De Parati (RJ) para Ilhabela (SP)

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    O dia começou cedo para nós. Pouco antes da 7h da manhã nossa convidada, Maria Lucia Abaurre, já estava em casa. Em seguida chegava a Paulina. Tínhamos que descer a Serra, até Santos, para pegar o Cardozo, nosso cinegrafista que mora lá. Depois seguiríamos pela BR 101, aqui chamada de “Rio- Santos”, até Parati. Nosso planejamento para este primeiro dia previa que fôssemos pelas praias de modo a já registrar alguns dos malefícios causados pela abertura da estrada, e conseqüente ocupação de seu entorno, que só são vistos se você prestar muita atenção. No caso do litoral paulista o ideal para quem quer mostrar a realidade- objetivo principal do Projeto Mar Sem Fim- é fazer a viagem por mar e por terra. Por mar dá pra ver a beleza da geografia. Uma paisagem desenhada pelo contorno da Serra do Mar, com um litoral repleto de pequenas enseadas, baías, ilhas, costões, praias maravilhosas- parte delas estragada pela ocupação. Na viagem você fica extasiado com a paisagem, e bestificado com certos estragos causados pelos tempos modernos.

    Viajando de carro, um pouco mais para dentro, pode-se ver a favelização que vai tomando conta das bordas da serra do Mar, atrás de quase todas as mansões das praias do “litoral norte” paulista. Curiosamente esta expressão designa, na maioria das vezes, a parte que vai de São Sebastião até Bertioga, e é comumente usada em conversas ou na imprensa. Como se o pedaço que vai de São Sebastião até o extremo norte de Ubatuba, na praia de Cambury, divisa com a Ponta da Trindade já no Estado do Rio, não fosse também litoral norte.

    Uma viagem como esta sempre leva muito tempo. Em cada praia a gente dá uma parada para uma sessão de fotos ou gravação. Em algumas ainda fazemos entrevistas com os moradores mais emblemáticos, assim, se quisermos aproveitar o dia, é preciso mesmo sair bem cedo.

    Descemos a Serra e, em vez de tomarmos a direção de Santos, me enganei e peguei a de Peruíbe, mais ao sul. Só percebi o erro depois de uma hora e quase 60 km rodados para o lado errado. Resultado: perdemos a manhã. Quando cheguei a balsa para pegar o Cardozo já era quase meio- dia. O tempo também não ajudou. Não estava aberto em razão de uma frente fria que passou faz alguns dias deixando o céu ainda nublado.

    Primeira mudança nos planos. Vamos tentar gravar esta parte na volta, quem sabe com o tempo melhor.

    Tocamos direto até ultrapassarmos o núcleo urbano de Ubatuba, então vimos placas de condomínio e resolvemos investigar. Um dos problemas recorrentes da ocupação do litoral brasileiro é este: a ocupação irregular, ora com construções onde não se pode fazê-las, ora com o superadensamento, ora, ainda, com a “privatização” de certas praias.

    A “portaria” que havia na entrada da praia do Lázaro com cancela e cabine para “guardas” nos chamou a atenção. Vamos lá para saber se seremos barrados, ou se nos deixarão entrar.

    Não canso de repetir que praias são espaços públicos, em poder da União, que pertencem a todos os brasileiros. Ninguém tem o direito de impedir a entrada de quem quer que seja apesar desta violência estar cada vez mais presente no litoral brasileiro, notadamente nos Estados mais ricos e populosos, como São Paulo e Rio, mas não só neles. Vimos esta mesma situação em Alagoas, e outros Estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, e Bahia pelo menos. O que varia é a intensidade. No nordeste acontece menos, no sudeste mais.

    Gravamos e fotografamos. Depois entramos no carro e me dirigi para a entrada de “visitantes”. O guarda tomou nota de meu nome e deixou passar. Atravessamos todo o condomínio com muitas ruas e casas, umas do lado das outras, em espaço não maior do que se tem em São Paulo, até chegarmos à praia. Ela é belíssima, tem a forma da ferradura, e é bastante inclinada para o mar.

    Por todos os lados vê-se casas, bonitas, não muito grandes, bem cuidadas e com mini- jardins trabalhados, e guardas, muitos guardas, como que monitorando nossa presença. Eu diria que a presença deles à nossa volta pode ser descrita como constrangedora.

    Não sei se uma pessoa humilde conseguiria entrar neste condomínio, mas se conseguir vai se sentir tão mal que não fica muito tempo.

    É ilegal fazer isto, todo mundo sabe, mas poucos se lixam. Uma pena. Não precisava ser assim.

    Depois disto seguimos direto até a Marina, em Parati.

