De Belém, no Pará, até São Luis, no Maranhão

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    17- 04- 2005, domingo

    A equipe do Mar Sem Fim, aumentada nesta etapa pelo velejador e biólogo, Fernando Cerdeira, e contando com o cinegrafista Paulo Cézar Cardozo, nem pode assistir ao terceiro programa da série pela TV Cultura, já que nosso vôo para Belém saía de São Paulo no mesmo horário : domingo, às 17hs 40. Quando cheguei ao aeroporto, uma hora antes da partida, meus companheiros comentavam este assunto com certa angústia, afinal estávamos entusiasmados de poder assistir nosso trabalho toda semana. Tranqüilizei a tripulação, informando que na minha bagagem trazia um DVD com a cópia dos últimos programas editados, os de número três e quatro , que teríamos o prazer de assistir a bordo, numa das noites da viagem. Na hora marcada, pontualmente, nosso avião levantou vôo. Uma hora e meia depois, descíamos em Brasília. Em seguida, mudamos de aeronave, e em minutos decolamos para Belém. Com mais duas horas de vôo pousamos novamente. Recolhemos nossas malas, um monte delas, com todo tipo de equipamento, pegamos um táxi e tocamos para a Base Naval, onde nos aguardava o incansável imediato, Alonso Góes. O Mar Sem Fim estava atracado na Patromoria da Base Naval, gentileza de nossos amigos da Marinha do Brasil, que apóiam nossa viagem. Obrigado Almirante Marcus Vinícius, do Quarto Distrito Naval, responsável pela Base. Obrigado Comandante Renato Paes, do Estado Maior do Almirante. Seu apoio nos ajuda e tranqüiliza. No barco conversamos animadamente sobre a etapa que nos aguardava, e as tarefas do dia seguinte, que seriam muitas. Logo cedo iríamos gravar alguns prédios históricos da belíssima cidade de Belém, fundada em 1611. Ao meio dia e meia, eu iria almoçar com o Almirante e sua equipe, para poder agradecer ao vivo o apoio até agora recebido. Depois faríamos as compras no supermercado, e às cinco da tarde tínhamos que estar no campus do Emílio Goeldi, para nova entrevista com o pesquisador Amílcar Mendes, que estuda a ocupação da costa aqui nesta região. Era muito trabalho. Melhor dormir cedo.

    18- 04- 2005, segunda- feira.

    Às sete da manhã Alonso nos acorda com o café pronto. Antes das oito já estávamos a caminho das primeiras gravações. Refizemos a tomada em frente ao Teatro da Paz, esta elegante construção, testemunha da pujança da época áurea da extração da borracha. Em seguida fomos para o local onde nasceu a cidade, nas margens do rio Pará, hoje um bairro conhecido como Feliz Lusitânia. É lá que fica o Forte do Castelo, e a espetacular Catedral da Sé, com suas duas torres que se projetam para cima e para frente, dando a impressão de quererem se separar do resto da construção, tal a imponência. É magnífico este prédio. Sua arquitetura poderosa, realçada pela cor imaculadamente branca, em contraste com o céu azul, e o verde escuro das imensas e centenárias copas das mangueiras a sua volta, impõe de cara um brutal respeito. É de perder o fôlego, e como tudo na Amazônia, não se encontram adjetivos fáceis para descrevê-la. Deixei ali a Paulina e o Cardoso que iriam registrar outras construções, e voltei para o barco, para tomar um banho. O calor é considerável por aqui. Em seguida me arrumei para o almoço com a gente da Marinha. Na hora marcada estava na porta do prédio do Comando do Quarto Distrito Naval, onde trabalha o Almirante Marcus Vinícius e equipe. Quase entramos juntos, já que ele retornava de uma seção na Câmara dos Deputados. Assisti sua entrada no prédio, com toda a pompa e tradição daquela Força. Bonitas cenas. As descer do carro o Almirante foi saudado por uma pequena formação de militares, perfilados frente a frente, formando uma espécie de túnel de pessoas. Uma demorada e respeitosa continência, do Almirante, dirigindo-se fixamente para um outro oficial, que se encontrava na outra extremidade do túnel, foi o cumprimento que eles trocaram ao som do silvo dos tradicionais apitos usados na Marinha. Tivemos um almoço bastante agradável, conversamos sobre o mar, trocamos idéias sobre a relação distante do brasileiro com os oceanos, e ainda falamos sobre o Projeto Mar Sem Fim. Ás duas e meia estava voltando para o barco, para encontrar o Fernando e irmos para o supermercado. Faina chata esta, a de abastecer o barco. É sempre igual e cansativa. Enquanto comprávamos comida, o motorista do táxi foi buscar Paulina e Cardozo num restaurante. Em seguida, todos juntos novamente, fomos para o Museu Goeldi, para entrevistar mais uma vez o Amílcar. Incrível como ele tem facilidade para explicar o porquê das reentrâncias maranhenses, além de nos dar detalhes do que iríamos encontrar em cada parada da nossa viagem até São Luis. A costa sul do Pará, e a norte do Maranhão, são as únicas do Brasil a apresentarem este padrão, conhecido como “reentrâncias”, formado por rios que deságuam em pequenas baías cercadas por promontórios. Na verdade é uma sucessão deste tipo de formação, que começa em Marapanim, próximo a Belém, e segue até praticamente a capital do Maranhão, São Luis. O nome, Reentrâncias, é justamente por que assim se parecem, com “reentrâncias” do mar em cada uma destas baías, como se o oceano forçasse suas águas terra adentro. O que proporcionou este desenho foi um movimento de regressão marítimo, que aconteceu mais ou menos sete mil anos atrás, quando ele avançou sobre o continente e “afogou” todos os rios da região, criando este aspecto inusitado na costa. Ficamos conversando até quase sete da noite, então, exaustos, voltamos para o veleiro. Amanhã vamos sair às cinco da manhã, avançando contra a foz do rio Pará, em direção a cidade de Vigia, distante cerca de 40 milhas.

    19-04- 05, terça- feira.

