéia de bons tratos e pureza.

    Aos poucos vamos mostrando cada detalhe.

    Do Saco de Dois Rios navegamos um pouco mais para o lado leste, até um dos costões que formam a enseada de Lopes Mendes, aqui ao lado. Eu queria mostrar uma das mais belas praias da região, que quase ninguém conhece justamente porque fica escondida entre as pedras: Caxadaço, antigo porto de escravos. Entramos com cuidado passando rente às pedras, até que sua areia fina, escura, com água transparente, apareceu para nós. Uma beleza. Desembarcamos novamente para gravar.

    Em seguida navegamos em frente à Lopes Mendes, a última praia do lado leste, antes de contornarmos a Ponta dos Castelhanos. Quem adorava este cenário era Ayrton Senna. Ele tinha uma casa em Angra, e quando estava aqui pegava sua lancha e vinha correr em Lopes Mendes.

    De lá contornamos Castelhanos, e tocamos para o Saco do Céu, uma espécie de mini fijord tropical, com uma entrada estreita que se abre para um largo, cercado por morros cobertos de Mata Atlântica. Aqui também houve uma ocupação desordenada. Antigamente havia apenas uma ou outra casa modesta e, no fundo, uma vilazinha de pescadores artesanais. Hoje algumas mansões disputam a área exígua. Restaurantes flutuantes servem os iates que não param de chegar. Bicheiros notórios, destes aplaudidos até bem pouco, na avenida, durante o carnaval, também elegeram o Saco do Céu como seu refúgio. E uma mansão na praia foi levantada. Mas todos convivem como se tudo fosse normal, e os problemas apenas fruto da visão pessimista deste escriba. Antes fosse. Ao conversarmos com um dos professores da Universidade Federal Fuminense, ele nos relatou mais um problema típico daqui. O mangue, que antes preenchia todo o fundo do saco do Céu, não está mais conseguindo se regenerar. É que as ondas artificiais produzidas por iates e jet esquis, ao chegarem nas margens acabam retirando a fina camada de lama e lodo que cercava os mangues, onde suas raízes se fixavam. Hoje dá pra ver uma fileira rala de manguezal, e onde havia lodo e lama há areia. É o começo do fim. Em breve não restará nenhuma vegetação.

    Feitas as imagens tocamos para dentro da baía, até outros pontos notórios pela beleza: a ilha dos Macacos e a Freguesia de Santana com sua igreja antiga. Eu queria chegar ao meio- dia nos Macacos, porque com sol alto normalmente uma passagem rasa entre duas ilhas fica com uma cor deslumbrante, entre azul claro e um branco translúcido, mas infelizmente encontramos a área sombreada por nuvens…não foi desta vez. Prosseguimos, passando em frente ao saco do Bananal, e navegando até a ponta Aripeba, um costão repleto de casas. Parte delas foi construída em cima da pedra, em áreas públicas, terrenos de marinha, como se diz, onde é proibido construir. Depois tentamos alcançar a Igreja de Santana através da praia do saco do Bananal. Ali há um cemitério de escravos, contíguo. Mas quando desembarcamos percebemos uma cerca e um portão fechado a cadeado, só o cemitério ficava de fora, não é mais possível chegar na igreja por este lado. Até três, quatro anos atrás, ainda dava pra fazer este caminho natural, agora não mais. A área parece que foi “privatizada” por algum novo inquilino…Demos a volta até a praia da Freguesia, passando de bote entre uma ponta proeminente da Ilha Grande, e a ilha dos Macacos. Então pudemos chegar. Novas cercas nos aguardavam, da empresa Boavista, do Rio de Janeiro, que nos disseram, “comprou” a área toda. Conseguimos gravar cenas da bela igreja da época colonial, quando Ilha Grande servia como área de quarentena para navios que demandavam o Rio de Janeiro, época ainda em que sua área era aproveitada para plantações de cana-de-açúcar. Havia muitos engenhos em suas terras nos séculos 17, 18 e mesmo no 19. Posteriormente veio o café.

