Florianópolis- Imbituba- Laguna

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    Sexta-feira, 23- 02- 2007.

    Chove lá fora. São sete da noite. Estamos fundeados no porto de Imbituba. Há pouco uma frente fria, fraca, passou sobre nós. Mas o dia não foi sempre assim.

    Às seis e meia, quando levantamos, o horizonte estava limpo. Desatracamos do Píer do Iate Clube Veleiros da Ilha, onde fomos muito bem recebidos desde o final do ano passado, e tomamos a direção de sempre: sul.

    Duas horas depois estávamos cruzando o canal que separa a Ilha de Santa Catarina do continente, deixando as ilhas Irmã do Meio, e de Fora, por bombordo e já arribando para a linha da costa. Iríamos entrar pela enseada da Pinheira.

    Uma bela baía, cercada continuamente por uma faixa de praia onde, na extremidade norte, uma formação de pequenas dunas sobressai.

    A porção de água desta parte é quase toda tomada para a maricultura. Vêem-se bóias por todos os lados. Algumas casas foram erguidas em áreas móveis, de dunas. A praia ocupa um recorte perfeito da linha da costa, em forma de ferradura, e é virada para o lado nordeste.

    Costeamos a ponta da Pinheira, depois o morro do Urubu- as duas são porções proeminentes do continente (já do lado sul) que se projetam para o mar, com formas selvagens e incomuns, até chegarmos na famosa praia Guarda do Embaú, muito procurada por surfistas. Ela é longa e tem areia bem fofa, alguma formação de dunas mais para trás, tudo cercado por morros cobertos de vegetação. Um belo cenário, ainda pouco alterado.

    Seguimos navegando, já passava das 10h, com vento nordeste atingindo os 18 nós. E logo chegamos na exótica Siriú, de uma beleza bruta. A praia, virada pro mar aberto, tem dunas altas, ondas fortes quebrando, e uma íngreme cadeia de morros atrás. Mais para o interior fica uma lagoa. E toda esta parte também está desocupada, conservando o mesmo impacto que deve ter impressionado os navegadores dos séculos passados. Até agora, e desde a saída, o contorno da costa é dos mais caprichados, com baías, costões, ilhas e lajes, morros e serras que se sucedem um depois do outro. Nesta parte do litoral de Santa Catarina a geografia é especialmente exuberante e criativa. A diversidade de paisagens raras e rudes, do curto trajeto, é espetacular.

    Até que chegamos em Garopaba tão famosa e adensada quanto Porto Belo ou Camboriú.

    Impressiona não só a quantidade de imóveis, mas o recuo quase inexistente entre eles. Em alguns ângulos a visão é impressionante de tão desordenada a ocupação. E para variar a infra- estrutura inexiste. São cerca de 13 mil habitantes em 3.700 domicílios particulares. E só cinco deles, ou 0,13%, com saneamento básico (IBGE 2000).

    Estávamos no meio desta primeira perna. Em seguida, sempre navegando rente à costa, com ajuda da genoa (vela de proa), e do nordeste forte, tocamos para o porto de Imbituba, o segundo em importância de Santa Catarina. Mesmo assim é pequeno, com apenas dois berços para navios, no máximo, de porte médio.

    Por volta das duas e meia da tarde entrávamos aqui. Fundeamos para o almoço e depois descansamos. Amanhã temos mais 18 milhas até Laguna.

    Agora já é tarde. Passa das dez horas. A chuva parou. O vento sul, que chegou aos dez nós, também amainou. A noite está sossegada, perfeita para fechar este dia.

    Sábado, 24- 02- 2007.

    Acordamos bem cedo, assim que começou a clarear, mas o vento que era nordeste virou para sul novamente. E soprou forte chegando logo aos 20 nós. No entanto o fôlego não era grande. Menos de duas horas depois ele se esforçava para atingir os oito, nove nós.

    Suspendemos e iniciamos a navegação de 18 milhas até Laguna, o último porto de Santa Catarina para quem demanda o sul.

    Durante todo o trajeto a linha da costa não passa de um cordão arenoso, uma restinga, que protege uma sucessão de lagoas interiores que começa em Imbituba e segue até Laguna. A primeira é a Lagoa do Mirim, depois vem a do Imaurí que finalmente dá na lagoa de Santo Antonio, onde fica a cidade de Laguna.

