De Porto Alegre para Rio Grande, RS

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    De Porto Alegre para Rio Grande, RS

    Terça- feira, 27- 03- 2007.

    Esta é a última viagem. Achei que nada mais me surpreenderia depois da grande navegada e de termos passado por minúsculas vilas, dezenas de cidades e várias capitais. Fiz a mala pensando nisto. Mas foi só desembarcar em Porto Alegre, conhecer seu centro antigo e arredores, para perceber que eu estava redondamente enganado.

    O dia de hoje, reservado para a exploração urbana, deixou a tripulação do Mar Sem Fim de queixo caído.

    Porto Alegre é uma cidade recente. Faz 234 anos que foi fundada e, por isto mesmo, não se associa a capital gaúcha ao Patrimônio Histórico nacional. Levamos um susto atrás do outro ao vermos apenas alguns de seus prédios antigos. A maioria é do fim do século XIX, começo do XX, mas não são menos impressionantes por causa disto. Monumentais como a imensa Catedral, o Centro Cultural Mário Quintana, a igreja Nossa Sra das Dores, a antiga estação do Gasômetro, de 1928, ou a Praça do Mercado com o prédio que abrigou a prefeitura.

    E eu sempre soube que Porto Alegre ficava às margens do rio Guaíba. Até que fizemos nossa primeira entrevista com o professor Luiz Fernando Cybis, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Quase não acreditei quando o PhD nos disse: “o nome não está definido, até hoje há discussão: Lago Guaíba ou rio Guaíba? Por enquanto foi definido Lago Guaíba”

    As novidades não tinham acabado. Pouco depois conhecemos o Delta do Jacuí. E caí do cavalo outra vez.

    Mas estes são assuntos para outro dia.

    Como escrevo o último diário quero encerrar otimista. É preciso, e há motivos, para termos esperança. Por isto, nesta etapa, a cada dia destaco alguma ação positiva que conheci. São soluções vencedoras, tomadas de forma isolada, para problemas recorrentes.

    E começo pelo exemplo da Constituição Estadual da Paraíba que proibiu espigões nas primeiras ruas de sua orla, combatendo e “domando” os especuladores, e disciplinando a indústria da construção civil. É o único, entre os dezessete Estados costeiros, que soube preservar a integridade e beleza cênica de sua paisagem. A cada novo governo, nos disseram os ambientalistas, a pressão para mudanças em cima do Executivo é brutal. Mas ao menor sinal de titubeio “o povo ameaça ir pra rua”. E assim, até hoje, o modelo tem sido mantido.

    Ainda há tempo para esta idéia pegar.

    Quarta- feira, 28- 03- 2007.

    Estivemos na Universidade para conversar com o professor Cybes, que nos contou das excentricidades do Guaíba. Ele é formado pelo Jacuí (o maior dos formadores), além dos rios Sinos, Caí e Gravataí. De onde começa e até onde termina, ao se encontrar com a Laguna dos Patos, não tem mais que 25 milhas. E sofre o “efeito seiche” que, segundo o professor “poucos corpos d’água no planeta apresentam”. E explica:

    “Quando venta o sul as águas da laguna dos Patos sobem, ficam mais altas que as do rio e acabam empurrando suas águas para cima. Em função da inversão de curso formam-se baías nas margens, algo típico de lagoa, não de rio”. E completou: “Foi publicada uma lei e nela está escrito Lago Guaíba, assim uniformizamos a linguagem (referindo-se aos acadêmicos, governo e ONGs)”.

    Perguntei sobre sua condição, porque lembrava que nos final dos anos 80 o estado era tão ruim que um movimento para salvá-lo, a exemplo do Tietê, e do SOS Baía de Guanabara foi criado: o Pró- Guaíba.

    Mais uma vez o problema foi de poluição, especialmente a urbana, mas não somente. Estima-se que haja no entorno da bacia do Guaíba 1.445.889 mil habitantes. Deste total apenas 1,2% são de populações rurais. Só Porto Alegre gera todos os dias 955 toneladas de resíduo sólido (lixo). Viamão entra com 123 t, e Canoas com 100 t/dia, para citar os mais importantes.