    Estava totalmente escuro quando fui acordado pelo ronco do motor do Mar Sem Fim. Minha primeira reação foi virar para o lado e aproveitar os últimos minutos de sono. No aconchego da cabine pude ouvir as conversas do Alonso e do Fernando que estavam lá fora desatracando o barco. Esperei, na cama, que o veleiro começasse a navegar. Então levantei. Como sempre o café estava na garrafa térmica. Tomei uma xícara e saí para o cockpit. O Mar Sem Fim já estava em velocidade de cruzeiro, com a proa apontando para o mar, muitas milhas adiante. Mais duas horas e estaríamos parando em Icoraci, no lado oeste do promontório que tem Belém na extremidade leste. Precisávamos abastecer de óleo diesel antes de seguir em frente. Às sete horas, com o tanque cheio, já estávamos navegando novamente. O vento soprava de leste, mas fraco, como sempre acontece pela manhã. Estávamos deixando para trás o coração da Amazônia, depois de termos navegado na região desde a primeira viagem, quando saímos do Oiapoque, em dezembro, em direção a Macapá. Em seguida atravessamos todo o delta do imenso rio, até Belém. Estivemos ainda em Marajó, e agora voltávamos a sair para o mar. Será que conseguimos deixar uma imagem que possa representar, ainda que superficialmente, o que é esta riquíssima e complexa região? A Amazônia é sinônimo de imensidão, riqueza extraordinária, variedade absoluta de ecossistemas. No eixo leste- oeste, a região se estende do oceano Atlântico até as encostas dos Andes. E o rio, que corre mais ou menos no sentido do equador, tem afluentes nos dois hemisférios, por isto recebe ainda mais água. Ela vem de todos os cantos possíveis: de cima, através da chuva. Do lado oeste, pelo degelo dos Andes. Na outra extremidade, a leste, pela força do Atlântico cuja maré já foi sentida mais de 400 km para dentro da várzea. Com isto, durante o ano inteiro, o Amazonas está recebendo mais volume de água. Isto explica porque este rio despeja no oceano um quinto da água doce da Terra. Mas tem mais. Além da maior floresta úmida já conhecida, a Amazônia ainda tem o cerrado, campinas de areia branca, campos de várzea e de altitude, e babaçuais. É absolutamente descomunal isto aqui, e por isto mesmo, difícil de ser conhecido e estudado. Eu estava com estes pensamentos na cabeça ao navegar para fora, ao mesmo tempo em que torcia para que os programas feitos até aqui sejam capazes de, ao menos pincelar, ainda que sutilmente, esta grandeza. Lembrei dos muitos livros que li, ou consultei, para preparar estes programas. E um deles me veio à lembrança: “Um Paraíso Perdido- Ensaios Amazônicos”, de Euclides da Cunha. Nele o grande escritor demonstra respeito, admiração, e humildade ao falar da região. Foi ele quem cunhou a expressão “Inferno Verde”, ao se referir a Amazônia, mas Euclides da Cunha foi muito além, e disse: ”Para vê-la deve renunciar-se ao propósito de descortiná-la”. Concluindo assim : “O triunfo virá ao fim de trabalhos incalculáveis, em um futuro remotíssimo. Realmente, a Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Gênese”. Só alguém com a bagagem de Euclides, poderia resumir a coisa nestes termos. Quanto a mim, saio daqui com um profundo sentimento de humildade. Considerando os parcos conhecimentos adquiridos, como um minúsculo, ínfimo mesmo, grão de areia. E assim, depois de pensar um bocado a este respeito, consegui finalmente me concentrar na viagem até Vigia.

    O tempo estava nublado, e o vento começava a soprar com mais força, quando chegamos na embocadura do rio Guajará- Mirim, afluente do Pará, através do qual chegaríamos na cidade. E foi só atingir sua foz, para a profundidade diminuir perigosamente, em razão do assoreamento dos rios desta região, cuja cobertura vegetal foi cortada para dar lugar a pastagens. O resultado é sempre o mesmo: profundidades cada vez menores, e perigo para a navegação. Chegamos a roçar nossa quilha no fundo do mar, então fizemos uma curva para fora, em direção ao mar aberto, e por ali ficamos esperando, até encontrarmos dois barcos de pesca, relativamente grandes, que voltavam para Vigia. Bingo ! Nada como ter um serviço de prático a nossa disposição. Especialmente debaixo de um forte toró, quando a visibilidade não alcançava mais que uma milha de distância. Seguimos os dois, bem em sua ré, e entramos sem problemas, até que chegamos defronte à vila, onde fundeamos. Em seguida o almoço foi servido. O relógio marcava três e meia da tarde. Comemos muito bem, e desembarcamos na cidade para escolher os lugares onde gravaremos amanhã, já que por hoje a luz está fraca, quase não permitindo que registremos muitas cenas. Antes de descer recebemos uma ligação pelo celular, era o Fernando Sampaio, da VTF, produtora que contratei. Ele nos deu duas notícias. A primeira era sobre as fitas que mandamos com imagens de Belém, que, de acordo com ele, estavam ótimas. E a segunda, sobre a eleição do novo papa.

    20- 04- 2005, quarta- feira.

    Hoje cedo fomos conhecer Vigia, uma cidade com quase 50 mil habitantes, muito agitada, com uma enorme frota de barcos, e que tem alguns prédios antigos em bom estado de conservação. A economia gira em torno da pesca artesanal, e também da industrial, além da captura de caranguejo nos mangues em volta, e, mais para o interior, da pecuária. A cidade é relativamente limpa, apesar de não ter serviço de saneamento básico. Mais uma vez, os esgotos vão todos para o rio. Também há certa sujeira nas praias de lama que se formam ao longo da rua principal, que dá para o rio. Esta é mais uma população que, como todas as outras que visitamos até agora, tem enormes lacunas em sua educação básica, e não recebe informações, ou conceitos mínimos, sobre preservação. Eles mesmos, quando param seus barcos nos barrancos dos rios, em frente da cidade, atiram para fora toda espécie de sujeira, de restos de comida, a pilhas velhas, sacos plásticos, etc. Não percebem que agindo desta maneira estão matando a vida marinha, contribuindo para que sua própria existência seja ainda mais difícil, penosa, e complicada, especialmente por que sua sobrevivência depende da biodiversidade da região. É uma pena ver tanta gente de boa índole, de bem, assim, abandonada pelo Estado. E olha que o Pará teve, por dois períodos sucessivos, um bom governo, o de Almir Gabriel. Tanto é verdade que ele elegeu seu sucessor, Simão Jatene, e contribuiu para ajudar a enterrar a espécie local de Paulo Salim Maluf, o Jader Barbalho… Esta foi a impressão que ficou depois de várias viagens, observando e conversando com dezenas de paraenses.

