Rio Oiapoque até Macapá

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    Rio Oiapoque até Macapá

    O desembarque

    Desembarcamos no pequeno aeroporto de Oiapoque, vindos de Macapá, por volta das 11hs da manhã. Nosso grupo, em mais esta etapa do Projeto Mar Sem Fim, era formado por Fernando Cerdeira, experiente velejador, e ótimo companheiro, a repórter Paulina Chamorro, e o cinegrafista Rodrigo Cortegiano.

    A bordo de veleiro, ancorado em frente a cidade, nos esperava Alonso Góes. Ele estava mais que ansioso para que chegássemos, uma vez que estava preso ali, naquela mesma posição, desde os primeiros dias de Dezembro, quando eu, ele e Nádia Megonn havíamos trazido o barco de Natal, no Rio Grande do Norte. Na verdade, a viagem do Alonso começou muito tempo antes: em Agosto de 2004 ele iniciou a penosa subida da costa brasileira, de Santos, “a casa” do Mar Sem Fim, até Recife.

    Em Setembro me juntei a ele, quando fizemos a regata Recife-Fernando de Noronha. De lá levamos o barco para Natal, e finalmente, da capital do Rio Grande do Norte iniciamos a longa pernada-mais de mil milhas- até o rio Oiapoque, nos confins do Brasil, fronteira com a Guiana Francesa. Finalmente meu veleiro estava no lugar que eu queria para começarmos esta grande aventura.

    Pouco antes, ainda em Dezembro, nós viemos para cá para começarmos a descida da costa gravando os primeiros programas da série de TV, mas nem bem navegamos 20 milhas, e o primeiro contratempo surgiu: o disco de encaixe do reversor no motor, quebrou, e nossa viagem foi abortada. Aproveitamos para gravar dois programas na região do rio, sempre debaixo de um calor extraordinário. Em seguida voltamos para São Paulo, editamos o material, resolvemos as últimas questões relativas ao projeto, contratos, patrocínios, etc, e estávamos prontos para recomeçar.

    Assim, logo em seguida às festas de fim de ano, reorganizamos a tripulação, e viemos. Em nossa bagagem, além das malas de sempre, uma geladeira com comida, e uma enorme caixa de papelão, com um motor de popa de 15 cavalos, já que o nosso havia sido roubado poucos dias antes, no rio Oiapoque. Por compromissos profissionais, nesta etapa nosso câmara, o Fernando Sampaio Barros, da produtora VTF, cedeu seu lugar ao Rodrigo Cortegiano, e assim, finalmente em 17 de janeiro, já em pleno “inverno” amazônico, época de chuvas torrenciais, desembarcamos para mais uma etapa.

    Objetivo da etapa

    Nosso objetivo é descer até Macapá, entrando nos rios Cassiporé, depois no Calçoene, e ainda fazendo uma parada na ilha de Maracá, antes de chegarmos a Macapá. No total devemos navegar cerca de 350 milhas.

    18-01-2005

    Atraso involuntário

    Queríamos ter saído ontem, mas problemas com a instalação do reversor nos impediram. Tivemos que dormir mais um dia em Oiapoque, só que desta vez, mais espertos, não fomos incomodados por milhares de famintos carapanãs, minúsculos seres alados, com voraz apetite por nosso sangue, especialmente de noite, na hora sagrada do sono: eu havia trazido de São Paulo véus mosquiteiros, que a partir de agora se tornaram equipamentos indispensáveis a bordo do Mar Sem Fim.

    Encalhe do mar sem fim

    A aventura começou com “A” maiúsculo. Saímos da cidade de Oiapoque em direção a Mont Dargent, uma localidade já fora do estuário do rio, no lado francês, onde pretendíamos passar a noite. Só que umas 15 milhas antes de chegarmos, o Mar Sem Fim encalhou num banco de areia. A maré já estava começando a baixar, não houve jeito: tivemos que passar a noite ali mesmo. Alguns minutos depois e o veleiro já estava quase “deitado” de lado, bastante adernado. A altura da maré aqui na região Norte é muito forte. Ela sobe e desce cerca de 4 a 5 metros, e em alguns locais, como na ilha de Maracá, já foram registradas marés com até 7 metros de altura.