    Do lado de fora praias, algumas com dunas, e umas poucas ilhas completam o quadro. O litoral norte de Santa Catarina se parece com o do Sudeste (Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo). É composto basicamente por uma série de baías, pequenas e médias, com a serra do Mar mais para trás, e estuários com manguezal.

    Mas a partir da ponta sul da Ilha de Santa Catarina o traço suave dá espaço para desenhos abruptos e selvagens, típicos destas latitudes quando a costa passa a ser fustigada por elementos mais fortes. Por isto mesmo suas defesas têm de mudar. A cada etapa nos aproximamos mais dos mares austrais e da Antártica, justamente de onde sobem as frentes frias. Por isto onde havia mangues, ou praias sutis, há faixas quase contínuas de areia e restingas cercadas por barreiras de dunas proeminentes, ou pontas que se projetam para o mar. Contornos marcantes, bem elevados, da serra do Tabuleiro, quebram a monotonia da linha da costa, atrás. E são de um verde bem forte. O conjunto é de arrepiar.

    Por volta das onze da manhã estávamos entrando pelo molhe de Laguna que sai da praia do Mar Grosso.

    O início, como sempre, é um tanto cavernoso. Ondas altas, desencontradas, ameaçam quebrar. Algumas quebram mesmo, em cima das pedras que há do lado sul do molhe, mas do outro dá pra entrar. Aqui dentro a paisagem é diferente da que estamos acostumados a ver. De um lado áreas alagadas, banhados e, ao fim, íngremes morros. Do outro a cidade e favelas contíguas. Amanhã exploramos mais a região. Hoje deu tempo apenas para uma descida ao centro histórico, próximo ao Iate Clube onde estamos fundeados. Gravamos e fotografamos belos prédios antigos. Laguna tem mais de trezentos anos.

    Faltam dez minutos para as dez horas (da noite). De tempos em tempos venho aqui embaixo enxertar mais uma linha ou parágrafo ao texto. Lá fora estava uma delícia. O vento nordeste voltou a soprar. O céu abriu, o ar ficou fresco e limpo.

    Mas agora chega. Amanhã acertamos com um guia local para subirmos o rio Tubarão, um dos mais importantes e que deságua por aqui. Combinamos às 8hs no trapiche do clube.

    Domingo, 25- 02- 2007.

    Cedinho pegamos seu Nilson e seguimos nosso rumo. Durante quase uma hora e meia subimos o rio Tubarão com o bote de apoio. No passado ele era estreito e sinuoso depois, no final dos anos 70, seu curso foi alterado (em razão de enchentes). Então ficou largo e reto, quase um canal. E foi dragado diversas vezes.

    Chegamos até o município de Capavari, e no caminho passamos em frente à Usina Termoelétrica Jorge Lacerda, instalada em suas margens, uma das maiores do país (482 mil kW) que opera a partir da queima de carvão vapor.

    Toda a bacia do Tubarão está comprometida, degradada pelos rejeitos da extração e beneficiamento do carvão, atividade comum no sul de Santa Catarina, e também poluição industrial. A cor da água é de um marrom leitoso e, em suas margens, quase não há mata ciliar substituída por pastos e fazendas de camarão (há entre oito e dez, hoje desativadas em razão da “mancha branca”, doença típica que dizimou as criações).

    A conseqüência mais imediata é o declínio da pesca artesanal.

    Apesar deste ser um ecossistema riquíssimo onde domina o complexo lagunar Imauri/Mirim/Santo Antonio, normalmente um poderoso criatório de peixes e crustáceos, hoje a atividade da pesca artesanal é restrita. Vêem-se poucos pescadores nas lagoas ou no rio. Muitos jogam suas tarrafas a partir da margem onde, o que mais se vê, são favelas.

    O livro Povos e Águas, de Antonio Carlos Diegues, já citado outras vezes, dá algumas dicas que ajudam a compreender. No quesito Dados de População Humana está escrito que “em 2000 observa-se um deslocamento para os centros urbanos, com destaque para as cidades de Imbituba e Araranguá, cujas taxas de urbanização foram de 96,7% e 82,3% respectivamente”. Outro dado revelador é que dos seis municípios que circundam o complexo lagunar “menos de 1,4% das residências da região foram beneficiadas com tratamento de esgoto (2000)”.