    Vigia é bem antiga, alguns historiadores dizem que ela foi fundada poucos dias antes de Belém, em 1611. A cidade tem história e alguns vultos públicos de renome. Foi aqui que nasceu Francisco Palheta, personagem que a história nos ensinou ter sido o homem que, indo às Guianas, defender interesses do Brasil, acabou trazendo na bagagem as primeiras mudas de café, que depois foi motor da economia brasileira. Em Vigia existe ainda a Catedral Madre de Deus, erguida pelos Jesuítas, em 1734, no estilo barroco. A enorme construção é uma igreja e um colégio, e está em ótimo estado de conservação.

    Há ainda outra igreja, da mesma época, também erguida pelos jesuítas. Ela tem paredes extremamente grossas, e imponentes, mas ficou inacabada. Muitos anos depois, na década de trinta do século 20, acabou sendo concluída, mas a arquitetura original não foi respeitada, resultando num estilo híbrido, modernoso, de gosto, no mínimo, duvidoso.

    Passeando pela cidade é possível ver, aqui e ali, alguns prédios dos séculos, 17 e 18, ainda com suas fachadas repletas de ladrilhos portugueses, e com detalhes requintados, como pinhas em louça colocadas nos alpendres.

    No geral, gostei do que vi. Depois das gravações e visitas, viemos para o barco almoçar. Em seguida, antes de irmos embora, estivemos no Quilombo do Cacau, na margem oposta do rio. Trata-se de uma pequena comunidade de descendentes de escravos, trazidos pelo Barão do Guajará, no século 19, que vive mais afastada na floresta. Desembarcamos num pequeno pontão, na margem do rio, e tivemos que andar quase um quilômetro por cima de estreitas pranchas de madeira, que são armadas em cima de frágeis pilares, fincados no mangue. A região toda é pantanosa, mas a comunidade fica mais para o interior, mata adentro, num lugar mais seco. Para chegar até eles, o único modo é este, se equilibrando sobre as pranchas. Foi um sufoco para mim, especialmente porque esqueci meu tênis no veleiro. Fiz o trajeto descalço. Mas valeu a pena, meu equilíbrio estava bom e não caí, e ainda fizemos um lindo passeio entre a mata cerrada. De lá voltamos para nossa casa flutuante.

    A tripulação desceu em terra para tomar banho. Eu fiquei a bordo, e tomei o meu aqui mesmo, já que comandante tem certas regalias. Em seguida me acomodei na mesa de navegação, com meu lap top aberto, para escrever o diário de hoje. Quase fui comido pelos carapanãs, mas consegui relatar mais este dia.

    Amanhã saímos às cinco da madrugada, para a ilha dos Guarás, 36 milhas ao sul. Ela é um importante ninhal destas aves, que, infelizmente, estão na lista do Ibama das espécies ameaçadas de extinção.

    21- 04- 2005, quinta- feira.

    Saímos de Vigia às seis da manhã. Ainda estava escuro. O rumo era 50 graus, e nosso horizonte estava meio carregado, com cara de poucos amigos. Íamos navegar seis horas para cobrir as 36 milhas que nos separavam da ilha dos Guarás. Acompanhei a saída do barco pela foz do Guajará- Mirim, justamente o trecho mais difícil, em função da baixa profundidade. Mas naquela hora da manhã a maré estava cheia, e não tivemos qualquer problema. Fiquei lá fora mais um pouco, e quando percebi que o veleiro já estava no rumo correto, e sem obstáculos no horizonte, relaxei e fui pra cama de novo. Uma das coisas gostosas de um cruzeiro é justamente ter pouca coisa pra fazer. Sair de um lugar e chegar a outro, num mesmo dia, já é o bastante. O resto da rotina a bordo, quem faz é você mesmo. Ler um bom livro, ouvir música, curtir a paisagem, colocar em ordem um canto do barco que virou uma balbúrdia, dormir em pleno dia, cozinhar, comer, são algumas das possibilidades. E quem decide é você. Não há compromissos, de modo que a sensação de liberdade, de ser dono do próprio nariz, é muito forte, e muito boa. No meu caso, naquele momento, optei por voltar pra cama. Nem senti o vento aumentando, ou os borrifos de água que batiam no casco do veleiro. E não foram poucos. Quando acordei, já quase chegando, soube que na hora da mudança da maré, às 9hs30, o vento nordeste chegou aos 40 nós de velocidade, o que é uma força considerável. Estava todo mundo encapotado, com capas de chuvas molhadas, meio cansados pela travessia, digamos, trabalhosa. Eu, em compensação, estava lépido, completamente relaxado, depois de passar a manhã toda dormitando na cabine. Uma delícia. A ilha dos Guarás é quase virgem. Bonita, ela é cercada de praias, com areia branca, que ficam a mostra na maré baixa, cheia de rios interiores, e mangues. E claro, bandos de Guarás, com sua cor vermelha característica, além de garças brancas e azuis, e vários outros tipos de pássaros. Logo que chegamos descemos o bote de borracha, e o motor de popa, e com ele eu e o Cardozo subimos um daqueles rios. Beleza de paisagem. Mangues lindos, árvores enormes, Tralhotos (espécie de peixe, pouco maior que o camarão, e com algo que parece “patas”, em vez de nadadeiras em seu dorso) assustados com o barulho do motor cruzando a proa do botinho, a flor da água, andando em ziguezague , como as galinhas fazem em estradas do interior. E na volta, ao por do sol, conseguimos filmar os bandos de Guarás que nesta hora se juntam nas copas das árvores para passarem a noite. Dia perfeito. Ao voltarmos para nosso porto seguro, o Mar Sem Fim, ainda assistimos, no cockpit, os programas três e quatro da série que estamos produzindo para a TV. É maravilhoso poder ver aqui, no lap top instalado lá fora, os DVDs com os programas da série. Um cineminha perfeito, e depois cama.