    Depois do jantar eu saí para o cockpit do barco, para curtir um pouco a noite e seus sons peculiares , quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Mais alguns segundos e o que eram gotas se transformou em fortíssima tempestade. Ventos com rajadas de até 30 nós açoitavam o costado do barco. Neste momento os toldos do veleiro agiam como anteparas, ajudando o barco, preso pela quilha no banco de areia, a adernar violentamente. Tive que gritar , chamando às pressas a tripulação, para que ajudassem a baixar os toldos, com receio de que o barco virasse de vez no meio do rio. Com ajuda de uma faca cortamos as amarras que os prendem aos estais (cabos de aço que prendem os mastros), enrolamos todos eles, e guardamos em lugar seguro fora do alcance da ventania.

    Não havia mais nada a fazer a não ser esperar. A tripulação ficou amontoada na sala do barco, completamente fora de esquadro devido ao adernamento, com todas as gaiutas fechadas, a espera que a chuva e o vendaval diminuíssem sua fúria. Foram algumas horas assim até que a tempestade amainou e pudemos enfim dormir.

    19-01-2005

    Às seis horas da manhã estávamos de pé, nos preparando para o café da manhã. Com a subida da maré o veleiro estava de novo em sua posição normal, boiando tranqüilamente sob as águas barrentas do rio. Um pequeno barco de pescadores que ia passando nos serviu como práticos. Mesmo assim encalhamos mais uma vez algumas milhas abaixo. Nada grave desta vez. Esperamos mais uma hora para a maré subir um pouco mais, e recomeçamos nossa marcha em direção à foz do Oiapoque. Hoje queremos contornar o Cabo Orange, e descer a costa cerca de 40 milhas, até o rio Cassiporé, onde pretendemos dormir.

    Saída pela foz do Oiapoque

    A navegada foi bem tranqüila, com ventos fracos, de Leste, e uma contra corrente de apenas um nó de velocidade. Mas a saída pela foz do Oiapoque deu trabalho. A região tem profundidade muito baixa, o estuário tem em média 2 a 3 metros de profundidade, com fundo de lama. A mesma situação de todo o contorno do cabo Orange, o que nos obrigou, na saída do rio, a navegar na direção Norte, até chegar em águas mais profundas, quase que invadindo o mar territorial francês, para só então poder virar para o Sul e começar a descer.

    Navegamos a uma distância da costa de 10 milhas, com uma profundidade média de apenas 7 metros. Se tivéssemos ventos fortes contra, que é o esperado, as ondas estariam bem altas devido à baixa profundidade, seria um fuzuê dos diabos. Mas felizmente o vento era bem fraquinho, e assim o Mar Sem Fim desceu este primeiro trecho quase sem balançar. Os únicos obstáculos surgiram no fim do dia, início da noite: alguns barcos de pesca jogavam suas redes bem na frente de nosso caminho. Por sorte avistamos suas luzes, e pelo rádio confirmamos que eles estavam com as redes “boiando”, ou seja, na flor da água, prontas para serem enroscadas pela hélice de nosso veleiro. Desviamos várias vezes para evitá-las, e mais ou menos às dez da noite estávamos fundeando em mar aberto, na frente da entrada do rio Cassiporé. Iríamos dormir ali mesmo, esperando que o dia clareasse para entrarmos barra adentro.

    20-01-2005, entrando no rio Caciporé

    Levantamos cedinho, como sempre, tão logo houve luz. E depois do café da manhã subimos o ferro e começamos a entrar pela barra. Toda esta parte do litoral brasileiro é cercada por manguezais. Desde o rio Oiapoque, e até Macapá, com o relevo da costa baixo, sem grandes pontos notáveis. E é bom que seja assim. Os mangues são verdadeiros úteros do mar: berçários de várias espécies como a tainha, o bagre, a sardinha, o cavalo marinho (recentemente incluído na lista das espécies superexploradas) além de moluscos, camarões e caranguejos, eles têm ainda outra função importante: a de proteger a linha da costa contra erosão, os ventos e a força das marés. Este ecossistema riquíssimo, de vital importância para a vida marinha, está sendo destruído sistematicamente. No Sudeste ele é aterrado para dar lugar a mansões de inconseqüentes, ou a hotéis e complexos turísticos. A baía de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, é um belo exemplo desta ocupação criminosa. E no Nordeste ele está sendo aterrado com a cumplicidade do Governo Federal, que tem cedido estas áreas públicas para a criação de camarões. Tudo bem, a exportação de camarões tem trazido algumas divisas aos cofres públicos, mas as conseqüências podem ser desastrosas no longo prazo. Em 2003 o Brasil exportou 60 mil toneladas, e arrecadou 240 milhões de dólares. A maior parte do pescado é procedente de culturas em mangezais, mas o resultado é o comprometimento do ecossistema. Além de aterrar mangues, a produção de camarões em cativeiro tem gerado outros prejuízos graves, como o sumiço do caranguejo uçá dos mangues nordestinos. Pesquisadores descobriram que a morte dos caranguejos é causada pelo fungo do filo Azcomycota. Alojado no caranguejo, ele limita sua capacidade motora a ponto de impedir que se locomova para conseguir alimento, e por isto parte dos uçás morre de fome. Pesquisadores da USP sugerem a hipótese de que estes fungos proliferam nas águas poluídas pelas criações de camarões. A desconfiança vem do fato de que a doença está surgindo na mesmíssima rota onde os camarões passaram a ser cultivados…

