De Camboriú para Florianópolis – SC

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    Segunda- feira, 5- 02- 2007.

    Nesta etapa vamos registrar a orla de cada baía e enseada daqui até a capital, Florianópolis, na ilha de Santa Catarina.

    Hoje não fizemos mais que abastecer e gravar algumas cenas do alto do morro da Aguada.

    Terça- feira, 6- 02- 2007.

    A enseada de Camboriú, onde estamos, fica cerca de 10 milhas ao sul de Itajaí. É um dos balneários mais procurados do Estado. Sua ocupação aconteceu a partir dos anos 70 e foi de uma intensidade impressionante. A muralha de cimento, na linha da costa, rivaliza com a do Guarujá, no litoral de São Paulo.

    O município tem 75 mil habitantes que dividem 24 mil domicílios. 82% deles têm esgotos tratados (IBGE, 2000), o que é uma percentagem acima da média e poderia induzir o leitor a achar que “está bom”. Acontece que nos feriados e férias a população mais que quadruplica. Aumenta dez vezes! E não há rede pública que agüente (além do lixo). Sem falar na questão da paisagem. E ela foi arrasada. Uma fila contínua de prédios, de um extremo ao outro, tomou seu lugar.

    Fiz uma passagem chamando a atenção, afinal mostrar a ocupação do litoral a partir de quem o vê do mar é nosso objetivo desde o início. Depois seguimos navegando para a próxima baía, a de Porto Belo, mais dez milhas ao sul.

    Contornamos a ponta das Laranjeiras, em seguida a das Taquaras, e já aproamos para o fundo onde, algumas milhas adiante, fica Porto Belo.

    No trajeto há várias praias, sempre cercadas por morros com mata atlântica por trás. As cores são lindas. O mar, por exemplo, tem um tom verde claro, peculiar, diferente do que vi no nordeste. As praias são mais ou menos tomadas. No geral por construções baixas, mas também há prédios. Penínsulas estão crivadas por casas de veraneio que escalam suas vertentes e, na maioria dos casos, não se vê preocupação em adaptá-las, protegendo a paisagem.

    A degradação é grande. Poucos são os ângulos que escapam. A praia de Porto Belo, a mais conhecida, disputa com Camboriú em quantidade de prédios. E sua infra-estrutura é raquítica: apenas 1,7% ou, 54 domicílios, dos mais de três mil em que vivem seus onze mil habitantes, têm tratamento de esgotos (IBGE 2000). Equivale a um massacre para a cadeia de vida marinha que depende tanto da orla.

    Com três horas de navegação estávamos fundeando no interior da enseada dos Estaleiros.

    Um churrasco nos esperava.

    Após o banquete, que além de carne teve vinho, fui escovar os dentes, e me preparar para deitar, quando ouvi um forte zunido. Ato contínuo, o veleiro quase deitou. Trovoada! Ela acabava de entrar.

    Saí correndo pra fora. Alonso já tinha ligado o motor e cuidava de tirar o toldo. Cardozo ajudava. As rajadas entravam com muita força, vinham por baixo, batiam nos panos e faziam o veleiro adernar, arrastando o ferro. Ao nosso lado havia outros barcos fundeados, alguns pesqueiros e até um restaurante- plataforma.

    Corri para o leme e acelerei. Era uma cena bizarra: o sol se punha enquanto o caos eólico, apocalíptico, se exibia lá em cima. Nas rajadas, que desciam furiosas em lufadas quentes e frias, desordenadas, era preciso imprimir força máxima à maquina apenas para o barco endireitar contra o vento. Começou a chover. A água caía do céu com força, mas vinha por todos os lados, inclusive por baixo. Mantas de tamanho considerável desgrudavam da superfície do mar, fustigada por intenso vendaval, e explodiam no ar em borrifos brancos como giz. Por trás, como um raio, eu percebia o amarelo- escuro do sol que baixava. Cobrindo o quadro, pouco acima de nossas cabeças, uma massa negra de nuvens espessas e carregadas, dançava um tango ao sabor das correntes. Nunca vi nuvens correrem tão rápido de um lado pro outro. Naquele lusco-fusco, a visibilidade não ia além de um par de metros. Por alguns momentos a situação ficou feia. O vento subiu dos 50 para 60 nós! As almofadas do cockpit, grandes e pesadas, alçavam vôo como se fossem folhas de papel. Enquanto isto Alonso, na proa, indicava o ângulo em que estava a corrente da âncora para que eu acelerasse naquela direção deixando-a bamba. Cardozo, encerrada a faina do toldo, gravava com a maior calma o pandemônio. E Paulina observava tudo de dentro da cabine. Todos estávamos calmos. Aos poucos vamos nos acostumando e ficando imunes a situações críticas.