    Ao longo da bacia calcula-se que cerca de duas mil empresas se instalaram. 350 têm potencial poluidor, e 15 foram apontadas pelo Comitê do Lago Guaíba, uma entidade do governo do Estado, como responsáveis por 23% de todos os poluentes lançados.

    Mesmo sendo minoria a agricultura é a principal atividade econômica para vários municípios do entorno. É o caso do cultivo de fumo em inúmeros deles, reflorestamentos para a celulose em outros e, finalmente, o cultivo de arroz nos municípios da margem direita. E eles usam herbicidas…

    Ainda há a hidrovia construída entre 1928/30, que tornou navegável desde o Jacuí, passando pelo “lago” Guaíba, e até a Laguna dos Patos.

    Todas estas são atividades impactantes que trouxeram conseqüências dramáticas para uma região que concentra 2/3 da população do Estado, 30% da área e 70% do PIB.

    A “demanda da população fez o Estado tomar a iniciativa”, disse a Secretária de Meio Ambiente, Vera Callegari. O movimento Pró- Guaíba (criado oficialmente em 1995), e o Comitê da Bacia Hidrográfica do Lago Guaíba nasceram daí (Decreto Estadual 38.989, de outubro de 1998).

    Vera explica que a falta de saneamento básico foi o principal fator que levou ao Pró- Guaíba. E, como no caso da campanha pelo Tietê, em São Paulo, desde então a situação melhorou.

    O governo fez um acordo com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e 220 milhões de dólares- 60% da instituição e 40% do governo- foram investidos. US 120 milhões foram gastos na criação de duas novas estações de tratamento de água, primeira parte de um ambicioso programa de despoluição previsto para quatro módulos e uns bons pares de anos pela frente. Antes do investimento apenas 5% dos esgotos dos vários municípios eram tratados. Agora a porcentagem aumentou para 9%, sendo que Porto Alegre tem 25% das residências com o benefício.

    De acordo com Vera a segunda etapa, “depois de reunidos todos os projetos”, precisaria de mais 575 milhões de dólares, 80% dos quais para o saneamento básico. O novo governo está preocupado porque encontrou o Estado falido, por isto, no momento, “não podemos buscar este dinheiro lá fora (devido à necessária contrapartida do Estado em caso de convênio)”.

    Mas vão encontrar um jeito sim, não tenho dúvidas. Estão decididos. E com isto temos outro exemplo, desta vez mostrando a força da opinião pública. Foi ela a responsável pelo Tietê e o Guaíba, e se eles estão conseguindo, os outros também podem. Tecnologia existe. É preciso apenas vontade política. Os dois casos provam que, quando as populações das cidades de São Paulo e Porto Alegre praticaram cidadania e se mobilizaram, a resposta veio em seguida.

    O exemplo é claro: aprenda a ser chato. Proteste sempre. Exija, funde uma ONG pelo rio de seu Estado, se for o caso, mas não seja passivo. Só reclamar e esperar mudanças de atitude, NOS OUTROS, não adianta. É preciso não perder a capacidade de indignação. Agir e, além disto, acreditar.

    Quinta- feira, 29- 03- 2007.

    O dia de ontem não estaria completo se não nos pregasse outro susto. Foi o que aconteceu quando, depois da entrevista com a Secretária do Meio Ambiente, fomos conhecer o Delta do Jacuí por sugestão e meios da própria secretária.

    Nos acompanhou a secretária- executiva do Pró- Guaíba, Ana Elizabeth Carara.

    Para começar o Delta fica a apenas cinco minutos (de lancha) do centro da cidade. Ele é formado por inúmeras ilhas que se criaram logo após a foz do Jacuí, entre elas a ilha Mauá, da Pintada, da Pólvora, do Pavão e ilha Grande dos Marinheiros. A área tem importância vital para a qualidade da água do Guaíba, porque age como um filtro e, aos poucos, contribui com sua limpeza renovando e retendo parte das impurezas. E além disto, por ser pouco ocupado, o Delta é habitat de diversas aves, peixes e animais entre eles a lontra e o jacaré-de- papo- amarelo. Sua vegetação é formada por alagados, banhados, campos e mata ciliar. Foi fantástico passear entre estes rios e canais, de grande beleza, ao mesmo tempo em que, ao longe, se via os prédios de Porto Alegre.