    Feitas as imagens retornamos, agora para a vila do Abraão, um pouco mais para fora. Na época do presídio, era por esta vila que chegavam os detentos, que em seguida eram encaminhados para Dois Rios. Era uma vila acanhada e modesta. Virou point de turismo. Pousadas, hotéis, bares e restaurantes disputam o espaço. Hoje dormimos aqui. Amanhã tentaremos fazer o caminho que dos presos, através de uma estradinha que sai de Abraão, corta a Mata Atlântica, sobe o penhasco atrás da vila, e desce do outro lado atingindo finalmente o presídio.

    Segunda- feira, 14- 08- 2006.

    Logo pela manhã desembarcamos atrás das autoridades do Parque Estadual, queríamos carona de carro até Dois Rios, mas esbarramos na burocracia. O funcionário em êxtase nos comunicou a impossibilidade. Sem autorização prévia, só conseguida no Rio, nada feito. Ok, vamos embora.

    Navegamos para outra ilha notória da Baía de Angra, a ilha da Gipóia, que fica entre Ilha Grande e o continente. Ali há paisagens sensacionais que queria mostrar em meu programa. Paramos em frente à fazenda do Peri Igel, ao menos eu sempre a conheci com este nome. Trata-se de uma bela sede colonial, com aquele estilo típico de casarão de dois andares, caiado, com molduras das janelas em azul, e a tradicional escadaria que desce do terraço, no andar de cima, até o chão. No passado eu sempre parava aqui, com o Albardon, o barco de meu pai, para abastecer de água. Gravamos as cenas, fotografamos, e seguimos. Desta vez eu queria mostrar um desastre ambiental produzido pela instalação de um resort.

    Aqui perto, já no continente, há uma praia que é das mais bonitas e até meados dos anos 90 ainda se mostrava parcialmente ocupada, e com toda sua beleza e charme especial.

    Tanguá é seu nome, e nela ficava uma sede de fazenda colonial, um belíssimo casarão do século 18, em cor terracota, térreo, cercado por um belo jardim com centenárias palmeiras imperiais, e circundado atrás e aos lados por morros cobertos por Mata Atlântica. Até que há alguns anos a “praia do Pipa” como a conhecíamos, foi vendida para um grupo hoteleiro. Entraram as máquinas. Morros foram nivelados e parte da mata cortada. A sede da fazenda sumiu. Prédios subiram. Para mim isto equivale a um crime ambiental e outro contra o Patrimônio Histórico. O local, antes magnífico, foi desfigurado. Enfeado e banalizado. Fico chocado cada vez que passo em frente. Lembro-me da paisagem bucólica, exuberante do passado, e não me conformo ao vê-la destruída por empreendedores que foram seduzidos justamente por sua beleza natural impressionante. Mas assim que chegaram trataram de transformá-la numa Miami qualquer.

    Será que para gerar empregos, o que o Resort faz, e movimentar a economia local, é obrigatório desfigurar a paisagem? Acredito que não necessariamente. Como nos disseram inúmeros professores universitários que temos entrevistado ao longo de nossa viagem, este tipo de turismo “está matando a galinha dos ovos de ouro”. E esta é a mesma ameaça que põe em perigo as mais belas praias e enseadas do Nordeste.

    Em seguida navegamos para a cidade de Angra, em razão da necessidade de abastecer o Mar Sem Fim, já que iríamos navegar para o fundo da baía de Sepetiba, onde fica a restinga da Marambaia.

    A chegada é tenebrosa. Angra de longe parece uma enorme favela. Casebres amontoados vão subindo as encostas dos morros, numa bagunça urbana colossal. No porto há desde navios, até estruturas de poços de petróleo.

    Abastecemos rapidamente, e seguimos nosso rumo, agora para a Ponta do Zumbi, na ilha de Marambaia, onde fica a sede do Centro de Adestramento Ilha da Marambaia, da Marinha do Brasil.

    Chegamos já de noite. Ainda fizemos contato via rádio de bordo com a guarnição lá instalada, eles já estavam à nossa espera. Amanhã desembarcamos para conhecer melhor.