    O fato concreto é que hoje você não encontra mais o uçá em nenhum lugar da Bahia, Sergipe, Paraíba, e mesmo no Sul de São Paulo.

    Camarão do pacífico introduzido no Brasil

    Mas há mais: de acordo com o biólogo Fernando Cerdeira, tripulante desta etapa do projeto Mar Sem Fim, a cultura do camarão introduziu no Brasil uma nova espécie do crustáceo, conhecida como “paneus vanamei”, originária do Pacífico. É que os produtores descobriram que esta espécie cresce mais rapidamente. E tão logo a notícia se espalhou, a maioria dos produtores deu preferência ao camarão alienígena. Hoje 60% a 70% do cultivo é com esta espécie. O problema é que este tipo de camarão traz um vírus exótico, comum a raça, e ele pode infectar, e dizimar os estoques nativos…

    Como se vê, ameaças é o que não faltam ao nosso litoral e a vida marinha, mais uma razão para louvarmos esta costa do Amapá, cercada de mangues quase intocados, do Oiapoque até Macapá.

    Voltando a nossa navegação: ainda bem cedo entramos pela barra do Cassiporé. Mais uma vez a profundidade é bastante baixa, muitas vezes chegando a menos de 2 metros, sempre com fundo de lama, felizmente. Por que a ponta da quilha do Mar Sem Fim diversas vezes agiu como um arado, abrindo sulcos no lodo macio…e quando a coisa começava a ficar mais grave, com a profundidade diminuindo a cada milha, avistamos ao longe um barco de pesca. Decidimos descer nosso bote de borracha, e com ele encontrar os pescadores para saber se poderiam nos servir como práticos. Fernando e Rodrigo foram a bordo e voltaram com a novidade : segundo disseram, o relevo do fundo era sempre daquele jeito, as vezes mais profundo, mas sem maiores obstáculos. Nós podíamos seguir em frente sem sustos. Os pescadores eram de Belém do Pará, vieram num minúsculo barquinho, seguindo um outro maior, e ficariam por um mês pelo Amapá, para só depois retornarem. O problema era que o motor do barco deles havia “travado”, eles estavam fundeados já fazia alguns dias, e assim permaneceriam por quase um mês, a espera do barco grande que os rebocaria de volta numa viagem de cerca de 600 milhas! Estavam com pouca comida e bastante desanimados. Em troca de sua ajuda demos um pouco de chocolate, alguns pacotes de arroz, e seguimos em frente.

    Continuamos a subir o Cassiporé, explorando suas margens, na expectativa de atingirmos a lagoa de Maruani , algumas milhas rio acima. Segundo consta, nela há peixes-boi, e em sua volta bandos de Guarás. Passamos pela pequena vila de Tepereba, paupérrima , e continuamos a subir até que fomos impedidos pela pouca profundidade. Mais uma vez a quilha do Mar Sem Fim começava a roçar o leito do rio. Demos meia volta, procuramos um lugar mais fundo e ancoramos. Com o bote de borracha fomos até a casa de um caboclo as margens do Cassiporé nos informar. Apesar do senhor Antonio ter dito que era impossível chegar até a lagoa, através de um pequeno braço de rio que havia ali perto, nós tentamos. Eu e o cinegrafista Rodrigo entramos de bote por este pequeno afluente, e andamos bem uma meia hora, até que o riozinho foi ficando tão estreito que não era mais possível prosseguir. Pena, não foi desta vez que conseguiríamos filmar estas belas aves, tão raras no litoral do Nordeste e do Sudeste. O Guará é mais um representante da fauna brasileira que está quase extinto. Também pudera, desde o tempo em que só havia índios por aqui, o Guará já era caçado implacavelmente. No início apenas por eles mesmos, que queriam suas penas vermelhas para fazer adornos e cocares. Mais tarde , com a chegada dos europeus, a pressão ficou ainda mais forte. Com a colonização, os progressos, e a ocupação maciça do litoral, sobraram poucos lugares onde hoje a ave pode ser vista. Guarapari, na língua Tupi, significa “reunião de Guarás”, e no entanto, se você for para Guarapari, no litoral do Espírito Santo, não verá um único exemplar , há muito ela desapareceu daquele local…mazelas do progresso.