    No desembarque da tralha cruzamos com o Alonso que, mais uma vez, tinha ficado a bordo à nossa espera. Ele estava abatido e ao passar por mim fez o tradicional sinal com o polegar para baixo.

    O que houve, perguntei? Ele repetiu o sinal. Não disse palavra, nem precisava. Sua expressão deixava claro: ele não estava bem. Levei correndo nosso amigo, imediato, ao Hospital Municipal, em Parati, onde foi diagnosticado nível de açúcar muito alto. Alonso é diabético e também estava com a pressão alta. Segunda mudança de planos.

    Vamos medicá-lo e esperar que melhore, para só então iniciarmos viagem.

    Voltei para o barco, peguei a tripulação, e fomos jantar em Parati. Estava todo mundo morrendo de fome.

    Em seguida retornamos pro veleiro, tomamos uma brisa fresca no cockpit, e cama. Por incrível que pareça até aqui está um frio de rachar. Nunca vi clima assim em Parati, normalmente muito quente por ficar no fundo da baía, cercada por morros altos, onde o vento quase não entra.

    Segundo Alonso nos contou, a televisão dizia no telejornal que aquela tinha sido a tarde mais fria no ano. São Paulo registrara nove graus. O vento produzia uma sensação térmica que baixava aos três graus apenas, e tudo em plena luz do dia.

    Não é à toa que até aqui estava gelado. Dormimos entocados em sacos de dormir, fechados nas cabines.

    Quarta- feira, 30- 08- 2006.

    Eu pensava que só eu ou Alonso tínhamos histórias com o Mar Sem Fim, até perceber esta noite que estava enganado. Enquanto almoçávamos, já de noite, tomando um bom vinho tinto para rebater o frio, contei ao grupo o que eu havia escrito no diário anterior sobre o acaso e a sorte na viagem do Mar Sem Fim. E relembrei os casos que citei: o encalhe no Calçoene, a entrada na barra do Jequitinhonha, e o registro do casco que resolveu abrir o bico de dia, quando estávamos fundeados aqui em Parati.

    Ouvi sinais de aprovação, e outros casos igualmente graves, lembrados por Paulina e pelo Cardozo, que poderiam ter causado sérios danos, mas passaram incólumes. E eu já nem me lembrava mais deles. O primeiro e mais grave aconteceu ao atravessarmos o furo de Mocoóca, entre a ilha do Algodoal e o continente, na região das “reentrâncias paraenses”. Na altura da vila havia um fio de alta tensão que cruzava todo o canal. Da proa eu olhava pro céu, para medir a altura do fio versus a do nosso mastro, e dizia pro Fernando Cerdeira que estava no leme: vem mais um pouco, vem mais um pouco. Até que o tecido da vela, enrolado no alto do mastro, encostou o fio. Fagulhas e barulhos assustadores ecoaram em seguida. Mini raios brilhavam lá em cima. Enquanto isto o povo todo na margem observava de boca aberta. Foi por um triz. Se o fio tocasse no alumínio do mastro, e não na vela, eu perderia todos os equipamentos eletrônicos, e talvez algum tripulante que estivesse encostado em algum metal naquele momento. Todos teriam virado churrasco. Mas bateu no tecido…

    No Furo de Breves, na região Amazônica, nosso barco uma noite foi envolvido por um comboio de toras de madeira, destes que descem o rio, empurrados por uma chata. Troncos imensos, amarrados uns aos outros, como que cercaram o Mar Sem Fim depois de uma curva. Acidente inusitado que também poderia ter causado danos.

    Ou um enxame de abelhas que, naquela mesma etapa, cismou de fazer uma colméia na altura da cruzeta do mastro grande.

    Ou talvez a entrada “punk” na barra do Camocim, no Ceará, com vento forte, motor pifado, fundo raso, e recifes de coral na entrada, relembra o Cardozo. E foi mesmo outro momento difícil da navegação, apesar de mais ou menos esperado, já que os rios menores aparecem apenas como desenhos nas cartas náuticas, não sendo medida a sua profundidade. Para entrar em lugar assim é preciso muito “olho” para enxergar as diferentes tonalidades da cor do mar, indicando profundidades maiores ou menores, e assim ir “escolhendo” o caminho na medida em que você vai avançando. Para estas ocasiões, e sempre quando não encontramos um prático, temos uma arma secreta: Alonso é seu nome. Mesmo assim, é punk. Em Camocim parte das pedras fica para fora, parte está submersa. Entrei na frente, de botinho, com um ecobatímetro portátil, o veleiro atrás, nas mãos do Alonso. Há quase um muro contínuo de recifes de cada uma das margens se estendendo até o meio da baía, então há uma entrada estreita livre. É por ali que temos que passar na vela, com uma tripulação não tão treinada, debaixo de 25 até 30 nós de vento. Lodo depois desta espécie de “portão”, circundado por ondas que estouram dos dois lados, a profundidade subitamente diminui, e cai de seis para dois metros, às vezes menos. Comecei a empurrar o veleiro para ele se safar mais rápido daquele perigo. Com a proa do bote eu encostava na popa do Mar Sem Fim e acelerava. Uma onda mais alta faz a popa levantar. O bote entra debaixo, e fura… Se a gente encalhar ali, tchau. Acaba o Mar Sem Fim. Mas passamos.