    Ana nos contou que uma das ações foi transformar a região numa APA (Área de Proteção Ambiental) de modo que o Estado possa coordenar e orientar sua ocupação. Nunca pensei que uma região metropolitana da costa tivesse próxima de si um espaço tão rico em biodiversidade. Esta foi outra boa surpresa que o Rio Grande do Sul guardou para o final. Gastamos a tarde na visita.

    Aproveito para citar mais alguns bons exemplos. Nossas ilhas oceânicas também podem “ser faróis”. São Pedro e São Paulo, o Atol das Rocas, Fernando de Noronha, Abrolhos, Trindade e Martim Vaz guardam ainda parte importante de sua riqueza seja pela manutenção da paisagem, seja pela vida marinha ou a avifauna relativamente preservadas. Duas delas têm tamanho, e estão suficientemente próximas do continente, para receberem turistas: Abrolhos e Fernando de Noronha. Conheço-as desde o início dos anos 80. Elas têm em comum o fato de serem Parques Nacionais Marinhos e estarem aos cuidados do Ibama. E ambas conseguiram manter suas características principais apesar dos turistas, dos bodes e da pesca em Abrolhos; e dos Tejus, ocupação humana e o desmatamento secular de Fernando de Noronha.

    O que custa disseminar este exemplo?

    Sexta- feira, 30- 03- 2007.

    Ontem saímos bem cedo do Iate Clube Veleiros do Sul, onde mais uma vez fomos recebidos de braços abertos, e constantemente cumprimentados por sócios e funcionários, especialmente “pela isenção e coragem” com que denunciamos os descalabros costa afora. Navegamos 25 milhas em direção à Ponta de Itapuã, onde fica o farol de mesmo nome, que marca o início do Guaíba para quem navega pela Laguna dos Patos. Queríamos conhecer o Parque Estadual de Itapuã, mais um filhote do Pró- Guaíba, com seus 5.566 hectares. Esta Unidade de Conservação é emblemática no Rio Grande do Sul.

    Mas tem história conturbada.

    Criado em 1973, como Parque Turístico, ele estava protegido apenas no papel como tantos outros que visitamos. E os depredadores não deram pelota para a ficção burocrática. A região é rica em granito- rosa. Pedras imensas, que demoram entre 500 e 600 milhões de anos para se formar, foram as primeiras, mas não as únicas, vítimas. Dinamitadas, uma parte se transformou em mourões e paralelepípedos para desespero dos ambientalistas. Mas um entre eles, notório, deu um basta. O grito de alerta do professor Lutzenberguer, que furioso investiu contra os vândalos e exigiu que parassem, foi a gota d’água que faltava. Criou-se o parque. Mas, como disse, no começo não saiu do papel.

    A história mudou com o dinheiro conseguido com o Pró- Guaíba. Então os gaúchos resolveram criar um modelo de Unidade de Conservação. Não economizaram e, o que fizeram, foi muito bem feito.

    O parque ficou fechado de 1981 até 1991, tempo necessário para revitalizar parte da flora e fauna, enquanto a infra- estrutura era montada. Quando reabriu encheu os olhos de quem o visita. São 80 funcionários entre administradores, zeladores, guarda- parques e outros que tomam conta. Há limitação de visitantes. O Plano de Manejo permite 900 pessoas por dia na alta temporada, mas há áreas restritas onde apenas 300 podem entrar. Outras, mais sensíveis, recebem somente de 15 a 20 visitantes. E as mais críticas são totalmente vedadas.

    Os ecossistemas principais são praias, morros graníticos, dunas, ilhas, lagos, restingas, banhados e campos.

    Entre a fauna aves migratórias e regionais, répteis como o jacaré-de- papo- amarelo, e mamíferos, entre os quais o bugio- ruivo, a jaguatirica, a lontra e o gato- maracajá- todos ameaçados de extinção- e a capivara.