    Terça- feira, 15- 08- 2006

    Às 8h recebemos uma chamada de rádio pelo pessoal da Marinha. Eles sugeriram que nós estivéssemos em terra, para uma entrevista com o comandante, às 8h e 40, precisamente. Ok, estaremos lá.

    Na hora combinada pegamos nosso bote e descemos. O mar estava agitado pela força do Noroeste, normalmente um vento desagradável, porque é quente, parece abafado, e precede a entrada de frentes frias. Soprava forte.

    Amarramos nosso bote a contra-bordo de uma lancha da Marinha, atracada no cais de madeira. Nos esperava o Capitão Montanha, muito simpático e solícito, que nos levou até a sala do Comandante Loureiro. Ali tivemos um agradável bate- papo, regado a cafezinho, e protegidos do calor pelo ar condicionado.

    O Comandante resumiu a história da ocupação da ilha da Marambaia em poucos minutos, mas sem pular nenhuma fase importante. Desde os tempos em que era um lugar estratégico para a defesa do Rio, e por isto índios aliados de Mem de Sá foram trazidos, de modo a fiscalizarem a costa à procura de navios inimigos, e avisar tão logo fossem avistados, até a chegada da Marinha, no início do século 20, para montar uma base no que era um terreno da União então desocupado. Posteriormente a Marinha foi seguida pelo Exército, que ficou com o primeiro terço, a parte em que a ilha se aproxima do continente, apenas separada por um estreito canal, e que se estende até a restinga. Depois a Aeronáutica ficou com o terço do meio, englobando quase só área de restinga, e finalmente tem a parte da Marinha, a primeira a chegar, que contempla o final da restinga, e a ilha da Marambaia, propriamente chamada. Ao todo são 42,5 km de extensão. A ilha tem um sentido alongado, de Oeste para Leste, sua parte mais larga tem 5 km, e a mais estreita 150 metros (vide carta náutica). Aqui ainda moram cerca de 370 pescadores artesanais, também chamados caiçaras. Mais ninguém além dos militares. Não há hotéis, nem casas de veraneio. Ainda bem. Sua presença impediu que a ocupação fosse tão severa quanto a de Angra ou Parati. Como resultado temos uma área belíssima, ainda preservada e com sua beleza original quase intacta.

    E ela é realmente muito bonita. Na parte ocupada pela Marinha prevalece um relevo montanhoso cujo ponto culminante é o Pico da Marambaia, com quase 700 metros de altura, e muita rocha aflorada, a exemplo da formação do Pão de Açúcar. Na planicie, embaixo, é onde ficam as instalações dos militares, que no passado serviram como teto para uma escola de pescadores, ainda nos tempos do ditador Getúlio Vargas.

    Depois de nossa entrevista seguimos acompanhados por um sargento para uma volta pelas imediações. Tudo a pé, debaixo de muito sol e um calor implacável, apesar de estarmos no inverno. Andamos a manhã inteira, percorrendo uma trilha que passa por várias praias, no sentido de quem vai para o continente, até que pudemos ver o início da restinga, este cordão arenoso, como o chamam os geólogos, formado pelo último movimento de transgressão do mar. Era a época em que ele estava cerca de cem metros para além de onde está hoje, e, em seu lento avanço, e ajudado pelo gradiente (inclinação do terreno) baixo da área, trouxe consigo muita areia que aos poucos formou a restinga.

    Sua função no ecossistema é justamente separar e proteger a área abrigada que fica dentro, formada, por vezes, por lagoas, como a Rodrigo de Freitas e outras do Rio, ou pelas baías, como a de Sepetiba, e a de Angra dos Reis mais adiante. “Não fosse a restinga não haveria os mangues do fundo das baías”, nos informa o professor André luiz Ferrari, do laboratório de Geologia da Unversidade Federal Fluminense. “Por isto suas areias jamais devem ser ocupadas, e se acontecer a área estará condenada”, explica. O professor Andre conta que em época de ressacas o mar avança e “come” a areia da praia ou da restinga, que acaba diluída em áreas de baixa profundidade. Com o tempo as ondas trazem de volta cada grão, que aos poucos repõe a areia que faltava na praia. É o equilíbrio dinâmico, como eles chamam, e se algum cara-pálida impedir este ciclo da natureza, báu-báu. A erosão se instala de vez. Por isto, entre outros, é proibido construir em praias, lei que quase não tem seguidores neste país.