    E daí pra frente os dois contaram mais três ou quatro casos. Histórias que, relatadas por eles, soaram com se fossem novas. A tripulação acumula milhagem. Vai ganhando experiência. Fiquei assombrado pensando em tudo que temos aprendido. Nas lições que estas mais de quatro mil milhas navegadas tem nos dado, não só em questões do meio ambiente e do mar, mas em marinharia, fainas, convivência de quatro pessoas diferentes em um ambiente exíguo, e às vezes hostil. Ficamos horas relembrando as roubadas em que nos enfiamos, quando percebi que cada membro da tripulação já tem uma relação especial, íntima e particular, com o barco e nossa viagem. Causos que vão ficar na memória para o resto da vida. Porque são fortes, inéditos, e mexem com as emoções.

    Acordei mais feliz esta manhã.

    Como tínhamos que ficar em Parati, resolvemos ir de carro até a sede do Parque Estadual da Serra do Mar/Núcleo Picinguaba, já que era nosso plano desembarcar quando estivéssemos na região. Melhor aproveitar e gravar já. Nesta época do ano nunca se sabe quando uma frente fria vai entrar.

    Fomos recebidos por Fernanda Waet, Coordenadora do Programa de Usos Públicos do Núcleo Picinguaba/Parque Estadual da Serra do Mar.

    O Núcleo, com 47 mil hectares, faz divisa, ao norte, com o Parque Nacional da Serra da Bocaína, no Estado do Rio. Já o Parque da Serra do Mar se estende para o sul até a cidade de Pedro de Toledo, na altura de Peruíbe, mais ou menos. Ao todo são cerca de 300 mil hectares de área. Ele é administrado pelo Instituto Florestal, ligado à Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Sua função é proteger praias, restingas, mangues, rios e cachoeiras, colocados estrategicamente pela Natureza em meio a Mata Atlântica. Este é o único ponto em que o Parque Estadual atinge a orla marítima.

    Fizemos uma trilha que nos levou numa casa de farinha do século19, próxima ao rio da Fazenda. Lá entrevistamos o mateiro contratado do Parque, Joanice Cristo. Depois subimos até um poço de água transparente, para, em seguida, descermos até sua foz, na praia da Fazenda. Uma beleza de região, muito pouco ocupada ao menos neste trecho exclusivo. Tive uma surpresa também. Fernanda contou que num dos cantos da Praia há um condomínio que tinha 44 casas. Vinte delas foram construídas depois que a área virou Parque. No início deste ano elas foram demolidas ao final de uma briga que durou anos na Justiça. É a primeira vez que fico sabendo que isto aconteceu. Merecia ter tido mais destaque na imprensa, justamente para funcionar como alerta e paradigma. Em todo o caso é uma vitória.

    Depois da entrevista viemos parando pelas praias, começando por Camburi, no extremo norte do litoral de São Paulo. Depois visitamos as praias cariocas, a partir da Ponta de Trindade, começando com Cachadaço, em seguida a do Meio, dos Ranchos, Praia de Fora, Cepilho, até voltarmos para a Marina do Engenho, onde estamos. Não deu ainda para fazer Laranjeiras, a derradeira desta lista. O sol já tinha se posto.

    Fica para amanhã. Vamos tentar passar por sua famosa portaria, uma obra feita pelo Condomínio Laranjeiras, aparentemente ilegal, que tem como objetivo, aos poucos, “privatizar” a praia.