    Visitamos o Parque, acompanhados pelo chefe da divisão das Unidades de Conservação do Rio Grande do Sul, Luiz Alberto Mendonça, e conhecemos cada canto. Ele é uma beleza. Um microcosmo dos ecossistemas gaúchos a apenas 57 km da capital. E tudo é impecável. Dos alojamentos à sala de projeção, passando pelos banheiros públicos, churrasqueiras, portarias etc.

    Em termos de parques, ou Unidades de Conservação, é o mais bem servido por infra- estrutura e, ao lado do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, em São Paulo, ambos conseguem ótimos resultados. São outro destaque positivo. Demonstram que é possível ocupar e preservar.

    Iniciamos esta manhã nossa última navegada. Daqui para Rio Grande, através da Laguna dos Patos (aprendemos mais esta: apesar do nome ser Lagoa, o corpo d’água doce recebe água salgada, por isto a nomenclatura correta é laguna), numa distância aproximada de 140 milhas.

    Bastou o dia clarear para sairmos. Eu estava apreensivo. Navegar na Lagoa dos Patos tem seus riscos. A área, de 10 mil km quadrados, é bem rasa, tem em média 7 metros. Quando entra o sudoeste é um Deus-nos- acuda. Formam-se ondas altas e curtas. Tudo que um barco não precisa. Mas o tempo estava bom e seguimos nosso destino. Logo no início cruzamos com vários navios. Três em seqüência passaram por nós na altura do farol de Itapuã. Depois foi monótono até a noite chegar. Destaco um encontro com um barco de pesca que, cara-de-pau, passava a rede em plena laguna, burlando a lei e contribuindo para o final mais rápido de sua atividade fim: a pesca.

    No final da tarde eu estava dormindo quando senti uns baques conhecidos. O Marzão caturrava (jogava no sentido longitudinal) quando percebi a quilha batendo no fundo. Acordei de supetão e corri pra fora. Alonso agasalhado estava no leme, tentando se esquivar dos borrifos, enquanto Paulina meio agachada segurava o dog-house (toldo frontal) para que não levantasse tirando a sua visão. E o vento sul deitava e rolava. Zunia, fustigava e levantava o mar. Quando passei pela sala, assustado pelos trancos, Cardozo avisara que “agora estava melhor”, minutos antes ele tinha atingido aos 40 nós. Caramba ! Será possível que não vamos ter paz?

    A noite estava escura, mal se viam as bóias que demarcam o canal. Estávamos a 12 milhas da ilha da Saragonha e para chegar até ela teríamos que navegar por regiões ainda mais rasas, com menos de 2 metros. Não tive dúvidas. Mandei jogar o ferro.

    Mas aqui, Alonso perguntou? Lógico. Aqui mesmo, no meio do canal onde quem passa presta muita atenção para não perder o rumo. Melhor isto que enfrentar baixios com ondas e ventos fortes. O motor que fique ligado a noite toda, assim como nós em permanente vigília.

    Foi o que fizemos, ou melhor, o Alonso fez…

    No momento faltam dez minutos para a primeira hora da madrugada. Ouço um bocejo do meu amigo lá fora, no cockpit, vigiando o horizonte. Cardozo dorme na mesma sala onde escrevo enquanto Paulina, faz tempo, se enfurnou na cabine. E eu vou já pra lá.

    Sábado, 31- 03- 2007.

    Acordamos de madrugada, cercados por redes e barcos, e a poucos metros da ilha Saragonha. Ontem, não sei porque, ao plotar nossa posição na carta náutica a distância parecia maior. Seja como for, a decisão de parar naquele momento foi a mais correta. Até um pequeno navio que vinha atrás tomou a mesma decisão. Fotografei e Cardozo gravou as centenas de caícos pescando camarão.

    Em seguida navegamos entre redes e paus fincados dos lados, em profundidade muito rasa, até Rio Grande. Alonso se confundiu em um único momento, e lá estava nossa quilha: tóc,tóc,tóc batendo no fundo.

    Era meio- dia quando chegamos de volta ao Iate Clube de Rio Grande.