    Ao meio- dia embarcamos de volta no Mar Sem Fim. Ficamos bem impressionados com o que vimos. Até o esgoto do pessoal da Marinha é tratado de forma orgânica, e não polui o meio ambiente. Todo o lixo gerado é recolhido para o continente, o impacto da presença humana é mínimo.

    Navegamos agora para o fundo da baía, para o porto propriamente. No caminho passamos perto da restinga para gravar cenas pro programa. Paulina e Cardozo desceram de bote e voltaram impressionados com a sujeira. Muito plástico e lixo na praia…

    Ao chegarmos no porto quisemos conhecer a área utilizada pela empresa Ingá, que processava zinco. Ela se instalou na região nos anos 60. Faliu, e fechou, nos 90. Mas deixou um enorme passivo ambiental: contaminação por metal pesado, efluentes da fábrica instalada na Ilha da Madeira, na época de propriedade de um Senador da República pela Paraíba, Domício Godinho Barreto. Começamos a perguntar para todos os pescadores que víamos, mas cada um apontava uma direção diferente. Subimos um braço de rio de bote, para lá em cima descobrirmos que estávamos enganados. Finalmente achamos o local certo, mas estava escuro demais para registrá-lo. Vai ficar para amanhã. O consolo foi um fim de tarde arrasador, com o horizonte coberto de tons avermelhados, que passavam por todos os matizes possíveis, do rosa claro até o sangue mais vivo.

    De noite mais um espetáculo. O céu totalmente coberto de estrelas, e escuro no fundo, sem lua. Seu brilho era tão forte que se refletia na água parada da baía, confundindo às vezes o horizonte: não se distinguia com clareza o que era mar do que era céu.

    Envolvidos por este cenário fomos dormir.

    Quarta- feira, 16- 08- 2006.

    Bem cedo descemos em terra atrás do espólio da empresa Ingá, que se instalou na Ilha da Madeira, município de Itaguaí, onde deixou enorme passivo ambiental depois de falir e fechar nos anos 90. A informação nos foi dada pelo professor Paulo Pereira de Gusmão, que citou explicitamente enormes tanques de uma espécie de líquido onde se misturam água e metais pesados, notadamente o cádmio, chumbo, e o próprio zinco.

    Na época das chuvas, no verão, este material transborda, atinge o mangue a sua volta, e polui tudo ao redor, inclusive o estuário. Já não se catam mais ostras nesta área. Todos os organismos filtrantes estão irremediavelmente contaminados. Fora o pepino de saber o que fazer com todo este resíduo. Atualmente o caso é estudado por professores da Universidade Federal, que já fizeram propostas que vão do sepultamento da área com concreto, a exemplo de Chernobyl, até o seu uso controlado. Até o momento nenhuma delas foi adotada, permanecendo os estudos.

    A cena que vimos ao chegar é espantosa. Uma enorme área, do tamanho de cinco campos de futebol, com um enorme lamaçal bem no meio, elevado, cercado de água por quase todos os lados. É a montanha de detritos deixada pela fábrica, que, a céu aberto recebe direto a água da chuva, que por sua vez produz rios de detritos que descem de seu cume e se acumulam em lagos a sua volta. Esta água escapa para áreas alagadas, atravessa a camada de terra e polui o lençol freático, não deixando pedra sobre pedra por onde passa.

