De São Francisco do Sul para Itajaí – SC

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    Quarta- feira, 17- 01- 2007.

    Viramos mais um ano e entramos no terceiro em que estamos neste projeto. Foi em meados de 2004 que tudo começou. Por volta de julho/agosto o Mar Sem Fim deixou Santos e navegou para o rio Oiapoque onde se iniciaria a série. Em setembro de 2004, com o veleiro já em Recife, embarquei para subirmos até Natal, via Fernando de Noronha.

    Em seguida eu e o Alonso saímos da capital do Rio Grande do Norte, rumo ao rio Oiapoque, mais de mil milhas ao norte, tendo a bordo a companhia de Nádia Megonn. Foram onze dias de tranqüila navegada.

    Em dezembro fundeamos defronte ao município extremo do país e retornamos, em seguida, de avião para São Paulo.

    Um mês depois, com o calendário já registrando 2005, iniciamos as viagens e gravações. Nossa série entraria no ar, pela TV Cultura, dali a poucos meses, no primeiro domingo de abril daquele ano.

    De lá para cá gravamos 78 episódios deixando em nossa esteira mais de 5.300 milhas ao atravessarmos o litoral de 15, dos 17 estados costeiros brasileiros. Neste momento nos preparamos para encerrar esta fase do trabalho. Iniciamos, ontem, a reportagem sobre o antepenúltimo, Santa Catarina, e escolhemos começar pela baía de Babitonga, onde fica o município de São Francisco do Sul, no nordeste do estado.

    O último programa que fizemos, no ano passado, mostrou a baía de Guaratuba, no sul do Paraná. Reiniciamos a série, este ano, registrando o norte de Santa Catarina.

    A baía de Babitonga é famosa não só por abrigar a ilha, mas também o município de São Francisco do Sul, onde começou a colonização deste estado.

    O primeiro europeu a chegar aqui foi Binot Paulmier de Gonneville. Ele era um navegador e negociante francês que, ciente da descoberta do “Caminho das Índias”, por Vasco da Gama, em 1498, resolveu tentar a sorte nos negócios das especiarias. Armou um navio, o L’Espoir, com 60 tripulantes e partiu, em Julho de 1503, em busca das riquezas “do Oriente”. Do porto de Honfleur, na Normandia, seguiu para as ilhas Canárias, na costa da Espanha. De lá para Cabo Verde, possessão portuguesa, foi um passo. Em seguida rumou para sudoeste, cruzou a linha do equador e, então, percebeu que não seria tão fácil. Pra começar ficou boiando meses a fio enfrentando, ora monótonas calmarias, ora tempestades avassaladoras. Foi tamanho o suplício que acabou por desistir das especiarias, e do rumo que o levaria ao Cabo da Boa Esperança. Deu meia volta e navegou para o Oeste. O mesmo quadrante que, poucos anos antes, havia trazido Cabral às nossas costas.

    Em janeiro de 1504 Gonneville arribou na baía de Babitonga, um porto natural bem abrigado.

    Ali escreveu o primeiro capítulo da história deste pedaço do Brasil.

    E sua passagem daria um filme. A baía com suas águas calmas era aprazível, ideal para um demorado fundeio. Cercada por esplêndida Mata Atlântica e Serras, de onde nasciam inúmeros rios que nela desaguavam. Seus habitantes eram os índios Carijós que receberam com curiosidade e cordialidade os forasteiros. E eles aproveitaram para matar a sede e a fome e se entregaram aos “prazeres da carne”. Depois repararam o navio, curaram seus doentes, e recuperaram sua força. Passados seis meses, já em plena forma, abastecidos de víveres e, talvez, enfadados com a mordomia, abandonam a idéia de chegar às Índias e decidem retornar à Europa. Mas antes era preciso um troféu. Levaram a bordo o filho do chefe indígena, de nome Içá- Mirim, por eles chamado Essomeriq, prometendo trazê-lo de volta em “20 luas”.

    No retorno, mais uma vez, enfrentaram brutais dificuldades de navegação. Mas o pior estava por vir. Quase chegando em casa, já no Canal da Mancha, o L’Espoir torna-se alvo de piratas. Era demais. Seu comandante, alquebrado pela longa aventura, não encarou a luta. Preferiu mandar seus homens encalharem o navio. E depois da refrega desembarcou com o que sobrava da tripulação: menos de metade dos que saíram ou, 28 pessoas. Entre estes estava Içá- Mirim, àquela altura rebatizado como Binot, o mesmo nome de seu “descobridor”.

    Contam, os historiadores, que nosso herói Carijó casou-se na França com uma parenta do comandante. Ali viveu por mais de 90 anos, deixando como rastro 14 descendentes diretos. E nunca mais voltou ao Brasil.

    Quinta- feira, 19- 01- 2007.

    Em relatos passados eu já falei dos talentos da Paulina, esta chilena que conheci quando foi estagiária de jornalismo da Rádio Eldorado. Sim, ela é chilena, apesar de morena, nenhum sotaque e muito jogo de cintura.

    Suas qualidades eu conhecia desde 1998, quando entrou para a equipe da Eldorado. Naquela época as Rádios (AM e FM) tinham uma programação eclética eram inovadoras, engajadas e arrojadas. O meio ambiente, “no éter”, nunca antes havia recebido tamanho destaque. Lançávamos campanhas memoráveis, como a da limpeza do Tietê, ao mesmo tempo em que apoiávamos fervorosamente outras, como a causa da Mata Atlântica. E não púnhamos babaquice no ar. Trazíamos os debates para nossos estúdios e fazíamos, depois, a repercussão. Abríamos o fax para a Mesa da Câmara onde alguma lei ambiental estava para ser votada, e convocávamos nossos ouvintes a participar. Em poucos dias milhares de mensagens entupiam a presidência, e a opinião pública se fazia ouvir. Fábio Feldmann, ex- secretário de Meio Ambiente, de São Paulo, nos confirmou o efeito devastador das mensagens em diversas entrevistas. O tema crescia, a polêmica aumentava e atraía outras mídias. Ganhava espaço e mais notoriedade.

    Nesta época a turma da S.O.S Mata Atlântica não saía da emissora. Mário Mantovani tinha quase uma sala lá, ele que fora contratado justamente para cuidar do Núcleo União Pró- Tietê, que a Rádio e a S.O.S haviam criado.

    Paulina se formou neste meio onde logo se destacou pelo entusiasmo, engajamento, disposição pros trabalhos mais improváveis, e um bom humor constante. Mas sobre isto já falei. Então, agora, aproveito que ainda temos tempo e vou contando um pouco do perfil de cada tripulante. O lado da Paulina como produtora é fantástico! Desde muito que ela divide comigo as tarefas do programa. E em todas vai bem. Mas se superou na produção. Fuça, mexe, liga pra dezenas de pessoas. Consulta a enorme agenda. Faz pesquisas. E invariavelmente acha criaturas fabulosas em cada palmo da costa brasileira. Às vezes até eu duvido.

