De Macapá para Belém

    0
    358
    views

    Chegamos em plena sexta-feira de carnaval, à meia-noite, vindos de São Paulo. Do aeroporto tocamos direto para Santana, na Capitania dos Portos, onde o Mar Sem Fim e o Alonso estavam nos esperando.

    O Trapiche da Marinha, onde estávamos atracados, é um pequeno pontão de madeira na margem do Amazonas, que nos permitia descer no pátio da delegacia dos Portos. Foi ótimo ter tido este apoio da Marinha, sem o qual, eu não sei como faria. Hoje é cada dia mais comum haver roubos em barcos, em toda a costa brasileira, mas os daqui algumas vezes são acompanhados por certa dose de violência. Foi neste mesmo lugar que foi morto, há alguns anos atrás, o mais que famoso Peter Blake…e eu mesmo já fui assaltado uma vez, em Bertioga, litoral de São Paulo, quando três pessoas invadiram o veleiro, de noite, um deles empunhando um 38, o outro com uma 44, e o terceiro carregando uma 12. Levaram tudo que puderam: dos rádios vhf ao bote de apoio. Foi um sufoco tremendo para o Alonso e eu, que estávamos a bordo. Desta vez, para procurar fugir deste tipo de perigo pedi apoio, de modo que em Macapá e em Belém, o Marzão vai poder ficar parado em portos protegidos, da Marinha do Brasil.

    Nosso plano para esta etapa é chegar até Belém, passando entre a ilha do Marajó e o continente. A foz do Amazonas tem mais ou menos 300 km de extensão, e você pode passar pelo mar, por fora, ou por dentro, entre a ilha e o continente, através de uma série imensa de rios, e ” furos ” , que é como eles chamam por aqui estes estreitos canais que ligam o rio Amazonas ao rio Pará. Escolhemos a opção ” por dentro ” por que ela permite que a gente navegue bem perto da margem, podendo ver perfeitamente cada detalhe da costa, além de podermos descer em várias vilas que ficam pelo caminho. É um trajeto muito mais interessante. Nossa primeira parada, amanhã, será a vila de Afuá, que fica na margem Nordeste da ilha de Marajó, a cerca de 45 milhas do porto de Santana.

    E por hoje é só. Já está ficando muito tarde.

    5-02-2005

    Acordamos cedo, fomos ao supermercado, fizemos algumas filmagens no belo forte São José de Macapá, construído em 1764, e muito bem conservado, e às 10hs30 já estavamos dizendo adeus a este que é o derradeiro Estado brasileiro, situado ao Norte. Tínhamos um belo caminho a percorrer, primeiro descendo o grande rio em direção a sua foz, um par de milhas, para depois guinar para boreste, e começar a entrar em rios menores, cortando o caminho para chegarmos em Afuá.

    Depois de quase três horas navegando em boa profundidade, de repente o inevitável começou a rolar: a cada metro pra frente mais raso o rio ficava, a ponto de, meia milha adiante, já começarmos a preparar para desencalhar. Percebi que havíamos escolhido o caminho errado e dei meia volta. Bem em frente à cidade de Macapá há um estreito braço de rio, entre ilhas, e este sim é o caminho certo para Afuá. Eu já desconfiava pela quantidade de barcos que vi passar naquela direção, então resolvemos seguir os locais e logo estávamos na rota correta. Perdemos tempo. Eu queria chegar ainda esta noite na cidade, mas não seria mais possível. Vamos escolher um bom local, quando não houver mais visibilidade, e ali fundeamos e esperamos o dia amanhecer para continuar. Desta vez não quero mais encalhes dramáticos como o de Calçoene.

    6-02-2005

    Conseguimos navegar até perto das 2 horas da manhã, quando então fundeamos e fomos dormir. Estávamos bem próximos da saída do canal que fica entre as ilhas Cará e ilha Queimada ou da Serraria. Nosso fim de tarde, ontem, foi maravilhoso. Uma iluminação forte e quente deixou as matas nas margens com tons dourados meio amarelados , criando uma espécie de ” aura ” em volta, algo misteriosa, realmente espetacular. Aquela luz realçou o colorido da bela mata ciliar, com árvores imensas e enormes copas, alternadas com açaizeiros típicos da região. Show de bola, ou melhor, da natureza.

    Saindo do canal que separa as duas ilhas, navegamos mais cinco milhas para então cruzar a baía do Vieira Grande, em direção ao rio Afuá, em cujas margens foi construída a simpática cidade que íamos visitar .

