De Salvador para Ilhéus

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    Quinta- feira, 16- 02- 2006.

    Chegamos esta tarde, enquanto o reversor do Mar Sem Fim ainda estava sendo consertado.

    Havia dúvidas sobre o quê, de fato, tinha levado a nova quebra do disco de encaixe, entortando o eixo do reversor, e estragando várias outras peças menores, tal qual aconteceu entre o Amapá e Belém. Algum erro sistêmico estava levando à repetição do problema, e eu não estava satisfeito com as explicações que recebia. Enquanto arrumava minhas coisas, me preparando para ir à Universidade Federal da Bahia, consegui tempo para ligar para o fabricante, no interior de São Paulo, a ZF, reclamando do diagnóstico do representante em

    Salvador. Fui duro com ele. Prometi ” usar todos os meus direitos ” para ser atendido como deveria. Eu estava pagando uma nota preta, como se diz, pelo conserto. Tinha o direito de exigir que o representante da marca fizesse a instalação, já que qualquer milímetro de erro no encaixe poderia significar nova quebra. E além do mais, era a segunda vez que quebrava nesta viagem, coisa difícil de acontecer. Para resolver de vez, só sendo minucioso.

    Desliguei e corri para a UFBA. Tínhamos duas entrevistas marcadas. A primeira com o biólogo Miguel Accioly, que entre outros, participou do projeto BMLP- programa brasileiro de intercâmbio em maricultura, que aconteceu entre os anos 1996 até 2001, envolvendo cinco universidades brasileiras e três canadenses. Cada um dos países deveria arcar com 50% dos recursos. Mas como disse Accioly ” só os canadenses acabaram entrando com o dinheiro “. Uma pena, segundo ele, porque ” o programa era muito bom, mas não conseguia interlocução com o governo “.

    Comentei sobre minha decepção por ter descido desde o Amapá até aqui, e tudo que vi de maricultura foi à devastação causada pela carcinicultura, fora incipientes tentativas, como uma criação de algas em Fleixeiras, no Ceará, uma fazenda de ostras em Pirambu, Sergipe, e praticamente mais nada. O professor contou sobre uma criação de sururu, um tipo de molusco, no Maranhão, e outra, aqui na Bahia, de bijupirá, um tipo de peixe cuja demanda está alta no mercado internacional. Mas no geral concordou que é muito pouco para uma costa tão extensa, e com tantos ecossistemas diferentes. Segundo ele o problema não seria falta de pesquisa nas Universidades, mas transformá-las em políticas públicas, aplicando-as nas comunidades tradicionais que vivem pelo litoral, muitas vezes em situação de penúria, enfrentando já o problema da sobrepesca, e sentindo na pele a diminuição da variedade de espécies, e o encolhimento dos cardumes. “O governo não gosta dos pobres, só ouve os empresários”, resume Accioly. Em seguida, para exemplificar, ele nos fala da técnica de criação de camarões nativos, em gaiolas, portanto sem causar qualquer problema ambiental, desenvolvida na UFBA, e que acabou sendo aplicada com êxito no México, ” porque lá houve o apoio do governo, e aqui não” .

    Outro caso parecido foi com Cuba, que se interessou pelo cultivo de ostras, desenvolvido pela mesma Universidade, e o está implantando com sucesso. Aqui os governantes parecem se interessar mais em agradar alguns poderosos políticos e empresários, para facilitar a vida deles e suas enormes fazendas de camarão, algumas vezes mudando a lei ambiental estadual, como fez a Bahia, para justificar empreendimentos como o da Lusomar.

    O professor Accioly, ironizando, diz : “A carcinicultura dá mais lucro que plantar maconha no Nordeste. São duas ou três safras por ano. O terreno onde fica a criação não é seu, você não tem que desembolsar um tostão para comprá-lo, são áreas públicas. Os funcionários são poucos, parte das vagas é subemprego, e para estes não existe carteira assinada. Tudo bem que dura 4, 5 ou 6 anos, depois a gente pensa o que fazer para recuperar a área “.

    No fundo ele tem razão, só isto justifica o que vimos no Nordeste, desde o Piauí, onde as criações começam no Delta do Parnaíba, e até aqui na Bahia, último estado desta região do país.

    Miguel Accioly não deixou de falar na outra praga que assola esta região, e disparou o trombone ao comentar sobre os resorts. Ele não se conforma com o tipo agressivo das gigantescas construções, em estilos que não combinam com a tradição local, desfigurando a paisagem e isolando os hóspedes das comunidades. Alguns grupos empresariais trazem espécies invasoras para dentro de lagos, como carpas que certos hotéis utilizam em suas áreas internas, de modo que os estrangeiros que vêm ao país possam continuar a curtir sua própria fauna, e não ” estranhar a exótica ” .

    Minha tese é que estes empreendimentos deveriam ser construídos em áreas já degradadas, que quase todos os estados costeiros têm, como Cubatão, em Santos, Sepetiba, no Rio de Janeiro, e no caso baiano algumas das ilhas, ou mesmo parte do continente, mas ao lado de áreas utilizadas no pólo petroquímico, ou outras similares. Já que os turistas não saem mesmo de dentro das muralhas dos hotéis, por que estragar paisagens paradisíacas, ainda sem nenhuma interferência humana ? Pode ser um tanto radical esta minha tese, e de fato é, mas assim me sinto quando vejo algumas destas construções em áreas até então intactas.

    O professor ainda falou sobre vários outros assuntos, especialmente as dificuldades em relação à criação intensiva de algas, cujo comércio mundial está nas mãos de um oligopólio que controla os preços, ou dos problemas com a criação de ostras com espécies nativas, devido à impossibilidade de se distinguir as sementes. Elas são sempre coletadas nos mangues, mas existem várias espécies diferentes, “até uma africana, provavelmente introduzida no tempo da escravidão”. Isto faz com que um produtor possa ter uma boa safra da primeira vez, mas na próxima coleta de sementes, ” ao escolher outras, de tipo diverso, ele corre o risco de ver sua produção fracassar ” . E conclui : ” falta tecnologia para a reprodução de sementes em laboratório. E as do campo são aleatórias, por isto a dificuldade de uma safra para outra “.

    Aproveitei o conhecimento do professor para passar a limpo uma história que para mim estava ” mal contada”. Quando entrevistei Max Stern, da Bahia pesca, ficou atravessado em minha garganta o entusiasmo com que ele falou de um de seus projetos, que trata da criação de tilápias em estuários. Para meu espanto Max vibrava ao comentar a alta produtividade que estão conseguindo, enquanto eu tentava imaginar o mal que poderia fazer mais esta espécie invasora aos mangues da Bahia. Agora eu poderia tirar minhas dúvidas.

    Miguel Accioly não é um entusiasta. Já estudou a questão. Ele sugere que por trás desta iniciativa do governo, estão ONGs financiadas por empresas e empresários muito poderosos, dos ramos de mineração e petróleo, cujas atividades não são bem vistas pela população, e que por isto mesmo precisam trabalhar sua imagem… Ele conta que as comunidades envolvidas pensam que a prática é auto-sustentável, mas ela não é. Accioly estudou as planilhas e não encontrou valores para a aclimatação dos alevinos à salinidade, processo relativamente custoso, já que o peixe, além de africano, é de água doce…Ele conta como funciona : “A reprodução se dá em gaiolas, depois biólogos pegam os alevinos, e, nos laboratórios, fazem com que passem para tanques com diferente salinização, de modo a se adaptarem aos poucos, e isto tem um alto custo que nunca aparece “.