    Como agora, de novo, ao contatar a Ameca, ONG de São Francisco, através de Ana Paula Cortez, uma das fundadoras e atual vice- presidente.

    Estivemos com ela ontem de noite, conversando no pitoresco bar do píer do museu onde estamos atracados. E tivemos com sua atuação, sempre com muita dificuldade, mas cheia de grandes êxitos, mais uma prova de que vale a pena acreditar mesmo, e se, as forças parecerem díspares. Aos poucos vou contando. Vale apreciar cada bocado.

    Por ora o que importa é que combinamos ir até os confins do rio Palmital (lado norte da baía), juntos, esta manhã.

    Às 8hs a tripulação estava a postos, café tomado, equipamento em mãos, prontos para entrar em ação.

    Embarcamos no bote de apoio e fomos abastecer. No posto do Iate Clube, defronte ao centro velho, nos esperava a divertida portuguesa, há 30 anos radicada no país, Ana Paula. Ela é personagem principal no capítulo que trata desta etapa.

    Navegamos para o fundão da baía, guiados por nossa amiga, ao mesmo tempo em que ouvíamos as histórias das lutas que a ONG Ameca (Associação Movimento Ecológico Carijó) se meteu desde sua inauguração, em 1987. Ela é a mais antiga em atuação no município.

    Como sempre os problemas são graves. Para começar no extremo sul da ilha de São Francisco havia o canal do Linguado, que até o começo do século XX era a barra sul da baía de Babitonga. Mas ele foi aterrado para facilitar a passagem da estrada de ferro que usava uma ponte móvel, em mais uma ação do investidor norte americano Percival Farquar.

    Primeiro (1904) aterraram apenas uma parte do canal, a partir da ilha do Linguado que fica bem em seu centro. A outra ficou aberta e é por onde passava a ponte. A conseqüência desta alteração na geografia foi uma passagem menor para a vazão da água, mas uma correnteza muito mais forte. As águas passaram a erodir as margens assoreando o leito que era profundo. E o processo não parou mais. Sem outra solução resolveram, então, em 1935, fechá-lo de vez.

    E até hoje é assim, só que por cima do aterro não passa mais o trem, mas a estrada de rodagem que liga São Francisco a Joinville. A ilha não é mais uma ilha.

    Toda a baía mudou. O aterro alterou completamente o sistema de circulação da água. Hoje sua profundidade média não passa dos 6 metros, e há comunidades que quase ficaram isoladas. Araguari é uma delas, onde vivem muitos pescadores artesanais. Ali a lâmina d’água é tão rala que só conseguem sair de barco em marés muito altas.

    Fechando uma das vias para o mar, a baía passou a ser menos irrigada, ao mesmo tempo em que começou a reter mais as impurezas que chegam a ela através das quatro grandes bacias (rios Cubatão, Palmital, Cachoeira e Parati), além de outras menores que também despejam suas águas.

    A poluição vem de várias fontes distintas: rejeitos industriais, humanos e da agricultura através de fertilizantes e agrotóxicos.

    Já foram constatados níveis acima do limite máximo permitido para metais pesados como cromo e zinco. A contaminação química também já foi constatada com altos níveis de mercúrio, nitrogênio e cádmio (Fonte: livro Povos e Águas, de Antonio Carlos Diegues). E tudo vem da mesma origem: Joinville com seu pólo industrial (um dos maiores do Sul) e seus 420 mil habitantes (menos de 20% das residências contam com esgotos tratados. Fonte: IBGE ano 2000). Os rejeitos da cidade são lançados diariamente na baía através dos rios Pirabeiraba e Cubatão.

    Os agrotóxicos vêm das culturas nas terras adjacentes, especialmente em Joinville, Araguari e Garuva. Para encerrar ainda há um porto (entre os dez maiores do país em movimentação de carga), e um terminal de recebimento de petróleo através de uma monobóia, fundeada cinco milhas barra afora. De lá uma tubulação traz o óleo até a ilha onde é feita a separação da “água de formação”, num centro da Petrobrás e, em seguida, o óleo bruto é enviado para a refinaria de Araucária, no Paraná, via oleoduto.

    O problema é que desde sua instalação nos anos 70, e até o início dos anos 90, a Petrobrás jogava a “água de formação” no rio Acaraí que corre dentro da ilha. Até que a Ameca entrou na Justiça contra o abuso. Examinaram e provaram a contaminação da água. Custou um certo tempo, deu trabalho e exigiu muito empenho, mas trouxe resultado: eles ganharam a causa e obrigaram a empresa a parar com a prática.

    Ana Paula nos contou sobre inúmeras batalhas judiciais. Além da Petrobrás denunciaram loteamentos e condomínios em áreas irregulares, obrigaram a Vega do Sul a colocar um emissário virado para o mar, para seus rejeitos industriais (a empresa queria jogá-los dentro da baía), e conseguiram até mesmo a façanha de algumas demolições de construções impróprias, uma delas envolvendo o filho do prefeito. Mas não é tudo. Processaram a própria prefeitura de São Francisco do Sul (32 mil habitantes e menos de dez por cento das residências com esgoto tratado, de acordo com o IBGE) por causa da omissão com o saneamento básico ( na ocasião a Ameca fez um levantamento de diversas irregularidades sanitárias, alguns exames, fotos e abaixo-assinados que fundamentaram parte da ação da Promotora Pública Dra. Simone Schultz ) . E, pasmem, ganharam outra vez. E tudo com uma equipe mínima e sem receberem doações. Nem um site a Ameca tem. Perguntei se não denunciavam para os jornais. “Não adianta, eles não publicam. Se o fizerem perdem os poucos anúncios da prefeitura”.

    Sim eles têm poucos recursos. Mas têm de sobra, no entanto, exemplos de como se pode praticar cidadania. Ana Paula e seus companheiros denunciam, e municiam, freqüentemente o Ministério Púbico. Às vezes ensinando o be-a-bá para alguns de seus pares. Mas colhem, depois, excelentes resultados.

    “Quem quiser contribuir com o meio ambiente tem que mudar seus hábitos”, este é o conselho básico apregoado por nove entre dez ambientalistas. Foi o que fizeram, Ana, e os outros cinco fundadores da Ameca. Agora, com suas vitórias apontam um dos caminhos possíveis. Vamos divulgar seu exemplo. E com isto favorecer a geração de outros.