    Afuá é uma vila erguida em cima de palafitas. O solo aqui é constantemente invadido pelas cheias do rio, a ponto da cidade inteira ser construída desta forma. Em toda a região, entre cidade e arredores, são cerca de trinta mil pessoas.

    Chegamos por volta das 11hs da manhã, e junto conosco veio uma forte chuva típica do inverno nortista, rápida, daquelas que desabam de forma violenta, mas sem trovões, raios e que tais: apenas um aguaceiro intenso, copioso, que depois que acabou deixou em sua esteira um ar bem mais fresco e agradável .

    Afuá tem personalidade. É diferente e graciosa, especialmente quando vista da perspectiva do barco. Arborizada e limpíssima, suas casas têm mais ou menos o mesmo tamanho, seguem um certo padrão, e a grande maioria é construída com taboas de madeira, pintadas em cores vivas e alegres. Bem no meio há uma praça, e um atracadouro que parece ser bem movimentado, dado o número de Gaiolas (barcos típicos de transporte de pessoas e gêneros) encostados. O cais percorre boa extensão da vila, cercado por passarelas , onde bicicletas de todos os tipos passeiam em velocidade. Ao fundo, separado por um braço de rio, uma imensa serraria, cheia de toras de madeira em sua volta, confirmava o que eu havia lido a respeito : esta é uma região de pouca agricultura ou pecuária, devido às dificuldades do solo alagado, mas de intenso extrativismo.

    Chegando mais perto da vila, perguntamos para alguns foliões que perambulavam por ali, onde haveria um posto de reabastecimento. Mais uma vez nos indicaram um braço de rio bem próximo, onde abastecemos de diesel e gás. Em seguida tornamos a voltar para a frente da cidade, onde fundeamos.

    Em segundos viramos a atração do dia. Dezenas de garotos vieram nadando até nosso bote, curiosos com tudo, mas especialmente pelo veleiro, muito pouco comum nestas bandas.

    Descemos na cidade para as tradicionais filmagens, e descobrimos que aqui não há ruas, mas passarelas de madeira, suspensas, como as casas que ficam em palafitas. Trata-se de uma espécie de Veneza no meio da selva, ainda que seja uma comparação um tanto exagerada. Em todo o caso a cidade tem seus méritos. Tudo aqui é muito limpo, e passeando pelas passarelas, descobrimos locais especialmente construídos para a população colocar o lixo reciclado. Seus habitantes são na maioria exímios ciclistas, já que este é o meio de transporte mais usado, as passarelas não suportam carros . Apesar de não serem muito largas, é por elas que eles se deslocam em suas bikes, muitas vezes incrementadas com uma espécie de side car, que pode carregar até mais duas ou três pessoas. Esta esquisitice sobre rodas ainda possui um local onde eles colocam uma bateria, destas usadas em automóveis, conectada a um aparelho de som que quase sempre está ligado no mais alto volume. Parece ser sinal de status ter estas bikes com side car e som. Muito curioso.

    Tentamos entrevistar o pessoal da serraria, mas o gerente se recusava a falar. Dizia não ter ordem, mas garantiu que a madeira deles era legal, com selo e tudo. Não sei não…

    Depois dos passeios e gravações voltamos ao barco para dormir. Partiríamos no dia seguinte para Breves, talvez a maior cidade da ilha de Marajó, situada em sua parte Oeste, nas margens do furo ( espécie de canal estreito ) dos Macacos.

    Nem bem deitei na cama e senti o veleiro dar uns trancos fortes e esquisitos. Levantei correndo e percebi horrorizado, o Marzão cercado por toras de madeira, imensas, que estavam sendo carregadas, puxadas por um barquinho, como se faz nestas paragens. Só que o barqueiro fez a curva muito fechada, e não considerou que a fila de toras poderia se chocar contra o casco de meu barco, mas foi exatamente o que aconteceu. Gritei, toquei buzina e liguei nosso farol, até que o barqueiro percebeu a situação e parou as máquinas. No mesmo instante um ajudante pulou na imensa fila de toras, de uns 60 a 70 metros de comprimento, amaradas uma a uma, e “correu” até meu barco, para ajudar a empurrar a proa do Mar Sem Fim para longe da fila de toras ameaçadoras. A cena toda foi exótica demais e felizmente não passou de um susto. Ainda atordoado com tudo aquilo, fui deitar outra vez.

