Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão

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    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão: 17- 04- 2005, domingo

    A equipe do Mar Sem Fim, aumentada nesta etapa pelo velejador e biólogo, Fernando Cerdeira, e contando com o cinegrafista Paulo Cézar Cardozo, nem pode assistir ao terceiro programa da série pela TV Cultura, já que nosso vôo para Belém saía de São Paulo no mesmo horário : domingo, às 17hs 40.

    Quando cheguei ao aeroporto meus companheiros comentavam este assunto com certa angústia. Estávamos entusiasmados para assistir nosso trabalho toda semana. Tranqüilizei a tripulação informando que na minha bagagem trazia um DVD com a cópia dos últimos programas editados. Teríamos o prazer de assistir a bordo, numa das noites da viagem.

    Na hora marcada, pontualmente, nosso avião levantou vôo

    Uma hora e meia depois descíamos em Brasília. Mudamos de aeronave e, em minutos, decolamos para Belém. Com mais duas horas de vôo pousamos novamente.

    Recolhemos nossas malas, um monte delas, com todo tipo de equipamento. Pegamos um táxi e tocamos para a Base Naval onde nos aguardava o incansável imediato, Alonso Goes. O Mar Sem Fim estava atracado na Patromoria da Base Naval, gentileza de nossos amigos da Marinha do Brasil. Obrigado Almirante Marcus Vinícius, do Quarto Distrito Naval, responsável pela Base.

    No barco conversamos animadamente sobre a etapa que nos aguardava

    … e as tarefas do dia seguinte, que seriam muitas. Logo cedo iríamos gravar alguns prédios históricos da belíssima cidade de Belém, fundada em 1611. Ao meio dia e meia eu iria almoçar com o Almirante e sua equipe, para  agradecer ao vivo o apoio  recebido. Depois faríamos as compras no supermercado e, às cinco da tarde, tínhamos que estar no campus do Emílio Goeldi para nova entrevista com o pesquisador Amílcar Mendes. Ele estuda a ocupação da costa aqui nesta região. Era muito trabalho. Melhor dormir cedo.

    Às sete da manhã Alonso nos acorda com o café pronto

    18- 04- 2005, segunda- feira.

    Antes das oito já estávamos a caminho das primeiras gravações. Refizemos a tomada em frente ao Teatro da Paz, esta elegante construção, testemunha da pujança da época áurea da extração da borracha. Em seguida fomos para o local onde nasceu a cidade, nas margens do rio Pará, hoje um bairro conhecido como Feliz Lusitânia.

    A espetacular Catedral da Sé

    É lá que fica o Forte do Castelo, e a espetacular Catedral da Sé, com suas duas torres que se projetam para cima e para frente, dando a impressão de quererem se separar do resto da construção, tal a imponência. É magnífico este prédio. Sua arquitetura poderosa, realçada pela cor imaculadamente branca, em contraste com o céu azul e o verde escuro das imensas e centenárias copas das mangueiras a sua volta, impõe  um brutal respeito. É de perder o fôlego. E como tudo na Amazônia, não se encontram adjetivos fáceis para descrevê-la.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, imagem da igreja Matriz de Belém
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão. Igreja Matriz, Belém

    Deixei ali a Paulina e o Cardoso que iriam registrar outras construções, e voltei para o barco, para tomar um banho. O calor é considerável por aqui. Em seguida me arrumei para o almoço com a gente da Marinha. Na hora marcada estava na porta do prédio do Comando do Quarto Distrito Naval, onde trabalha o Almirante Marcus Vinícius e equipe. Quase entramos juntos, já que ele retornava de uma seção na Câmara dos Deputados.

    Abastecendo o barco

    Ás duas e meia estava voltando para o barco, para encontrar  Fernando e irmos para o supermercado. Faina chata esta, a de abastecer o barco. É sempre igual e cansativa. Enquanto comprávamos comida o motorista do táxi foi buscar Paulina e Cardozo num restaurante. Em seguida, todos juntos novamente, fomos para o Museu Goeldi.

    A costa sul do Pará, e a norte do Maranhão, são as únicas a apresentarem o padrão conhecido como “reentrâncias”

    Incrível como Amilcar tem facilidade para explicar o porquê das reentrâncias maranhenses. Além de nos dar detalhes do que iríamos encontrar em cada parada da nossa viagem até São Luis. A costa sul do Pará, e a norte do Maranhão, são as únicas  a apresentarem este padrão, conhecido como “reentrâncias”. Ele é formado por rios que deságuam em pequenas baías cercadas por promontórios. Na verdade é uma sucessão deste tipo de formação, que começa em Marapanim, próximo a Belém, e segue até praticamente até São Luis.

    O nome Reentrâncias

    O nome, Reentrâncias, é justamente por que assim se parecem, com “reentrâncias” do mar em cada uma destas baías. Como se o oceano forçasse suas águas terra adentro. O que proporcionou este desenho foi um movimento de regressão marítimo, que aconteceu mais ou menos sete mil anos atrás. Quando ele avançou sobre o continente e “afogou” todos os rios da região criando este aspecto inusitado na costa. Conversamos até quase sete da noite, então, exaustos, voltamos para o veleiro. Amanhã vamos sair às cinco da manhã, avançando contra a foz do rio Pará, em direção a cidade de Vigia, distante cerca de 40 milhas.