    Estas são as pressões que sofre a baía de Babitonga, com seus 1400 km2, inúmeras ilhas (a maior é a de São Francisco, com cerca de 300 Km2), e vários ecossistemas. Só de mangues há 6.200 hectares, o que faz deste o maior manguezal do sul do país. E ainda há praias, ilhas, restingas, áreas alagadas, mata atlântica e dunas.

    Em nosso passeio pudemos observar alguns deles. O mangue está bem preservado, mas já há vários “buracos” na mata mais para trás, que cedem lugar para roças, algum pasto e, especialmente, a cultura da banana.

    Nos últimos quilômetros navegáveis do Palmital, já bem próximo do município de Garuva, há também algumas pousadas que, para se estabelecerem, não pouparam o mangue. Aterraram, ergueram muros de cimento em volta do leito, construíram rampas de cimento para descerem seus barcos, tudo de forma irregular. Não são muitos nem a área detonada é muito grande. Mas é um mau começo para o turismo que se quer ecológico.

    De volta à baía pudemos ver algumas casas irregulares construídas sobre costões rochosos na beirada de algumas ilhas. Mais uma vez as pessoas da cidade, as mais instruídas, dão o pior exemplo. Compram posses e, depois, erguem enormes casas de veraneio cuja preocupação em adaptar sua arquitetura ao estilo local é igual a zero. E assim pedaços da maravilhosa paisagem que demorou milhares de anos para se formar, e que pertencem à coletividade, herança que recebemos das gerações anteriores, são impiedosamente apagados. Alterados para o pior. E para sempre.

    Voltamos para o Mar Sem Fim no final da tarde.

    Como de costume ele está cheio de visitantes. Todo dia é assim. As pessoas vêm até o museu, depois passeiam pelos arredores. E dão de cara com o Mar Sem Fim. Então vêm a bordo, entram na cabine, tiram fotos, fazem a festa. Alonso é o cicerone da equipe. Aqui, em São Francisco, ele vive cercado de fãs. É muito gostoso.

    Sexta- feira, 19 de janeiro de 2007.

    Hoje tive uma péssima notícia. Dalmo Viera Filho idealizador e, primeiro diretor do Museu Nacional do Mar, não poderá vir como estava combinado.

    São Francisco do Sul, como contei no último diário de bordo, tem o privilégio de abrigar este fantástico Museu. Em seu acervo, único na América Latina, existem cerca de 50 tipos de embarcações tradicionais entre cúteres do Maranhão, saveiros da Bahia, jangadas de piúba, e dezenas de tipos de canoas, além de traineiras, baleeiras, botes, bianas, igarités etc. Ele é o resultado da obra de Dalmo, um visionário, apaixonado por embarcações típicas e os mistérios de sua construção, conhecidos apenas pela memória de artesãos, carpinteiros, calafates e outros mestres que, ao longo do tempo, foram adquirindo estes saberes. Até que o progresso chegou e, em alguns casos, amputou sua arte. Para preservá-la Dalmo, com auxílio do Iphan, da prefeitura de São Francisco, e de outros abnegados, conseguiu erguer o Museu no inicio dos anos 90.

    Ele é uma beleza. Abriga não só os barcos originais, como apetrechos dos pescadores, seus principais usuários. E ilustra com mapas que mostram a região onde foram feitos e utilizados, acrescentando informações sobre sua construção. Ainda no acervo destaco uma coleção de miniaturas perfeitas, obra de vários artesãos, que consegue trazer de volta até mesmo modelos que hoje estão extintos.

    Outro barco emblemático em exposição é o Iat, o barco a remo com que Amyr Klink atravessou o Atlântico Sul, aproveitando as correntes, os ventos e seus profundos conhecimentos náuticos. Klink celebrizou seu nome ao provar a tese, e atravessar o Atlântico não pela distância mais curta geograficamente, mas utilizando a rota com as melhores condições de correntes e ventos, mesmo que para tanto tivesse que percorrer algumas centenas de milhas a mais. Era a rota que ele chamava de “estradas invisíveis”, como explica em seu livro Cem dias entre o Céu e o Mar.

    Ouve uma confusão de datas ao marcarmos por telefone a entrevista. Agora, me avisa o atual diretor, Dalmo não poderá vir. Uma pena. Nosso programa ganharia com ele.

    Mas o dia de hoje, de qualquer modo, estava reservado a outra exploração. Desta vez, acompanhados da bióloga Marta Cremer, iríamos percorrer o outro lado da baía. Ontem navegamos para o norte, hoje iremos para o sul. Vamos com o bote até a barragem do Linguado enquanto conhecemos o trabalho desta especialista nas Toninhas, a menor espécie entre os golfinhos, e a única da família dos cetáceos a constar da lista do Ibama como ameaçadas de extinção, e que, curiosamente, escolheram o estuário de Babitonga como moradia (botos cinzas também freqüentam a área).

    Porque justamente aqui, perguntei? O que tem esta baía de tão especial para ser habitat das Toninhas?

    “Boa pergunta”, responde Marta. “Mas não temos ainda uma resposta”. Em seguida ela conta que elas têm hábitos muito discretos, “são animais primitivos, da mesma família dos botos-cor-de-rosa”. São também os menores em tamanho, com seu peso oscilando entre 60 e 80 quilos. O formato do “rosto” é ligeiramente diferente: “bem comprido, alongado, com muitos dentes. E têm uma nadadeira dorsal muito pequena”.

    Marta explica que, “por terem um comportamento discreto a observação fica muito difícil” e, em conseqüência, “pouco ainda se sabe sobre seus hábitos”.

    O que vale é que este é o único estuário freqüentado por um pequeno grupo de indivíduos que não passam de meia centena. E mais uma prova da rica biodiversidade biológica da Babitonga. As Toninhas também são encontradas no mar. Elas se espalham entre a costa do Espírito Santo até a Argentina. São também conhecidas como Cachimbo, ou Boto Amarelo.

    Saímos cedinho, como sempre, debaixo de muito sol e calor, amenizados pelo toldo do bote, e pelo vento provocado pela velocidade.

    Ao navegarmos para o oeste, para o fundo da baía, passamos em frente a uma torre da Vega do Sul, empresa que lamina aço, instalada no entorno. Lembrei de Ana Paula. Ela nos contou que a empresa também pretende construir um terminal próprio, ou seja, um pequeno porto, para poder escoar mais rápido a sua produção. E este não é o único.

    O segundo porto na baía já foi aprovado, fica em Itapoá, mais ou menos em frente ao atual, e será um porto basicamente de contêineres. Além destes, há o projeto da Vega do Sul, e ainda outro, para a região de Laranjeiras, uma linda e pacata sub- baía, quase no fundão da principal.