    Depois de nossa tentativa fracassada de chegarmos até a lagoa, voltamos para Tepereba , logo depois da barra do rio Cassiporé, para fazermos algumas entrevistas com os moradores, e procurar o responsável do Ibama, pelo Parque Nacional do Cabo Orange, cuja sede fica no local. Mas não estávamos com sorte. A sede estava fechada, não havia ninguém para nos atender, somente os moradores da vila, pescadores em sua maioria. Conversamos com alguns, e fomos testemunhas do porre monumental de quatro outros que estavam no único bar das redondezas. Fui obrigado a tirar fotos do grupo, e só consegui sair do barzinho depois de prometer que mandaria cópias para a casa de um deles, que fica no município do Oiapoque.

    Dormimos fundeados em frente à vila, debaixo de muita chuva.

    21-01-2005, a caminho do rio Calçoene

    Logo cedo saímos barra afora, e rumamos novamente para o Sul, para o rio Calçoene, 80 milhas abaixo.

    Mais uma vez foi uma navegada tranqüila, ainda que o vento estivesse um pouco mais forte. Lá fora soprava o Leste, com 12 nós. Levantamos a vela mestra (vela principal) e a mezena (vela menor, que fica a ré), e com o motor em baixa rotação viemos navegando a uma velocidade de até 10 nós, já que em boa parte do percurso havia uma corrente favorável de quatro nós! Mais uma vez navegamos próximos da costa, a uma profundidade média de 6 a 8 metros.

    Grande parte dos velejadores que eu conheço, quando soube que eu pretendia trazer meu barco aqui para o extremo Norte do país, foi enfática em me desaconselhar. Segundo eles, eu enfrentaria uma “pauleira” infernal para descer “sempre com ventos e correntes contrários”. É que eles estão acostumados a navegar bem mais para fora da costa, em rota para o Caribe, ou voltando de lá. E por isto mesmo fazem um rumo muito mais oceânico. Eu apostava que perto do litoral poderia ser diferente, e conversando com um deles, que por acaso hoje está a bordo, o Fernando Cerdeira, fiquei sabendo que um guia escrito por um velejador americano confirmava minha suspeita : bem próximo de terra, há sim correntes favoráveis. Hoje mais uma vez, estamos provando esta tese.

    Às quatro horas da manhã estávamos em frente à barra do rio Calçoene, e como medida de segurança, mais uma vez preferi entrar com dia claro. Fundeamos fora e fomos dormir até que clareasse, duas horas mais tarde.

    22-01-2005, Calçoene e o ouro do Amapá

    O rio Calçoene é emblemático para os amapaenses, tem história. Aqui foi o lugar onde pela primeira vez acharam ouro neste Estado. Foi no final do século 19, e assim que notícia se espalhou, começou a febre pela procura do metal, e os problemas que ela sempre traz. No caso do Amapá foi grave, a ponto do Estado ser invadido pelos franceses das Guianas, que chegaram até a “tomar posse ” da região, fundando aqui a República Independente do Cunany, governada pelo romancista Jules Gros, membro da Sociedade Geográfica Comercial de Paris. O quiprocó foi generalizado, a ponto de até Macapá ter sido atacada pelos franceses. Por isto a região entre o Calçoene, e o rio Oiapoque, ficou uma terra- neutra-de-ninguém, até que um tratado, mediado pela Suíça, em 1900, finalmente deu ganho de causa ao Brasil.