    Estava totalmente escuro quando fui acordado pelo ronco do motor do Mar Sem Fim

    19-04- 05, terça- feira.

    Minha primeira reação foi virar para o lado e aproveitar os últimos minutos de sono. No aconchego da cabine pude ouvir as conversas de Alonso e  Fernando que estavam lá fora desatracando o barco. Esperei, na cama, que o veleiro começasse a navegar. Então levantei. Como sempre o café estava na garrafa térmica. Tomei uma xícara e saí para o cockpit.

    Velocidade de cruzeiro

    O Mar Sem Fim já estava em velocidade de cruzeiro, com a proa apontando para o mar, muitas milhas adiante. Mais duas horas e estaríamos parando em Icoraci, no lado oeste do promontório que tem Belém na extremidade leste. Precisávamos abastecer de óleo diesel antes de seguir. Às sete horas, com o tanque cheio, navegamos novamente.

    O vento soprava de leste, mas fraco, como sempre acontece pela manhã. Estávamos deixando para trás o coração da Amazônia depois de termos navegado na região desde a primeira viagem, quando saímos do Oiapoque. Em seguida atravessamos todo o delta do imenso rio, até Belém. Estivemos ainda em Marajó, e agora voltávamos a sair para o mar.

    Amazônia:  sinônimo de imensidão, riqueza e variedade de ecossistemas

    Será que conseguimos deixar uma imagem que possa representar, ainda que superficialmente, o que é esta riquíssima e complexa região? A Amazônia é sinônimo de imensidão, riqueza extraordinária, variedade absoluta de ecossistemas. No eixo leste- oeste, a região se estende do oceano Atlântico até as encostas dos Andes. E o rio, que corre mais ou menos no sentido do equador, tem afluentes nos dois hemisférios. Por isto recebe ainda mais água. Ela vem de todos os cantos possíveis: de cima, através da chuva. Do lado oeste, pelo degelo dos Andes. Na outra extremidade, a leste, pela força do Atlântico cuja maré já foi sentida mais de 400 km para dentro da várzea. Com isto, durante o ano inteiro, o Amazonas está recebendo mais volume de água.

    Um quinto da água doce da Terra

    Isto explica porque este rio despeja no oceano um quinto da água doce da Terra. Mas tem mais. Além da maior floresta úmida já conhecida, a Amazônia ainda tem o cerrado, campinas de areia branca, campos de várzea e de altitude, e babaçuais. É absolutamente descomunal isto aqui, e por isto mesmo, difícil de ser conhecido e estudado.

    Eu estava com estes pensamentos na cabeça ao navegar para fora, ao mesmo tempo em que torcia para que os programas feitos até aqui sejam capazes de, ao menos pincelar ainda que sutilmente, esta grandeza. Lembrei dos muitos livros que li, ou consultei, para preparar estes programas. E um deles me veio à lembrança:

    “Um Paraíso Perdido- Ensaios Amazônicos”, de Euclides da Cunha

    Nele o grande escritor demonstra respeito, admiração, e humildade ao falar da região. Foi ele quem cunhou a expressão “Inferno Verde” ao se referir a Amazônia. Mas Euclides da Cunha foi muito além, e disse:

    Para vê-la deve renunciar-se ao propósito de descortiná-la. O triunfo virá ao fim de trabalhos incalculáveis, em um futuro remotíssimo. A Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Gênese

    Só alguém com a bagagem de Euclides, poderia resumir a coisa nestes termos. Quanto a mim, saio daqui com um profundo sentimento de humildade. Considerando os parcos conhecimentos adquiridos, como um minúsculo grão de areia. E assim, depois de pensar um bocado a este respeito, consegui finalmente me concentrar na viagem até Vigia.

    Viagem até Vigia

    O tempo estava nublado, e o vento começava a soprar com mais força, quando chegamos na embocadura do rio Guajará- Mirim, afluente do Pará, através do qual chegaríamos na cidade. E foi só atingir sua foz para a profundidade diminuir perigosamente, em razão do assoreamento dos rios desta região, cuja cobertura vegetal foi cortada para dar lugar a pastagens.

    Profundidades cada vez menores

    O resultado é sempre o mesmo: profundidades cada vez menores e perigo para a navegação. Chegamos a roçar nossa quilha no fundo do mar, então fizemos uma curva para fora, em direção ao mar aberto, e por ali ficamos esperando até encontrarmos dois barcos de pesca, relativamente grandes, que voltavam para Vigia. Bingo ! Nada como ter um serviço de prático a nossa disposição. Especialmente debaixo de um forte toró, quando a visibilidade não alcançava mais que uma milha de distância.