    Se houvesse um campeonato de ameaças Babitonga não teria concorrente. Para a sorte de todos, e felicidade dos ambientalistas, parece que estes dois novos portos têm pouca chance de terem seus projetos aprovados.

    Correndo em paralelo está um projeto que Marta nos detalhou. Uma “parceria”, pode-se dizer, entre a Universidade Federal de Joinville e o Ibama, para transformar a região numa Reserva

    de Fauna.

    A Univille desenvolveu estudos e os passou ao Ibama. Este encampou a idéia e já encaminhou a proposta (fevereiro de 2005) para criação de uma Unidade de Conservação na categoria Reserva de Fauna (já fizeram duas consultas públicas). A área a ser protegida engloba toda a lâmina d’água (menos o porto de São Francisco instalado há mais de 40 anos e a área frontal da cidade), os mangues e a costa adjacente até a isóbata (linha que marca as profundidades na carta náutica) de 20 metros.

    Continuando nosso passeio chegamos ao fundo da baía que estava forrada com centenas, talvez milhares, de biguás. Nunca vi tantos como agora. Nos aproximamos bem devagar. Não queríamos assustá-los. E eles se deixaram mostrar. Mas basta um levantar vôo para uma interminável fila decolar em seguida. É bonito assistir. Estas aves têm um jeitão gozado, meio estabanado. Decolam com dificuldade, quicando na água, jogando borrifos para os lados, voando em formação rasante e muito próximas umas das outras. Show particular.

    Dobramos à esquerda, passamos defronte uma pequena vila de pescadores, desviamos de baixios que não víamos, sempre guiados pela Marta, até nos aproximarmos da ilha do Linguado. Então assistimos à segunda parte do espetáculo: um pequeno grupo de Colhereiros, empoleirados numa árvore do mangue. Mais uma vez me aproximei lentamente e desliguei o motor. Ao longe escutávamos pios de diversas Arapongas ecoando pela mata.

    Enquanto ouvíamos a sinfonia fotografamos e gravamos os pássaros com suas penas cor-de-rosa e o peculiar bico em formato de colher. Ficamos uma boa meia hora apreciando sua beleza e curtindo os sons que vinham de longe.

    Mais adiante ainda tivemos a sorte de passar por outro grupo de aves, os Ostreiros, com seus bicos vermelhos vivos.

    Até que chegamos ao limite de nosso calado, deixando de avançar até a barragem por umas duas milhas. Mas daquele lugar podíamos ver a estrada com carros e caminhões cruzando. Uma pena a demora na decisão de abri-la novamente.

    Marta e Ana Paula explicaram que não há quem conteste a abertura, apenas se discute como fazer. Talvez mantenham fechado o canal norte e abram apenas o do sul.

    Enquanto decidem a melhor opção, trabalham conscientizando as populações do entorno da baía, informando que nem todos os problemas acabarão. Haverá suspensão e turbidez da água por alguns anos. A poluição não desaparecerá, nem a variedade ou quantidade de peixes voltará a ser como no passado. Ainda assim a abertura e a instalação da reserva são notícias auspiciosas.

    Ainda era cedo quando terminamos nosso passeio. Então deixamos Marta na cidade e fomos experimentar a comida do Restaurante do Helias, do outro lado da baía, já que queríamos entrevistar o proprietário. Seu Helias é ex-pescador, nativo, e mais um que aderiu à maricultura mantendo criadouros de ostras e de mariscos.

    Como sempre, de tarde entra o vento Leste/ Nordeste, com seus 12 até 15 nós, o suficiente para agitar o mar e levantar pequenas ondas. Mas o vento também refresca todo o ambiente.

    Atravessamos a baía, deixamos o bote no trapiche defronte ao restaurante, e escolhemos uma mesa debaixo da copa de um enorme Chapéu-de-sol. Ali, protegidos por aquela sombra, com vista para São Francisco, e em linha reta para a brisa marítima, almoçamos e entrevistamos nosso personagem. Foi uma tarde agradabilíssima, não temos do que reclamar.

    De volta ao Mar Sem Fim eu estava fazendo a sesta no cockpit quando percebi um burburinho no píer. Acordei. Era uma fã do programa que não abria mão de fazer uma foto ao lado do “comandante”.Lá fui eu, rapidinho, devolver a gentileza que me fazem os telespectadores.

    Sábado, 20- 01- 2007.

    Ontem o sol estava contra nosso avanço, enquanto nos aproximávamos da barragem. Não deu pra registrá-la como queríamos. Vamos retornar hoje, de carro, de modo a fazer novas tomadas para mostrar com fidelidade a obra que foi feita. De quebra vamos até a praia, em Barra do sul, ver sua ocupação e a entrada do canal.

    A região da barra do canal já está bastante alterada pela ação humana. A praia é extensa e limpa apesar da alta freqüência. Mas inúmeras construções foram feitas em áreas móveis. Justamente as que dão frente para o mar, as mesmas que sofrem a maior ação dos ventos, correntes e ondas, das marés, das chuvas e do gradiente do solo, entre outros fatores (como a especulação imobiliária) que, aos poucos, vão erodindo, recortando e reescrevendo o contorno do litoral. É por estes motivos que as fozes dos rios são móveis. Numa temporada estão aqui, noutra acolá. Isto explica porque estas áreas sensíveis são protegidas e não devem ser ocupadas. Sua fragilidade, importância para a vida marinha e, sobretudo, mobilidade são impeditivos naturais. Mas o cara- pálida insiste. E faz merda.

    Apesar de mais este exemplo de que não se deve alterar o curso de rios, nem construir perto das areias da orla, no Brasil da costa este problema é recorrente. Aqui, em Iguape, nos rios da Baixada Fluminense, ou nas barragens que fizeram ao longo do rio São Francisco a conseqüência é sempre desastrosa: erosão, assoreamento, diminuição da biodiversidade, agravamento da crise social. Já era hora de aprendermos e respeitarmos as curvas, contornos e desníveis que a ação do tempo provoca na natureza. E não alterá-la ainda mais. Se contribuir para isto, então, o desmonte da barragem do Canal do Linguado terá sido uma dupla vitória.

    Depois do passeio da manhã almoçamos na cidade e retornamos para bordo. Eu tinha uma dura tarefa pela frente: retomar o diário de bordo.

    Às vezes é fácil, ele sai de um só jato. Noutras cada palavra cobra um preço. As frases não se ajustam. Idéias custam a brotar. E, a cada linha arrancada do computador, aumenta o medo da mesmice e da falta de objetividade. Nestes casos o esforço para um mínimo de originalidade e, fidelidade, atinge proporções cavalares. Passo horas na cabine, uma espécie de sauna seca, sentado à mesa de navegação, computador aberto na frente, experimentando as possibilidades.