    22- 04- 2005, sexta- feira.

    Acordamos cedo, como sempre, e esperamos a chuva passar. Esta etapa foi a primeira em que a chuva preponderou. Desde que saímos, e todos os dias, ela está sempre presente. De dia, normalmente ela bate mais forte de tarde, depois das duas horas. Primeiro o horizonte fecha, com nuvens carregadas. Depois, o vento aumenta, e as nuvens parecem que dão voltas, nos rodeiam, ameaçam aqui e ali, e às vezes iniciam a precipitação bem longe. Mas quando começamos a achar que não vão nos atingir, elas vêm direto em cima de nós, com toda sua potência e precisão. Então despejam toneladas de água. Todo dia é assim. No fim da tarde vem chuva grossa e vento forte, mas a coisa toda não dura mais que uma hora. Às vezes tudo isto rola de noite também, e em certos dias, na manhã seguinte, como hoje. Tomamos café no cockpit do barco de onde podíamos ver os bandos de Guarás nas copas das árvores, pouco mais adiante. Esperávamos o dia clarear totalmente, para voltarmos a gravar, mas antes de nos mexermos, amanheceu, e os Guarás bateram asas e voaram para longe, enquanto a gente, preguiçosamente, ainda decidia o que fazer. No dia anterior, eu e o Cardozo , o cinegrafista desta etapa, já tínhamos entrado por um dos igarapés, navegando até onde havia fundura suficiente. Tínhamos registrado as praias, a floresta, os guarás, e algumas casas de caboclos. Resolvemos, então, tocar direto para a Ilha do Algodoal, 30 milhas adiante. Viagem de cinco horas, tranqüila a não ser pela chegada. Foi por volta das duas, três da tarde, e a aproximação de Algodoal é bem chata, por que é muito rasa a entrada. Ondas estouram por todos os lados, a carta náutica não aponta a passagem, já que foi feita há 20 anos, e os bancos de areia mudam de lugar. O horizonte começava a ficar negro, denunciando a chuvarada com forte vento que viria na seqüência. Vários barcos de pesca estavam nas proximidades, mas nenhum deles ia entrar naquele momento. Estavam todos pescando. Chamei no rádio VHF, querendo saber se algum deles se dispunha a nos guiar barra adentro, mas nada. Resolvi fundear ao lado de um deles, e esperar até que ele resolvesse entrar. E foi o que fizemos. Em seguida a esta faina, dormi deitado num dos bancos do cockpit, esperando, até que o Alonso me acordou pra dizer que o barco de pesca já começava a puxar o ferro. Recolhemos o nosso, e seguimos o pesqueiro debaixo de chuva, até a praia defronte a vila na ilha de Algodoal, onde mais uma vez, deitamos nossa âncora.

    Algodoal me faz pensar no paraíso. A ilha é próxima ao continente, e por isto não sofre as conseqüências climáticas mais fortes e rudes, como as que acontecem em ilhas oceânicas. Por causa disto, aqui, mesmo que lá fora esteja um furacão, será sempre um bom abrigo para os barcos. A enseada onde fundeamos fica em frente a praia principal, a vila fica logo atrás.

    A povoação toda é bem arborizada, e as casas nunca mais altas que a copa das árvores, o que deixa a paisagem muito parecida com a que os primeiros colonizadores encontraram. A luz elétrica chegou o ano passado, e a população não quis que as ruas fossem iluminadas, apenas as casas. As praias permanecem virgens, apesar de haver uma pequena cidade atrás delas, e como são poucos os habitantes, a falta de saneamento básico preocupa menos. Não é preciso muito para perceber que este é mais um lugarejo onde a pesca é o vetor da economia, mas pesca artesanal. Nada de navios fábrica ou grandes barcos, apenas os pesqueiros típicos da região, e muitas canoas a vela, coloridas, pintadas com esmero, com suas proas “pé de galinha”, mastros baixos, velas de cores fortes, e enormes lemes. É lindo de ver a prática de manejo por parte dos caboclos. Eles demonstram estar em seu elemento natural. Abrem e fecham as velas com facilidade. Orçam (navegar contra o vento) naturalmente, apenas colocando parte do corpo mais para fora do casco, para fazer contrapeso, e quando navegam a favor do vento alcançam velocidades consideráveis. A cada meia hora a gente pode ver uma canoa destas chegando ou saindo para o mar. E como nosso veleiro, sempre que chega num lugar, atrai todas as atenções, não há uma só delas que não passe a poucos metros de nosso barco. Dá, então, para ficar apreciando a destreza destes marinheiros naturais. Tirei ótimas fotos deles, sentado no cockpit do Mar Sem Fim.

    Este é mais um aspecto do Brasil, pouco estudado, conhecido, ou valorizado: a diversidade das embarcações típicas, cujo segredo de construção passa de pai para filho há gerações. Não há plantas, gráficos, ou cálculos complicados. Apenas o costume centenário. Mas ao final o resultado é sempre funcional, prático, adaptado às condições de navegação locais, seja para a pesca, ou o transporte de carga, ou passageiros. É fantástica esta tradição, especialmente pujante aqui no Norte, e em pleno século 21. Tomara que eles persistam, por que se trata de um bem cultural e parte considerável do patrimônio artístico brasileiro. Mereciam, entretanto, mais estudos e apoio oficial.

    É inacreditável o desconhecimento do brasileiro médio, das autoridades, ou mesmo da classe alta, a respeito da tradição marítima brasileira. Quer queiram ou não, somos uma Nação marítima. Fomos descobertos pelos Nautas portugueses, numa epopéia extraordinária, considerada por certos historiadores como das mais monumentais da História.