    Seguimos os dois, bem em sua ré, e entramos sem problemas até que chegamos defronte à vila, onde fundeamos. Em seguida o almoço foi servido. O relógio marcava três e meia da tarde. Comemos muito bem e desembarcamos na cidade para escolher os lugares onde gravaremos amanhã. Antes de descer recebemos uma ligação pelo celular, era o Fernando Sampaio, da VTF, produtora que contratei. Ele nos deu duas notícias. A primeira era sobre as fitas que mandamos com imagens de Belém, que, de acordo com ele, estavam ótimas. E a segunda, sobre a eleição do novo papa.

    Conhecendo Vigia

    20- 04- 2005, quarta- feira.

    Hoje cedo fomos conhecer Vigia, uma cidade com quase 50 mil habitantes, muito agitada, com uma enorme frota de barcos. A cidade  tem alguns prédios antigos em bom estado de conservação. A economia gira em torno da pesca artesanal, e também  industrial, além da captura de caranguejo nos mangues em volta. E, mais para o interior, da pecuária.

    …atiram para fora toda espécie de sujeira…

    A cidade é relativamente limpa apesar de não ter serviço de saneamento básico. Mais uma vez os esgotos vão todos para o rio. Também há certa sujeira nas praias de lama que se formam ao longo da rua principal. Esta é mais uma população que, como todas as outras que visitamos, tem enormes lacunas em sua educação básica. E não recebe informações, ou conceitos mínimos, sobre preservação. Eles mesmos, quando param seus barcos nos barrancos dos rios, em frente da cidade, atiram para fora toda espécie de sujeira: de restos de comida, a pilhas velhas, sacos plásticos, etc.

    Não percebem que agindo desta maneira estão matando a vida marinha

    …contribuindo para que sua própria existência seja ainda mais difícil, penosa, e complicada. É uma pena ver tanta gente de boa índole, de bem,  abandonada pelo Estado. E olha que o Pará teve, por dois períodos sucessivos, um bom governo, o de Almir Gabriel… Esta foi a impressão que ficou depois de várias viagens, observando e conversando com dezenas de paraenses.

    Vigia, fundada em 1611

    Vigia é bem antiga, alguns historiadores dizem que ela foi fundada poucos dias antes de Belém, em 1611. A cidade é ‘mãe’ de alguns vultos públicos de renome. Foi aqui que nasceu Francisco Palheta, personagem que a história nos ensinou ter sido o homem que, indo às Guianas defender interesses do Brasil, acabou trazendo na bagagem as primeiras mudas de café.  Em Vigia existe ainda a Catedral Madre de Deus, erguida pelos Jesuítas em 1734, no estilo barroco. A enorme construção é uma igreja e um colégio. E está em ótimo estado de conservação.

    Há ainda outra igreja, da mesma época, também erguida pelos jesuítas. Ela tem paredes extremamente grossas, e imponentes, mas ficou inacabada. Muitos anos depois, na década de trinta do século 20, acabou sendo concluída. Mas a arquitetura original não foi respeitada resultando num estilo híbrido, modernoso, de gosto duvidoso.

    Prédios dos séculos, 17 e 18

    Passeando pela cidade é possível ver, aqui e ali, alguns prédios dos séculos, 17 e 18, ainda com suas fachadas repletas de ladrilhos portugueses. E detalhes requintados como pinhas em louça colocadas nos alpendres.

    Depois das gravações e visitas, viemos para o barco almoçar. Em seguida, antes de irmos embora, estivemos no Quilombo do Cacau, na margem oposta do rio. Trata-se de uma pequena comunidade de descendentes de escravos, trazidos pelo Barão do Guajará, no século 19, que vive mais afastada na floresta.  De lá voltamos para nossa casa flutuante.

    A tripulação desceu em terra para tomar banho

    Eu fiquei a bordo, e tomei o meu aqui mesmo, já que comandante tem certas regalias. Em seguida me acomodei na mesa de navegação, com meu lap top aberto, para escrever o diário de hoje. Quase fui comido pelos carapanãs. Mas consegui relatar mais este dia.

    Amanhã saímos às cinco da madrugada, para a ilha dos Guarás, 36 milhas ao sul. Ela é um importante ninhal destas aves, que, infelizmente, estão na lista do Ibama das espécies ameaçadas de extinção.

    Ilha dos Guarás

    21- 04- 2005, quinta- feira.

    Saímos de Vigia às seis da manhã.  O rumo era 50 graus, e nosso horizonte estava meio carregado, com cara de poucos amigos. Íamos navegar seis horas para cobrir as 36 milhas que nos separavam da ilha dos Guarás. Acompanhei a saída do barco pela foz do Guajará- Mirim, justamente o trecho mais difícil. Mas naquela hora da manhã a maré estava cheia, e não tivemos qualquer problema. Fiquei lá fora mais um pouco. Quando percebi que o veleiro já estava no rumo correto, e sem obstáculos no horizonte, relaxei e fui pra cama de novo.