    O que mais chamou a atenção, hoje, foi à vila de Trindade, na divisa do Rio com São Paulo. Um pequeno lugar espremido entre o mar e a Serra, de onde se tem acesso a quatro ou cinco praias, e por isto mesmo uma vila superadensada. Lembrei de Pipa, no Rio Grande do Norte. Das ruas não se vê o mar, tal a ocupação. E elas são estreitas, com um traçado sinuoso, não há planejamento. As casas não seguem padrão algum. São construídas meio que em cima umas das outras, estão cheias do famoso “puxadinho”, tudo feito de qualquer jeito. Na alta temporada a população quadruplica, e os precários serviços de saneamento, quase inexistentes, não dão conta. O resultado? Poluição urbana generalizada na maioria das praias daqui. No livro Povos e Águas, de Antonio Carlos Diegues, há dados alarmantes. Por exemplo, “em 1980 a taxa média de urbanização de Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela, era de 96%, passando a 97,7% no ano 2000”. E prossegue: “ a média das áreas das propriedades rurais diminuiu de 16,5 em 1980, para 6,7% em 1996. Por outro lado a média das áreas de pastagens aumentou, de 14,3% para 21,8%”. Diegues ainda lembra que em razão da construção de estradas litorâneas e condomínios, “ a fragilidade das encostas (da serra do Mar) foi agravada, resultando em deslizamentos constantes”. Mas isto só não basta: há o terminal de petróleo, de São Sebastião, no meio do caminho, cercado por Santos, ao Sul, e Sepetiba, ao norte, três dos maiores portos brasileiros. São centenas de navios por ano, com milhares de toneladas de água de lastro despejadas quase continuamente. Além do risco permanente de vazamentos de petróleo no mar. E milhares de carros de turistas que vêm no verão e nos feriados. Aqui a bordo há um recorte da Folha de S. Paulo, de 22 de dezembro de 2005, portanto em pleno verão. Título: “Litoral norte espera 4 milhões de turistas”. No corpo da matéria está a informação que “Caraguatatuba espera 1,5 milhão de pessoas- o município possui 95 mil habitantes”.

    Agora um fato pouco divulgado: ao contrário do que se pensa dos cem por cento de petróleo que já vazou para os oceanos, 80% vem dos automóveis, não de acidentes com dutos ou navios. É petróleo em forma de fumaça que é expelida pelos motores dos carros e sobe para a atmosfera num primeiro momento, mas depois, com as chuvas, é devolvida para o solo. Misturada com a água ela cai em rios, enche córregos, desliza feito enxurrada pelas ruas das cidades, e ao final vai parar no mar. Parece que todos os caminhos levam sempre ao mesmo destino: a água dos mares.

    Estamos na divisa entre as duas maiores aglomerações urbanas do Brasil, Rio e São Paulo. Acrescente-se a isto a falência ou omissão do Estado. Não há saneamento básico. Ilhabela com 20.8 mil habitantes, divididos em 5.7 mil domicílios, tem uma taxa de 2,3% de saneamento nas residências, ou seja, apenas 131 casas com tratamento de esgoto doméstico. Caraguá tem 5.1 mil domicílios para uma população de 78 mil habitantes, e só 23% contam com este serviço. Ubatuba não é diferente. Tem 66.8 mil habitantes, e 18.1 mil domicílios. Apenas 22% contam com saneamento. Fora os lixões a céu aberto e as favelas que vão subindo pelas escarpas da serra do Mar, onde moram antigos caiçaras ou trabalhadores da construção civil (única atividade que parece não parar de crescer). Para piorar temos a ineficiência do Estado quanto à fiscalização de construções irregulares, mesmo a região sendo “protegida” por várias formas: o Parque Estadual, a Mata Atlântica ( decretada como Reserva da Biosfera pela Unesco), e a zona costeira, cuja proteção a Constituição assegura. Com tudo isto a situação é alarmante. Belíssima como paisagem, outrora riquíssima em vida animal, ainda especial pela biodiversidade vegetal que abriga. Mas caminhando a passos largos para o caos, a situação limite, depois da qual não restará muito a preservar. A parte cultural já está em seus estertores. Poucos caiçaras conseguem sobreviver. A sobrepesca acabou com seu sustento, o turismo desordenado, ou o modelo de segunda residência, como nos disse o professor Paulo Pereira de Gusmão, da UFRJ, não conseguiu substituir a atividade original. No meio disto tudo ainda há pequenas comunidades quilombolas e indígenas Guaranis, em Parati.

    Ou o Estado e a população abrem os olhos, ou logo, logo, vamos nos arrepender. Há muito o quê falar ainda, e mais dados a passar, mas fica pra outro dia.

    Amanhã encerramos a parte terrestre e seguimos de barco para o Pouso. Depois praia do Sono, Laranjeiras, Couves de Picinguaba, e ilha Anchieta.

    Antes do jantar ainda levei o Alonso para, mais uma vez, tirar a pressão. Tinha baixado mais um pouco. Melhor assim.

    Em seguida jantamos e fomos dormir. O frio, desafiando as estatísticas, continua brabo.

    Quinta- feira, 31- 08- 2006.