    Aproveito para destacar outro protagonista da costa: as Organizações Não- Governamentais.

    Elas começam a surgir em Belém, no Pará. Pulam o Maranhão e o Piauí, e voltam a partir do Ceará para baixo. E daí em diante em todos os Estados é possível encontrá-las. Sua atuação é importantíssima. Estudam os ecossistemas, pressionam os governos, mobilizam as populações, capacitam nativos para vários trabalhos, promovem a conservação.

    Algumas são enormes, têm sócios e ou financiamento interno e externo; outras não chegam a tanto. As grandes, pelo que vi, parecem adormecidas, satisfeitas por seus louros e patrocínios. Já as pequenas, e desconhecidas do grande público, estas prestam formidável serviço.

    A que mais me impressionou é uma delas. Formada por meia dúzia de abnegados, não tem sócios nem patrocínios. Sequer um site. Mas são co-responsáveis pela integridade da Baía de Babitonga, ao norte da costa de Santa Catarina.

    É a Ameca, de Ana Paula Cortez, que já mencionei.

    Com disposição, espírito público e competência esta pequenina ONG dobrou a Petrobrás, colocou a prefeitura da cidade no banco dos réus (por omissão quanto ao saneamento básico), e conseguiu a dificílima, e rara, demolição de construções irregulares. Sua ação é mirada no “calcanhar de Aquiles” daqueles que, mesmo sem querer, agridem e modificam a paisagem e os ecossistemas, passando por cima das leis. E sua pontaria é fatal.

    Uma prova definitiva que, afinal, não é preciso muito mais que disposição para ir à luta e trazer vitórias.

    Domingo, 1- 04- 2007.

    O domingo foi reservado para um show: uma regata de embarcações típicas, os caícos e suas velas trapezoidais, parte das comemorações da tradicional Festa do Mar, de Rio Grande.

    Assistimos no bote da organização. O vento estava forte, de sul, e cerca de 15 a 20 barcos participaram. Foi um espetáculo. Uma singela apoteose de cores, formas, texturas e antigos saberes. Para encerrar a Esquadrilha da Fumaça fez uma exibição. O contraste entre a modernidade nos céus e a tradição no mar foi evidente. Mas ressaltou uma coincidência: a equivalência na exímia condução dos conjuntos. Grande parte da população assistiu, e vibrou, amontoada no cais do porto.

    Dou um salto, agora, para mais ações vencedoras na costa. São os projetos Tamar, Peixe-boi, Baleia Jubarte, Golfinho- Rotador e Albatroz.

    Comum, entre eles, é o fato de terem começado como ações isoladas e estarem hoje sob o guarda- chuva do Ibama. Protegem tartarugas, mamíferos, cetáceos e aves com inegável sucesso. Eles, e um punhado de funcionários como Carla Marcon, na Paraíba, e outros que tomam conta de áreas de proteção como as já citadas, formam “a banda boa” do Ibama. E esbanjam méritos.

    Mas há outro grupo de profissionais que me impressionou: os professores e pesquisadores da academia com os quais falamos. Ao longo destes dezessete Estados costeiros entrevistamos mais de 40 deles. Seu conhecimento, dedicação e competência é notável.

    Falta apenas os governos Federal e Estaduais ouví-los mais, e este é o dado negativo. Se o fizessem, tenho certeza, nossa costa estaria em melhor situação. Parece esquecerem que eles não têm como função apenas formar alunos mas, sobretudo, contribuir com as políticas públicas.

    Ao longo destes diários, de tempos em tempos tenho pedido a você, leitor, paciência para certas reflexões; prometo que esta é a última.

    Um dos motivos que justificam minha esperança e otimisto vem do fato de ter conhecido a costa norte e nordeste nos anos 80.

    Passei três anos estudando música em Nova Iorque. De 1979 até 1982. Então voltei. E resolvi conhecer o país que até aquele momento era para mim uma incógnita.