    Rotina a bordo: quem faz é você

    Uma das coisas gostosas de um cruzeiro é justamente ter pouca coisa pra fazer. Sair de um lugar e chegar a outro, num mesmo dia, já é o bastante. O resto da rotina a bordo, quem faz é você mesmo. Ler um bom livro, ouvir música, curtir a paisagem, colocar em ordem um canto do barco que virou uma balbúrdia, dormir em pleno dia, cozinhar, comer, são algumas das possibilidades. E quem decide é você. Não há compromissos, de modo que a sensação de liberdade, de ser dono do próprio nariz, é muito forte, e muito boa.

    No meu caso, naquele momento, optei por voltar pra cama. Nem senti o vento aumentando, ou os borrifos de água que batiam no casco do veleiro. E não foram poucos. Quando acordei, já quase chegando, soube que na hora da mudança da maré, às 9hs30, o vento nordeste chegou aos 40 nós de velocidade o que é uma força considerável. Estava todo mundo encapotado, com capas de chuvas molhadas, meio cansados pela travessia trabalhosa.

    A ilha dos Guarás é quase virgem

    Eu, em compensação, estava lépido, completamente relaxado, depois de passar a manhã toda dormitando na cabine. Uma delícia. A ilha dos Guarás é quase virgem. Bonita, ela é cercada de praias com areia branca, que ficam a mostra na maré baixa. A ilha é cheia de rios interiores, e mangues. E claro, bandos de Guarás, com sua cor vermelha característica, além de garças brancas e azuis, e vários outros tipos de pássaros. Logo que chegamos descemos o bote de borracha,  o motor de popa, e com ele eu e  Cardozo subimos um daqueles rios.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, imagem da ilha dos Guarás
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão. ilha dos Guarás

    Mangues lindos, árvores enormes

    Beleza de paisagem. Mangues lindos, árvores enormes. Tralhotos (espécie de peixe, pouco maior que o camarão, e com algo que parece “patas”, em vez de nadadeiras em seu dorso) assustados com o barulho do motor cruzando a proa do botinho, a flor da água, nadando em zigue- zague  como galinhas  em estradas do interior.

    Na volta, ao por do sol, conseguimos filmar os bandos de Guarás que nesta hora se juntam nas copas das árvores para passarem a noite. Dia perfeito. Ao voltarmos para nosso porto seguro, o Mar Sem Fim, ainda assistimos, no cockpit, os programas três e quatro da série que estamos produzindo. É maravilhoso assistir aqui, no lap top instalado lá fora, os DVDs com os programas da série. Um cineminha perfeito. Depois, cama.

    A chuva preponderou

    22- 04- 2005, sexta- feira.

    Acordamos cedo, como sempre, e esperamos a chuva passar. Esta etapa foi a primeira em que a chuva preponderou. Desde que saímos, e todos os dias, ela está sempre presente. Ela bate mais forte de tarde, depois das duas horas. Primeiro o horizonte fecha, com nuvens carregadas. Depois, o vento aumenta e as nuvens parecem que dão voltas, nos rodeiam, ameaçam aqui e ali, e às vezes iniciam a precipitação bem longe. Mas quando começamos a achar que não vão nos atingir, elas vêm direto em cima de nós, com toda sua potência e precisão. E despejam toneladas de água. Todo dia é assim. No fim da tarde vem chuva grossa e vento forte, mas a coisa toda não dura mais que uma hora. Às vezes tudo isto rola de noite também, e em certos dias, na manhã seguinte, como hoje.

    Tomamos café no cockpit do barco de onde podíamos ver os bandos de Guarás nas copas das árvores. Esperávamos o dia clarear totalmente para voltarmos a gravar. Mas, antes de nos mexermos, amanheceu e os Guarás bateram asas. Voaram para longe enquanto a gente, preguiçosamente, ainda decidia o que fazer.

    Resolvemos tocar direto para a Ilha do Algodoal

    No dia anterior eu e o Cardozo , o cinegrafista desta etapa, já tínhamos entrado por um dos igarapés, navegando até onde havia fundura suficiente. Registramos as praias, a floresta, os guarás, e algumas casas de caboclos. Resolvemos tocar direto para a Ilha do Algodoal, 30 milhas adiante.

    Viagem de cinco horas, tranqüila a não ser pela chegada. Foi por volta das duas, três da tarde, e a aproximação de Algodoal é bem chata. É muito rasa a entrada. Ondas estouram por todos os lados. A carta náutica não aponta a passagem já que foi feita há 20 anos, e os bancos de areia mudam de lugar. O horizonte começava a ficar negro denunciando a chuvarada com forte vento que viria na seqüência. Vários barcos de pesca estavam nas proximidades, mas nenhum deles ia entrar naquele momento. Estavam todos pescando.

    Algodoal me faz pensar no paraíso

    Chamei no rádio VHF querendo saber se algum deles se dispunha a nos guiar barra adentro. Mas nada. Resolvi fundear ao lado de um deles e esperar até que ele resolvesse entrar. E foi o que fizemos. Em seguida a esta faina, dormi deitado num dos bancos do cockpit, esperando, até que o Alonso me acordou pra dizer que o pesqueiro já começava a puxar o ferro. Recolhemos o nosso e o seguimos  debaixo de chuva, até a praia defronte a vila na ilha de Algodoal, onde mais uma vez, deitamos nossa âncora.