    Encalhe dramático do mar sem fim

    Seria neste mesmo rio que entraríamos, e por ele navegamos cerca de dez milhas, com boa profundidade. Estávamos já estranhando a situação favorável, até que de repente a quilha bateu no fundo. Mais uma vez estávamos encalhados. E com a maré baixando. Em questão de segundos o rio ficou praticamente seco. Desta vez o Mar Sem Fim deitou de lado. Foi feio (vejam fotos) , e a tripulação ficou assustada. Eram 10 horas da manhã. Descemos no leito seco do rio, desnorteados, para dar uma olhada e descansar, já que ficar a bordo era impossível. Só um malabarista conseguiria. Depois de ter certeza que o barco não viraria de vez , relaxamos, e aproveitamos para fazer um belo churrasco. Uma picanha foi para a grelha, enquanto o Alonso, tal qual um equilibrista pendurado pelo salão, ainda teve energia suficiente para fazer um arroz. Comemos e esperamos a maré subir. E decidimos que a repórter Paulina Chamorro, e o cinegrafista Rodrigo Cortegiano voltariam de Calçoene para Macapá , de ônibus. A aventura desta etapa tinha sido suficiente para eles, e além do mais, iriam filmar a cidade, o trajeto até Macapá, e nos esperar para fazer a chegada do barco entrando pelo rio Amazonas.

    Mais uma vez peguei o bote de borracha e levei os dois até cidade, meia hora acima de onde tínhamos encalhado. Em seguida voltei, encontrei o Marzão já de pé, meio zangado comigo, é verdade, mas de pé. Quando cheguei, ele me olhou meio enviesado, enfezado, como quem diz: ô comandante, isto não se faz. Sou um barco, não um carro….preciso de água !

    Aprendi a lição. Vou tratar meu barquinho como ele merece, afinal ainda temos quase oito mil quilômetros de costa para descer…

    Saindo para Macapá

    Às cinco da tarde estávamos saindo barra afora. O mar estava tranqüilo, poucas vagas, vento fraco. Traçamos o rumo direto para Macapá- 200 milhas- , sem passar pela ilha de Maracá onde inicialmente pretendíamos parar. É que na ilha já está acontecendo a pororoca, este fenômeno tupiniquim do encontro da maré alta com as águas dos rios, criando uma “tsunami” que engole o que estiver no caminho. E nós já tínhamos abusado da sorte. Não valia a pena correr mais riscos nesta etapa.

    Neste momento, onze e meia da noite, estamos a mais de trinta milhas de distância da foz do Calçoene, nos preparando para passar ao largo da ilha de Maracá. Lá fora a lua- que segue para a cheia no dia 25- faz companhia ao Fernando , que está em seu turno. Alonso dorme na cabine de proa. Eu começo a ficar meio zonzo de tanto escrever aqui na mesa de navegação. É hora de parar. Amanhã tem mais.

    23-01-2005

    A noite passada foi maravilhosa, com lua grande crescendo no céu, mar super calmo, e muitas estrelas. Às duas da manhã substituí o Alonso, que fez o turno anterior, e fiquei no leme do barco até às quatro da madrugada. Nenhum problema de navegação. Passamos por fora da ilha de Maracá, umas oito milhas, e nem sequer conseguimos avistá-la, quanto mais ouvir o som do “grande estrondo” ou pororoca, em Tupi -Guarani. O único senão de toda a noite, foi constatar mais uma vez, a enorme quantidade de barcos que continua a praticar a pesca de arrasto. Esta é a modalidade de captura mais danosa ao meio ambiente, e a diversidade marinha, porque, como o próprio nome diz, são redes que arrastam tudo o que encontram pela frente, além de revolverem e destruírem o fundo do mar. De acordo com o oceanógrafo paulista Roberto Ávila Bernardes, a fauna acompanhante que é capturada chega a 80%. Isto quer dizer que para cada 10 quilos de camarão, o pescador captura também até 8 quilos de fauna extra, que é jogada fora, de volta ao mar, mortinha da silva. A coisa é tão grave que hoje alguns Governos, como o da Costa Rica, e ONGs, estão pressionando a ONU para que seja proibida a pesca de arrasto.

    Pois é, a despeito de toda a evidência, por aqui no Brasil este tipo de pesca, apesar de algumas proibições ( sem fiscalização) quanto à sua execução nas proximidades da costa, continua a acontecer sem que ninguém dê a mínima pelota. Cansamos de ver durante esta viagem todo o tipo de barcos de pesca, com redes, espinhéis e arrasto, desde o extremo Norte até aqui, já na boca do rio Amazonas. Até quando? A comunidade científica já alertou o governo brasileiro para o fato de que a maioria das espécies mais pescadas em nossa costa, da Bahia até o Sul, já está sobreexplorada, e em risco de extinção. Este é um fenômeno mundial. A pesca é uma atividade quase nunca auto sustentável. Alguns dos últimos levantamentos da FAO, órgão ligado a ONU, dizem que metade dos estoques pesqueiros do mundo já estão sobreexplorados, e outros 25% no limite de sua capacidade.