    Fora este detalhe, a iniciativa é prejudicial ao meio ambiente por que a tilápia é como uma praga, “um competidor muito forte, que expulsa as espécies nativas, e toma seus nichos” . Além disto são peixes robustos, agüentam condições extremas, se reproduzem muito rápido, e para culminar sua ração é barata. Em termos de produtividade o resultado será sempre alto, em compensação o custo não é baixo, e os danos ambientais reais. O professor sugeriu que em nossa visita a uma fazenda, investiguemos as espécies nativas que desapareceram depois de iniciada a criação de tilápias. É o que faremos quando chegarmos em Camamu. Falamos com a assessoria de Max Stern, que nos passou o contato certo na região. É esperar para ver.

    Em seguida, tivemos nova entrevista com a especialista em corais da mesma Universidade, Zelinda Leão. Precisávamos gravar porque em breve estaremos em Abrolhos, o mais rico banco de corais brasileiros.

    No fim do dia voltamos para o barco. Então percebi que minhas reclamações surtiram efeito. Toda a gerência da firma representante estava a minha espera para garantir que está tudo cem por cento. O reversor está novo em folha. E a instalação será feita por eles.

    A providência se mostrou acertada. Ao iniciarem o trabalho perceberam que o volante, derradeira parte do motor, no qual se faz o encaixe do reversor, estava ” fora de esquadro “. Se a caixa fosse instalada naquelas condições certamente quebraria de novo. Foi preciso comprar um novo, e então montar toda a seqüência de peças. Agora sim, este problema ficou para trás. Melhor assim.

    Sexta- feira, 17- 02- 2006.

    Às 9 horas da manhã estava no cockpit, de café tomado, pronto para a entrevista com jornalistas da Tribuna da Bahia. Conversamos por uma hora sobre nossa viagem, e os problemas que temos visto na ocupação da costa. Em seguida fomos até a sede do Ibama, entrevistar o Gerente Executivo, Julio César de Sá da Rocha.

    Foi uma longa conversa. Julio também não se omitiu, e falou de todos os problemas da costa baiana, e ainda nos mostrou a perspectiva de alguém de dentro da máquina pública, que convive com seus muitos e inevitáveis conflitos. Sobre os resorts, por exemplo, ele disse que foi o Estado que incentivou os espanhóis ( do Iberostar, que comentamos no diário de bordo número 15 ), não só trazendo-os para cá, como dando licença ambiental, e indicando a área onde poderiam construir, que ficava defronte a lagoa Papa- Gente, uma das mais importantes da Praia do Forte. O Ibama embargou a obra, criando um sério conflito. Julio disse que foi acusado de abuso de autoridade, mas o Ibama não arredou pé, porque o “empreendimento estava se recusando a assinar um termo de compromisso com medidas mitigatórias da atividade”. Depois do embate o grupo Espanhol mudou a localização do prédio em cerca de dois quilômetros mais para o norte.

    Perguntei quem tem a responsabilidade sobre a ocupação da costa, e mais uma vez o emaranhado da legislação brasileira, com várias alçadas de decisão, veio à tona. Segundo Julio, hoje 90% das licenças são dadas pelo Estado. Ao Ibama cabem temas regionais ou Federais, e licenciar atividades em bens de domínio Federal, como é o caso do espaço marítimo. Mas ele mesmo pergunta: cabe ao Ibama regular atividades na praia ? Não, claro. A competência fica a cargo do Município, e se este não tiver órgão ambiental, que é o que ocorre na maioria das vezes, a decisão passa a ser do Estado.

    “Nós somos contra a carcinicultura feita no mangue e apicum ( área adjacente ao mangue, considerada parte dele ), por causa dos danos que provoca. Mas na maioria das vezes o empreendimento é autorizado pelo Estado ou Município, e eles não requisitam a anuência do Ibama, como seria obrigatório. Só nos resta multá-los. Foi o que fizemos com a Lusomar, mas acredite, o Judiciário liberou a multa, mesmo tendo a empresa apresentado uma licença vencida “.

    Ainda sobre as responsabilidades, Julio explicou que compete ao Ibama exclusivamente regular atividades que envolvam mais de um estado, conceder licenças para atividades nucleares, extração de Petróleo, terras indígenas ou militares, e bens ou atividades que envolvam impacto regional ou nacional. E ele ainda reconheceu as limitações do órgão mesmo para estas tarefas.

    Já o Estado passa a ser o responsável quando a atividade envolver mais de dois Municípios, ou quando um deles não tiver órgão ambiental.

    Sobre minha análise da ocupação da costa, ele diz : ” você tem toda razão de se mostrar alarmado, mas é o tal conflito de interesses. Muitas vezes o Município, carente de atividades econômicas, se adianta, e mesmo não tendo poderes, acaba aprovando o empreendimento “.

    Sobre a Bahia especificamente, Julio diz que a política aqui é baseada no coronelismo. ” Há uma tradição patrimonialista. O setor público se apodera do privado, e isto torna as coisas ainda mais difíceis”. Por estes motivos a tática do Ibama é atacar os grandes. ” Multamos a Lusomar, o Iberostar, e até o próprio Estado “.

    E finaliza:”Tratar da questão ambiental é lidar com grandes interesses, e temos limitações “.

    Ainda conversamos sobre outras regiões da costa baiana, visadas pelo turismo, pela especulação imobiliária, ou a carcinicultura. E ele nos contou das 25 multas que o Ibama aplicou em Morro de São Paulo, numa vistoria que foi feita em 27 estabelecimentos comerciais. Julio diz que alguns hotéis da segunda e terceira praias de Morro, “vão ter que se mudar”, por que foram construídos em áreas proibidas. Até hoje nunca vi uma demolição na costa. Agora prometem que farão tanto aqui, como na região do saco de Mamanguá, em Parati, Rio de Janeiro. Quero ver coragem. Se desde o começo tivessem agido com rigor, a questão não seria tão crítica como hoje se mostra.

    Ainda sobre os conflitos, Julio fala sobre um que está a vista. É o caso da escolha, por parte do governo, da área de Caravelas para ser um dos maiores pólos de carcinicultura da Bahia, justamente “no entorno de Abrolhos”. Para controlá-lo, o Ibama vai propor que a área se torne uma reserva extrativista, ” que tem leis e normas que limitam o processo” . E conclui: ” Não é fácil fazer contraponto a interesses empresariais, especialmente quando ele está aliado ao Estado “.

    A despeito de todos estes problemas, Julio consegue ser otimista. Ele reconhece que “a lógica capitalista combina muito pouco com proteção ambiental”, mesmo assim acha que fazemos progressos. O processo histórico é sempre demorado, diz. E conta com orgulho sobre um acordo que fez para capacitar a polícia federal para atuar no mar, especificamente em Abrolhos, já que o Ibama “não tem barcos para fiscalizar, e não temos preparo suficiente para lidar com o importante bioma costeiro”.

    Passamos boa parte da manhã na entrevista, depois saímos para as compras de sempre no supermercado, abastecemos de diesel, pegamos gasolina para o motor de popa, enchemos nossos tanques de água doce, e colocamos gelo na geladeira. Estávamos prontos para a partida. Restava saber se o trabalho no motor havia acabado.