    A ilha é próxima ao continente,  por isto não sofre as conseqüências climáticas mais fortes e rudes, como as que acontecem em ilhas oceânicas. Por causa disto aqui, mesmo que lá fora esteja um furacão, será sempre um bom abrigo para os barcos. A enseada onde fundeamos fica em frente a praia principal. A vila fica logo atrás.

    A luz elétrica chegou o ano passado

    A povoação toda é bem arborizada e as casas nunca mais altas que a copa das árvores, o que deixa a paisagem muito parecida com a que os primeiros colonizadores encontraram. A luz elétrica chegou o ano passado, e a população não quis que as ruas fossem iluminadas, apenas as casas. As praias permanecem virgens, apesar de haver uma pequena cidade atrás delas. Como são poucos os habitantes, a falta de saneamento básico preocupa menos. Não é preciso muito para perceber que este é mais um lugarejo onde a pesca é o vetor da economia. Mas pesca artesanal.

    Nada de navios fábrica ou grandes barcos, apenas os pesqueiros típicos da região, e muitas canoas a vela, coloridas, pintadas com esmero, com suas proas “pé de galinha”, mastros baixos, velas de cores fortes, e enormes lemes. É lindo de ver a prática de manejo por parte dos caboclos. Eles demonstram estar em seu elemento natural. Abrem e fecham as velas com facilidade. Orçam (navegar contra o vento) naturalmente, apenas colocando parte do corpo mais para fora do casco, para fazer contrapeso. E quando navegam a favor do vento alcançam velocidades consideráveis. A cada meia hora a gente pode ver uma canoa destas chegando ou saindo para o mar.

    A diversidade das embarcações típicas

    Este é mais um aspecto do Brasil pouco estudado, conhecido, ou valorizado: a diversidade das embarcações típicas cujo segredo de construção passa de pai para filho há gerações. Não há plantas, gráficos, ou cálculos complicados. Apenas o costume centenário. Ao final o resultado é sempre funcional, prático, adaptado às condições de navegação locais, seja para a pesca,  o transporte de carga ou passageiros. É fantástica esta tradição, especialmente pujante aqui no Norte, e em pleno século 21.

    É inacreditável o desconhecimento do brasileiro médio, das autoridades, ou mesmo da classe alta, a respeito da tradição marítima brasileira. Quer queiram ou não, somos uma Nação marítima. Fomos descobertos pelos Nautas portugueses numa epopéia extraordinária, considerada por certos historiadores como das mais monumentais da História.

    Brasil nação marítima

    Somos uma nação que tem uma das maiores zonas costeiras do planeta, com quase oito mil e quinhentos quilômetros. Durante os primeiros 200 anos após a descoberta, nossos antepassados viviam praticamente na orla, devido as grandes dificuldades impostas pelas matas fechadas, ou a serra do Mar, que impediam a penetração portuguesa para o interior. Provavelmente por estes fatores desenvolvemos a capacidade de construir centenas de tipos diferentes de barcos. Das pequenas jangadas a remo, até as que usam duas velas, passando pelos cúteres do Maranhão, os saveiros da Bahia, as canoas de tolda do São Francisco, as canoas de convés de Laguna, as Vigilengas, aqui do Norte. São dezenas de tipos, com influências portuguesas, indígenas, holandesas, asiáticas, africanas, etc. Uma pena saber que todo este acervo está, aos poucos, desaparecendo, sem que quase ninguém se dê conta de seu valor e tradição.

    De tarde, depois de um descanso da viagem, descemos em terra para as gravações. Enquanto Paulina e Cardozo registravam a vila, eu e Cerdeira experimentamos um currico próximo às margens dos mangues. Mas não tivemos muita sorte. Logo em seguida nossos amigos que estavam na vila voltaram. A noite começava a surgir. Hora de ir para o barco, comer, e dormir.

    Lagoa da Princesa

    23- 04- 2005, sábado.

    Depois do café da manhã pegamos o bote e descemos em terra novamente. Andando a toa pela bela ilha, encontramos um pescador, o Zezinho, com quem iniciamos uma conversa. Estávamos falando sobre o dia- a- dia deles, quando o rapaz nos contou da Lagoa da Princesa. Resolvemos conhecer. Ela fica atrás das dunas de uma praia, e é o único local da ilha com água doce. Alugamos um pequeno barco a remo e subimos o igarapé conhecido como “furo velho”.

    No caminho vimos bandos de macacos prego, além de todo tipo de aves, como Garças Brancas e Azuis, Maçaricos, Pavão do Pará, e muitos Martim Pescadores. Mais um pouco, rio acima, e encostamos para desembarcar. Começamos a andar através de uma trilha no meio do manguezal. Da vegetação de mangue logo passamos para uma restinga, depois novo trajeto pela mata, até que chegamos ao local. Uma lagoa relativamente pequena, de águas negras e razoavelmente profunda, cercada pelo branco das dunas ao redor. Um espetáculo. Melhor ainda foi o banho refrescante que tomamos.