    E esta é só uma, das muitas armadilhas que o futuro reserva para a baía de Sepetiba. Entre os bilhões de dólares que serão investidos estão duas siderúrgicas, uma da CSN outra da Vale do Rio Doce, e duas refinarias de petróleo (Petrobrás e Grupo Ultra), entre outras empresas impactantes. Para não falar nos novos empregos, e levas de trabalhadores chegando. No aumento do tráfego de automóveis, e no crescimento do lixo urbano. Não vejo com otimismo o futuro da região. Temo que esta tenha sido uma das últimas visitas e registros ainda com a baía tendo vida. Segundo o professor Gusmão, o órgão do governo estadual que cuidava desta área metropolitana foi extinto nos anos 80. Desde então “o governo não age. Não tem planos de ocupação”.

    Mais uma vez sinto, por estas denuncias, o pouco caso do Governo do Rio para as questões do meio ambiente. Quando fizemos o programa sobre a Baía de Guanabara, a coordenadora da ONG Baía de Guanabara, Dora Hess, nos disse que “desde que Rosinha Mateus assumiu o Conselho da Baía não havia se reunido.” A agora idêntica denúncia é feita, desta vez por quem estuda a baía de Sepetiba, uma das derradeiras áreas não ocupadas do litoral do Estado.

    E com este cenário triste, e as informações checadas, iniciamos a navegação para outra baía, a de Angra dos Reis. Vamos direto para Bracuí, no continente, depois visitaremos o porto do Frade, vamos mostrar exemplos de ocupação predatória. Casas de veraneio subindo as encostas dos morros, transformação da área de Mata Atlântica em capim, condomínios (de gosto duvidoso) grudados na beira do mar, pinus plantados à guisa de cerca viva, etc. Em seguida dormiremos no Saco da Longa, do lado oeste da Ilha Grande, e meu favorito para descansar. Apenas uma colônia de pescadores numa linda praia. Um rio com cachoeira. Mata Atlântica até perder de vista, água do rio e do mar normalmente transparente, e o som de uma Araponga que não pára de piar.

    Quinta- feira, 17- 08- 2006.

    Em lugar do canto das aves, discurso monótono, e cantoria desafinada. Em vez de poluição visual, a sonora. Chegamos de noite na Longa, e faz tempo que uma igreja adventista se instalou por aqui. Não contente em fazer serviços noturnos, o Templo os realiza com amplificação: potentes alto- falantes irradiam o som para a baía, e para toda a comunidade, quer se queira ou não recebê-lo. Fomos vítimas da situação. Das seis da tarde até nove da noite uma interminável ladainha foi o destaque. Antes tivemos uma espécie de discurso- testemunho, feito por voz feminina e acompanhado por acordes banais. Eles teimavam em abrir uma nova e previsível situação a cada vez, produzidos por teclado eletrônico ou uma guitarra desregulada. O som chegava tão distorcido que era difícil distinguir. Mas aquilo não acabava jamais. Uma destas frases musicais repetida à exaustão, monótona, típicas de certos hinos religiosos. A distancia do barco era grande. Fundeamos no meio da baía numa profundidade de 13 metros, ainda assim o som nos incomodava. Mais tarde nos chegaram rumores de um discurso recitado com grande convencimento, empolgação, e de tempos em tempos um coro repetia em uníssono: “Aleluia, irmão”.

    Quando o tormento ameaçava parar, e os primeiros sons de grilos foram ouvidos, nova cantoria explodiu. Agora um coral feminino tomava para si o microfone. Quando a melodia exigia agudos mais altos uma gritaria frenética era ouvida. Ecoava uma série de sons esganiçados, desafinados, que acabavam se embolando entre ecos. Ruim de doer. Mas o entusiasmo não diminuia e elas seguiam cantando mesmo assim. Tivemos sua companhia até tarde. Então se fez silêncio, e voltou o som dos grilos, das ondas fracas quebrando, da água batendo no casco. Tivemos paz enfim.

    Porque será que as pessoas, pobres ou ricas, têm o mau hábito de pensar que todos são obrigado

    s a ouvir APENAS o seu discurso, ou a sua seleção musical? E se eu quiser ouvir Bach, ou curtir o silêncio?