    O destampatório levou cerca de 30 minutos. Foi aterrorizante para um leigo. Então, no auge da violência, subitamente amainou. Depois parou de vez. Silêncio. Imediatamente o horizonte, e parte do céu, ficaram com um tom amarelo- forte inigualável.

    Fundeamos de novo e fomos dormir. Mas espertos. O Sul tinha nos mandado um aviso: é bom ficarmos alertas.

    Quarta- feira, 7- 02- 2007.

    Esta manhã o céu acinzentou-se de vez. Ao longe dava pra ver formações mais carregadas, de nuvens negras, de onde saiam aspirais de vento em forma ligeiramente cônica que desciam para o mar. Havia três deles, cerca de dez milhas ao largo. Um a bombordo, outro no centro e o terceiro a boreste de onde estávamos.

    Era mais um aviso para não brincarmos. O dia exigiria atenção constante de nossa parte. Pensando bem, se o toró tiver que nos pegar, que seja no meio do mar, longe de terra e de outros obstáculos, é sempre muito mais seguro.

    Fizemos algumas gravações com o bote de apoio e seguimos para outra enseada, novas dez milhas abaixo. Iríamos conhecer Bombas e Bombinhas, duas coqueluches do litoral norte catarinense.

    Ao chegarmos novo desapontamento. Mais uma vez a quantidade de prédios na praia, e casas nas encostas dos morros, amputava o que um dia foi um lindo contorno de costa.

    É chocante perceber como está estragada esta parte do litoral de Santa Catarina. Na última etapa, ao conversarmos com a bióloga Ana Maria Rodrigues, do CEPSUL, ela já nos antecipava sobre a degradação do litoral, ainda assim fiquei perplexo ao conhecer lugares tão notórios, propalados por sua beleza como Bombinhas, Porto Belo e Camboriú e constatar seu estado deprimente.

    Ao navegarmos para a ilha dos Arvoredos, mais para fora, pensava em como era possível a propaganda e reportagens destes pedaços do litoral sem, no entanto, ninguém mencionar este brutal adensamento e conseqüente amesquinhamento e banalização da linha da costa.

    O dano é tão evidente que só não vê quem não quer (vide fotos).

    Amanhã, ao menos, vamos desembarcar na ilha e conhecer um pedaço ainda não detonado do litoral norte deste Estado.

    Por enquanto, já fundeados na ilha, balançamos um pouco sob ventos de sul com18 a 20 nós.

    Quinta- feira, 8- 02- 2007.

    Que noite terrível! O Mar Sem Fim ancorado cavalgou ondas sem parar. Uma atrás da outra. E cada vez maiores.

    Estalos, rangidos e barulhos de todos os tipos acompanhavam os solavancos dentro da cabine, com som ampliado pela madeira e as poucas aberturas.

    Foi um suplício. Não lembro de outra pior. Assim que clareou ligamos o motor e tocamos para o conforto do Iate Clube Veleiros da Ilha, do lado de dentro da ilha de Santa Catarina, protegido do vento.

    Em frente à praia de Canasvieiras encontramos o Cisne Branco, o navio- veleiro, da Marinha do Brasil, cujo comandante entrevistei em Fernando de Noronha. Tirei algumas fotos e me pus na cama, agora já sem balanço e deliciosamente refrescada pelo vento. Dormi até atracarmos no clube.

    Mas se não pudemos gravar mais a partir do barco vamos fazê-lo de terra.

    Sem perder tempo aluguei um carro e seguimos para a ponta sul da ilha de Santa Catarina, a menos ocupada e ainda não varrida pela especulação imobiliária. Estivemos em Ribeirão da Ilha, um bucólico bairro de antigos pescadores, com reminiscências açoreanas. Almoçamos num simpático bistrô, o Restaurante do Francês, instalado num antigo armazém.