    Dormi profundamente até às 6 horas da manhã.

    7-02-2005

    Acordei com o barulho do motor do barco sendo ligado. Pulei pra fora da cama e ainda tive a chance de ver Afuá na popa do veleiro, sob um céu avermelhado, num colorido típico do nascer do sol. Uma cena inesquecível, de rara beleza. Hoje vamos andar algo como 100 milhas, até chegar a Breves, a maior cidade da ilha, com quase 80 mil habitantes.

    Assim que saímos de Afuá caímos no Canal do Vieira Grande, e começamos a navegar rumo ao furo dos Macacos.

    Navegação meio monótona, esta pelos grandes rios ou canais. As margens ficam muito longe, 3 a 5 milhas, às vezes mais, o que não permite que a gente curta a paisagem. Aproveitei para descer para a cabine para escrever meus relatos. Nem bem tinha começado quando ouvi a Paulina esbaforida, gritando nervosa lá fora. Não demorou para ela entrar, reclamando, se abanando de um lado pro outro, praguejando, e perguntando pro Alonso : ” Será que eles vão entrar aqui dentro?” Com aquela invasão toda fui obrigado a parar e ver de que se tratava. Olhei na direção da Paulina, e ela então deu o tom : ” Vai lá fora, João, ver o enxame de abelhas que está no seu barco ” , disse ela, frisando o ” seu barco ” .

    Fui. Meio incrédulo com a novidade, mas fui. Em cima do cockpit, que considero ” meu terraço ” , havia de fato uma zoada de pequenos insetos voando de um lado pro outro. Alonso no leme, segurava uma camisa enrolada, a guisa de cacete, e estapeava o ar, dando pauladas à esquerda e direita. Ainda assim não achei a coisa grave. Foi então que me alertaram para ver o mastro, encoberto pela lona do toldo. Botei a cabeça pra fora, e vi, estarrecido, uma mancha negra, grossa, meio em movimento, montando uma colméia na altura da cruzeta do mastro grande. Não acreditei. Milhares de abelhas, grudadas umas nas outras, estavam se amontoando e construindo alguma coisa ali. Outra parte delas havia sido enrolada junto com a genoa, vela de proa que estava aberta antes dos intrusos alados chegarem. Inacreditável as surpresas que navegar de veleiro por uma bacia hidrográfica nos reserva ! Francamente…por abelhas, milhares delas, eu não esperava. Felizmente eram ” do bem ” , daquelas com a bunda amarela e preta, não sei como se chamam, sei que por sorte não eram as temíveis africanas.

    Resolvi não fazer nada. Nem tinha o que fazer. Até hoje não carrego fumegadores a bordo. Será que devo? Desci, continuei a escrever, e do jeito que elas vieram, alguns minutos depois saíram todas, evaporaram, sumindo canal afora.

    Ainda bem. De animais clandestinos a bordo bastam as baratas d’água que entraram sorrateiramente a bordo quando estávamos no porto de Macapá. Vou contar uma coisa : prefiro as abelhas. Estas baratas são seres de outro planeta. Horrendas, anormalmente grandes. Algumas chegam a ter o tamanho da palma da mão, de comprimento, por três dedos de largura. Um troço de meter medo. Para elas o ácido bórico que trago a bordo, eficiente remédio contra baratas normais, não faz o menor efeito. Estas daqui a gente só mata a poder de machadada, porrete ou com a ajuda do três-oitão. Vejam as fotos que fiz duma gordona, que passeava pelo porão do forte São José. Juro que vale a pena.

    Bem, depois de muitas milhas pelo grande canal do Vieira, entramos no furo dos Macacos. Belo caminho este. Bem estreito, com matas lindas nas margens, aqui e ali uma casinha montada em palafitas, no geral bem tratadas, limpas, muito pobres, mas dignas. Sempre que passamos defronte alguma delas as crianças pegam suas montarias ( pequenas canoas ) e remam em nossa direção. É preciso ser ágil e desviar, caso contrário você corre o risco de afundá-las. Este é o esporte preferido da molecada. Como cachorros que gostam de investir contra os pneus dos carros, em pequenas vilas do interior, as crianças daqui acham o máximo se aproximarem perigosamente de qualquer embarcação. Elas vêm pegar onda na marola que fazemos, e pedem que a gente de presentes. Eu já sabia desta tradição dos estreitos, e por isto trouxe dezenas de camisetas velhas. Também comprei diversas caixas de lápis de cor de cera, que embalava junto com uma camiseta, num pequeno saco de plástico, destes usados em supermercados, e para cada canoa que passava nós atirávamos ” as bombas da esperança ” , como as batizou a Paulina. Era uma festa !