    Pela manhã pegamos nosso carro e, como qualquer turista fomos testar as portarias de Laranjeiras e conhecer a vila do Oratório, construída para os caiçaras que antes moravam na região.

    Para chegar é preciso sair da BR 101 e subir o morro numa estreita estradinha de asfalto que serpenteia entre a mata, até chegar no cume. Do outro lado, lá embaixo, fica a praia. A primeira portaria foi assentada neste lugar, o topo do morro. Aqui pedem meu nome e nos deixam passar. Antes perguntam sobre meu destino. Digo que vou para a Praia do Sono, que utiliza a mesma entrada. Em seguida descemos. À nossa direita dá pra ver as cerca de 200 casas do condomínio mais que famoso (ainda há cerca de cem terrenos para serem ocupados). Apesar de ficar no Rio, 95% dos ocupantes são paulistas, quase todos de notórios sobrenomes, ligados a algumas das mais emblemáticas empresas do Brasil. O creme de lá creme, como se diz.

    Tudo começou nos anos 80, quando a Brascam comprou a área e, em seguida, tratou de tirar os moradores tradicionais. Conversamos com alguns deles na vila Oratório, que fica ao lado do condomínio. Nem todos vêm o que aconteceu como positivo.

    Segundo nossas fontes a empresa apresentou um pacote fechado aos caiçaras, não dando muita chance para discussões. Tirou-os do lugar e criou para eles uma vila (que fica dentro da APA do Cairuçu). Em seguida a Brascam bancou a infraestrura do local (exceção à luz elétrica, provida pelo Estado do Rio), que parece ser de fato de primeira linha. Água e esgoto tratado, lixo também, posto de saúde, enfim, não há o que reparar nestes itens. A vila Oratório dos antigos caiçaras, tem todos estes melhoramentos além de casas boas, ruas asfaltadas, escola com equipamentos de informática modernos, e empregos para os moradores. Eles hoje são caseiros, cozinheiros, marinheiros, jardineiros, etc, do condomínio, que é o segundo empregador da região logo depois da prefeitura de Parati. Em 2002 foi criada uma ONG, hoje uma “OCIP” ( Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), www.cairucu.org, que “visa a defesa, preservação e conservação do meio ambiente, e a promoção do desenvolvimento sustentável da região”. De certa forma pode-se imaginar que aparentemente estão conseguindo. Mas para chegar a este ponto o condomínio contribuiu para apressar o fim da cultura caiçara, além de terem construído uma vila dentro da APA, o que é estranho. Quanto à praia, espaço público, o discurso oficial é que “o acesso não está vedado”. Só em parte. Na portaria, que fica em cima do morro, bem distante do mar, “há uma trilha (não sinalizada, acrescento) para quem quiser ir à praia”, dizem os funcionários. Na prática o acesso está fechado, sim. Não sei como conseguiram, mas Laranjeiras, que é da União, foi privatizada. Destaque negativo. Nas conversas que tivemos com moradores ficamos sabendo que grande parte se sente constrangida ao terem de se identificar ao entrar ou sair, ou de ter seu carro (alguns caiçaras têm o seu, é bom que se frise), ou bolsas, revistados ao ter acesso à área das casas do condomínio. Quem reclama muito, e se expõe, corre o risco de sofrer represálias, quem sabe perder o emprego. E os políticos de Parati? Eu pergunto. Como resposta, recebo a insinuação de que a maioria tira vantagens do imbróglio, o que favorece a manutenção do status quo. No país do mensalão, porque não?

    O poder aquisitivo melhorou, não resta dúvida, a pobreza aqui é exceção. A escolaridade, aparentemente, aumenta o que é positivo. Mas o direito de ir e vir é disfarçadamente restringido, e a cultura caiçara sofre um baque pesado. Existem prós e contras. É preciso refletir se este modelo comporta outros exemplos. Tenho sérias dúvidas.

    Antes de irmos embora ainda entrevistamos Ana Melino, gerente da Associação Cairuçu, uma Ocip criada e mantida pelos condôminos de Laranjeiras. Ela me pareceu uma pessoa séria e engajada, procurando contribuir de alguma forma, apesar de tudo. Ana contou que a entidade ainda é vista com desconfiança pelas populações tradicionais, mesmo assim desenvolvem trabalhos procurando capacitar moradores para o turismo, e monitoração ambiental. Sessenta deles já fizeram o curso que é ministrado pela OCIP em parceria com a Reserva da Biosfera. Ana diz que a área de atuação engloba comunidades de Campinho (quilombolas), além de moradores de Trindade, Patrimônio, Ponta Negra, praia do Sono e Laranjeiras. Segundo ela, a maioria das quase 40 famílias Guaranis mora no entorno de Parati Mirim, e a comunidade mais problemática é a de Ponta Negra. Ali vivem cerca de 300 pessoas em condições de grande atraso. Elas sequer usam os banheiros, que foram construídos pela entidade, tanto que parte do material foi desviado para outros fins. Há sérios problemas de alcoolismo, e grande parte dos moradores, especialmente crianças, sofrem de anemia. Não há luz elétrica e só se chega de barco. Ao todo são quase cem casas, grande parte ilegal, erguidas nos últimos anos apesar da área estar dentro da APA do Cairuçu. Ali vive-se como se o Brasil ainda estivesse no século 16. E tudo isto na divisa dos Estados mais ricos da Federação: Rio e São Paulo.