    Apesar dos distúrbios noturnos levantamos cedo. Às 7h a tripulação estava de pé. Eu, meia hora mais tarde.

    Descemos para filmar uma cachoeira, na verdade uma queda d’água, próxima da praia. Eu costumava tomar banhos nela no passado. Desta vez a água está escassa, estamos no inverno, época da seca.

    No retorno, passando entre as casas dos moradores, vimos algo no chão que nos lembrou Fleixeiras, no Ceará. Eram algas secas, alguém as cultiva por aqui. Não demorou para aparecer seu dono, um simpático gaúcho que mora na Longa faz alguns anos.

    Conversamos com Eric de Azevedo que está entusiasmado com os resultados. Ele utiliza um tipo de alga das Filipinas, e é auxiliado por professores da Universidade do Rio, e biólogos especializados.

    As algas são colocadas no mar em redes que são atadas a estruturas flutuantes fundeadas. 45 dias depois já estão com o tamanho ideal para serem colhidas, e posteriormente, secas.

    Em seguida são vendidas especialmente para a indústria de cosméticos, ou a farmacêutica. Também servem para alimentação.

    Segundo o produtor as plantações criam empregos, aumentam a renda dos pescadores, e de quebra ainda trazem aumento de vida marinha. Qualquer estrutura colocada na água atrai uma série de micro organismos que a utiliza como substrato. Ali eles se fixam, crescem, se desenvolvem, e acabam virando alimento de outras formas, maiores, de vida marinha. E assim sucessivamente. Em nossa visita pudemos ver tartarugas entre as redes, e peixes maiores no fundo, todos ali, em volta deste mini ecossistema, se alimentando, procriando, respondendo ao estímulo.

    “É muito mais rentável que a criação do mexilhão (muito praticada em diversas sub- baías de Angra), porque o tempo de maturação é bem menor. Enquanto as algas precisam de 45 dias, o mexilhão demora quase nove meses para atingir o estágio de coleta e consumo”. Com este argumento Eric encerra o assunto. Feliz com os resultados, ele tem confiança em seu futuro, e parece viver feliz na Longa.

    Nós, em compensação, precisamos navegar. Eu queria ainda visitar Aventureiros, e as praias do leste e do sul, as últimas para completarmos a volta total na Ilha Grande. Mas além de ser demorado- a distância é de 15 milhas- o tempo fechou. A frente fria anunciada pelo noroeste entrou esta manhã. Está tudo cinzento à nossa volta, talvez esteja chovendo em Parati. Pena.

    Para piorar, temos que estar na cidade esta tarde. Ontem, por telefone, Paulina marcou uma entrevista com o pessoal do IPHAN para hoje às 4h. Amanhã, sexta- feira, eles não estarão disponíveis. Tenho que mudar meus planos novamente. Em vez de Aventureiros, navegamos para Parati, paciência.

    Às duas da tarde fundeamos em frente à cidade. Quase em seguida ficou pronto o almoço feito, hoje, pelo Cardozo. Arroz, costeletinha, e lingüiça de porco.

    Em seguida descansamos no cockpit sentindo o vento bater no rosto, refrescando o ambiente.

    Descemos às três das tarde para um passeio pela linda cidadezinha colonial, e algumas fotos e gravações antes da entrevista. O centro histórico, fechado para a circulação de automóveis, é todo calçado com pedras pé- de- moleque. As ruas são estreitas e muitas delas ficam debaixo dágua nas marés de lua. Em sua volta os famosos casarões, na maioria muito bem cuidados, e quase todos restaurados. Parati, fundada em 1667, é mais uma cidade da costa brasileira elevada à condição de Patrimônio Histórico Nacional.

    Em seguida tivemos nossa conversa quando Cyntia Terrice, do IPHAN, nos explicou sobre o apogeu e declínio de Parati. Como se sabe a cidade cresceu em função do porto. Era por ele que os portugueses escoavam as riquezas minerais extraídas do solo das Minas Gerais, que eram enviadas pela estrada de Cunha até aqui.