    Esta gente daqui é muito pobre e isolada. Moram em casebres de madeira, sobre palafitas, no meio do mato, nas margens dos canais. O barco continua sendo o elo com o resto do mundo, sem eles não sobreviveriam. A Amazônia tem 20 mil quilômetros de vias navegáveis em qualquer época do ano. É algo grandioso, e por isto a tradição dos vários tipos de barcos. Das pequenas montarias, verdadeiros caiaques para um, dois ou mais passageiros, até as Gaiolas que transportam centenas de pessoas em redes, ou os batelões e regatões, que carregam comida e gêneros, e comercializam este material com os ribeirinhos ao longo do caminho. Tudo aqui depende do barco em primeiro lugar. E os rios, além de via de comunicação, dão a comida, o peixe, e outras vitaminas. Fora isto o caboclo tira o palmito do mato, para consumo próprio, mas também vende para fabriquetas que vimos ao longo do trajeto. Alguns ainda têm pequenas hortas, ou plantam alguma raiz comestível, no mais, se viram comendo açaí, mangas, miriti, e jambo, que são pequenas frutas que a floresta lhes dá.

    Um pena a falta de uma política real de inclusão desta gente. Não sei bem como seria, mas suponho que com menos blá-blá-blá, com menos preconceito, como o ” de que o brasileiro passa fome ” , os governos por aí, bem que poderiam fazer melhor uso das estatísticas do IBGE, entre outros, e criar políticas sérias, consistentes, e trazer esta gente para o lado ” de dentro ” da sociedade, fazendo com que produzam e gerem riqueza, mesmo que seja ao modo deles. Do jeito que estão, abandonados, sem educação, conceitos mínimos de sustentabilidade, não irão muito longe. No máximo contribuem para espertalhões que enchem as burras vendendo madeira nobre, ilegal, que eles tiram da mata. Ou pior que isto. Acabam sendo cooptados por traficantes de animais, e vão atrás de peixes ornamentais e pássaros da mata, que acabam enfeitando pet shops dos Estados Unidos, Alemanha e Japão, principalmente, mas não apenas.

    Os dados a seguir, dão a dramática dimensão deste tipo de crime :

    38 milhões de animais são extraídos da natureza anualmente, normalmente oriundos de países tropicais pobres, e vendidos em países do primeiro mundo. Para cada um que sobrevive, outros três são mortos.

    ” O comércio ilegal exerce forte pressão sobre as espécies traficadas, reduzindo suas populações e comprometendo sua sobrevivência. E o quadro socioeconômico brasileiro contribui para o tráfico. Oferecer opções de atividades econômicas e educação ambiental à população destas regiões pode contribuir, juntamente com o aumento da fiscalização, para a redução do tráfico de animais silvestres ” . As frases acima estão na publicação Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, Brasil 2004, publicado pelo IBGE. Em vez de alimentar discussões para a criação e implementação de políticas públicas, que era o que deveria ser feito, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística servem hoje para irritar o Presidente da República, só por que ele meteu na cabeça que o brasileiro ” passa fome ” , com o bordão fez a campanha que o levou a presidência, e agora fica fulo da vida por que o instituto prova que não é bem assim. E ao invés de aproveitar o formidável manancial de dados que ele traz a tona todos os anos, e criar políticas inclusivas, os homens de Brasília querem mais é censurar a ” fotografia ” brasileira, que é o que tem feito o IBGE, proibindo a divulgação de seus dados. É mole? Se os dados não são aqueles que se quer, não se divulga? ! Simples, não? E que se dane quem não gostar. Cadê meu bonezinho do MST?

    Ora a falta de ação, ora a perda de tempo com bobagens; ou o sumiço da montanha de dinheiro, arrecadado via imposto de renda, através dos inúmeros ralos públicos, que faz com que nunca o real montante investido chegue ao seu destino intacto, ficando pelo caminho 20, 30% em caixinhas, comissões, excesso de funcionários, ineficiência e corrupção da máquina pública. Não fosse todo este disparate, e sobraria sim, muito dinheiro para poder dar educação ambiental, no mínimo, para estas e outras populações. E assim tê-los ” ao nosso lado ” , e não contra nós, a serviço que uns poucos espertalhões, donos de madeireiras, ou de empresas de exportação de animais silvestres.