    Que modelo de “desenvolvimento” é este que eterniza a pobreza, e onde uns podem mais que os outros?

    Temos responsabilidade sobre isto, é bom pensar. E daqui pra diante fazer nossa parte. É preciso sair da letargia e exigir do Poder Público, reclamar, aprender, não contribuir para piorar. Ajudar se for possível. Denunciar quando for necessário. Nossa geração tem obrigação de passar para frente um planeta melhor.

    Do jeito que vai nós não vamos conseguir.

    De tarde, mais uma vez, fomos até o centro de Parati fazer compras, e entrevistar um cirandeiro. Conversamos com Verino de Barros. Ele está triste porque “já não dão bola para estas danças que vieram de Portugal no século 17, preferem pagode ou punk.” A prefeitura ajuda pouco e as crianças não querem mais aprender com seus pais, como estes fizeram com os pais deles. A arte está morrendo. Seu Verino, aos 78 anos, é um de seus últimos representantes. Fizemos uma boa entrevista. Depois, pela última vez, tiramos a pressão do Alonso, agora quase normal. Em seguida embarcamos e partimos.

    Nosso destino era o Pouso, por isto navegávamos por fora da ilha do Algodão. Mas não tínhamos feito duas horas de viagem quando um forte vento leste começou a nos pegar pela proa. Em poucos minutos chegava aos 25 nós nas rajadas. Vamos ficar refém dele no Pouso, sem abrigo para este lado. Terceira mudança de planos: arribamos para o Saco de Mamanguá, este sim, protegido do vento leste. Amanhã de madrugada tocamos para a enseada do Pouso de Cajaíba.

    Sexta- feira, 1- 09- 2006.

    Às 6h saímos para o Pouso. Estávamos quase chegando quando desabou a frente fria. Vento forte, na casa dos 30, 35 nós, agora de sudoeste. Ondas altas começaram a levantar. Chuva fina vinha junto. Voltamos e fundeamos ao lado do morro que, quando contornado, dá acesso à Mamanguá. Era o lugar mais protegido por perto. Vamos esperar aqui para ver no que dá. Tanto pode ser algo que veio para ficar, como ser fogo de palha e passar rápido.

    Foram duas horas de espera, com o veleiro tremendo a cada rajada mais forte. Felizmente o ferro não soltou, ainda assim deixamos o motor ligado para o caso de necessidade. Passado este tempo o vento amainou e pudemos seguir.

    Fundeamos e descemos no Pouso. Mesma história de sempre. Pescadores meio desamparados. Peixe não há mais, turismo que só traz dinheiro nas férias, no resto do tempo eles tentam sobreviver.

    De lá passamos em frente à praia da Ponta Negra, para gravar imagens, até seguirmos para a praia do Sono.

    Desembarcamos de novo, sempre correndo, à espera da entrada de outra frente fria, olhando para o céu para ver os sinais de sua aproximação. Mas aqui também deu tempo para uma rápida sessão de gravações, fotos, e até uma entrevista com um motorista que usava o tempo livre para consertar canoas. Assistimos o reparo a uma delas, de cerca de cem anos, enorme, feita de Ingá, de propriedade de um dos moradores da praia do Sono. Depois partimos para Laranjeiras, ao lado. Vamos dormir aqui esta noite, com um olho aberto outro fechado, vigiando as frentes. Amanhã seguimos viagem.

    Antes eu e Cardozo ainda fomos de bote gravar as casas do condomínio. A maioria é de mansões de alto padrão, de bom gosto. Poucas casas foram construídas próximas demais do mar, mas algumas entre elas sim, inclusive umas poucas sobre a areia da praia.

    Depois voltamos, almoçamos/jantamos, e fomos dormir pensando na frente que já começava a entrar. Mais sudoeste, chuva, e frio. Não está sendo fácil esta etapa.

    Sábado, 2- 09- 2006.