    Saí de Nova Iorque no dia primeiro de janeiro de 1982 e fui para Bogotá, na Colombia. No dia seguinte, num pequeno avião, rumei para a cidade fronteiriça de Letícia. Do aeroporto segui para a beira do rio Amazonas, que atravessei de canoa até Benjamim Constant, primeira cidade brasileira naquelas paragens.

    Dois dias depois embarquei numa gaiola e desci até a Ilha de Marajó. Demorei mais de 20 dias com paradas em Manaus e Belém. Depois vim pingando, de cidade em cidade, passando por São Luis, no Maranhão, Teresina, no Piauí, Fortaleza, e assim por diante até Salvador, na Bahia.

    Naquele tempo a infraestrura e os serviços eram precários mas, a despeito da “década perdida” dos anos 80, da híper-inflação do governo Sarney, dos desatinos de Collor, da obtusidade de Itamar, e dos inúmeros planos econômicos que nos empurravam goela abaixo, de tal modo que sequer sabíamos o nome da moeda ou o valor dela, passado este tempo revi a mesma região. E descobri um impressionante vigor, inegáveis pogressos nestes quisitos e um povo que, a despeito das imensas ilhas de miséria, continua trabalhando, acreditando e tocando sua vida. Abençoado o país que consegue tamanha façanha.

    O tempo fechou neste domingo. O céu está carregado, cinza- escuro. Venta frio e chove sem parar. O inverno dá as caras no sul.

    Decidi, por causa disto, adiar nossa segunda ida ao Chuí. Vamos sobrevoar toda a Lagoa dos Patos, a restinga que vai dar no Chuí, e a margem oceânica da Lagoa quando tiver tempo bom.

    Então teremos registrado de terra e do ar mais esta parte do país. De barco não há como. As dificuldades permanecem as mesmas: área rasa e retilínea, impedindo a aproximação do veleiro.

    Daqui até a fronteira pode-se ir de carro, pela estrada ou pela praia do Cassino, “a mais extensa do mundo”, com 245 km. Optamos pela estrada na ida, e a praia na volta. A região não difere da grande restinga da viagem passada. Tem a mesma beleza e banhados como o da Estação Ecológica do TAIM, que engloba a Lagoa Mangueira, uma espécie de imensa Lagoa do Peixe. Seu diretor, Amauri Mota, nos fez conhecê-la. Gravamos e fotografamos. Depois seguimos até as cidades da fronteira: Chuí, no Brasil, e Chuy, no Uruguai. Mas faltou conhecermos algumas áreas de difícil acesso do Parque. A elas vamos retornar, de helicóptero, numa cortesia da Marinha do Brasil, quando o tempo melhorar. Mas a aventura termina aqui.

    Agora, então, me despeço da tripulação e do barco. Já falei bastante de Paulina, mas não contei da sorte que tivemos de ter a bordo a companhia do Cardozo. Cinegrafista competente, pessoa bem formada, de bem, que fez a maior parte das imagens. Um excelente companheiro e “pau-pra-toda-obra”. Sobre Alonso já dei muitas pistas mas, pra encerrar, faço um último comentário: qualquer um de nós seria perfeitamente substituível, provavelmente sem perda no resultado final. Ele, não. Alonso é daqueles raros marinheiros capazes de “enxergar” o vento, e “ ler” o mar. Se alguém pretende fazer a viagem que fiz, entrando nos mesmos buracos, que tenha a bordo um Alonso. Ou pague a consequência da ousadia.

    Eles foram grandes. Em mais de dois anos de convivência, em muitas situações críticas e inesperadas, não encontro um detalhe, por menor que seja, que desabone minha tripulação. Oxalá a recíproca seja verdadeira.

    E meu barquinho está cem por cento. Nos levou com galhardia na melhor de todas as viagens. Foi casa e porto seguro. Adoro o Marzão.

    Encerro com alegria por ter concebido e executado o projeto, mas já sinto banzo ao terminar.

    Corri riscos ao decidir pela atitude crítica. Foi temerário, eu sabia. Mas procurei a coerência do início ao fim. Posso ter sido injusto ou, quem sabe, ter feito alguma avaliação equivocada. Mas fiquei muito feliz com o resultado.

    Agora quem julga é você.

    O debate está lançado.

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