    Zonas mortas no mar

    Quer mais? Outro estudo, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o PNUMA, mostra que em 15 anos dobrou o número de zonas mortas no mar, por insuficiência de oxigênio. E isto acontece também na América do Sul, e ainda na Austrália, no Mar da China, no Báltico, no Mar Negro, no Japão, etc. Estas zonas podem ter de um quilômetro quadrado, até 70 mil ! E são causadas por esgotos humanos, poluentes industriais, e fertilizantes usados na agricultura. A situação é muito grave. Mesmo aqui, no extremo Norte, num dos Estados mais preservados em sua cobertura vegetal, o Amapá, muito mais pela dificuldade de acesso e baixa densidade demográfica- o Estado tem uma taxa de desmatamento de menos de 10% de toda sua área- há grandes ameaças. Um delas é a falta absoluta de saneamento básico. Esgotos correm soltos. No município do Oiapoque, pudemos observar, todo o esgoto de seus mais de 12 mil habitantes é despejado diretamente no rio, a despeito das inúmeras placas colocadas pelo Governo do Estado e a Prefeitura (vejam fotos), em português e francês, que pedem aos moradores para preservar o rio, “fonte de vida”. Como que para darem o exemplo, a prefeitura despeja nele todo o cocô , xixi ,e outros tipos de lixo que seus habitantes produzem. O cheiro no local é fétido, e lembra o do Tietê, em São Paulo. Um absurdo completo ! E assim é em todo o Estado. Na capital, Macapá, APENAS 8% das residências tem seus esgotos tratados. Portanto, mais uma vez, a agressão parte do poder público, que fala, fala, como na questão das placas que pedem a proteção do rio Oiapoque, mas faz muito pouco. São quase 300 mil pessoas que moram em Macapá, e seus esgotos vão direto para o rio Amazonas. Em Manaus a situação é pior. Lá o aglomerado urbano é da ordem de um milhão e seiscentos mil habitantes, e apenas 15% têm esgotos encanados e tratados. O resto despeja suas sujeiras no rio…

    Poluição dos rios no Amapá

    Mas não é só. No Amapá os rios são poluídos por metal pesado, especialmente mercúrio, usado no garimpo do ouro. Mas a mineração do manganês, caulim e petróleo também poluem a rede fluvial. Para finalizar, existe ainda a poluição industrial causada pela ALUNORTE, indústria exportadora de alumínio. E como se não bastasse tudo isto, ainda há outras ameaças : a expansão da cana- de- açúcar, altamente poluidora de mangues e rios por despejo de vinhoto, e a mais recente delas : a construção de usinas de ferro gusa em Macapá, cujos fornos são alimentados dia e noite, todos os dias do ano, por carvão vegetal, ou seja, pela floresta. Pensando nestes dados todos, tristes, me vem à cabeça outro ainda pior. Recentemente li nos jornais que o Governo Lula, em 2004, investiu em saneamento ambiental urbano uma merreca que mais parece esmola. Foi menos do que custou o novo avião presidencial. Este saiu para os cofres públicos pela ” bagatela ” de 46,7 milhões de dólares. Já para o saneamento sua excelência destinou míseros 53,6 milhões de reais. Dá pra entender agora, a placa da prefeitura do Oiapoque pedindo a defesa do rio ao mesmo tempo em que o polui, afinal, aqui no Brasil o exemplo vem de cima, não é mesmo?

    Bem, no momento, 9hs 30 da noite, estamos ainda no hemisfério Norte. Olho no GPS aqui e minha frente e constato : estamos na latitude 00º42’N, e nossa longitude é 050º10 W, estamos pois, no canal norte, cerca de 50 milhas de Macapá, em plena foz do Amazonas, e a navegação é a mais tranqüila possível. O balanço do barco é tão mínimo que nem sequer erro ao digitar meu diário no lap top, Semp Toshiba, claro. A única preocupação é com a entrada e saída de navios, e os baixios causados pelos sedimentos carregados pela água doce e depositados no fundo do mar. É muito estranho, no entanto, navegar neste mar a se perder de vista, desde o Oiapoque até aqui, com a água sempre marrom, barrenta mesmo. Todo dia quando saio da cabine e olho pro mar, tomo um susto ao ver aquela imensidão toda de cor marron. A explicação é simples : o colossal rio despeja no Atlântico 250 mil metros cúbicos de água por segundo. Isto quer dizer que a cada trinta segundos são despejados seis milhões de litros de água doce no oceano, obra este dragão chamado Amazonas, que em vez de fogo vomita água.