    Cedinho, para minha surpresa, o céu estava parcialmente aberto, e o vento bem fraco. Tomei um café, pedi pro Alonso levar o barco até Picinguaba, e voltei para a cama. Dormi profundamente. Quando acordei a tripulação estava excitada. Eles tinham enfrentado 45 nós de vento sudoeste pela proa, e eu nem tinha acordado! Já estávamos em Picinguaba nesta altura. Aproveitei para fotografar enquanto o Cardozo gravava as imagens. Em seguida circunavegamos a ilha de Couves, e seguimos viagem para Ubatuba. Nossa tripulante nesta etapa, a professora- estagiária da UNICAMP, e mestrando em História, Maria Lucia Abaurre, precisava desembarcar e retornar para Campinas. Nesta etapa resolvi, pela primeira vez, trazer um telespectador de nosso programa. São tantos os correios que recebo, e tão boas as dicas que me passam, ora sobre livros ou relatos de antigas viagens, ora sobre lugares que estão em nossa rota, que desta vez resolvi convidar um deles a bordo, e assim retribuir. E foi muito bom. Pretendo repetir a dose agora no sul.

    Antes do desembarque passamos próximos à baía de Ubatuba, em frente às praias mais ocupadas, começando com Barra Seca, Perequê- Açu, Cruzeiro (Iperoig), e Itaguá. Incrível a feiúra dos prédios, condomínios, e casas nos costões, ou em topos de morros. Impressionante o estrago que causam no sítio. Fica claro que seu construtor não se preocupou um segundo, em adaptar a arquitetura e o estilo. São enormes estruturas de cimento pintadas em cores contrastantes com as da Mata Atlântica que cerca a região. Em lugar do impacto mínimo, aqui aconteceu o contrário: um máximo de impacto por cada construção. Um torneio de mau gosto. A tripulação do Mar Sem Fim não deu um pio enquanto durou esta passagem. Mas cada um de nós estava com o olho vidrado nas alterações do entorno, sem quase acreditar no que víamos. E este não é o único caso do litoral paulista, antes fosse.

    Finalmente chegamos no Saco da Ribeira, onde nossa tripulante desceria. De um lado do morro ainda há a pujante Mata Atlântica. Do outro, primeiro fizeram a bobagem de cortar toda a vegetação. Quando a erosão começava, botaram a pá de cal que faltava: reflorestamento do morro com Pinus, árvore típica da Suíça, do clima frio do hemisfério norte. Um horror total, e mais uma inversão de valores que só demonstra ignorância. Lamentável ver esta árvore medíocre no lugar da beleza selvagem e da biodiversidade da Mata Atlântica. Se eu pudesse desembarcava com uma serra elétrica e não deixava nenhuma de pé.

    Por hoje é só, folks. Agora um bom banho quente me espera. Depois cama. Amanhã investigamos Ilha Anchieta, depois seguimos para Ilhabela, ponto final desta etapa.

    Domingo, 3- 09- 2006.

    Peço licença ao leitor para me estender sobre o assunto de ontem. Andei relendo meu texto, antes de dormir, e achei que talvez eu pudesse ser mais claro ainda quanto aos pontos principais pelos quais venho chamando a atenção em todas as viagens. E vou contar porquê.

    Aqui no sudeste, especialmente de Búzios, no norte do Rio, e até Cananéia, na divisa de São Paulo com o Paraná, não há quase praia que não tenha pago um alto preço pela sua ocupação. Como resultado, elas tiveram em troca o comprometimento, muitas vezes definitivo, de sua beleza original. E tudo isto aconteceu muito rápido. E continua a ser assim, só que agora o foco é o nordeste.

    Há cem anos atrás esta parte do litoral tinha a mesma aparência dos tempos de Cabral, ainda que muito de sua biodiversidade já tivesse ido pra Glória. Mas nos últimos 60 anos as alterações foram tão severas, e com tamanha intensidade, que a paisagem nunca mais será a mesma. A ocupação na maioria dos casos banalizou e enfeou o que a Natureza fez único e espetacular. A biodiversidade continua diminuindo, talvez em ritmo mais acelerado. E a pobreza, com raras exceções, se eternizando.

    É muito rápido para algo que vai ficar para sempre. Durante pouco mais de quatro séculos de ocupação as marcas visíveis foram poucas. Nos últimos 60 anos não deixaram apenas marcas, mas grandes cicatrizes que nunca mais sairão.

    Foi por conhecer este litoral em meados dos anos 60, e início dos 70, ainda semi- ocupado, espetacular, e vê-lo hoje, parcialmente detonado, sem grande parte de sua beleza, é que resolvi fazer a série de Tv.