    Somos uma nação que tem uma das maiores zonas costeiras do planeta, com quase oito mil e quinhentos quilômetros. Durante os primeiros 200 anos, após a descoberta, nossos antepassados viviam praticamente na orla, devido as grandes dificuldades impostas pelas matas fechadas, ou a serra do Mar, que impediam a penetração portuguesa para o interior. E provavelmente por estes fatores desenvolvemos a capacidade de construir centenas de tipos diferentes de barcos. Das pequenas jangadas a remo, até as que usam duas velas, passando pelos cúteres do Maranhão, os saveiros da Bahia, as canoas de tolda do São Francisco, as canoas de convés de Laguna, as Vigilengas, aqui do Norte, enfim, são dezenas de tipos, com influências portuguesas, indígenas, holandesas, asiáticas, africanas, etc. Uma pena saber que todo este acervo está, aos poucos, desaparecendo, sem que quase ninguém se dê conta de seu valor e tradição. Por sorte ainda temos uma instituição como o Museu do Mar, de São Francisco do Sul, em Santa Catarina. Obra que deve ser creditada a Dalmo de Abreu Silva, que praticamente levantou o Museu, que conta hoje com um belíssimo acervo com barcos e canoas de todas as partes do País. O Museu é uma beleza e uma conquista que merecia ser muito mais conhecida.

    Bem, de tarde, depois de um descanso da viagem, descemos em terra para as gravações de sempre. Enquanto Paulina e Cardozo registravam a vila, eu e Cerdeira experimentamos um currico próximo às margens dos mangues daqui. Mas não tivemos muita sorte. Logo em seguida nossos amigos que estavam na vila voltaram, por que era tarde, e a noite começava a surgir. Hora de ir para o barco, comer, e dormir.

    23- 04- 2005, sábado.

    Depois do café da manhã pegamos o bote e descemos em terra novamente. Andando a toa pela bela ilha, encontramos um pescador, o Zezinho, com quem iniciamos uma conversa. Estávamos falando sobre o dia- a- dia deles, quando o rapaz nos contou da Lagoa da Princesa, que resolvemos conhecer. Ela fica atrás das dunas de uma praia, e é o único local da ilha com água doce. Alugamos o pequeno barco a remo, dele mesmo, e subimos o igarapé conhecido como “furo velho”. No caminho pudemos ver bandos de macacos prego, além de todo tipo de aves, como Garças Brancas e Azuis, Maçaricos, Pavão do Pará, e muitos Martim Pescadores. Mais um pouco, rio acima, e encostamos para desembarcar. Começamos a andar através de uma trilha no meio do manguezal, em direção a lagoa. Da vegetação de mangue logo passamos para uma restinga, depois novo trajeto pela mata, até que chegamos ao local. Uma lagoa relativamente pequena, de águas negras, e razoavelmente profunda, cercada pelo branco das dunas ao redor. Um espetáculo. Melhor ainda foi o banho refrescante que tomamos.

    Algumas horas depois retornamos. Na vila de Algodoal encontramos alguns turistas, entre eles um mineiro, muito musical, que tocava gaita e violão, com quem trocamos umas palavras num bar dedicado ao Carimbó.

    Em seguida continuamos nossa marcha, de volta ao barco, mas antes ainda passamos na loja do artesão Júnior, que, encantado com o Mar Sem Fim, desenhou uma bela camiseta com nosso veleiro estampado na frente, e nos deu de presente.

    Presente de grego. Mal sabe ele, por que desde que a recebemos, estabeleceu-se uma briga a bordo para saber quem de nós vai ficar com ela.

    E para este dia já tínhamos feito demais. Estávamos todos tão cansados que nem fomos ao Carimbo que começaria às dez da noite. Muito antes disto, na verdade, já se podia ouvir uma sinfonia de roncos pesados a bordo do Mar Sem Fim.

    24- 04- 2005, domingo.

    Às seis da manhã a maré estava em sua altura máxima, hora ideal para iniciarmos nossa viagem até Maracanã. Iríamos navegar cerca de três milhas, ao longo da costa Oeste da ilha de Algodoal, até o furo de Mocooca, ao Sul, que iríamos atravessar. Estes “furos” são comuns em toda a amazônia. E nada mais são que estreitos canais, normalmente profundos, que atravessam de uma região para outra. Com mais algumas milhas de navegação, saímos do lado Leste de Algodoal, em frente ao povoado de Mocooca. E aqui tivemos um problema sério. Como eu disse, a eletricidade foi instalada a menos de um ano, e os fios de alta tensão cruzam o furo, justamente neste ponto, em frente à vila.

    Na primeira tentativa, a ponta do mastro acabou esbarrando neles, e muitas fagulhas saíram deste atrito indesejado, chegando mesmo a chamuscar a parte da genoa (vela de proa). Recuamos na hora, a força de muito marcha à ré.

    Em seguida tentamos pelo lado do continente onde, aparentemente, o poste de luz ficava mais alto. Sob o olhar atento de quase toda a população, reunida num bar próximo, conseguimos desta vez passar sem roçar na fiação. Ufa, que alívio. Tomar um choque deste porte poderia ter torrado qualquer um de nós em segundos, e destruir os equipamentos elétricos de bordo. Felizmente quando houve o contato, ele foi com o tecido da vela, e não com alguma peça metálica. Deste mal estávamos livres. Restava ainda a navegação perigosa por uma região de baixa profundidade, e não demarcada nas cartas náuticas, até chegarmos ao fim de mais esta “reentrância“ da costa paraense, onde ficava a cidade de Maracanã. Navegamos mais algumas horas, sob intenso calor, cruzando com pequenos veleiros rústicos, até que chegamos num barranco alto, na margem do rio Maracanã, sofrendo forte erosão, atrás do qual ficava a modorrenta vila de Maracanã.