    Marcha de volta ao barco

    Em seguida continuamos nossa marcha de volta ao barco. Antes ainda passamos na loja do artesão Júnior que, encantado com o Mar Sem Fim, desenhou uma bela camiseta com nosso veleiro estampado na frente. E nos deu de presente.

    Presente de grego. Mal sabe ele, por que desde que a recebemos, estabeleceu-se uma briga a bordo para saber quem de nós fica com ela.

    E para este dia já tínhamos feito demais. Estávamos todos tão cansados que nem fomos ao Carimbo que começaria às dez da noite. Muito antes disto, na verdade, já se podia ouvir uma sinfonia de roncos pesados a bordo do Mar Sem Fim.

    Viagem até Maracanã

    24- 04- 2005, domingo.

    Às seis da manhã a maré estava em sua altura máxima, hora ideal para iniciarmos nossa viagem até Maracanã. Iríamos navegar cerca de três milhas ao longo da costa Oeste da ilha de Algodoal, até o furo de Mocooca, ao Sul, que iríamos atravessar. Estes “furos” são comuns em toda a amazônia. E nada mais são que estreitos canais, normalmente profundos, que atravessam de uma região para outra. Com mais algumas milhas de navegação, saímos do lado Leste de Algodoal, em frente ao povoado de Mocooca. E aqui tivemos um problema sério. Como disse, a eletricidade foi instalada a menos de um ano, e os fios de alta tensão cruzam o furo justamente neste ponto, em frente à vila.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, imagem de rancho de pescadores
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão. Rancho de pescadores

    Na primeira tentativa, a ponta do mastro acabou esbarrando neles. Muitas fagulhas saíram deste atrito indesejado, chegando até a chamuscar parte da genoa (vela de proa). Recuamos na hora, a força de muita marcha à ré.

    Restava a navegação perigosa por uma região de baixa profundidade

    Em seguida tentamos pelo lado do continente onde, aparentemente, o poste de luz ficava mais alto. Conseguimos passar sem roçar na fiação. Restava ainda a navegação perigosa por uma região de baixa profundidade,  não demarcada nas cartas náuticas, até chegarmos ao fim de mais esta “reentrância“ da costa paraense onde ficava a cidade de Maracanã. Navegamos mais algumas horas sob intenso calor, cruzando com pequenos veleiros rústicos, até que chegamos num barranco alto, na margem do rio Maracanã.

    A modorrenta vila de Maracanã

    Logo que fundeamos percebemos que praticamente todas as crianças da vila correram para perto da margem, para observar nosso barco. Oba, o circo chegou! Esta deve ser a impressão deles, isolados que estão de qualquer lugar com mais vida e movimento. Não demorou muito para que o primeiro pulasse na água, e nadasse até o lado do nosso barco. Em seguida vieram os outros. Duas, ou talvez três dezenas deles, enlouquecidos com aquela novidade. Foi duro segurá-los justamente no momento em que resolvemos fazer uma limpeza geral a bordo, devido a grande bagunça, e alguma sujeira, que sempre acontece numa viagem de muitos dias. Mas conseguimos, a duras penas, e graças à energia da Paulina.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, imagem de barco à vela
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão. Chegada em Maracanã

    Descemos para conhecer e gravar cenas na vila

    Mais tarde, depois da limpeza, descemos para conhecer e gravar cenas na vila. Que desastre ! Sem graça, com os poucos prédios históricos caindo aos pedaços, bem ao contrário de Vigia. Nas ruas nenhuma alma sequer. Era domingo, parece que aqui todo mundo fica dentro de casa, assistindo a TV. Eu mesmo pude ouvir o som de várias delas quando passeava em frente das casas fechadas. Pior que o abandono e decadência é o aspecto geral das casas. É “puxadinho” pra tudo que é lado.

    Dormimos no canal que sai da baía

    25- 04- 2005, segunda feira.

    Esta noite dormimos no canal que sai da baía de Maracanã, bem no meio mesmo, sem preocupações maiores porque a navegação por aqui é pouca.  Escolhemos um lugar em que a profundidade era suficiente, mesmo com a maré baixa, e jogamos nossa âncora. E nesta manhã, antes do dia clarear, já estávamos navegando. Até a baía de Caetés teríamos 80 milhas. Sem falar em outras 20 milhas subindo o rio até chegar a Bragança. A viagem foi bem tranqüila. Pela primeira vez o mar estava calmo “como um prato”, sem ondas, muito menos vento.

    Baía de Caetés

    As preocupações começaram quando nos aproximamos da foz do rio, ali pelas duas horas da tarde. Como sempre as entradas de rios  são assoreadas, conseqüência do corte da cobertura vegetal. Os sedimentos são levados pela água dos rios até o mar, mas quando chegam neste ponto, não têm força suficiente para irem adiante uma vez que encontram a força da maré em sentido contrário. O resultado é que toda boca de rio é muito rasa. A do Caeté talvez seja a mais baixa de todas. Por sorte não havia vento e ondas.