    É o caso deste vigésimo nono diário. Ele tem dado mais trabalho que a capacidade do redator.

    As férias de fim de ano não me fizeram nada bem.

    Domingo, 21 de janeiro de 2007.

    Esta madrugada maldisse o Alonso. Estava dormindo pesado quando, às cinco, explodiu na cabine o barulho do motor. Olhei pela gaiúta e vi negrume lá em cima. Fechei-a. Virei pro lado, como se não fosse comigo, e tornei a dormir.

    Estávamos desatracando. Uma hora depois levantei. A barra estava em nossa proa. Eu deveria gravar uma passagem.

    Meio zonzo escovei os dentes, vesti a camisa, tomei um café e saí. Cardozo já estava esperando, eu havia combinado com ele.

    Mas lá fora também estava um coadjuvante inesperado: vento sul com até 25 nós de velocidade. Justamente contra nossa navegação de 60 milhas até Itajaí.

    Desistimos. Não vale a pena contrariar a natureza. Se ela não quer nosso avanço melhor não insistir.

    Esta é mais uma lei, não escrita, que cobra caro daqueles que a desrespeitam.

    Demos meia- volta. Às 10 horas atracávamos no trapiche do Museu.

    Sentei de novo à mesa de navegação de onde só saí para comer, e para breves descansos ao longo do dia. E é onde estou até agora, 22h 40.

    Tentaremos sair novamente.

    Segunda- feira, 22- 01- 2007.

    Hoje Alonso não se deu ao trabalho de ligar o motor . Quando acordou olhou pro céu e viu nuvens correndo de um lado pro outro. Com a experiência percebeu que o vento sul ainda era forte. E deixou a gente dormir.

    Mas às 10 h da manhã pegamos um táxi e viemos para Itajaí, segunda perna desta etapa, e segundo programa a ser feito. Tínhamos várias entrevistas agendadas. Melhor fazê-las agora.

    Depois retornamos, trazemos o veleiro e faremos as gravações do trajeto. Em São Paulo, na ilha de edição, montamos o programa.

    Itajaí está para a pesca como Hollywood para o cinema. Por isto passamos a tarde com o pessoal do Ibama, no CEPSUL, Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul.

    E aprendemos mais um pouco.

    Fomos recebidos por Luiz Rodrigues, chefe da autarquia nos últimos quatro anos.

    A região do Vale do Itajaí responde por 40% da produção de pesca no país. Dados recentes. A fonte é o SINDIPI (Sindicato das Indústrias de Pesca de Itajaí e Região).

    Ao começar a conversa quis saber como o Ibama encara as recentes pesquisas de cientistas, publicadas pela revista Science, de que a partir de 2048 as populações de peixes e outros animais marinhos, como moluscos, entrarão em colapso caso a tendência de pesca e destruição de habitats continue no mesmo ritmo. O estudo, que ultrapassou o universo acadêmico e repercutiu na imprensa internacional, mostra que 29% da vida marinha, incluindo pássaros, plantas e microorganismos já atingiram este estágio. E os cientistas acreditam que em 2048 TODA a vida marinha estará na mesma situação. Vai diminuir drasticamente. Algo como 90%!

    Mas minhas indagações sobre as políticas do órgão para enfrentar ou amenizar, caso a hipótese venha a se confirmar, não receberam troco.

    Transpareceu que não existem. Vale dizer : a catástrofe é real, se avizinha e o Brasil oficial não tem nada a dizer sobre este desafio (provocado justamente por generalizada escassez mundial de políticas de exploração marítima e ocupação da orla).

    Segui em frente. Não é novidade a falta de planejamento por certos setores do Poder Público. Resolvi cuidar do picadinho que, por se tratar de Santa Catarina e pesca, não é pouca coisa.

    O sindicato nos municia com números impressionantes: só em Itajaí e Navegantes são produzidos mais de um milhão de enlatados por dia. O esforço de pesca é comandado em média por 250 armadores com 700 embarcações. O conjunto produz 15 mil empregos diretos e 50 mil indiretos. As maiores indústrias do setor estão baseadas em Itajaí. Juntas tiram dos mares 220 mil toneladas por ano.

    Não se impressione. O número já foi bem maior. Só em sardinhas, na década de 80, tiravam 120 mil toneladas.

    Expliquei em diários anteriores que nós temos um grande litoral com pequena biomassa pesqueira. Os nossos são mares tropicais, menos ricos em nutrientes que os temperados. A conseqüência é a diminuição da biomassa pesqueira. A exceção é a foz do Amazonas, cuja fonte de riqueza é óbvia, e o litoral daqui até o Rio Grande do Sul.

    Os mares brasileiros só têm biodiversidade grande. Leia-se variedade de espécies. Mas o volume das que interessam à indústria pesqueira, ou sua biomassa, é pequeno.

    E ainda não faltam conflitos nas esferas do poder, interesses antagônicos no setor produtivo, que também “chia muito” segundo diz, o loby do poder econômico, e rusgas entre os pescadores artesanais e industriais. Continua faltando ao Ibama, entretanto, recursos, estrutura, políticas definidas, equipamentos e pessoal, além de leis eficazes, daquelas raras que se podem cumprir.

    Por isto nas palavras do chefe, ainda em off antes de gravar, “a pesca no Brasil é uma esculhambação total”.

    Não temos dúvida. Desta pantomima estamos cansamos (de ver e denunciar). Interesses tacanhos e frivolidade nas políticas públicas dão nisto. Todo mundo sabe. Resta tentar entender.

    Questionei o arrasto e a resposta foi um petardo (ainda na conversa em off): “é mais fácil extinguir o Ibama que acabar com o arrasto”.

    E quanto à fiscalização, especialmente sobre a distância da costa em que o arrasto é praticado em cada estado (cada um determina a distância mínima que varia entre uma e três milhas), perguntei?

    “Não temos como manter uma fiscalização ostensiva ou intensiva”. E antes que eu repicasse emendou: “falta gente e equipamento”.

    Mas, insisti, de quem é a responsabilidade?

    “Nossa”.

    Reconhecimento, ao menos isto, eu consegui.

    Procurei separar o assunto pela geografia. Sugeri perguntas sobre a pesca oceânica, antes de entrar na costeira, o forte daqui.

    Luiz chamou um assessor que não soube responder a nenhuma delas. Não sabia o volume capturado nem o tamanho da frota nacional. Muito menos a parte que nos cabe nos cardumes migratórios, especialmente atuns e afins, e ignorava a quantidade de barcos com bandeiras de outros países fretados a armadores nacionais. Mas tartamudeou sobre uma conferência internacional em que estava presente, junto com outros especialistas patrícios. E confidenciou que talvez eles pudessem responder. Foi solícito. Prometeu dar seus nomes e telefones. Saiu em seguida sem dizer a que veio.