    Logo que fundeamos percebemos que praticamente todas as crianças da vila correram para perto da margem, para observar nosso barco. Oba, o circo chegou! Esta deve ser a impressão deles, isolados que estão de qualquer lugar com mais vida e movimento. E não demorou muito para que o primeiro pulasse na água, e nadasse até o lado do nosso barco. Em seguida vieram os outros. Duas, ou talvez três dezenas deles, enlouquecidos com aquela novidade. Foi duro segurá-los, justamente no momento em que resolvemos fazer uma limpeza geral a bordo, devido a grande bagunça, e alguma sujeira, que sempre acontece numa viagem de muitos dias no barco. Mas conseguimos, a duras penas, e graças à energia da Paulina, ponderando com eles que agora não era o momento certo para virem a bordo.

    Mais tarde, depois da limpeza, descemos para conhecer e gravar cenas na vila. Que desastre ! Sem graça, com os poucos prédios históricos caindo aos pedaços, bem ao contrário de Vigia, e nas ruas nenhuma alma sequer. Era domingo, parece que aqui todo mundo fica dentro de casa, assistindo a TV. Eu mesmo pude ouvir o som de várias delas quando passeava em frente das casas fechadas. Pior que o abandono e decadência, é o aspecto geral das casas. É “puxadinho” pra tudo que é lado. Aquelas construções de tijolos aparentes, que as pessoas vão remendando ao longo do tempo, e que acaba redundando em falta de personalidade, feiúra, banalidade. Não havia muito a fazer por aqui. Melhor irmos embora, para dormir já na saída para o mar, de modo a adiantarmos a viagem de amanhã, que será longa, em direção a Bragança, última cidade da costa do Pará. Depois dela já se entra em águas maranhenses.

    25- 04- 2005, segunda feira.

    Esta noite dormimos no canal que sai da baía de Maracanã, bem no meio mesmo, sem preocupações maiores, por que a navegação por aqui é pouca, especialmente de noite. Não havia, portanto, nada que temer. Escolhemos um lugar em que a profundidade era suficiente, mesmo com a maré baixa, e jogamos nossa âncora. E nesta manhã, antes do dia clarear, já estávamos navegando. Até a baía de Caetés teríamos 80 milhas. Sem falar em outras 20 milhas subindo o rio até chegar a Bragança. A viagem foi bem tranqüila. Pela primeira vez o mar estava calmo “como um prato”, como se diz, sem ondas, muito menos vento.

    As preocupações começaram quando nos aproximamos da foz do rio, ali pelas duas horas da tarde. Como sempre as entradas de rios por aqui são assoreadas, conseqüência do corte da cobertura vegetal. Os sedimentos são levados pela água dos rios até o mar, mas quando chegam neste ponto, não têm força suficiente para irem adiante, uma vez que encontram a força da maré em sentido contrário. O resultado é que toda boca de rio é muito rasa, e a do Caeté talvez seja a mais baixa de todas. Por sorte não havia vento e ondas.

    Ainda longe da foz já estávamos roçando a quilha no fundo de lama. Procuramos um barco de pesca que estivesse entrando, e achamos um, o Missão Fortaleza. Pelo rádio conversei com o comandante, completamente gago, e pedi carona na entrada. Ele atendeu nosso pedido prontamente, demonstrando ser uma destas pessoas do mar que respeita as tradições, entre elas ajudar sempre os barcos de fora, ou aqueles em perigo. Imediatamente ele diminuiu sua marcha, esperando até que nos aproximássemos, e em seguida começou a entrar. Mais uma vez tivemos momentos de tensão. A profundidade era muito baixa, apesar de a maré ter começado a subir, duas horas atrás. Quando muito chegava a três metros, mas no começo não passava de dois, enquanto nosso calado é de um metro e oitenta. Diversas vezes sulcamos o fundo do mar com a ponta da quilha. Por sorte, como disse, o mar estava chão total, caso contrário eu teria abortado a entrada.

    A primeira hora foi crítica, com nosso barco subindo e descendo aclives, literalmente, mas depois a profundidade aumentou para seus três metros, e a navegada ficou mais tranqüila. Chegando próximo à foz, fomos surpreendidos por enorme quantidade de canoas a vela, sempre coloridas, em tal quantidade que até parecia uma regata. Mais perto das margens, bandos de Guarás levantavam vôo das árvores, cruzando os céus em cima de nós. Só por estes dois fatores já valeu a pena.

    Depois, subindo o rio, sua largura também foi diminuindo até que chegou a uma média em torno de seus trinta metros, quando podíamos observar as duas margens com precisão. Uma bela mata, e mangues.

    Depois de algumas horas, em velocidade reduzida, chegamos até Bacuriteua, que julgamos que fosse Bragança, apesar de ser uma vila acanhada. Era já tarde, o sol estava se pondo, e resolvemos fundear ali mesmo. O Missão Fortaleza estava lá, atracado ao lado de uma bomba de óleo diesel, e próximo duma fábrica de gelo. Era tudo que precisávamos. Fundeamos, jantamos, e fomos dormir.

    26- 04- 2005, terça feira.

    Logo pela manhã fomos visitar o barco que nos guiara barra adentro, para agradecer pelo apoio. Surpreendentemente, o comandante, ao vivo, não demonstrou ser tão gago quanto pelo rádio. Bastante simpático, ele nos deu peixe fresco, e um enorme saco de gelo, já que o nosso estava no fim. Em seguida voltamos para o Mar Sem Fim, fundeado poucos metros rio acima, para continuar nossa navegação.

    Neste momento a maré começou a vazar com força. E que força ! Em segundos nosso ferro desgarrou, e o veleiro começou a descer o rio totalmente desgovernado. Por sorte estavam todos a bordo. Com muito trabalho, e força física, suspendemos a âncora de 35 quilos, mais a corrente, sem usarmos o guincho. Em seguida coloquei em velocidade de cruzeiro: 1500 rotações, do motor de 90 cavalos, o que, numa situação normal, faz o barco navegar a sete nós e meio. Mas contra a maré vazante, estupidamente forte, nosso barco não fazia sequer um nó de velocidade. Assim, demoramos quase uma hora e meia para subir mais uma milha até a cidade de Bragança. É inacreditável a força da maré, especialmente as de lua, como agora, aqui na região norte. Parece uma avalanche embrutecida de água, que sobe ou desce os rios, conforme as marés.