    O cocktail é indigesto: a região é forte na exploração de carvão, um combustível fóssil altamente poluidor desde a extração. Houve grande migração nos últimos anos. Uma das maiores usinas termoelétricas é instalada nas margens do rio principal. O turismo se desenvolve. E os equipamentos das cidades, como sempre, um retumbante fiasco. Quem perde mais com isto? Além das crianças, que continuam a morrer por diarréia, também sofrem as populações tradicionais, o meio ambiente e a diversidade das espécies.

    Nada de novo no front…

    Segunda- feira, 26- 02- 2007.

    Esta manhã um carro foi nossa condução. Era preciso checar a região do Cabo de Santa Marta, onde fica um dos faróis mais emblemáticos e notórios da costa brasileira, além de fazer imagens do interior de Imbituba. Também queríamos chegar perto da divisa com o Rio Grande do Sul, o município de Araranguá, onde não dá para fundear o veleiro. Não há nenhuma proteção, ou ancoradouro, na costa. A solução para estes casos é o automóvel.

    A primeira parada foi no Cabo de Santa Marta, um belíssimo promontório, cercado por praias, onde foi erguido o farol.

    A vista de lá de cima é espetacular. Mas nos morros em volta já impera a especulação imobiliária. Centenas de casas foram erguidas de modo apressado, sem infra-estrutura e avançam sobre as dunas ao redor. E tudo isto aconteceu apenas nos últimos 20 anos. É justo degradar em tão curto espaço de tempo?

    Esta é mais uma área sensível onde não deveria haver construções. As areias da praia, erodidas pelas ondas, recebem nova carga de sedimentos vindos das dunas. O tal equilíbrio dinâmico, de que já falamos. Mas ele foi parcialmente impedido por este novo bairro que surge da ganância de especuladores e omissão da Prefeitura. Uma pena uma região tão bonita, diferente, ser apequenada desta forma.

    De lá seguimos para Imbituba, cerca de 30 quilômetros para o norte, para as imagens que deveríamos fazer. Era preciso gravar cenas das indústrias de cerâmica que exercem forte pressão pela extração proibitiva de argila, areia, calcário e caulim, entre outros (a economia de Imbituba vive das atividades portuárias, em razão do carvão, e da cerâmica). Também estava em nossos planos conversar com o ambientalista José Truda Palazzo Júnior, fundador do Projeto Baleia Franca, e representante do Brasil na Comissão Baleeira Internacional, que mora na cidade. Truda é mais um dos que fazem a diferença ao longo da costa brasileira. Mas infelizmente não conseguimos. Ele estava fora, provavelmente numa reunião deste foro internacional.

    Terminada esta parte do trabalho nos pusemos na estrada de novo, agora rodando para o lado oposto, o sul, algo como cem quilômetros, até Araranguá. Eu havia recebido um par de e- mails de telespectadores que denunciavam ocupação irregular, poluição do rio, assoreamento e, até, a abertura de um novo canal para a foz do rio.

    Lá fomos nós, debaixo de muito calor, pela mesma BR 101, a estrada litorânea que já utilizamos para a gravação de alguns programas do Nordeste e Sudeste.

    Pelas três da tarde paramos para almoçar. Depois tivemos mais meia hora de estrada até chegarmos.

    Fui direto para o Morro dos Conventos, um lugar estratégico, alto, com paredões rochosos de onde se avista a praia, embaixo, com dunas e a foz do rio Araranguá. Esta é, não tenho dúvidas, uma das mais belas paisagens do litoral de Santa Catarina.

    O rio serpenteia por entre um vale muito verde até a altura da praia. Então faz uma curva para o norte quando seu curso segue paralelo à faixa de areia uns bons 500 metros, até desviar para a direita, cortando a praia ao meio, para seu encontro com o mar.

    De cima do penhasco a visão é esplêndida, embora um pouco mais à direita já comece a especulação com casas e prédios ocupando a faixa de areia logo depois das dunas.