    Assim que chegamos percebemos que não. Faltava ainda alinhar o motor do veleiro, trabalho que ficaria para o dia seguinte, não havia nada a fazer. Era de noite já, hora de relaxar e descansar…

    Sábado, 18- 02- 2006.

    Assim que o último mecânico deixou o barco, soltamos as amarras e começamos a navegar. Vamos para o fundo da BTS, para a sub-baía de Aratu, onde há mais de 50 anos foi instalado um dos primeiros pólos petroquímicos da era pós Petrobrás. Na vez passada, justamente em função do problema no reversor, não pudemos gravar na região. Vamos fazer isto hoje. Infelizmente o trabalho a bordo levou mais tempo que o previsto, e vamos ter que dormir no fundo da baía. Não vai ser possível tocar hoje mesmo para Morro de São Paulo, conforme eu esperava. No finalzinho do dia, ainda com luz suficiente, estávamos entrando em Aratu, antes passamos em frente à Base Naval da Marinha do Brasil. É impressionante como com toda esta ocupação, vários portos, refinaria de petróleo, estaleiros grandes e pequenos, dezenas de empresas, e ainda os três milhões de habitantes de Salvador, a água da Baía de Todos os Santos ainda esteja relativamente limpa. A sorte da BTS é seu tamanho : mil e cem quilômetros quadrados de superfície, por 200 km de perímetro, e tudo isto com uma intensidade de maré bastante razoável. Por esta condição peculiar, a baía é ” lavada ” todos os dias, o que faz com que sua água se mantenha com focos de poluição, mas nem de longe esteja poluída como a baía de Santos, ou a do Rio de Janeiro. Sorte dos baianos e de todos nós.

    De noite dormiremos ao largo da ilha da Maré, quase em frente à baía de Aratu. Amanhã cedo vamos navegar até a ilha Madre de Deus, aqui ao lado, para filmarmos o segundo maior terminal portuário deste golfo. Em seguida rumamos para Morro de São Paulo.

    Domingo, 19- 02- 2006.

    Depois do café, sempre pronto na garrafa térmica, invariavelmente preparado pelo Alonso assim que o dia clareia, suspendemos em direção à Madre de Deus. Esta ilha fica ao lado da ilha da Maré, cerca de 6 milhas. Mas para irmos até lá, é preciso sair como se fosse em direção ao mar, e muitas milhas depois, cruzar a ponta sul da ilha da Maré, e então navegar em direção a Madre de Deus. Toda esta curva para safarmos os baixios da região. Com uma hora e meia estávamos chegando. De cara salta a vista o enorme terminal de atracação de navios, os depósitos de petróleo e gás da Petrobrás, e ainda um armazém de trigo. Logo que chegamos imensos rebocadores cruzaram conosco, uns quatro ou cinco, robustos e simpáticos. Seu trabalho consiste em ajudar outras embarcações, por isto a tripulação dos rebocadores tem uma espécie de carisma parecido com o dos bombeiros, por exemplo, só que por um trabalho desenvolvido no mar.

    Na frente de Madre de Deus fica a ilha do Frade, e o vão entre ambas é formado por uma espécie de boqueirão. Ele é cercado por lindas praias, com areia bem branca, e coqueirais atrás. Mais para o interior surge o morro coberto de Mata Atlântica. Lugar exuberante para se ter um porto, mais próprio talvez para o ecoturismo, tal a beleza. No extremo norte da ilha do Frade há uma belíssima igrejinha, do Loreto, construída no século 17 (vide foto) . Navegando para adiante, passamos pela ilhota de Bom Jesus, e chegamos até a ponta onde fica o povoado. Ali, no meio de uma praça cercada por flamboyants floridos, mais uma bela igreja colonial sobressai na paisagem (vide fotos). Quer mais ?

    Filmamos cada centímetro quadrado destas belezas que estavam em volta, e do porto inserido em meio a espetacular paisagem, e em seguida iniciamos a velejada de 40 milhas até Morro de São Paulo, na extremidade sul da Baía de Todos os Santos. Navegamos um bom tempo dentro da baía, passamos pela costa sudeste de Itaparica, até ganharmos o mar e rumar mais para o sul. O vento era um sueste de 15 a 17 nós, que nos pegava de través (de lado) ideal para o Mar Sem Fim velejar solto, gostoso, pegando segmento e deslizando como se fosse uma enorme locomotiva descendo uma longa e suave ladeira. No final do dia estávamos fundeando em frente ao Farol do Morro de São Paulo, por trás do morro que deu nome à localidade, protegidos do vento e das ondas. E tivemos uma noite espetacular, com brisa suave, e céu totalmente estrelado. Nestas horas penso em como é bom fazer o que se gosta, e assim ser remunerado para estar em lugares tão fantásticos como o que estamos agora.

    Esta noite vamos dormir como bebês.

    Segunda- feira, 20- 02- 2006.

    Cedo desembarcamos para ver como anda a ocupação deste pedaço de terra tão visado, tão na moda. Não poderia ser diferente. O que foi nos primeiros séculos uma fortaleza para proteger Salvador dos navios que vinham do sul, ou mesmo vigiar a entrada para vilas importantes como Valença e Cairu, hoje virou point de turismo. Pousadas estão por todos os lados, felizmente respeitando as características locais, não se excedendo pelo tamanho, nem querendo bater recordes de estilos exóticos de arquitetura. Elas quase não aparecem. Mas o comércio que veio em seguida, os restaurantes, as lojas, supermercados, farmácias, etc, disputam espaço a tapa. Mais uma vez, repete-se o processo que detonou a Praia do Forte, com um adensamento irreal para a as possibilidades locais. Algumas casas e pontos comerciais foram construídos a três passos do mar, não trezentos metros como determina a resolução do CONAMA, e quase não têm recuo entre eles…Os hotéis trazem as inevitáveis barracas de sol, e as praias ficam lotadas com elas, não há perspectiva. Na orla, bancos de corais juntam-se às praias, dando ao conjunto uma beleza ainda maior, e turistas circulam aos montes de um lado para o outro. Difícil achar brasileiros no meio deles… Passeando por ali vimos montes de lixo depositados na praia, atestando que mais uma vez o poder público não acompanhou a ocupação, ficando para trás. Mais uns metros e atravessamos uma ponte, debaixo dela corria um filete de água negro, licoroso, de cheiro fétido, que rasgava a praia num zig- zag, e desembocava no mar. Nem preciso dizer que se trata dos dejetos deixados pelos visitantes…

    Na volta para o barco ainda vimos casas de veraneio no topo do morro, local onde sabidamente não se pode construir, por que ao fazê-lo o cidadão tem que cortar a vegetação. Depois é só uma questão de tempo para começar a erosão provocada pelas chuvas, com os deslizamentos que todos conhecemos, e suas nefastas conseqüências . Não eram 11 horas da manhã quando saímos de Morro de São Paulo, em direção a Valença, cidade importante no passado, que se notabilizou pelas fábricas do século 19. Para irmos para lá era preciso sair do leito principal do rio, e pegar um secundário. Não demorou muito para nossa quilha roçar o fundo de lama. Fundeamos e fomos de botinho. Valença foi erguida nas margens do rio, neste enorme lagamar onde fica Morro de São Paulo, Cairu, e outras cidades importantes. Elas nasceram no caminho que passa entre as ilhas de Boipeba e Tinharé, e que leva até a baía de Camamu. Aqui, nos séculos 16 e 17, os portugueses do governo central na Bahia, vinham buscar madeira para as naus da carreira das Índias. E foi este o motor da economia naqueles tempos. Uma bela cidade, Valença, com suas pontes que com boa vontade lembram Veneza. No fim da tarde voltamos para o Mar Sem Fim, onde estava o Alonso, e tocamos para Cairu, a poucas milhas dali. Fundeamos em frente à vila, e fomos dormir. Amanhã temos muito para gravar por aqui.