    Roçando a quilha no fundo de lama

    Ainda longe da foz já estávamos roçando a quilha no fundo de lama. Procuramos um barco de pesca que estivesse entrando, e achamos um, o Missão Fortaleza. Pelo rádio conversei com o comandante, completamente gago, e pedi carona na entrada. Ele atendeu nosso pedido prontamente, demonstrando ser uma destas pessoas do mar que respeita as tradições, entre elas ajudar sempre os barcos de fora, ou aqueles em perigo. Imediatamente ele diminuiu sua marcha, esperando até que nos aproximássemos, e em seguida começou a entrar. Tivemos momentos de tensão. A profundidade era muito baixa apesar de a maré ter começado a subir. Quando muito chegava a três metros. Diversas vezes sulcamos o fundo do mar com a ponta da quilha.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, imagem de pesqueiro no rio Caeté
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, pesqueiro no rio Caeté

    A primeira hora foi crítica, com nosso barco subindo e descendo aclives, literalmente, mas depois a profundidade aumentou para seus três metros e a navegada ficou mais tranqüila. Chegando próximo à foz fomos surpreendidos por enorme quantidade de canoas a vela, sempre coloridas,  até parecia uma regata. Mais perto das margens, bandos de Guarás levantavam vôo das árvores, cruzando os céus em cima de nós. Só por estes dois fatores já valeu a pena.

    Subindo o rio Caeté

    Depois, subindo o rio, sua largura também foi diminuindo até que chegou a uma média em torno de seus trinta metros, quando podíamos observar as duas margens com precisão. Uma bela mata e mangues.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, imagem do rio Caeté
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão. Rio Caeté

    Algumas horas depois, em velocidade reduzida, chegamos até Bacuriteua que julgamos que fosse Bragança. Era  tarde, o sol estava se pondo, resolvemos fundear ali mesmo. O Missão Fortaleza estava lá, atracado ao lado de uma bomba de óleo diesel,  próximo duma fábrica de gelo. Era tudo que precisávamos. Fundeamos, jantamos, e fomos dormir.

    Agradecendo o apoio

    26- 04- 2005, terça feira.

    Logo pela manhã fomos visitar o barco que nos guiara barra adentro, para agradecer o apoio. Surpreendentemente o comandante, ao vivo, não demonstrou ser tão gago quanto pelo rádio. Bastante simpático ele nos deu peixe fresco, e um enorme saco de gelo, já que o nosso estava no fim. Em seguida voltamos para o Mar Sem Fim, fundeado poucos metros rio acima, para continuar nossa navegação.

    Em segundos nosso ferro garrou, e o veleiro começou a descer o rio desgovernado

    Neste momento a maré começou a vazar com força. E que força ! Em segundos nosso ferro garrou. O veleiro começou a descer o rio totalmente desgovernado. Por sorte estavam todos a bordo. Com muito trabalho, e força física, suspendemos a âncora de 35 quilos, mais a corrente, sem usarmos o guincho. Em seguida coloquei em velocidade de cruzeiro: 1.500 rotações, do motor de 90 cavalos o que, numa situação normal, faz o barco navegar a sete nós e meio. Mas contra a maré vazante, estupidamente forte, nosso barco não fazia sequer um nó de velocidade. Demoramos quase uma hora e meia para subir mais uma milha até a cidade de Bragança. É inacreditável a força da maré, especialmente as de lua, como agora. Parece uma avalanche embrutecida de água, que sobe ou desce os rios, conforme as marés.

    A duras penas chegamos em Bragança

    A duras penas chegamos em Bragança a uma e meia da tarde. A cidade é grande, vimos logo que fizemos uma última curva no rio. Sua população é estimada em pouco mais de cem mil habitantes. De longe já podíamos ver o porto, na beira do rio, com dezenas de grandes pesqueiros. Por trás deles erguia-se a cidade, acima duma colina. Dava para ver alguns casarões, e aqueles telhados típicos de cidades antigas. Muito movimento também, com carros e caminhões rodando de um lado para o outro, e muita gente no porto. Ancoramos nosso barco um pouco antes dos primeiros prédios, descansamos um pouco, e nos preparamos para descer.

    Pouco tempo depois desembarcamos com todo nosso equipamento. No porto havia muita gente, pescadores, marinheiros, mecânicos, e vendedores ambulantes. O cheiro de peixe, e do lixo, era forte.