    Com as informações que temos não podemos permitir que o erro persista. Nem que seja preciso cometer outros, ao menos teremos tentado. E não adiantar culpar só as autoridades ou o Estado. Parte da população tem sido cúmplice, ou co-autora, no mau trato. E este roteiro pode mudar. Basta querer, e saber como.

    Por isto tenho insistido.

    Bom, voltando à nossa navegação, saímos ás 7h do Saco da Ribeira, da Marina onde dormimos esta noite, e tocamos para a ilha Anchieta, logo aqui ao lado. Antes ela se chamava ilha dos Porcos, mas teve o nome mudado, no anos 50 do século passado, para homenagear José de Anchieta, que andou por estas bandas. Todo mundo lembra do “Armistício de Iperoig”, obra de Nóbrega e Anchieta, quando conseguiram estabelecer a paz entre os Tamoios, chefiados pelo temível Cunhabebe que, com seus guerreiros, não parava de fustigar Bertioga, Santos e São Vicente, no primeiro século após a descoberta. Pois Iperoig fica na baía de Ubatuba, e hoje é conhecida como praia do Cruzeiro.

    Ilha Anchieta foi o lugar escolhido para a construção de um presídio, em 1906, por obra de Washington Luiz. O prédio principal é do famoso arquiteto Ramos de Azevedo. Ele esteve na ativa até 1955, quando uma terrível rebelião eclodiu, e foi de tal forma violenta e sangrenta que não sobrou muita coisa. O presídio foi desativado depois dela.

    Desde então quem vem para cá são turistas. Nos anos 70 a ilha virou parque e, nos 80, uma tremenda bobagem foi (re)feita. O Zoológico de São Paulo soltou alguns animais por aqui. Capivaras, cotias, sagüis, e outros. Como não há predadores naturais estes bichos tomaram praticamente a ilha toda. E isto, hoje, é um enorme pepino ecológico. Os sagüis, por exemplo, comem os ovos dos pássaros, para citar apenas uma das conseqüências negativas da introdução de espécies exóticas. É impressionante. Mesmo com o notório exemplo de Fernando de Noronha (vide diário de bordo 11) , quando, nos anos 60, Tejus foram introduzidos sem estudos prévios, para darem cabo dos ratos. Todo mundo sabe o resultado desastroso que deu. O horrendo lagarto Teju hoje domina a ilha, se regalando com os ovos das tartarugas que lá desovam. Pois a mesma sandice foi feita em Anchieta, muitos anos depois, e por um órgão vinculado à Secretaria de Meio Ambiente do Estado… Era preciso gravar imagens da bela ilha, e contar esta história. Por isto viemos.

    Mas, ao chegarmos, uma condição foi imposta: a questão da soltura equivocada dos animais só poderia ser tratada com a diretora do Parque, que não estava. Vamos entrevistá-la em São Paulo. Fomos recebidos pelo monitor Elias Santos, que nos levou por uma trilha até o topo do morro que fica atrás do antigo presídio, de onde se tem uma bela vista de toda a região.

    Fizemos tudo na maior pressa, outra frente está para chegar. Antes do meio- dia já estávamos navegando para Ilhabela. Os sinais de sua aproximação já estão presentes, mas parece que vai dar tempo, precisamos de três horas de navegação.

    Conseguimos. Chegamos em Ilhabela com o vento sul começando a entrar, ainda que o grosso dele venha de madrugada. Vai nos pegar dormindo, abrigados no Iate Clube, felizes por termos conseguido escapar de três frentes frias, das mais fortes, durante esta etapa.

    Segunda- feira, 4- 09- 2006.

    O vento sul de fato entrou esta noite, e está ainda mais forte agora pela manhã. Por sorte temos pouco a fazer hoje. O programa sobre Ilhabela foi gravado em três épocas diferentes. Logo antes de começarmos a série estivemos aqui para gravar um piloto. Depois, já este ano, viemos de novo, em julho, para gravar a regata Eldorado- Alcatrazes por Boreste. Finalmente, ainda devo retornar semana que vem, com tempo aberto, para concluir o programa. Feito isto, farei um relato à parte, sobre esta que talvez seja a mais famosa ilha do litoral de São Paulo. E cheia de muitos problemas, como sempre…

    Hoje a coisa tá preta. Frio de rachar, vento zunindo e muita chuva.

    Daqui a pouco desembarcamos em São Sebastião, e tocamos para casa. Mais uma etapa está concluída.

    Ah, quase esqueci, tivemos uma quarta mudança de planos. Estava já de noite quando partimos por isto a gravação das praias, de São Sebastião até Bertioga, por terra, terá que ficar para uma próxima vez.

    Por mais que se planeje uma viagem de barco, elas são sempre assim, cheias de surpresas pelo trajeto…

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