    Terça- feira, 21- 02- 2006.

    Estava lá fora, no cockpit, onde sempre tem uma brisa para nos refrescar. Aqui dentro onde escrevo, sentado na mesa de navegação, muitas vezes o calor é forte. Depois de redigir sobre um dia inteiro, dou uma saída, fumo um cigarrinho, pois é (eu fumo infelizmente) , ouço o canto de umas cigarras lá longe na mata, vejo a quantidade assombrosa de estrelas, numa noite que qualquer um qualificaria como feérica, e volto para continuar.

    Esta manhã levantei com chuva. A cabine de popa, local de dormir, tem uma gaiúta bem em cima de onde coloco o rosto no travesseiro. Se mirassem não fariam melhor. Quando chove as gotas caem justo entre os olhos… Acordei sonado e fechei a janelinha. Voltei pra cama em seguida.

    Na tripulação sou sempre o último que acorda. O primeiro é o Alonso, com a luz do dia, que faz o café. O segundo é o Cardozo, por que ele dorme na sala e não há vedação contra a claridade. Em seguida nosso cinegrafista acorda a Agis, que depois de algum trabalho me põe de pé. Tomamos café, que varia entre frutas, sanduíches, chá e café, às vezes panquecas, às vezes cuscuz, que a Agis agora deu de cozinhar, sucos e cereais. E estamos prontos para um dia pesado, debaixo de muito sol, vento e calor, mas cheio de descobertas, através de um dos roteiros mais belos do mundo. Agora, por exemplo, acabo de voltar lá de cima. Era o Cardozo que me chamava para ouvir o respiro dos golfinhos que estão pescando a nossa volta. Foi de arrepiar. Não podíamos vê-los, apenas ouvíamos suas saídas à tona, e o barulho provocado pelo jato de ar que expelem depois de cada mergulho. São onze e pouco da noite, está um breu total, e estamos fundeados em frente à vila de Caravelas, no rio Cairu, na altura em que as ilhas Tinharé e Boipeba se encontram. Navegamos por dentro, entre as ilhas e o continente, em direção a Camamu.

    Hoje acordamos com a visão do Convento Santo Antonio, de 1630, que existe em Cairu. Como a maioria deles, este também foi construído em cima de um morro que domina a paisagem, com ampla visão para o rio. É um espetáculo da arquitetura portuguesa no Brasil. Vale a pena ser visto. O teto da Igreja é pintado a mão, num trabalho que durou mais de 50 anos. Alguns altares laterais são entalhados com extremo requinte. Salas inteiras são azulejadas, em mosaicos que contam histórias, enquanto o teto exibe outro cenário pintado sobre madeira. É magnífico, das salas monumentais à cozinha, passando pelo pátio interno típico.

    De lá voltamos para o barco, para seguirmos viagem. No caminho vimos as primeiras gaiolas das criações de tilápias, e paramos para gravar. Em seguida navegamos por mais cerca de 6 milhas, até a metade do caminho para Camamu, que curiosamente fica na altura da vila de Caravelas de que falei, onde estamos neste momento. Nossa chegada se deu lá pelas onze da manhã, quando um conhecido de outra viagem feita há dez anos, Geni, veio a bordo dar um alô. Para amanhã ele arrumaria um prático para nos levar até a barra do Carvalho, que dá acesso a baía de Camamu, como fez da primeira vez. Mas antes tínhamos Boipeba para conhecer.

    Depois do almoço, no fim da tarde, já com sol mais fraco, pegamos o botinho e percorremos as 12 milhas que nos separam das praias oceânicas da ilha de Boipeba, na foz do rio do Inferno, tendo do lado a ilha de Tinharé. Na face virada para o mar, lindas praias, na outra, virada para o continente, as margens são totalmente ocupadas por manguezais. O resultado disto tudo é um conjunto formoso, muito bonito, e ocupado de forma não predatória. Estive aqui quando o turismo começava. Passados dez anos a ocupação é fato, mas neste caso ela preservou a paisagem. São pouco mais de uma dezena de pousadas, para todos os bolsos, que recebem os turistas. Todas são construídas atrás da primeira fileira de árvores do coco, ainda que não estejam a 300 metros de distância da preamar como determina a Resolução do CONAMA. Mesmo assim elas não contribuem para tirar o charme e a beleza natural, justamente por que ficam escondidas pelas árvores. Ficamos ali, de queixo caído, curtindo até o sol se pôr, quando finalmente retornamos para o Mar Sem Fim.

    Ainda de noite descemos em terra para conversar com o encarregado da criação de tilápias, e ficamos sabendo que amanhã cedo vai haver despesca numa das seções de gaiolas. Estaremos lá para registrar.

    Quarta- feira, 22- 02- 2006.

    Às seis da manhã, seu Antonio, o prático que Geni nos arrumou, embarcou no Mar Sem Fim. Alonso deu motor. Na seqüência levantamos todos. Um rápido café, e já pegamos o botinho para ver a despesca na localidade de Torrinhas. Ao lado de um flutuante, fundeado próximo à fileira de gaiolas, estava atracado um barco de pesca que veio buscar a produção. Na plataforma cinco ou seis homens trabalhavam. Uns colocavam gelo em bacias do tamanho de piscinas, enquanto outros passavam o puçá e tiravam os sacos repletos de peixes, que iam direto para a bacia. Em pouco tempo estava cheia. Repetiam a operação com outra. Ao todo havia quatro, para dar conta de todo o pescado. Ficamos ali cerca de uma hora, tempo suficiente para gravarmos. Pudemos até observar um ou outro peixe que escapou do puçá, e por pouco não foi para a água. Este é o maior problema deste tipo de criação. Quero ver esta região daqui a alguns anos. É bem possível que esteja infestada de tilápias, e sem muitas das espécies que hoje nadam por estes rios. É no mínimo imprudente o que estão fazendo. Por enquanto os ribeirinhos estão satisfeitos, vamos ver no futuro. Conversamos com Luciano Freitas dos Santos, presidente da cooperativa de pesca de Caravelas. Ele nos contou sobre o início, há seis anos. Os dois primeiros anos foram de observação e aprendizagem, depois deste período a fazenda começou a deslanchar. Quem subsidia é a Fundação Odebrecht, que dá as gaiolas, a ração, os alevinos, e a assistência técnica. A Fundação também promove cursos de capacitação, tendo já formado 48 pessoas em três vilas distintas: Caravelas, Torrinhas e tal. Cada família interessada recebe dez gaiolas, com 900 alevinos cada. Depois de quatro meses, quando acontece a despesca, descontam todo o investimento primeiro, depois dividem o restante da seguinte forma: por cada peixe uma família recebe 50 centavos. Em média são cinco toneladas por despesca, o que, segundo Luciano, dá um montante de 2.400,00 reais por módulo.