    Eles poderiam ser os fiscais de toda esta diversidade, tomando conta e avisando sempre que houvesse qualquer ameaça, e não como hoje, obrigados que são, por absoluta falta de opção, a ganhar uns trocados trabalhando para poderosos chefões das várias organizações clandestinas.

    Mas é esperar demais de um governo ou ministério. Eles têm mais que continuar gastando tempo e dinheiro, para tentar evitar que a tecnologia chegue ao campo, aumentando sua produtividade, na tentativa de proibir os transgênicos, que é o que vem fazendo a turma ” verde ” do PT. Quando não tomam de assalto, e desmontam, órgãos de notória reputação de qualidade, como a Embrapa, por exemplo…

    Enquanto isto, a outra turma, a do tráfico internacional de animais, movimenta no mundo, 10 bilhões de dólares por ano ! E pior, o Brasil é responsável por dez por cento deste mercado mundial, ou seja, a espantosa cifra de um bilhão de dólares !

    Mas peraí que tenho muito que fazer. Hoje tô ocupadíssimo. Vou chamar ” meus assessor ” : Ô Zé, c’os diabos Zé, me ajuda aí, vai : com qual boné e camiseta vou me travestir amanhã, hein ?

    8-02-2005

    Não conseguimos chegar em Breves ontem. Tivemos que fundear e dormir no meio do canal. Já estava tarde e não havia luz suficiente para navegar.

    Chegamos hoje ao meio dia, e para variar, antes de entrar na cidade propriamente, cruzamos com alguns combios de barcos puxando intermináveis filas de toras dentro d’água. Lá se vai nossa diversidade, exportada pro exterior… também passamos por uma gigantesca serraria, com chaminés enormes, cuspindo fumaça sem parar…em sua frente um odor insuportável, de madeira molhada, um cheiro azedo, fétido, lembrando vômito .

    Depois da serraria, um grande cais, e dezenas de barcos encostados. Gaiolas médias, pequenas, e enormes, apinhadas de redes, esperavam seus passageiros. Pouco movimento nas ruas de Breves, apesar de chegarmos em dia de carnaval. Mesmo assim pudemos ver alguns foliões, fantasiados com máscaras, passeando pelas ruas. Mais para o interior da cidade, numa larga avenida, sem graça ou charme, com muito lixo a céu aberto, havia uma estrutura de madeira que lembra aquelas típicas dos sambódromos, que viraram moda e se espalharam como praga. No meio uma picape carregava um equipamento de alto falantes, dos mais potentes, que despejava pelas ruas um som medíocre, pior que o cheiro da serraria, e além do mais, distorcido. Um destes novos ritimos, cujo nome desconheço, em inglês, que não tem patavina a ver com carnaval. Era esta pobreza de espírito que embalava uns poucos foliões, bem desanimados, que ainda cismavam de marchar ao lado da perua, às vezes dando uns pulinhos, com os braços esticados, mãos para cima e dedos em ” V ” , a guisa de carnaval.

    Valha-me Deus!

    Passeamos um pouquinho, o suficiente para registrar tudo em vídeo, fizemos umas passagens para o programa de TV, e corremos de volta pro barco. Fiquei impressionado com a sujeira das ruas. Simplesmente atordoante. E o que mais desanima é a falta de vontade. Porque, se quisessem, poderiam ter uma cidade limpa. Basta vontade política. Como em Afuá, por exemplo, aqui pertinho, na mesma ilha de Marajó, com os mesmos problemas, mas cheia de cestos de lixo recilcado nas ruas…Se uma delas pode, por que a outra não? A mesma coisa vi no Amapá, com o município do Oiapoque batendo todos os recordes de imundice e desorganização, enquanto que, do outro lodo do rio, bem na frente, a vila francesa de Saint Georges primava pela limpeza, organização e civilidade. Uma pena isto tudo.

    De volta para o Mar Sem Fim, fiz um uísque, coloquei o quinteto de Brahms, para clarineta, para tocar, e fui pra cozinha, um de meus prazeres a bordo. Para este jantar vamos ter pastel de carne, arroz e salada de tomates.