    Uma bela praça, cheia de palmeiras imperiais

    Nem bem começamos nosso passeio quando vimos com uma bela praça, cheia de palmeiras imperiais, com um coreto no centro, destes de ferro, trazidos da Inglaterra no início do século 20. Do mesmo tipo da estrutura do mercado Ver- o- peso, de Belém. Atrás do coreto ficava o lindo prédio do Palácio da Prefeitura, recém restaurado, pintado num tom de ocre, com detalhes em branco. Fizemos as gravações  e tentamos conversar com o secretario de Turismo, e com o da Cultura. Para nossa decepção ficamos sabendo que aqui a equipe só trabalha meio período, pela manhã. De tarde só se “a gente fosse até a casa deles”, nos disseram os funcionários.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, imagem do prédio da prefeitura de Bragança, Pará
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão. Prefeitura de Bragança

    Continuamos a perambular pela cidade, que no geral é bem tratada, relativamente limpa, e com a maioria se seus prédios históricos em bom estado de conservação. Gravamos as igrejas construídas no século 19, o Palácio Episcopal, uma imponente construção em estilo Manuelino, além de algumas outras notáveis, como um casarão, conhecido como a Casa das Treze Janelas, antiga propriedade de um barão.

    A praia de Ajureteua

    Depois tomamos um táxi para irmos até a praia de Ajureteua, a mais famosa, distante 40 minutos do centro. A estrada era péssima. Um buraco atrás do outro, sem acostamento, e com uma sinalização pífia.

    E olhe que estamos falando de um dos locais mais conhecidos para o turismo da costa do Pará.

    Praia enorme, mas sem graça. Muito extensa, com mais de cinco quilômetros, bem larga também, mas sem ondas ou vegetação atrás.

    E para variar, sem quase infraestrutura. Ali havia duas pousadas que eu não recomendaria nem para um inimigo. Toscas, sujas, sem charme, e sem conforto.  É chocante como se desperdiça o potencial turístico de toda região norte. Já falei sobre isto em capítulos anteriores, mas torno a falar. Em nenhum lugar pelo qual passamos há infraestrutura adequada para o porte da cidade, ou a fama das belezas naturais da região.

     Turismo no Pará

    Consegui alguns dados oficiais de turismo no Pará. Eles são de 2002 e informam que apenas 0,34% dos estrangeiros que estiveram no Brasil, neste ano, escolheram o Pará como destino. E não é para menos.

    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, prédio em estilo manuelino, Bragança
    Litoral de Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão, estilo manuelino, Bragança

    Um tanto desanimados por mais esta constatação, voltamos para nosso barco, para jantar, e dormir. Amanhã vamos sair para tentar conhecer a ilha Canelas, no estuário do rio, e em seguida tocar para São Luis do Maranhão.

    27- 04- 2005, quarta feira.

    Abastecemos, e seguimos em frente. Não havia passado uma hora de navegação, descendo o rio Caeté, para o alarme soar : estava caindo a pressão do óleo do motor, e quando isto acontece, é por causa de algum vazamento. Em minutos o Alonso já se jogava no porão da casa de máquinas a procura do problema. Não demorou a sair, coberto de óleo como sempre, mas com o diagnóstico perfeito: estourou um retentor da parte da frente do motor. Impossível conserta-lo a bordo. Teríamos que retornar. Felizmente aqui há centenas de barcos de pesca, e onde há barcos, há mecânicos.

    Nem foi preciso esperar o mecânico. Alonso e Cerdeira acabaram dando cabo dos reparos necessários, mas infelizmente, tarde demais para sairmos hoje.

    Com o dia clareando iniciamos nossa navegação

    28- 04- 2005, quinta- feira.

    Com o dia clareando iniciamos nossa navegação e, desta vez, usamos a barra sul, ao invés da norte, para deixarmos o estuário do rio. E grata surpresa: ela era bem mais funda que a primeira. Em nenhum momento tivemos menos que cinco metros de profundidade. Começava bem nossa viagem de 200 milhas até a capital do Maranhão.

    Lá fora, já em mar aberto, navegamos com vento nordeste, com força variando entre 15 e 20 nós, ideal para nosso barco. Abrimos a genoa , e subimos a Mestra ( vela principal ), e assim navegamos todo o dia e primeira noite. Navegada boa, tranqüila,  mantendo sempre a média de 6 nós de velocidade.

    Um Pirajá no caminho do Mar Sem Fim

    29- 04- 2005, sexta- feira.

    A noite passada um Pirajá, nuvem carregada com ventos fortes ao redor, ao passar pelo Mar Sem Fim cobrou o seu preço e deixou um rasgo na genoa, suficientemente grande para que não possamos mais usar esta vela até São Luis. A chuva que tem caído desde que o barco chegou ao rio Oiapoque, em dezembro passado, também contribuiu para que o tecido da vela apodrecesse.

    O vento nem precisou usar todo seu poder para produzir este rasgo…Enrolamos a vela e seguimos navegando com a Mestra e o motor, em rotação reduzida para ajudar a manter a velocidade. No momento, 10h 30 da manhã, estamos no través da ilha de Lençóis, a uma distância de 90 milhas de São Luis. Devemos chegar esta noite. O vento agora continua de nordeste, mas fraco, com seus 13, 15 nós. E fora isto o almoço está garantido. Como sempre faz Alonso soltou uma linha. Há pouco puxamos para bordo uma cavala que já está sendo preparada.

    A viagem correu tranquila até a meia noite, quando fundeamos em frente ao Iate Clube de São Luis, na ponta da praia, onde agora está o Mar Sem Fim a espera de nossa próxima etapa.

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