    Tudo é enviado para Ilhéus, onde o pescado é processado, seguindo depois para Salvador, e de lá para os consumidores finais. Perguntei ao professor Accioly quais seriam estes consumidores, já que nunca vi tilápias à venda. Ele me respondeu que talvez eu já tivesse ouvido falar no nome “fantasia”, usado em restaurantes e que tais: Saint Pierre. Este sim, eu conheço.

    Depois da seção de gravação, navegamos pelo rio Cairu uma boa hora, em direção ao sul, até chegarmos em Barra do Carvalho, uma baía que dá acesso a Camamu. Atravessamos esta enseada em direção a ponta Mutá, passando por dentro da Ilha de Camamu Grande, e continuamos a navegar entre margens ainda não excessivamente ocupadas, mas com sinais evidentes de perda de Mata Atlântica . Ao longe, nos morros, dava pra ver que havia mais pasto que floresta no horizonte. Sinal que deve haver muitas fazendas para o interior…

    O dia quase todo foi assim. Eu queria navegar até o fundo da baía para poder ter uma boa idéia de sua ocupação, indo além da cidade de Maraú, e chegando até as Cachoeiras do Tremembé, pequena queda d’água que daria um bom cenário para nosso programa.

    Paramos em Maraú apenas para deixarmos nosso prático, que queria voltar para casa ainda hoje. Mas ficamos desapontados. Não havia linhas de ônibus para a sua região. Seu Antonio vai ter que dormir conosco. Seguimos em frente mais uma hora e meia, até que chegamos na boca do rio, no fim do qual fica a famosa cachoeira. É bom que valha a pena, já que deu um trabalhão chegar até aqui. Vamos saber amanhã cedo.

    Antes de deixar esta região quero passar em Cajaíba, vila que ficou famosa pela qualidade de seus estaleiros que construíam Saveiros. E se possível ainda ir até a barra do Senhinharem, ver um laboratório de alevinos de tilápias. Só depois seguiremos para Itacaré, nossa próxima parada.

    Escrever hoje está sendo duplamente difícil. Como disse, estamos no fundo de uma grande baía. Quase não há vento. Luz, muito menos, a não ser as da sala do veleiro. E elas atraem insetos. São pequenos seres alados que se espatifam na tela de meu computador. Estabanados e nervosos, eles tentam alçar vôo de novo, e se chocam agora contra meu rosto, caindo aos magotes no teclado. Muitas vezes dou um peteleco num deles antes de usar determinada letra. A coisa toda está me tirando do sério. Não sei se me concentro nos bichos ou no texto. Assim não vai dar certo, melhor parar.

    Quinta- feira, 23- 02- 2006.

    Pela manhã, com a maré cheia, resolvemos entrar no pequeno afluente, no fim do qual fica a cachoeira, com o veleiro mesmo. No início parecia que não ia dar. Nossa quilha roçava o lodo do fundo do leito do rio. Mas depois de um início apertado, o Mar Sem Fim finalmente passou. Navegamos até a queda d’água, muito bonita, e ali ficamos quase toda a manhã. Não foi preciso fundear, nossa quilha batia no fundo, e fazia as vezes de âncora.

    Filmamos, fotografamos, nadamos um pouco, descansamos, até que chegou o momento: vamos em frente, temos muito ainda a percorrer. Iniciamos a navegada de volta, com um dia maravilhoso, cheio de sol e vento forte, e lindas paisagens nas margens. Atracamos em Maraú para pegar água doce, já que os tanques do Mar Sem Fim estavam quase secos. Cidadezinha modorrenta esta, parada no tempo, sem movimento, quieta demais para os moldes da Bahia.

    Uma hora depois, já reabastecidos, continuamos nosso trajeto em direção a Campinho, na entrada da baía, onde ficaria nosso prático. Ao chegarmos não encontramos nenhum barco. Alonso teve de levá-lo de botinho, até a cidade de Camamu, a maior da região, com 30 mil habitantes, e bem provida de condução que levasse seu Antonio até sua casa. Como a baía hoje é rasa, não dá pra chegar em Camamu de veleiro, por isto Alonso o levou de bote. Antes fundeamos num lugar de beleza paradisíaca, próximos a uma ilha com praias de areia branca como o sal, coqueiros deitados sob a areia, e água morna em volta. Um espetáculo. Dormiremos aqui. Amanhã vamos atravessar a baía até a vila de Cajaíba do Sul, em frente onde estamos, para gravar os estaleiros e seus mestres carpinteiros, que de tanto construir belos e bons barcos tradicionais, deram fama ao local.

    Fiquei contente de rever toda esta região. A primeira vez que estive aqui foi com meu primeiro veleiro, o Tiki, já lá se vão vinte anos. E a região mudou pouco. Os mangues de Cairu, Valença, etc, estão em muito bom estado, parece que estão escapando das pressões inevitáveis do aumento do turismo, do crescimento das cidades, e da pressão econômica. Em toda esta área há poucas fazendas de camarão, por sorte. A Baía de Camamu também impressiona. Vê- se algumas casas de veraneio, mas não muitas, em geral construídas sem grandes agressões à paisagem natural. E onde há hotéis ou pousadas, elas são discretas. No entanto, como disse, onde antes havia mata hoje existem pastos… Esta é uma região muito grande, próxima de grandes centros, como Salvador (que fica a menos de 60 milhas ao norte) e Ilhéus (cerca de 50 milhas ao sul), e mesmo assim ainda resistem, mantendo sua beleza natural, e parte de sua rica biodiversidade. Bom sinal. Temos o que comemorar, apesar das ameaças do turismo de massa, e da fragilidade dos órgãos que cuidam do meio ambiente.

    Sexta- feira, 24- 02- 2006.

    Antes de dar meio- dia, já estávamos suspendendo em direção a Itacaré, 22 milhas ao sul da ponta Mutá, que marca a entrada da baía de Camamu. Pela manhã estivemos em Cajaíba, onde visitamos vários estaleiros, que construíam ao todo umas 15 grandes escunas, e apenas três saveiros. Dois deles bem pequenos, quase botes, e um de tamanho regular. Conversando com um carpinteiro, Joselito, ficamos sabendo do desinteresse em novos saveiros. Há pouca demanda. Em compensação as escunas vendem tanto que eles nem esperam a encomenda. Constroem direto, e acabam vendendo para empresas de turismo, na maioria dos casos. Um ou outro acaba virando iate particular. E o melhor de tudo: aqui o Ibama não tem atrapalhado. Joselito estava feliz ao falar da ausência da fiscalização, que no passado já andou criando problemas para estes profissionais. Aproveitei para relatar a conversa que tive com o gerente do órgão em Salvador, e a promessa que ele me fez de não impedir que os carpinteiros navais continuem exercendo sua profissão. Pelo sim, pelo não, deixei com Zelito o nome e telefone do gabinete do Julio Cesar, gerente regional, com a recomendação explícita de que, se aparecesse algum fiscal, eles tinham a promessa dele de que seriam liberados. Zelito agradeceu muito, e repetiu que todos ali “vévem” desta profissão, e não é justo serem punidos por trabalhar.