    A duras penas chegamos a Bragança a uma e meia da tarde. Agora sim, a cidade é grande, vimos logo que fizemos uma última curva no rio, mais de acordo com sua população, estimada em pouco mais de cem mil habitantes. De longe já podíamos ver o porto, na beira do rio, com dezenas de grandes pesqueiros, todos atolados na margem, como eles fazem aqui. Por trás deles, erguia-se a cidade, acima duma colina não muito alta. Dava para ver alguns casarões, e aqueles telhados típicos de cidades antigas. Muito movimento também, com carros e caminhões rodando de um lado para o outro, e muita gente no porto. Ancoramos nosso barco um pouco antes dos primeiros prédios, descansamos um pouco, e nos preparamos para descer.

    Pouco tempo depois desembarcamos com todo nosso equipamento. No porto havia muita gente, pescadores, marinheiros, mecânicos, e vendedores ambulantes. O cheiro de peixe, e do lixo, era forte.

    Nem bem começamos nosso passeio quando vimos com uma bela praça, cheia de palmeiras imperiais, com um coreto no centro, destes de ferro, trazidos da Inglaterra no início do século 20, e montados aqui. Do mesmo tipo da estrutura do mercado Ver- o- peso, de Belém. Atrás do coreto ficava o lindo prédio do Palácio da Prefeitura, recém restaurado, pintado num tom de ocre, com detalhes em branco. Fizemos as gravações necessárias, e tentamos conversar com o secretario de Turismo, e com o da Cultura. Para nossa decepção ficamos sabendo que aqui a equipe só trabalha meio período, pela manhã. De tarde só se “a gente fosse até a casa deles”, nos disseram os funcionários.

    Continuamos a perambular pela cidade, que no geral é bem tratada, relativamente limpa, e com a maioria se seus prédios históricos em bom estado de conservação. Gravamos as igrejas construídas no século 19, o Palácio Episcopal, uma imponente construção em estilo Manuelino, além de algumas outras notáveis, como um casarão, conhecido como a Casa das Treze Janelas, antiga propriedade de um barão.

    Depois tomamos um táxi para irmos até a praia de Ajureteua, a mais famosa, distante 40 minutos do centro. A estrada era péssima, merecendo nota zero. Um buraco atrás do outro, sem acostamento, e com uma sinalização pífia, para dizer o mínimo.

    E olhe que estamos falando de um dos locais mais conhecidos, para o turismo, da costa do Pará.

    Praia enorme, mas sem graça. Muito extensa, com mais de cinco quilômetros, bem larga também, mas sem ondas, ou vegetação atrás.

    E para variar, sem quase infraestrutura. Ali havia duas pousadas que eu não recomendaria nem para um inimigo. Toscas, sujas, sem charme, e sem conforto. Feias mesmo. É chocante como se desperdiça o potencial turístico de toda região norte. Já falei sobre isto em capítulos anteriores, mas torno a falar. Em nenhum lugar pelo qual passamos há infraestrutura adequada para o porte da cidade, ou a fama das belezas naturais da região. A começar por Belém, porta de entrada para a Amazônia, mas que tem apenas um hotel cinco estrelas, da cadeia Hilton, e quase nenhum hotel, de bom nível, dedicado ao ecoturismo, por exemplo.

    Está mais que evidente a vocação turística do Brasil, e é ainda mais óbvia, a excelente condição natural para o turismo ecológico, com as praias do nordeste, o Pantanal, e claro, a Amazônia. Eu já mencionei que, no ano passado, o turismo ecológico movimentou no mundo, 260 bilhões de dólares, mas o Brasil fica fora desta montanha de dinheiro, por que suas cidades são sujas, inseguras, mal sinalizadas, e quase sem estrutura que permita receber os exigentes turistas americanos, europeus, ou asiáticos. Eles acabam dando preferência à África, Argentina, ou os países da Oceania.

    Consegui alguns dados oficiais de turismo no Pará. Eles são de 2002, e informam que apenas 0,34% dos estrangeiros que estiveram no Brasil, neste ano, escolheram o Pará como destino. E não é para menos. Algumas praças públicas importantes, como a que abriga o Teatro da Paz, imponente cartão postal da cidade, inspirado no Scalla, de Milão, exalam um odor de urina, duro de suportar, mesmo para narizes acostumados aos cheiros brasileiros, como o meu. Imagine para os gringos, que já deixaram claro através de pesquisas, que a insegurança das ruas eles até suportam, mas sujeira não. E além dela, há carência de programas especiais, como a pesca esportiva, por exemplo. Nos Estados Unidos, só em licenças, é arrecadado, anualmente, montantes que beiram a casa dos cem bilhões de dólares. Com este dinheiro os parques públicos são mantidos. Como aqui, no Brasil, não existe rigorosamente nada a este respeito, os gringos acabam indo para a Argentina, onde deixam parte de seus rendimentos, para descansarem nas férias, pescando trutas na patagônia. A Amazônia, com seus 20 mil quilômetros de rios navegáveis, e mais de três mil espécies de peixes, seria o maná desta gente se tivesse estrutura. Mas além da falta dela, o turista que se aventurar Brasil afora, ainda enfrenta as piores estradas de que se tem notícia: mal sinalizadas e totalmente esburacadas. Assim, é claro que acabam torrando seus dólares em outros países. Nossas autoridades preferem manter tudo assim, em sua secular omissão, ao invés de estudarem políticas públicas para a pesca, ou caça esportivas, e turismo ecológico, por que afinal, o Brasil é tão rico que não precisa de mais dinheiro nenhum. É isto mesmo , ou eu é que sou cricri demais ?

    Um tanto desanimados por mais esta constatação, voltamos para nosso barco, para jantar, e dormir. Amanhã vamos sair para tentar conhecer a ilha Canelas, no estuário do rio, e em seguida tocar para São Luis do Maranhão.

    27- 04- 2005, quarta feira.

    Acordamos cedo, mas nem tanto. É que antes de sair, precisávamos abastecer de gelo e diesel, e o posto só abre às sete da manhã. Então, hoje pudemos dormir um pouquinho mais. Finalmente, na hora certa, abastecemos, e seguimos em frente.