    As praias daqui são muito estreitas, apenas uma fina faixa de areia e, logo adiante dela, enormes criações de ostras e mariscos a perder de vista. Descemos até onde havia estrada, passando por outro bairro, Armação, até chegarmos na Ponta do Saquinho onde termina a via.

    Em seguida retornamos até Alto Ribeirão onde um desvio nos levou para o lado de fora da ilha de Santa Catarina.

    Desta vez chegamos até Pântano do Sul, uma praia aberta para o mar onde antes havia apenas uma colônia de pescadores. Hoje ela convive com turistas. Não os mais endinheirados, que preferem o agito de Jurerê, do lado norte, mas, digamos, os “remediados”, que são em número reduzido se comparados àqueles (mas entram com seus carros na praia).

    Durante toda esta tarde estivemos na parte menos visada pelo turismo e por isto ainda pudemos ter uma noção da geografia e dos ecossistemas do sul da ilha de Santa Catarina, com suas baías cercadas por morros cobertos por mata atlântica, com vales ainda forrados por restingas entre eles.

    Sexta- feira, 9- 2- 2007.

    O tempo continua nublado, com vento sul entrando direto e alguma chuva também.

    Passamos a manhã na Universidade Federal de Santa Catarina, conversando com dois professores, Janete Abreu, da cadeira de morfologia costeira, e João Carlos Rocha Gré, especializado em geologia marinha.

    Eis um resumo rápido do que falamos: no geral ambos se preocupam com a falta de ordenamento e o crescimento frenético da ocupação das praias nos últimos tempos. Janete diz que “já existe legislação, a Lei de Adensamento Costeiro, de 1994, mas para as áreas já consolidadas não há o que fazer”.

    Ela demonstra desânimo ao comentar a ocupação do litoral norte, especialmente as baías que visitamos. E ressalta a precária infra-estrutura com o saneamento chegando a zero em alguns municípios, e a população decuplicando na temporada. E diz resignada que “o público está mal informado e os empresários e o setor público não estão interessados”. “Não se faz planejamento, querem tudo para agora”.

    Pois é, o resultado é o que vimos.

    Perguntei sobre os problemas na ilha de Santa Catarina causados pela ocupação malsucedida. Ela apontou vários que já trazem conseqüências alarmantes ainda por cima agora, sob o impacto das revelações do novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês). E eles vão da erosão à contaminação das reservas de água doce.

    “Aqui em Floripa (por causa da erosão em razão da ocupação de áreas móveis) já foi feito aterramento em Ponta das Canas, que é a continuação da praia de Canasvieiras, mas foi um projeto superficial, nos anos 90. A primeira ressaca levou tudo embora”.

    E conta que há novos projetos, neste sentido, para as praias de Camboriú, Jurerê, Ingleses e Canasvieiras. “Mas são muito caros, é preciso saber quem vai financiá-los”.

    Ela justifica o alto custo explicando sobre a complexidade dos estudos prévios e da ação que exige, entre outros, a substituição de grãos de areia do mesmo tamanho, e na mesma quantidade, dos que havia anteriormente.

    Estragar é fácil. Muito pior, geralmente caríssimo e, algumas vezes, ineficaz é procurar remediar depois o dano provocado. Ou, para usar a expressão acadêmica, este é o resultado que dá atrapalhar, impedir ou alterar o “equilíbrio dinâmico” da própria natureza.

    40% do nosso litoral enfrenta o mesmo problema (Fonte: livro Erosão e Progradação do Litoral Brasileiro, organizado por Dieter Muehe, Ministério do Meio Ambiente)

    É mole?

    E quase todos os motivos têm como causa “alteração antrópica” seja por ignorância, o que muitas vezes acontece, seja por má fé.

    E sobre a contaminação das reservas de água, que história é essa, professora?

    A ilha tem poucas fontes de água. No sul há a Lagoa do Peri, que abastece aquela região. E no norte os aqüíferos costeiros do Campeche e dos Ingleses. E explica: “são as águas retidas pelas dunas, filtradas por elas, que se acumulam em suas bases. Mas a ocupação descontrolada do entorno está trazendo fossas que funcionam mal, provocando a contaminação da pouca água doce, e ainda a do mar em que vão se banhar”.

    O professor Gré, que estava ouvindo, interveio: “ o nativo, o pescador, é o que menos degrada o meio ambiente”.