    Visitamos também um artesão especializado em fazer miniaturas de barcos, Gilson, que é tão caprichoso, detalhista e habilidoso, que pode ser considerado um “modelista naval”, como se dizem os profissionais. As escunas de Gilson têm entre 30 e 60 centímetros, e são perfeitas. Cópias exatas e fiéis das maiores. Entrevistamos o homem, e eu acabei não resistindo, e comprando mais uma canoa baiana, com duas velas de pena, toda envernizada, que ele acabara de fazer. Uma beleza. Já nem sei mais onde pôr estes barquinhos que a cada etapa acabo levando para minha casa em São Paulo. Já não há mais espaço para eles. Ainda assim a cada vez que vejo um novo, não resisto, e acabo comprando.

    Bem, entreguei o barco na mão do Alonso, me ajustei no cokpit, estirado numa almofada do lado direito, o da sombra, e pedi que me acordasse só ao chegar. Acho uma delícia estes deslocamentos de veleiro. São momentos em que posso de fato descansar, curtir o barco, as velejadas, dormir. Assim que chegamos em algum lugar começa a “contagem regressiva” : cumprir metas, entrevistar, procurar algo ou alguém, correr, andar direto debaixo do sol forte etc e tal.

    Sábado, 25- 02- 2006.

    Chegamos em Itacaré ontem, no fim do dia. A entrada é das mais fáceis para quem já investiu em lugares bem piores como nós. Aqui basta ficar próximo ao molhe de pedras, que existe do lado esquerdo da praia, e entrar na pequena baía, formada por praias, e o Rio das Contas. Um encanto de lugar, mas diminuto. Na baía não cabem mais de quatro ou cinco barcos fundeados. Por sorte só havia três quando entramos. Duas lanchas de 50 pés cada, e um veleiro de fora do país. Achamos nosso cantinho onde jogamos a âncora para passar a noite. Ainda tentei subir o rio das Contas, atrás de uma cachoeira que eu lembrava ter visitado quando estive aqui na primeira vez, mas não achamos o local de entrada.

    Hoje cedo, com mais dicas de pescadores, finalmente chegamos na cachoeira que visitei faz tanto tempo. Agora a área está cercada, com placas indicativas, cestos de lixo pelo caminho, cordas esticadas à guisa de corrimão, e até entrada oficial, onde cada visitante paga dez merréis pelo ingresso. Até um restaurante se instalou na área, para aproveitar o afluxo de turistas. Valeu a pena de todo modo. O pequeno rio de entrada é um show. Ele é cercado por mangues, árvores maiores repletas de bromélias que muitas vezes formam túneis, e uma quantidade enorme de passarinhos. Diversos tipos diferentes de beija- flor cortavam os ares acima de nossas cabeças, enquanto os Martins Pescadores davam rasantes na flor da água. E em meio a esta exuberância toda, ainda chegamos a uma sucessão de três quedas d’água, cada uma delas formando uma piscina embaixo. Um espetáculo. E hiper refrescante tomar banho em suas águas geladas. Nenhum de nós resistiu.

    São oito da noite e estamos de volta ao abrigo do Mar Sem Fim. Nesta tarde de carnaval estivemos passeando pela vila de Itacaré e suas belas praias. São três ou quatro no entorno da pequena cidade de 12 mil habitantes. A mais central é a praia da Concha, em forma de meia lua, logo em frente às casas da vila. Mais uns poucos metros para o sul fica a praia Tiririca, famosa pelas ondas perfeitas, onde passaram a realizar campeonatos de surfe, e finalmente há ainda a praia da Ribeira, um pouco mais ao sul. São praias pequenas em extensão, muito bonitas, cercadas de Mata Atlântica exuberante, fazendo lembrar a região de Ubatuba em São Paulo, mas cheias de turistas, especialmente em alta temporada, quando se atinge a lotação máxima.

    No passado Itacaré era mais uma pacata vila de pescadores artesanais. Assim foi quando a conheci, em uma viagem que fiz com o Mar Sem Fim dez anos atrás. Naquele tempo a população mal chegava aos seis mil habitantes. Mas vieram os primeiros turistas. Pousadas foram abertas, restaurantes e bares em seguida, depois lojas. E a pequena vila cresceu.

    Nas margens do rio das Contas, onde a cidade foi construída, não se vê apenas mangues, como é a regra, mas uma luxuriante Mata Atlântica, com rios de corredeiras onde se pratica o rafting, trilhas por entre a mata que terminam em fantásticas cachoeiras, etc. O local não poderia deixar de crescer com o turismo, e quase dobrou em número de habitantes de lá para cá. Mas não se descaracterizou tanto. Continua tendo o mesmo aspecto para quem chega do mar. As construções, felizmente, aconteceram para o interior e cresceram em quantidade, não em altura. No geral são discretas, não enfeando a paisagem. E mais além ainda existem dois pequenos resorts. O exclusivíssimo Txai, que fica a 19 km em direção ao sul, a Ilhéus. Na mesma direção, a 5 km da vila, fica o Ecoresort, cada um deles com capacidade para pouco mais de cem a cento e cinquenta hóspedes. Segundo um motorista que nos serviu, portugueses se preparam para erguer o terceiro resort, do lado sul da baía de Itacaré, mesmo lado em que estão os outros dois. A diferença parece que está na sexta estrela que este novo terá, além de uma capacidade maior. Tem outra novidade também, em relação à última visita que fiz : agora, com a estrada litorânea que passa por aqui, e através de uma balsa que cruza a baía, os carros podem seguir até Maraú. Mais um programa para os turistas, e mais uma fonte de renda aos locais, que dirigem até lá. No geral os moradores estão felizes com a nova situação. O turismo de natureza trouxe recursos para a região, movimentou a economia, gerou empregos, e ajudou a criar outros postos de trabalho na prestação de serviços aos visitantes.

    O problema começa agora. Uma grande operadora de São Paulo, a CVC, trouxe o turismo de massa para cá, e aqui é que mora o perigo. Além da quantidade extra de pessoas, sem a infraestrutura necessária, a maioria dos programas opcionais, como caminhadas, rafting, e outros, são fechados em Ilhéus, com a operadora que trabalha em conjunto, portanto não incrementando a economia local, mas apenas entupindo mais as trilhas e ruas da cidade com muita gente. Em Itacaré existe uma certa grita contra o turismo de massa. Mas no geral os moradores estão felizes com a nova realidade, que não impediu, nem atrapalhou, que a pesca, atividade principal dos habitantes, continue a acontecer.

    Esta é uma das mais ricas regiões da Bahia em termos de biodiversidade. Além da costa e do mar, há a Mata Atlântica com sua incrível diversidade, que faz com que aqui possam ser encontradas até 400 tipos diferentes de árvores por cada hectare de mata. Infelizmente toda a região do sul da Bahia, abaixo de Ilhéus, sofre muito com a monocultura do eucalipto. Até a divisa com o Espírito Santo, esta é a maior fonte de pressão. São inúmeras as empresas de reflorestamento que se instalaram entre o norte do Espírito Santo e o sul da Bahia.Hoje os eucaliptos ocupam uma área estimada pelo CRA (órgão encarregado do meio ambiente na Bahia) em 100 mil hectares. Segundo os ambientalistas com quem conversamos, este número não é real. A área ocupada, segundo eles, já chega a expressivos 300 mil hectares.

    Amanhã andamos mais por aqui. Vamos de carro checar as redondezas e os resorts .