    Vou lá fora pitar um cigarrinho, volto daqui a pouco para concluir.

    24-01-2005, Amazônia

    Estamos em plena Amazônia, e tudo aqui é superlativo, dos problemas, as virtudes. Quer ver?

    Ela é a maior floresta tropical do globo. Um quinto de toda a água doce do planeta está aqui. É a maior bacia hidrográfica do mundo, com vinte mil quilômetros de rios navegáveis em qualquer época do ano. A região é tão rica que tem a maior quantidade de espécies de mamíferos, peixes de água doce, e variedades de plantas. A Amazônia abriga mais de 30% de toda a biodiversidade existente. Vinte milhões de pessoas vivem em seu entorno, numa área que equivale a 61% do território nacional, e depois de muita devastação, hoje pouco mais de 80% da floresta está de pé, mas as ameaças são muitas : a taxa de urbanização é a menor entre todas do país, a renda per capita está bastante abaixo da média brasileira, US 1.754,00 dolares contra US 3.165,00. O desmatamento avança ano após ano, e a condição de vida da população é miserável, com cerca de 15 % da riqueza produzida nas mãos de menos de 1% de “eleitos” -de acordo com o pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, IPAM, Paulo Moutinho, entre outras gravíssimas questões.

    Este mesmo pesquisador, Paulo Moutinho, alerta para o fato de que o modelo de desenvolvimento adotado nos últimos 30 anos levou ao empobrecimento da população, concentração de renda, e perda de ativos ambientais. Os únicos que lucram são grandes empresários, ligados aos setores de mineração, extração de madeira, ou construção civil; ou ainda os latifundiários ligados à pecuária de corte, e a produção de grãos. É preciso um outro modelo de desenvolvimento. O que aí está já provou que não consegue melhorar o nível de vida das populações, muito menos atingir o desenvolvimento sustentável.

    E nós do Projeto Mar Sem Fim vamos poder registrar e observar de perto toda esta questão, já que vamos contornar a ilha de Marajó por dentro, isto é, vamos passar entre ela e continente, em nosso caminho de Macapá até Belém. No trajeto vamos visitar diversos pontos da ilha, quando passaremos pelas vilas menores e mais típicas, depois possivelmente entraremos em alguns dos afluentes do Amazonas e do Pará, e finalmente faremos à costa toda do Pará, entrando em cada vila possível, até chegarmos a São Luis do Maranhão. Em todo o percurso estaremos fazendo contato com os moradores, e constatando sua condição social. Até agora pelo que vimos, a pobreza campeia, está certo o pesquisador que busca um novo modelo, que priorize o homem, afinal não é mais possível aceitar uma população tão pobre numa região tão rica. Simplesmente não combina, e é a prova de que alguma coisa está errada.

    Mas no momento nossa preocupação é chegar a Macapá, ponto final desta etapa. É preciso levar o material que conseguimos: filmes, fotos, depoimentos, áudios, e textos, para São Paulo. Parte dele vai para o site do projeto, parte para a Tv e as Rádios Cultura, e em seguida, quando tudo estiver pronto para ir ao ar, então é o momento de voltarmos para uma nova etapa, de Macapá até Belém.

    Chegando em Macapá

    Esta chegada está dando um trabalhão. Faltando apenas 40 milhas para Macapá, o diesel de bordo resolve acabar, resultado do tanto que andamos subindo vários rios, a esmo, e não computando no cálculo da etapa. Agora vamos ter que nos virar somente na vela, o que não seria mau se tivesse vento, acontece que não tem sido assim, o vento anda sumido, fraquinho, fraquinho. Então, quando ele sopra um pouco, abrimos todas as velas e aproveitamos ao máximo, e quando ele pára, soltamos o ferro para não andar para trás em função da maré vazante. E aguardamos até que aumente, ou a maré comece a subir. Então andamos mais um pouquinho pra frente, e assim vamos indo, batalhando por cada milha conquistada. No momento são 4 horas da manhã e estou contente: desde meia noite que navegamos bem, o vento finalmente entrou e a maré é favorável. Demos uma boa aproximada de Macapá, que agora está a menos de 20 milhas. Esta manhã chegaremos lá.