    E a cidade cresceu e se expandiu em razão desta movimentação. Bem mais tarde, no século 19, o mesmo porto ainda teve função relevante na época do café, até que construíram a estrada de ferro. Então Parati, aos poucos, foi perdendo importância. Ainda houve o tempo em que havia engenhos de cana, e mais de cem alambiques que produziam pinga. Hoje restam apenas seis em atividade.

    Atualmente a cidade vive do turismo.

    Quando estávamos tomando um cafézinho num bar recebo uma ligação do Alonso que estava no Mar Sem Fim. Problemas a bordo. Ele pedia nossa ajuda.

    Corremos para o cais, pegamos nosso botinho e aceleramos em direção ao veleiro fundeado no meio da baía de Parati.

    O barco estava fazendo água. Muita água. As bombas de sucção mal davam conta tamanha a quantidade.

    Era um dos registros do casco, o que esgota a água do cockpit, que havia estourado. Sorte grande isto ter acontecido aqui, num porto, com o veleiro fundeado e durante o dia.

    Rapidamente mergulhei e, com um pano, e tapei o buraco. Não foi um lacre cem por cento, mas o suficiente para que as bombas pudessem esgotar o porão.

    Quando chegarmos em Santos vamos trocar todos eles.

    Mais uma vez tenho que agradecer ao acaso por termos tido este problema nesta situação calma e tranquila. Se este registro tivesse pifado em plena navegada noturna, com mar bravo, não sei não. Teria sido dificílimo mergulhar e tapar tão rápido.

    No Amapá foi assim. Ao encalharmos no rio Calçoene, percebemos que o pé de galinha (peça que segura o eixo do motor) estava completamente solto. Mais uma vez, se a peça tivesse soltado enquanto navegávamos, báu-báu. Ía embora nosso eixo, e sobraria um buraco muito grande para tapar.

    Por estes dois problemas comezinhos eu poderia ter perdido meu barco. A sorte foi tê-los tido em condições extremamente favoráveis. Será que o rei Netuno existe mesmo, e está nos ajudando?

    Sexta- feira, 18- 08- 2006.

    Passei boa parte da noite de ontem pensando nos dois maiores pepinos que tivemos, e nas consequências desastrosas que poderiam ter nos causado. Antes de dormir agradeci a Deus por tanta sorte, e quase nenhum problema grave nesta viagem que já dura mais de um ano. Navegamos por alguns dos lugares mais perigosos da costa brasileira, como a região Norte, com seus furos e canais, onde alguns anos atrás Sir Peter Blake foi assassinado por piratas que roubaram seu veleiro (Amapá).

    Depois navegamos por regiões ermas da costa do Pará e Maranhão, onde não há quase a presença da polícia, ou da Marinha. Enfrentamos em seguida o restante da costa nordestina, com seus recifes e rios assoreados, e com exceção de um encalhe mais severo na barra do Jequitinhonha, no sul da Bahia, passamos por tudo isto impunes.

    Agora entramos na região sudeste, tendo já navegado pela costa do Espírito Santo e Rio, falta ainda São Paulo para concluirmos. Mesmo assim, desde o início, mais de 4500 milhas já ficaram em nossa esteira. Para encerrar teremos a região sul, também difícil, com uma costa perigosa e sem abrigos, que é a do derradeiro, entre os dezessete estados costeiros brasileiros, o Rio Grande do Sul. Que os ventos continuem a nosso favor.

    Esta manhã navegamos direto para o Saco do Mamanguá, a poucas milhas de distância do porto onde estamos. Mamanguá é uma espécie de fijord tropical, onde a água do mar penetra mais de 5 milhas para dentro da costa, tal qual uma língua salgada, cercada por morros altos dos dois lados, cobertos ainda por Mata Atlântica, e terminando num fundo de baía formado por rios e manguezais. Aqui fica a APA (Área de Proteção Ambiental) do Cairuçu, uma das poucas regiões da costa onde ainda podem ser vistos o monocarvoeiro, um dos maiores primatas das matas brasileiras. Mas o maior problema da região é a ocupação irregular. Quase todas as praias estão ocupadas por mansões construídas na areia, com muitas delas sendo indevidamente “privatizadas” por seus atuais ocupantes.