    Domingo, 26- 02- 2006.

    Às 8 horas da manhã iniciamos nosso passeio. Havíamos contratado um motorista para nos levar até os dois resorts que ficam distantes da cidade. Queríamos ver como está a ocupação para o interior também, e neste caso ir de carro é bem mais fácil. A mata ao redor da estrada de rodagem é espetacular. Impressionante a altura das árvores, e a quantidade diferente de espécies num mesmo pedaço de terra. Ela é espessa. O tom é de um verde forte, muito vivo. E nas praias, mata e coqueirais se misturam. É maravilhoso. Chegamos bem próximos aos dois hotéis, e pudemos ver que ao menos o Txai, respeita o estilo de constução do local. O hotel é formado por pequenos chalés cercados de Mata Atlântica, e está localizado em cima de um platô, de onde se pode ver o mar. Deve ser linda a vista de lá. Não há conflito entre a paisagem e o hotel, eles se integram, e este é mais um exemplo que poderia e deveria ser seguido por todos os empreendedores. Ninguém tem o direito de escangalhar uma paisagem deslumbrante, que demorou milhões de anos para se formar, não ocupada, rica em biodiversidade, por um pretexto menor, exclusivo, em detrimento da maioria. E estes hotéis nesta região tão ” in ” , provam que é possível ocupar com bom gosto, de forma sustentável, sem destruir, e agregando valor. Fiquei feliz de conhecer e fotografar (vide seção de fotos desta viagem).

    Na volta para a cidade, em compensação, vimos sinais de favelização. Bem para o fundo da vila, depois das primeiras 5 ou 6 ruas, há um espaço, logo quando se pega a estrada de rodagem, que não deixa dúvidas : é ocupado por aquelas casinhas de tijolo aparente, uma em cima da outra, cheias do famoso “puxadinho”, numa desordem que impressiona. As ruas são de terra, ao contrário das outras da vila. Não vi sinais de saneamento, enfim, o quadro conhecido de sempre. Não poderia ser muito diferente, porque um crescimento tão acelerado como este, acaba sempre trazendo algum prejuízo. O Estado, ou município, não consegue investir no mesmo ritmo, acaba faltando infraestrutura, e os menos favorecidos pagam a conta. No caso de Itacaré é dos menores que tenho visto, o prejuízo, mas ele existe e precisa ser citado.

    Outro problema é que toda esta fama atrai novos investidores. Especuladores imobiliários sem escrúpulos, que esquartejam suas áreas em terrenos mínimos, constroem casinhas vagabundas, depreciam a região. Muitos deles não têm os benefícios que apregoam, e sua volúpia é avassaladora. Isto pode ser o começo do fim. Vimos algumas placas de condomínios pelo caminho, poucas, mas o suficiente para dar um friozinho na barriga. Torço para que uma região tão rica, tão bela, possa se manter como está agora. A comunidade precisa se organizar, – parece que muitos estão,- e fazer pressão em cima de prefeito e vereadores. É preciso haver limites, normas, obrigações. Caso contrário Itacaré corre o risco de ir para o mesmo caminho que a Praia do Forte (litoral norte da Bahia), Pipa (Rio Grande do Norte), Jericoacoara (Ceará), e tantas outras, e aí meu caro, dançou. Acaba antes de começar. Seria muito triste.

    Eram 11 horas da manhã quando saímos do abrigo da baía de Itacaré, para nosso último destino nesta etapa: Ilhéus, 32 milhas ao sul.

    O mar estava de pequenas vagas, em função do vento forte. O Nordeste sopra quase sem parar, e hoje na casa dos 18, 19 nós. Bom para nós, que vamos navegar na direção do vento e das correntes. O pessoal está cansado a bordo. Ninguém conversa muito, cada um faz sua parte, ajuda na hora da saída, puxando o ferro, arrumando os cabos, prendendo o que estiver solto. Depois se recolhe num canto qualquer. Cardozo dorme na sala, Agis na cabine. Eu aqui dentro, escrevo na mesa de navegação, e Alonso lá fora, piloto automático ligado, apenas fica sentado atrás da roda de leme, de braços cruzados, olhando o horizonte. Este sol constante, vento e calor, produzem às vezes uma espécie de torpor na tripulação. Todo mundo fica meio caído, é normal. Pelo pouco entusiasmo, vamos com motor mesmo, mais a mezena (vela menor, da popa), levantada, e genoa ( vela de proa ) aberta. A Mestra ( vela principal ) fica enrolada mesmo, porque em cima da sua retranca está armado o toldo do veleiro, que nos dá uma sombra essencial. Deixa como está. A galera de bordo não quer exercício hoje…Mesmo assim o GPS (sistema de navegação por satélite) marca descidas de ondas em que o Mar Sem Fim navega a 10.6 nós de velocidade. Excepcional. Vento e corrente a favor dão nisso : velocidades muito boas, e uma navegada ” de príncipe “.

    Segunda- feira, 27- 02- 2006.

    São três da tarde, dentro de mais algumas horas embarcamos para São Paulo. Desta vez cumprimos a meta, e gravamos três programas bem ricos, variados, diferentes. O último bloco, do derradeiro, será sobre Ilhéus, onde estamos ancorados. Nosso abrigo fica defronte ao Iate Clube, na mesma baía onde está o porto, protegido por um grande molhe de pedras.

    Desembarcamos esta manhã para fazer as últimas gravações para mostrar um pouco do Patrimônio Histórico de Ilhéus. A cidade ficou famosa por ser o local de nascimento de Jorge Amado, e suas ruas, bares e gente, mais de uma vez figuraram como cenário de seus livros, em especial o clássico ” Gabriela, Cravo e Canela” . Até hoje o bar Vesúvio, local dos encontros de seu Nacib e Gabriela, vive lotado em função da fama produzida pelo romance, não necessariamente por méritos próprios. Estivemos lá. E gravamos também a casa de Jorge Amado, um sobrado alto e estreito, quase em frente ao Cine Teatro, a poucos metros do famoso bar.

    Fomos até a orla, mas as praias da região urbana não têm nada de especial. São bem longas, com areia escura. Um retão a perder de vista. Antes de voltar para pegar nossas coisas, ainda gravamos outra meia dúzia de prédios históricos bem conservados. Depois almoçamos no Vesúvio. Para encerrar fomos até o Cabaré Bataclan, palco de memoráveis festins dos barões do cacau, tão bem descritos no romance de Jorge Amado.