    Continuamos.

    Mudei o enfoque e a área geográfica, e tentei novamente: quis saber do colapso da sardinha e da tainha, ambas costeiras, e ainda importantes no sul e sudeste, apesar de sobrexplotadas.

    O primeiro assunto foi a sardinha. Ela, que já representou 120 mil toneladas num ano, teve uma queda assombrosa cujo ápice foi 17 mil toneladas em 2000. “Hoje rezam para a safra chegar nas 40 mil toneladas/ano”.

    E discutimos sobre os motivos do colapso. Poluição urbana e industrial, ocupação predatória da costa, defensivos agrícolas, desaparecimento de habitats, aquecimento global, a lista é enorme. Mas deve incluir também omissão do Estado. Em seguida exploramos outra vertente, a da tecnologia que a cada momento se aprimora e aumenta a eficiência da pesca. Para Luiz, de todas as novidades incorporadas, a mais prejudicial seria o “power block” ou, o sistema hidráulico de puxar rede.

    “Desde que a frota pesqueira passou a usá-lo começou a ser mais rápida em cada passada, o que proporcionou que jogassem a rede mais vezes por pescaria”. “E além disto elas passaram a ser muito maiores que as manuseadas pela força humana”.

    Não há dúvidas. O tamanho dos mares é o mesmo há milênios. Mas cresce a quantidade de barcos e aumenta a tecnologia neles aplicada.

    Além dos outros milhares de problemas ambientais, a falta de leis e normas, ou o desrespeito das que existem, também são fatores relevantes. E tudo em conjunto resulta na diminuição assustadora que se percebe. Isto é velho. Novo seria ter uma resposta oficial para o fenômeno.

    Agora giramos para a outra ponta desta cadeia. A produção e seus conflitos. Os pescadores de atum (industriais) também contribuem para o sumiço da sardinha. Desde que a pesca de alto- mar começou, faz poucos anos, enormes atuneiros vão atrás de sardinhas juvenis para servirem de isca viva. Eles investem contra enseadas procurando cercar os cardumes, o que os coloca contra os interesses dos pescadores artesanais que vivem de explorá-los. Quando sai para o alto-mar um atuneiro pode levar até um milhão de iscas vivas, ou sardinhas ainda em fase de crescimento.

    Além de tirar a comida da enseada ou “quintal” dos pescadores artesanais, ainda contribui para piorar a situação de inúmeras outras espécies, porque as sardinhas também são a base da cadeia alimentar para diversas delas. É bom saber que os cardumes migratórios de atuns e afins são abundantes na costa brasileira. E para este tipo de conflito e ameaça há poucas sugestões.

    Fácil, sabemos que não é. Mas alguém tem que fazê-lo. E este papel muitas vezes cabe ao Estado.

    O próprio chefe do Ibama, em certos momentos, criticou as poucas políticas oficiais como a da pesca do peixe- sapo, em alto- mar, porque “ ele demora de 7 a 9 anos para atingir maturidade, o que é muito demorado”. Ou a pesca fica antieconômica em pouco tempo, ou os armadores extinguem os cardumes da espécie.

    Rodrigues foi explícito ao citar as dificuldades e incoerências com que tem que lidar no mundo oficial. E explica : “Veja-se o caso do Atum. A responsabilidade das espécies subexplotadas, como o Atum, é da SEAP (Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca). Já quem cuida das espécies sobrexploradas, como a sardinha, somos nós: o Ibama”.

    Então, como agir neste caso? Ganha um doce quem desfizer o nó.

    O próprio chefe do CEPSUL conclui: “Isto é um imbróglio”. E completou: “é muito difícil avançar, envolve interesses econômicos fortes”. Ele tem razão.

    Como resposta o órgão desenvolve a criação de iscas vivas em cativeiro. Processo longo, caro e demorado. Enquanto procura não se envolver no conflito entre industriais e artesanais.

    O problema das licenças de pesca é outra bagunça. Alguns têm licença para arrastar camarão, outros para peixes. Mas quando não há camarões os primeiros arrastam peixe. E quando não há peixes os detentores deste tipo de licença arrastam camarão. Deu pra entender? Ou seja, sem fiscalização, é o salve-se quem puder. Vale tudo.Agora que a coisa está preta, onde houver um cardume economicamente viável, a indústria da pesca o ataca impiedosamente. E isto acontece a toda hora. É esta nossa realidade no mar. Segundo Rodrigues a “única frota fiel é a do camarão sete barbas”.

    Bom, e aí, perguntei? A baderna vai continuar? Quando estávamos gravando, ele explicou um plano cheio de detalhes para “ rever todo o modelo de pesca no sul e sudeste”. E, sem muita convicção, mas resignado em apresentar algo que sabe que não vai “pegar”, explica que pretendem separar o espaço marítimo por zonas, e licenciar apenas determinados tipos de barcos para cada uma.

    A impressão que tive é que o tal plano não altera rigorosamente nada, mesmo se por milagre for implantado. É igual aos “grupos de trabalho” que ouvimos falar em Brasília: bazófia, cascata.

    Ah, o governo Lula instituiu uma política, sim. A do salário defeso, quantia que é paga pelo Estado ao pescador na época do impedimento da captura de determinada espécie. Sobre ela, sempre antes da gravação, disse Luiz Rodrigues: “É a maior sacanagem”. “Depois da medida apareceu pescador em tudo que é lugar”. “Ninguém pára de pescar e todos continuam ganhando”. Ok, anotado.

    Para encerrar perguntei o que era pior: se a falta de dinheiro para investir em pesquisa, gente e equipamentos, ou se a falta de vontade política para com o setor.

    Ele foi sincero, como sempre, é preciso dizer. Ao longo da entrevista foi também sarcástico algumas vezes, e irônico em outras. Mas a esta pergunta não veio com tatibitates. Respondeu na lata: “Falta tudo, João. Dinheiro e vontade política”.

    Mudamos de sala, e de entrevistado. Fomos conversar com Ana Maria Torres Rodrigues, analista ambiental, responsável pelo setor de ordenamento pesqueiro.

    A maricultura no Brasil ainda é pouco estudada e desenvolvida. E é uma atividade complicada não só aqui mas lá fora também. Ainda assim do pouco que se faz a costa de Santa Catarina representa 90% da produção brasileira.

    As modalidades mais significativas são o cultivo da ostra, do mexilhão, e um pouco de vieira e algas. E a carcinicultura, que ela também abomina.