    Eles esquecem que praias são áreas públicas, da União, e que ninguém tem o direito de impedir quem quer que seja de visitá-las.

    É impressionante as bobagens que o “civilizado” tem praticado na costa, especialmente a do sudeste. Raríssimas vezes vi casas de caiçaras, os antigos ocupantes, próximas assim do mar. Na vasta maioria dos casos eles construíram para trás da areia, depois ainda da primeira fileira de árvores, não destruindo a paisagem, muito menos prejudicando o frágil equilíbrio dinâmico da costa.

    Nunca vi uma casa de caiçara em costões, por exemplo, no máximo um tosco rancho para puxarem para terra suas canoas.

    Mas hoje parece que impera a ignorância, ou má fé, em relação ao ambiente costeiro. Pessoas ricas, que têm maior poder de adquirir e consumir informações, são as mesmas que destróem em poucos anos o que levou milhares para se formar. Vide as fotos desta etapa, dos costões de Niterói, impiedosamente ocupados. Na região de Angra dos Reis é a mesma situação. Casas de veraneio foram erguidas em cima da pedra, ou assentadas sob a areia das praias, impedindo seu movimento e causando erosão. Para não falar de Hotéis e Resorts, como os que já mostramos no nordeste, e agora mais uma vez, nesta etapa de Angra (vide fotos).

    Bem, fizemos este projeto para mostrar o que existe de bom ou de ruim, e não vamos abrir mão deste papel. Fiz questão de gravar em Mamanguá para mostrar sua beleza exótica, sua riqueza e diversidade, e suas mazelas também. Neste caso, quase sempre provocada por construções equivocadas da classe alta. Baixaria é pouco.

    A primeira que filmamos e fotografamos é a última que foi construída. Quando estive aqui três anos atrás ela ainda não existia. Foi erguida em cima das areias da primeira praia para quem vem do mar. E não se trata de apenas uma casa, mas cinco delas! Uma para cada filho do proprietário. Até o curso de um rio foi desviado para que a piscina de pedras, construída na areia, há poucos metros do mar, tivesse seu abastecimento garantido. Mais para cima do morro, uma parte foi desmatada para que ele pudesse construir um heliponto, de modo a não ter dificuldade quando vier nas férias e feriados com seu helicóptero. Para piorar, o cara de pau ainda colocou uma placa fincada na praia com estes dizeres: “Propriedade particular. Proíbida a entrada”.

    O Ibama esteve aqui recentemente. Já aplicou três multas no valor de um milhão e trezentos mil reais, e ainda ameaça implodir a propriedade. Ao todo o Ibama constatou 80 casas irregulares em Mamanguá. Talvez eu não devesse dizer o que segue, mas que fazer, o sangue sobe e não consigo me conter: torço desbragadamente para que o órgão faça isto mesmo. Só dando um exemplo destes, demolindo e retirando pedra por pedra, talvez estas pessoas aprendam.

    Depois desta primeira praia, que mereceu atenção especial de nossa parte, navegamos para o fundo do saco, registrando cada uma delas, além dos morros, de um ou outro caiçara que ainda teima, e insiste em pescar. No fundo da baía ainda peguei o botinho e entrei num pequeno rio, subindo por entre um mangue exuberante, até quase sua nascente, ao pé do morro. Do outro lado fica a praia do Sono, já em mar aberto.

    Em seguida saímos de Mamanguá em direção a Parati Mirim, pequena vila já rodeada de casas de veraneio. Depois entrei no Saco da Cotia, outro lugar de beleza fora do comum. A situação se repete, ainda que não com tanta ênfase, mas o problema persiste: ocupação irregular por parte dos ricos, poderosos, e esclarecidos. Será que são mesmo esclarecidos?

    Ao final do dia estávamos de volta ao porto de Parati. Mais uma etapa chegava ao fim.

    Na próxima navegamos daqui para Ilhabela.

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