    Fora a importância histórica, e este conjunto de prédios, a cidade de Ilhéus não tem tão grande interesse e beleza, como Salvador, por exemplo, nem o charme das pequenas vilas, como Mangue Seco. Ela não é grande nem pequena, fica no meio- termo com seus 223 mil habitantes, distribuídos em 54 mil residências. E quanto à saúde da população, e sua responsabilidade com a poluição dos oceanos, Ilhéus não está de parabéns, mas também não está no fim da fila. 44% das casas são servidas de esgoto, e 64% contam com coleta de lixo. Talvez por isto, mais o movimento de barcos e navios provocado pelo porto, a água do mar aqui já não tem aquele tom especial, transparente, que se vê em Salvador. Ela é turva…

    Aproveitei para comprar jornais e revistas, e me atualizar em relação às notícias pelo mundo, e aos últimos escândalos brasileiros. Vejamos : O Estadão publica na primeira página um levantamento que fez, para saber quantos cargos de confiança existem na máquina pública por parte da União, Estados e municípios. Espantoso : são mais de meio milhão. São eles que garantem a prática do nepotismo, e agravam a ineficiência do Estado brasileiro. Estão distribuídos entre as grandes estatais, até as menores subprefeituras, e é onde nossos políticos colocam suas mulheres, filhos, sobrinhos, etc, para ganharem uma boquinha a mais, já que dinheiro existe, nós, brasileiros comuns, pagamos altos impostos, só que em vez de serviços públicos de qualidade, temos em contrapartida um Estado mastodôntico, que nem saneamento básico, segurança pública, ou ensino, consegue garantir. Muitas vezes ao longo desta viagem, tenho comentado nestes diários de bordo, a inoperância dos órgãos fiscalizadores e gestores do meio ambiente, além da precariedade, ou mesmo ausência de saneamento básico nos Estados costeiros, que é um dos focos de atenção do Projeto Mar Sem Fim. Eis aí mais uma das causas deste fracasso. O nepotismo ainda agrava dois outros problemas brasileiros : a corrupção e a ineficiência da máquina pública. Na matéria, o professor José Luiz Pagnussat, da Escola Nacional de Administração Pública, em Brasília, diz o seguinte : ” O pior não é o aspecto moral. O maior preço que se paga é que, cada vez que se troca um chefe, grande parte da equipe é mudada, e esta rotatividade atrapalha a execução de políticas de médio ou longo prazo . O resultado é a ineficiência . ”

    Já para o professor François Bremaeker, do Instituto Brasileiro de Administração Municipal, IBAM, ” os cargos de confiança são uma porta aberta para a corrupção. ”

    Com enfado e dor de barriga, folheio as revistas semanais. Em Veja, leio uma matéria com o título, ” A Floresta pagou a conta do PT ” , cujo subtítulo era : ” CPI pede o iniciamento de cinco petistas acusados de facilitar o corte de madeira em troca de dinheiro para candidatos do partido ” . No corpo desta reportagem está escrito que o ” chefe do esquema de desmatamento ilegal no Pará o gerente executivo do Ibama no Estado, Marcílio Monteiro – INDICADO PARA O CARGO PELA SENADORA PETISTA ANA JULIA CAREPA, COM QUEM FOI CASADO ” ( grifo meu ) . Vejam aí, pois, que o alerta da matéria do Estadão é confirmado em seguida por esta de Veja. Mas não se apresse, tem mais. Segundo a revista, A CPI da biopirataria, que tem tudo a ver com nossa expedição, apurou que… ” parte da propina paga pelos madeireiros para conseguir autorizações para o desmate e o transporte ilegal de madeira era depositado em contas bancárias de uma assessora da senadora ” . Mais adiante há uma declaração do presidente da CPI, deputado Antonio Carlos Mendes Thame, que diz : ” Apesar do esforço do PT em abafar as investigações, conseguimos desmontar um dos mais escabrosos casos de corrupção na área ambiental do país ” . Sete pessoas foram indiciadas, entre elas dois gerentes executicos do Ibama. Até agora eles continuam em seus cargos, e a ministra Marina Silva calada…

    Outra matéria interessante, muito elucidativa sobre os problemas brasileiros, foi uma entrevista publicada pelo Estado, com o brilhante e lúcido economista Eduardo Giannetti da Fonseca, do Ibmec. Depois de elencar uma série enorme de problemas da nossa economia, e das reformas que ainda precisam ser feitas, ele diz ” que os juros altos são sintoma, não causa. A verdadeira doença da economia, que os juros refletem é a incapacidade de investimentos, por parte do Estado, para acompanhar os aumentos cíclicos de demanda.” E prossegue : ” De 1988 para cá, a carga tributária aumentou 14% do PIB. Isto é mais ou menos a carga tributária do México ” . E prossegue : ” O Estado arrecada da sociedade 37% do PIB. Em cima disto há um déficit nominal que, num ano normal, como o ano passado, fica em torno de 3% do PIB. Ou seja, 40% da renda nacional transita pelo setor público . E o mais surpreendente talvez, é que a capacidade de investimentos do setor público é ínfima ” .

    Giannetti comenta vários aspectos que levaram a esta situação, aliado ao fato de que o governo Lula não mudou este quadro. E conclui : ” Vai ter que mexer em coisas espinhosas e dolorosas para a sociedade brasileira. Uma delas continua sendo a Previdência, tanto a do INSS quanto especialmente a do setor público, que gera um déficit para atender aos seus três milhões de inativos e pensionistas ( funcionários públicos, parênteses meu ) , MAIOR QUE TODO O GASTO DO ESTADO BRASILEIRO COM 37 MILHÕES DE CRIANÇAS NA ESCOLA PÚBLICA . ” Traduzindo : o déficit gerado pela Previdência Pública, causado por apenas três milhões de funcionários e políticos aposentados, é mais que o Brasil investe por ano com as 37 milhões de crianças que estudam nas escolas públicas. É, ou não é, um disparate ? E conclui o professor Giannetti : ” Um país que comete esta enormidade está se condenando à miséria e à ignorância perpétua. O ensino fundamental tem de se tornar prioridade neste país ” .

    Como se vê, não faltam dados, estudos, pesquisas, ou análises de especialistas. O que falta é vergonha na cara, muito trabalho, e vontade política. É triste, muito triste, ver um potencial como o nosso jogado no ralo. Porque quem deveria dar o exemplo e fazer, não faz. Tem outras prioridades. Por falar nisto, na Veja desta semana vi outras fotos de nosso presidente, aquele ” que nunca sabe de nada, nem vê nada ” . Ele continua não trabalhando, ainda que um ministro tenha feito importante ressalva : ” Lula não bebe há 50 dias ” . E em eterna campanha. Primário como é, continua abusando do peculiar costume de se travestir . Desta vez a imagem mostrava sua excelência em palanque, com a cabeça coberta por um chapéuzinho de cangaceiro, cercado de cupinchas e incautos, em seu interminável, e inócuo, blá blá blá…

    Hoje em dia dá engulhos acompanhar o noticiário. A cada parada nos portos fico mais enojado. Até dinheiro roubado é encontrado nas cuecas dos assessores dos chefes da Nação.

    Ah, antes que esqueça, Paulina Chamorro me passou um correio onde conta da última resolução do CONAMA, aprovada em 22 de fevereiro, que flexibiliza e legaliza a ocupação irregular em áreas consideradas APPs, áreas de preservação permanente, uma conquista do último Código Flotrestal, de 1965, pisoteado agora por parte dos 111 membros do Conselho que aprovou tal disparate. O Conama demorou quatro anos discutindo esta questão, para chegar a este veredicto pífio, eleitoreiro, e desavergonhado. É o fim ! Vou me inteirar, e no próximo diário comento mais. Por hora estou enjoado demais. Acho que vou vomitar.

    Na próxima etapa saímos em direção a Porto Seguro. Se tivermos sorte vamos parar em Canavieiras, depois entrar pela foz do Jequitinhonha, em Belmonte. Em seguida, na baía Cabrália, pretendemos gravar em Coroa Vermelha, onde foi rezada a primeira missa.

    Não vamos demorar muito para retomar as viagens. É só o tempo de editar estes três programas. Dentro de poucos dias estaremos de volta.

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