    A poluição do Araranguá se intensifica na região de Criciúma, onde há grandes minas de carvão. A água usada para lavar o mineral ou, “rejeitos peritosos”, é jogada no Araranguá. Para piorar seu curso passa para uma região onde há grandes culturas de arroz, uma das que mais usa herbicidas e agrotóxicos. Juntando-se a estes fatores a rápida urbanização do município, e a crônica falta de investimentos em saneamento básico, o resultado não poderia ser outro: alta poluição.

    Terça- feira, 27- 02- 2007.

    Esta etapa será mais curta que a média das demais. Eu pretendia, ao encerrar os trabalhos por aqui, levar o Mar Sem Fim até Rio Grande, o próximo porto, já no Rio Grande do Sul e 300 milhas abaixo de onde estamos.

    Andei conversando com nossa meteorologista, Josélia Pegorim, para saber se há frentes frias subindo. Para percorrer este trecho levamos cerca de dois dias e, como a costa é perigosa, sem nenhum abrigo, rasa, e praticamente reta, se entrar um sudoeste forte, que traz as massas frias, corremos o risco de ser atirados na praia. E não será no fim que vamos correr deliberadamente um risco destes.

    Josélia informa que esta madrugada deve entrar uma frente, ainda pequena, mas na sexta outra maior seguirá o mesmo caminho.

    Resolvi deixar o veleiro por aqui mesmo. O vento nordeste começa a aumentar e vem, às vezes, em fortes rajadas desordenadas. Os brandais que seguram o mastro, lá fora, assobiam por causa do forte vento. E amanhã muda a lua. Mais dois sinais dos ciclos naturais de que “a coisa” virá. Mais tarde, com tempo firme, voltaremos para esta última grande pernada.

    Durante esta série de episódios fiquei muito surpreso com dois fatores: uma aparente indiferença da população catarinense com relação à ocupação predatória promovida, sobretudo, pela especulação imobiliária em toda a zona costeira; e os baixos índices de saneamento básico em Santa Catarina, especialmente porque o Estado tem o segundo maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do país, perdendo apenas para Brasília (0.844), e tendo São Paulo como o terceiro colocado (0.820).

    Não vejo as ONGs espernearem, não percebo a imprensa interessada neste aspecto nas muitas matérias que já li/assisti sobre o litoral de Santa Catarina. E fiquei perplexo ao ouvir de um capataz de fazenda de camarão que “as larvas a gente conseguia na UNISUL ( Universidade do Sul de Santa Catarina), em Camboriú, e também no Nordeste”. Ou seja, nesta parte do litoral catarinense, a Universidade participa de uma atividade condenada mundo afora, e combatida até mesmo pelo Ibama local, conforme nos falou a analista do CEPSUL, Ana Maria Torres Rodrigues, em Itajaí.

    A falta de coordenação destas duas importantes entidades estaduais, a omissão das prefeituras que “muitas vezes passam por cima das leis ambientais” (Ana Maria Torres Rodrigues, analista ambiental do CEPSUL), o aumento do turismo, o crescimento rápido e desordenado e o entorpecimento da população parecem ser os ingredientes básicos da receita que provamos.

    E o problema é antigo em Santa Catarina. As florestas de Araucárias já não existem mais e, em 2006, o Atlas da ONG S.O.S Mata Atlântica apontou o Paraná e Santa Catarina como os Estados que mais devastaram este importante bioma.

    Foi uma surpresa para mim, de gosto amargo, perceber agora a degradação do litoral. Restou a certeza de que programas como o nosso, que adotam o registro ao invés da louvação, e dão voz aos professores e pesquisadores que temos entrevistado desde Belém, não deixam de ser uma pequena, porém, sincera contribuição.

    Ainda é tempo de repensar nosso modelo de ocupação. Este, que adotamos na maioria das praias, já deu mostras de falência.

    Somos todos responsáveis. O planeta Terra é nossa casa e este é o nosso país. Cada um tem que fazer sua parte. Não adianta só culpar o W. Bush. Ao menos desta vez o americano não tem culpa pelo estupro que sofre a zona costeira brasileira.

    Não duvide desta realidade e, tampouco, subestime sua parcela de responsabilidade.

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