    9-02-2005

    Mais uma vez acordamos cedo para fazer gravações. Navegamos por um canal em frente da cidade de Breves, cujas margens talvez sejam as mais bonitas até agora. Elas são repletas de açaizeiros, circundados por uma linda mata, com muitas casas, escolas, igrejas, e claro, as madeireiras de sempre. Filmamos bastante, cruzamos com algumas gaiolas, das grandes, e seguimos nosso caminho em direção a Curralinho, uma cidade já fora dos furos, às margens do rio Pará, um pouco antes de onde começa o rio Tocantins.

    Navegar por aqui tem lá seus perigos. Algumas vezes somos escolhidos por enxames de abelhas que cismam em construir colméias em nosso mastro, em outras somos quase atropelados por pequenas montarias, quando os nativos se aproximam para ” brincar ” em nossa marola. E é preciso, ainda, ficar atento com as imensas toras que boiam a flor da água. Não é preciso muita atenção, no entanto, para descobrir logo o maior problema do Pará : os madeireiros, a grilagem sistemática de terras públicas, a devastação, e a consequênte violência que vem a reboque, que avançam cada vez mais na floresta. Por todo nosso caminho durante esta etapa, salta à vista a quantidade imensa de madeireiras. São dezenas delas. A cada cinco, seis milhas, vemos uma instalada nas margens. E com frequência igual ou superior, pode-se ver barcos puxando filas enormes de toras pelos rios. É escandaloso confirmar a notória ausência do Estado, e mais uma prova de que a política brasileira para o meio ambiente é repleta de falhas e omissões. Pagamos quase 40% do PIB em impostos, e ainda não conseguimos ter uma polícia que traga tranquilidade às grandes cidades, muito menos uma polícia ambiental eficiente. Onde é que vai parar todo nosso dinheiro, se o Estado continua a não cumprir suas obrigações mais básicas ?

    Apesar de já terem sido desmatados cerca de 15% da floresta amazônica, o processo continua inexoravelmente. A cada ano se perdem 25 mil quilômetros quadrados de floresta. E tudo que os governos fazem é criar reservas e parques nacionais, no papel. Porque, sem uma política eficiente de fiscalização, estas reservas só ajudam a desmoralizar ainda mais nossa legislação, porque a depredação continua rigorosamente igual. É dramático !

    Chegamos em Curralinho no final da tarde, debaixo de forte calor.Tentamos fundear em frente a cidade mais foi impossível. O fundo do rio tem uma formação estranha, uma espécie de barro bem duro, de cor meio amarelada, e pegajoso como estas massas de crianças. Jogamos a âncora inúmeras vezes, mas ela escorregava por cima, recusando-se a fincar na lama. Não tivemos outra opção senão atracar no cais, em frente da rua principal da cidade. Em seguida descemos para as filmagens e algumas entrevistas, desta vez com o secretário de cultura e turismo da prefeitura. Curralinho é bem menor que Breves, que tem 80 mil habitantes. Aqui a população é de cerca de 15 mil. Cidade pequena, razoavelmente bem tratada, mas sem maior interesse. Preferi dormir aqui, em segurança, a correr o risco de navegar de noite pelo rio Pará, muito movimentado por todo tipo de embarcação. Ainda assim tivemos problemas. De noite uma grande gaiola se aproximou do cais, e apesar de estarmos numa de suas extremidades, ela, ao encostar, não conseguiu evitar abalroar nosso costado. Empurra daqui, segura de lá, e após alguns instantes de grande apreensão, os dois barcos se separaram, e a gaiola, depois de pegar alguns passageiros, seguiu seu caminho. Pudemos enfim dormir sossegados.

    10-02-2005

    Hoje é nosso último dia nesta perna. Vamos navegar, numa tirada só, de Curralinho até Belém. Serão 90 milhas através do rio Pará, largo, barrento, porém bem sinalizado pela carta, com muitos faróis ao longo do caminho, já que por aqui o tráfego marítimo é intenso. No caminho cruzamos com balsas enormes, que carregam mercadorias do Pará para o Amazonas, e vice-versa, algumas canoas a vela, e muitos barcos de pesca. Foram quase dez horas de navegação, mas sem incidentes. No fim do dia, na altura do porto de Barcarena, fomos recebidos por uma lancha da Marinha que já nos esperava. Ela nos escoltou até o porto de Belém, aonde chegamos de noite. Neste momento o Mar Sem Fim está ancorado na Capitania dos Portos, com apoio da Marinha do Brasil, aguardando pela próxima etapa de nossa viagem.

    COMPARTILHAR