    Ana fez um sobrevôo e fotografou a área da baía de Babitonga, próxima ao Canal do Linguado, onde começam as obras de uma fazenda de criação de camarões. A devastação é impressionante. Ela disse que vai estudar a questão e, se confirmar que acontece em área de mangues, o Ibama vai embargar.

    “O litoral de Santa Catarina está sendo degradado com uma rapidez muito grande”. E “há conflitos de uso em toda a sua extensão”.

    Ela reclama da intensidade do turismo de segunda residência, e confirma que “as prefeituras não impõem e, às vezes, não obedecem regras ambientais, permitindo ocupação em áreas impróprias como restingas, dunas e mangue”.

    Pergunto a quem compete dar as licenças para a maricultura. Ela explica que é o FTMA ( corresponde a secretaria de meio ambiente no estado), e que o Ibama “só age em denúncias”.

    Em seguida Ana discorreu sobre como começou a maricultura no Estado, na década de 90, com os cultivos se instalando e operando sem regularização. Como nunca consegue planejar, o Estado corre atrás do prejuízo. E para colocar a casa em ordem, o CEPSUL se propôs a fazer um levantamento de todos os produtores de moluscos para descobrir qual tipo cultivavam, e que tamanho de área ocupavam. Em seguida tentaria ordená-los. E pediu que os empreendedores preenchessem cadastros com a localização da área ocupada e outras especificações. 750 deles compareceram.

    De posse dos dados foram a campo checar. Descobriram que a vasta maioria havia feito “reserva de espaço para futuro crescimento”, ao marcarem no papel “espaços muito maiores dos que na realidade ocupavam”.

    Como que para dar-lhes uma lição, o CEPSUL provocou uma reunião. E ali, na frente de todos, comparou os dados reais com os informados, mostrando que a maioria incorrera no crime de falsidade ideológica reservando “áreas de domínio da União até cem por cento desocupadas”. Em seguida fez um parecer técnico e encaminhou ao Ministério Público Federal. Por sua vez o MPF fez a denúncia à polícia, para que ela abrisse um inquérito civil.

    Uma parte dos produtores assinou um TAC, termo de ajuste de conduta, e com ele pode continuar com seus cultivos “temporariamente”, até que se acertem de vez com o Ibama.

    E com este episódio outro conflito explodiu, desta vez com a Universidade, a Univalli, que promovia cursos, trabalhava sementes, enfim era o apoio técnico dos produtores.

    Ana explica que este tipo de cultivo acontece em “toda a costa do estado, especialmente no norte, centro norte e centro”. Os dois últimos são os mais densamente povoados, abrigam Florianópolis, por exemplo. Acontece que são “organismos filtrantes” que “estão sendo cultivados em águas já comprometidas pela poluição especialmente a falta de saneamento”. “O risco para a saúde pública é grande”.

    Ela explica que é comum haver problemas, como agora, quando detectaram nova Maré Vermelha na região da capital. “Isto acontece justamente no verão porque nesta época mais pessoas vêm ao litoral. O saneamento, que já é fraco, entra em pane, e mais dejetos humanos vão parar no mar. Ainda há as temperaturas elevadas que fazem com que chova mais, aumentando a carga orgânica nas baías e enseadas. Tudo isto provoca uma proliferação desordenada de certas algas que fazem parte do fitoplânton, entre elas as que produzem toxinas nocivas à saúde, ou Maré Vermelha…quando acontece é preciso embargar as produções de moluscos, deixá-las em quarentena, e impedir a população de consumir estes produtos “porque correm risco de ter problemas neurológicos, gastro- intestinais, e até mesmo tumores no aparelho digestivo”.

    Alguém disse que era fácil ?

    Com o tempo falamos mais destes pepinos. O dia já estava acabando, era hora de voltar ao hotel.

    Terça feira, 23- 01- 2007.

    Hoje vamos conhecer mais de perto a cadeia da produção e seus macetes. Temos entrevista agendada com o presidente do SINDIPI, Antônio Carlos Momm.

    Com ele também, comecei indagando como o setor encara a previsão de hecatombe feita pelos cientistas sobre a pesca profissional a partir do ano de 2048.

    “Quem são os grandes vilões? O setor produtivo, que tem interesse em sua perenidade, ou o aterramento de mangues, a poluição industrial, a falta generalizada de saneamento básico, as casas de veraneio em locais impróprios, ou o governo, que nunca fez um levantamento sério e abrangente sobre a atividade”?

    Todos, pensei. Mas investi em outro tema e perguntei o que faz este espaço do litoral representar 40% de todo pescado nacional.

    “Nossa plataforma aqui é bem extensa, além disto a costa brasileira tem duas correntes, uma quente (Corrente do Brasil, desce a costa no sentido norte sul), e outra fria (Corrente das Malvinas, que sobe da Antártica em sentido contrário) e ambas se encontram na altura de Santa Catarina. Isto explica a biomassa pesqueira superior”.

    Segundo Momm é por isto que estes mares “concentram até hoje a maior quantidade dos cardumes migratórios, ainda disponíveis, de atum e afins”.

    E quanto às políticas públicas em relação à pesca, como o SINDIPI as avalia?

    “Sobre isto não posso falar: não há políticas para a pesca”.

    E com a declaração escancarou novo conflito: do setor produtivo versus o Estado.

    Antes de explorar a polêmica perguntei quanto representa, no todo, a pesca costeira (artesanal ou industrial), e a pesca oceânica. “ 80% vem da costeira”.

    Quis saber sobre a criação da SEAP no governo Lula.

    “Agora não ficamos mais correndo de órgão para órgão, de um Ministério para outro, o que é melhor. Mas a SEAP não fez um levantamento nem tem um banco de dados, trabalhou com informações aleatórias. E não existe uma política de governo”.

    OK. Vamos falar da pesca oceânica. Quando ela começou no Brasil?

    “Faz 8 a 10 anos”. Quais as espécies mais visadas? “Atum e afins, além de caranguejos, namorados, congro- rosa , peixe- sapo, e outras”.

    E qual o maior problema desta modalidade? “O conflito entre barcos estrangeiros e os nacionais”. Mais um…

    O Brasil ainda não domina a tecnologia de pesca oceânica, nem tem uma frota de barcos à altura deste desafio. Ao mesmo tempo a pesca de cardumes migratórios é discutida, regulamentada e administrada, em um fórum internacional, o ICCAT (Comitê Internacional para a Conservação dos Atuns no Atlântico), um acordo internacional do qual o Brasil é signatário junto a outros 30 países e segue, ou deveria seguir, as recomendações deste organismo, o mesmo que estipula a quantidade a ser capturada por cada país.