    Durante estes sete dias navegamos cerca de 350 milhas filmando a costa mais desconhecida do Brasil, a do Amapá, com seus mangues, rios, florestas , flora e fauna muito pouco conhecidas e registradas. Entramos por seus rios mais importantes, exceção ao Araguari, por causa da fortíssima pororoca que acontece por lá. Se nosso barco for pego por ela, babau. Acaba o projeto, o programa de tv, e meu fiel companheiro de tantas viagens, o Mar Sem Fim. Não posso correr este risco.

    Ancorando em Macapá

    Finalmente, às dez da manhã, depois de muito velejar pelo maior rio do mundo, ancoramos em frente a cidade de Macapá. Logo depois uma lancha da Capitania dos Portos veio nos dar boas vindas. Assim que eu decidi começar por aqui, entrei em contato com meus amigos da Marinha do Brasil, e pedi apoio. Sei dos riscos inerentes ao projeto, no mar, mas conheço também os que são fruto da violência estúpida que nos cerca hoje em dia. Foi aqui mesmo que perdeu a vida um dos maiores ídolos da vela mundial : sir Peter Blake, que ao reagir a um assalto em Santana, próximo a Macapá, acabou sendo baleado mortalmente. Então, falando com o Almirante Marcus Vinicius, do Quarto Distrito Naval, de Belém, pedi a ele que meu veleiro pudesse ficar ancorado por aqui sob os cuidados da Marinha, e ele prontamente atendeu nosso pedido. Foi me indicado o comandante da delegacia da Marinha em Santana. Assim que chegamos ele veio ao nosso encontro, e nos escoltou até que fundeássemos o barco no trapiche da Marinha, próximo ao porto de Santana. É onde está neste momento o Mar Sem Fim e meu companheiro, imediato de bordo, o Alonso Góes, um dos mais experientes marinheiros do Brasil, velejador raçudo, competente, sem o qual eu jamais poderia me aventurar por onde ando, e além do mais, um apaixonado pelo ofício, daqueles dos velhos tempos, o Alonso .

    Fim da primeira etapa

    E é isto. Terminamos hoje a primeira etapa do sonho que está se tornando realidade, mapear, registrando em filme, foto e áudio, cada milha, cada vila, cada baía, rio, ou enseada da costa brasileira. E muito mais importante, poder disponibilizar este material para todos, através de um programa semanal na TV Cultura, em rede para o Brasil, todos os domingos, além de passar boletins para as Rádios Cultura AM e FM, e colocar ainda todo este conteúdo no site, contribuindo assim para que mais pessoas possam ver e tomar conhecimento de uma das costas mais bonitas do mundo, ainda que muito mal tratada, freqüentemente desrespeita, e sobretudo, desconhecida. Por que só a falta de conhecimento pode justificar uma ocupação tão danosa.

    Minha expectativa é que havendo o conhecimento, e a TV favorece muito isto, mais pessoas possam fazer sua parte: o governo planejando melhor a ocupação, disponibilizando mais e melhor infraestrutura. Os cidadãos contribuindo, seja não construindo onde não se deve, ou não poluindo quando freqüentam, seja, ainda, pressionando o poder público toda vez em que ele for omisso ou incompetente.

    Nossa próxima etapa será em Fevereiro, quando sairemos de Macapá em direção a Belém do Pará. Será uma viagem interessante. Vamos atravessar os 300 quilômetros da foz do Amazonas, passando entre a ilha do Marajó e o continente, através de furos, canais e rios, sempre parando em cada vila, para ver in loco as condições, e dar voz aos que nelas habitam, mostrando cada detalhe possível. Você poderá nos acompanhar através do site, da Tv ou do Rádio.

    Escreva, critique, pergunte, dê sugestões. Fazemos o que fazemos por que a costa brasileira, e tudo que existe nela, é um patrimônio- sériamente ameaçado- não só nosso ou de nossa geração, mas do mundo todo, e das próximas gerações também. Está mais que na hora de uma mudança de governança nos mares. Eles estão todos interligados, não pertencem a um governo ou país, mas a Humanidade. 71% da superfície do planeta é formado pelos oceanos, e a parte mais sensível deles, onde se origina 90% de toda a vida marinha, e 50% da BIODIVERSIDADE GLOBAL é justamente a orla marítima : o local onde a água encontra a terra. Maltratá-la, como vendo sendo feito, por ignorância ou omissão, significa decretar morte da vida no mar.

    Desde já você está sendo convidado para acompanhar nossa próxima etapa.

    Até breve.

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