    Sabemos disto e temos ressaltado nos diários e nos programas, procurando fazer as pessoas pensarem sobre o modelo de ocupação que estamos impondo. Se contribuirmos, um pouco que seja, terei a certeza que valeu a pena.

    Em seguida conversamos sobre o de sempre: os poucos recursos dos órgãos fiscalizadores, leia-se Ibama, sua conseqüente inoperância, a pouca informação da sociedade, a organização e eficiência dos especuladores imobiliários, a inação do Estado em retirar moradores de assentamentos irregulares. Falamos, enfim, do Brasil.

    E fomos almoçar .

    À tarde passamos na FTMA, a Fundação do Meio Ambiente. Fomos recebidos por Ana Cimardi, que ocupa uma das várias diretorias, a de proteção dos ecossistemas. E continuamos a conversa sobre nosso país.

    Comentei sobre o fato de que, cerca de 40% da área da ilha faz parte de alguma unidade de conservação, e perguntei desde quando.

    Ana explicou que “estas unidades datam dos anos 70 e 80, a partir de 2003 mais quatro foram criadas”. Perguntei sobre o plano de manejo. “Elas não têm. Não há como justificar”.

    Em todo o caso disse que “a meta é que até 2008 todas terão seus planos e seus conselhos consultivos”.

    Ana é bem intencionada, mas lida com o Estado, suas incoerências e enormes carências, mas faz o que pode e responde com firmeza a cada nova investida.

    Questionou se temos mesmo a “melhor legislação ambiental”, que tanto se apregoa na academia e nos órgãos públicos da costa, se ela é infactível tantas vezes. E completou: “o Estado não tem aparelhamento para fiscalizar”.

    Finalizou dizendo que o que lhes cabe é procurar “um melhor controle das áreas intactas e ordenar as já ocupadas”.

    Desejo-lhes pleno êxito.

    Voltamos para o barco já de noite. Cardozo e Paulina foram ao banho no chuveiro do clube, que eu cabulei.

    O vento sul continua forte. Pelo visto amanhã saímos de carro novamente.

    Sábado, 10- 02- 2007.

    Não eram seis horas, ainda, quando Alonso entrou na cabine pra dizer que o vento parou.

    Levei um tempo para entender, acordar e realizar que poderíamos sair de barco novamente.

    Esperei um pouco, virei pro lado, para mais uma meia hora de sono, até que finalmente saí e chamei a tripulação. Estavam todos de acordo em tentar? O mar poderia estar ruim, ventou três dias seguidos. Mas concordaram, então desatracamos.

    Ao sair do iate clube viramos para o sul. Iríamos circunavegar a ilha do sul para o norte, até entrarmos outra vez na baía, passarmos de novo debaixo da ponte Hercílio Luz para, mais uma vez, atracarmos no clube.

    Logo depois do farol da ponta sul, rasa e cheia de lajes, é preciso navegar um pouco para fora, entre as ilhas Irmã- de- fora, e do Meio.

    Em seguida passamos defronte a única praia não ocupada. Logo depois víamos a praia da Solidão, depois Pântano do Sul e, em seguida, Campeche. Todas fortemente adensadas.

    Fundeamos para almoçar na ilha do Campeche. Enquanto Alonso preparava um estrogonofe, eu e Cardozo saímos com o bote de apoio por entre lindas baleeiras, e botes, que toda manhã vêm trazer os turistas, e tocamos para o lado de Sta. Catarina, para gravarmos as dunas do Campeche, as mesmas cujos depósitos de água doce estão indo pro beleléu.

    Depois voltamos, almoçamos, e suspendemos em direção à entrada da Lagoa da Conceição, que pretendíamos visitar.

    Mas, ao chegarmos, o dia já estava acabando e nova massa de nuvens negras se aproximava. Não demorou e começou a chover.

    Abortamos nossos planos e seguimos de novo para o Iate Clube. Nosso dia estava terminado.

    Passamos por baixo da Hercílio Luz às dez da noite. Atracamos em seguida.

    Um bom banho e cama.

    Segunda- feira, 12- 02- 2007.

    Esta manhã, antes de tomarmos o avião para São Paulo, ainda fomos gravar na praia dos Ingleses e em Jurerê. Queríamos mostrar bem de perto o intenso adensamento, a falta de infra-estrutura, as fossas próximas dos aqüiferos, etc.

    Missão cumprida.

    Na próxima etapa veremos o litoral sul deste Estado.

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