    Mas, se não temos os barcos próprios, modernos, mortíferos, caríssimos e dotados de tecnologia de ponta, o que fazer?

    O governo sugere o arrendamento e, depois de certo tempo de uso, a possibilidade de sua nacionalização.

    Mas o SINDIPI não avalia como boa esta medida. Assim como em outros setores da economia, gostaria que prevalecesse a reserva de mercado.

    Antônio se trai ao falar, e deixa claro o temor ante a possibilidade de entrada de outros “players” no negócio. “Com o arrendamento qualquer um pode se tornar armador e explorar este tipo de pesca”.

    O sindicato foi explícito. Elaborou uma nota oficial que encaminhou para a imprensa e órgãos governamentais.

    Em resumo diz o seguinte: “O setor pesqueiro está inconformado com o projeto de lei de iniciativa da Presidência da República (aprovado em 21 de novembro de 2006) que cria o registro brasileiro para as embarcações de pesca estrangeiras arrendadas ou fretadas por empresas”.

    A nota recorre a vários argumentos, e lembra que o Ministério do Meio Ambiente havia editado “estudos que restringiam a pesca de 384 espécies, inviabilizando todo o setor pesqueiro, a Instrução Normativa N° 5”. E mais adiante: ”causa- nos estranheza o fato de embarcações brasileiras estarem sofrendo restrições de áreas geográficas e tempo de pesca pelo entendimento técnico científico (leia-se Ibama, inclusão minha) que as espécies estão sofrendo com o grande esforço de pesca e em contrapartida liberar a pesca para mais embarcações, ainda por cima estrangeiras atuarem na costa brasileira.”

    E finaliza pedindo “ um mínimo de coerência ao governo federal, já que o projeto vai ser encaminhado à sanção presidencial”

    Antônio também reclama pelo fato dos barcos filiados ao sindicato não poderem pescar no Nordeste, enquanto a frota do Espírito Santo, especialmente da colônia de Marataízes, que visitamos, pescam freqüentemente nas águas sulinas.

    Segundo o que consegui apurar há hoje apenas 6 barcos de bandeira estrangeira operando no Brasil. Todos praticam a pesca do Atum na modalidade Long Line.

    Experimentei conversar novamente sobre a pesca costeira e os conflitos entre os industriais e os artesanais. E mencionei o caso das iscas vivas.

    Antônio concordou, disse que o problema é real. Para minimizá-lo tentaram usar tilápias sem seu lugar. Felizmente o Ibama (de Santa Catarina) não encorajou a iniciativa por serem espécies exóticas, extremamente agressivas. E aqui fica evidente outro problema da costa brasileira. Dois pesos e duas medidas. Na Bahia, como denunciamos no diário de bordo 17, o próprio Estado fomenta a criação de tilápias em estuário, como ocorre em Cairu. Mas o Ibama daquele Estado não impediu a perigosa experiência.

    E o caso das Tainhas, o que acontece com elas, perguntei?

    “O maior criadouro é a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Na época da safra, quando saem da lagoa e sobem costa, traineiras de Itajaí vão para lá e as pescam na boca da barra de Rio Grande, por isto elas diminuíram costa acima”.

    Tanto é verdade que o Ibama decretou uma “área de exclusão”, impedindo que barcos joguem suas redes a menos de mil metros da barra. O problema, como antecipou o chefe do CEPSUL, é a impossibilidade do órgão fiscalizar a medida que ele mesmo criou.

    Mas só o fato das traineiras de Itajaí irem para a boca da barra, buscá-las no início da migração anual, já demonstra que na pesca o que vale é a lei do mais forte.

    Antônio Momm minimiza dizendo que “a pesca da tainha se estabilizou nas cinco mil toneladas/ano.” Ele arremata dividindo a culpa com os pescadores artesanais, e explicou: “quando elas saem da barra de Rio Grande, se tiver vento arribam para a costa e fazem a festa dos pescadores artesanais. Mas, se não estiver ventando elas vão para alto- mar, e aí quem aproveita são os pescadores industriais”. Mas não deixa de criticar o Ibama informando que o órgão permitiu aos artesanais a pesca da tainha com rede de emalhe, “proibida em toda a parte do mundo por ser de espera que, mesmo perdida e abandonada no mar, continua matando a vida marinha”.

    O tiroteio é total. Sobra chumbo pra todos os lados. E, mais uma vez, leva mais quem tem maior poder de fogo. Quanto à biodiversidade marinha, bem…

    Antes de retornarmos ainda voltamos à sede do CEPSUL, desta vez para entrevistar Antonio Miguel Miguéis, coordenador do Projeto Albatroz, em Iatajaí, que visa diminuir a captura acidental destas aves pelas armadilhas da pesca.

    Em seguida nosso táxi nos levou para São Francisco do Sul onde chegamos no começo da noite.

    Um bom banho, e uma noite gostosa de sono é tudo que precisamos. O tempo parece firme, amanhã navegamos para Itajaí.

    Quarta- feira, 24-01- 2007.

    Hoje cedo conseguimos sair. De noite o vento amainou e nesta manhã ainda não apareceu. Mas por causa de seu sumiço, durante a noite, nuvens de pernilongos saíram de seus esconderijos e fizeram a festa com a tripulação. Entre tapas na testa para afungentá-los, zunidos irritantes no ouvido coberto com o lençol, e calor, mal consegui dormitar.

    Às seis da manhã estávamos na boca da barra onde custei a completar uma passagem. Depois navegamos para a monobóia da Petrobrás, fundeada fora da barra. Em seguida rumamos para Itajaí, 60 milhas ao sul. E viemos tranqüilamente, com o motor ligado e a ajuda da genoa (vela de proa) e da mezena (vela de ré).

    No fim da tarde entramos pelo molhe do porto de Itajaí, muito movimentado por enormes navios, além dos barcos de pesca.

    Subimos o rio mais umas dez milhas, até que a profundidade começou a baixar.

    Então retornamos, saímos barra afora, e descemos mais umas 6 milhas, até o balneário de Camboriú, que tem uma marina onde poderemos deixar o Mar Sem Fim.

    Chegamos na boca da noite e não arriscamos entrar pelo canal que leva à marina. Não sabemos ao certo sua profundidade. E ele é estreito e sinuoso. Fundeamos na barra onde estamos no momento. Por enquanto só deu pra ver a enorme quantidade de prédios da orla.

    Amanhã encerramos a etapa.

    Quita- feira, 25- 01- 2007.

    Quando a maré subiu entramos pelo canal e finalmente atracamos nosso veleiro. Não sem antes darmos uma encalhadinha, só para não perdermos o costume.

    No fim do dia retornamos para São Paulo.

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