    Não havia passado uma hora de navegação, descendo o rio Caeté, para o alarme soar : estava caindo a pressão do óleo do motor, e quando isto acontece, é por causa de algum vazamento. Em minutos o Alonso já se jogava no porão da casa de máquinas, a procura do problema. Não demorou a sair, coberto de óleo, como sempre, mas com o diagnóstico perfeito: estourou um retentor da parte da frente do motor, impossível fazer o consertado a bordo. Teríamos que retornar. Felizmente aqui há centenas de barcos de pesca, e onde há barcos, há mecânicos. Recorremos aos nossos amigos do Missão Fortaleza, que logo nos deram uma indicação. Além do nome de um bom mecânico, eles nos passaram o telefone de um motorista de táxi, de modo que, do próprio barco, pudemos ligar, pedindo ao motorista que nos trouxesse a bordo o mecânico. Neste momento, meio dia e meia, escrevo meu diário esperando por ele. Parece ser coisa simples. Vamos aguardar.

    Enquanto esperamos queria falar um pouco sobre navegação e os brasileiros. Ainda outro dia, em Algodoal, eu comentava sobre isto, chateado por perceber que pouquíssimas pessoas se dão conta deste dom nato que temos. Mas ontem, lendo a bordo o livro de Joshua Slocum, A Viagem do Liberdade, em que ele conta suas aventura na costa brasileira, encontrei o que não esperava, mas que muito me agradou.

    Slocum foi um dos mais famosos homens do mar dos tempos modernos, autor de um clássico da literatura náutica, a Viagem do Spray, onde relata a primeira viagem ao redor do mundo, feita em solitário, a bordo de um pequeno veleiro, no final do século 20. Não há quem não conheça este livro sendo do mar. Slocum tornou-se uma lenda depois de sua publicação. Ele era um capitão de navios a vela, que, inconformado com o advento do carvão, se viu sem função, uma vez que era acostumado a navegar tirando proveito dos ventos e correntes. Então, construiu o Spray, e saiu mundo afora. Depois escreveu o clássico que já mencionei.

    Agora foi lançado no Brasil outro livro dele, A Viagem do Liberdade, em que conta as desventuras que sofreu com seu Clíper, Aquidneck, em viagens que fazia ao Brasil no fim do século 19.

    Slocum relata suas viagens entre a Argentina, o Uruguai, e o Brasil, levando e trazendo cargas, passando por motins, sempre com tripulação formada, em parte, por marinheiros brasileiros. Até que sofreu um acidente em Antonina, próximo a Paranaguá, onde perdeu seu barco.

    Sem dinheiro, resolveu construir um pequeno veleiro inspirado nas canoas brasileiras, e em barcos do Cabo Ann, de apenas 35 pés, todo feito com madeiras da Mata Atlântica que ele mesmo escolhia, moldava, e utilizava.

    Ele também ficava encantado com os barcos típicos brasileiros que via pela costa, e numa passagem memorável, assim os descreveu: “ Essas canoas , às vezes produzidas a partir de árvores gigantescas, habilmente modeladas e escavadas, são ao mesmo tempo a carruagem e corriola da família para o sítio, ou do arroz para o moinho. Estradas são quase desconhecidas onde a canoa está disponível; conseqüentemente, homens, mulheres e crianças são todos adestrados quase à perfeição na arte da canoagem.” E prossegue o americano : “ A canoa familiar recém- citada freqüentemente possui capacidade para muitas toneladas, é lindamente decorada com entalhes ao longo das bordas. Da maior à menor elas são bem cuidadas, com um cuidado quase afetuoso, e são feitas para durar muitos anos.”E conclui da seguinte forma: “O sistema de brisas de terra e mar prevalece na costa desde Cabo Frio até Santa Catarina com grande regularidade na maior parte do ano; a navegação, portanto, é usada com grandes vantagens pelos habitantes quase anfíbios da costa, que amam a água e movem-se nela como patos e marinheiros natos.”

    Aí está. Fiquei feliz quando li este trecho escrito por uma lenda viva, como é o caso do capitão Slocum. E me apressei a divulgá-lo. Quem sabe, aos poucos, mais brasileiros comecem a valorizar esta tradição que hoje é tão pouco reconhecida.

    Voltando ao nosso barco: nem foi preciso esperar o mecânico. Alonso e Cerdeira acabaram dando cabo dos reparos necessários, mas infelizmente, tarde demais para sairmos hoje.

    28- 04- 2005, quinta- feira.

    Com o dia clareando iniciamos nossa navegação e, desta vez, usamos a barra sul, ao invés da norte, para deixarmos o estuário do rio. E grata surpresa, ela era bem mais funda que a primeira. Em nenhum momento tivemos menos que cinco metros de profundidade. Começava bem nossa viagem de 200 milhas até a capital do Maranhão.

    Lá fora, já em mar aberto, navegamos com vento nordeste, com força variando entre 15 e 20 nós, ideal para nosso barco. Abrimos a genoa ( vela de proa), e subimos a Mestra ( vela principal ), e assim navegamos todo o dia e primeira noite, sem fatos relevantes que mereçam registro. Navegada boa, tranqüila, serena, mantendo sempre a média de 6 nós de velocidade.

    29- 04- 2005, sexta- feira.

    A noite passada um Pirajá, nuvem carregada, com ventos fortes ao redor, ao passar pelo Mar Sem Fim cobrou o seu preço, e deixou um rasgo na genoa, suficientemente grande para que não possamos mais usar esta vela até São Luis. A chuva que tem caído desde que o barco chegou ao rio Oiapoque, em dezembro passado, também contribuiu para que o tecido da vela apodrecesse um pouco, e , nesta noite, o vento nem precisou usar todo seu poder para produzir este rasgo…Enrolamos a vela e seguimos navegando com a Mestra e o motor, em rotação reduzida, para ajudar a manter a velocidade. No momento, 10h 30 da manhã, estamos no través da ilha de Lençóis, a uma distância de 90 milhas de São Luis. Devemos chegar esta noite. O vento agora continua de nordeste, mas fraco, com seus 13, 15 nós. E fora isto, o almoço está garantido. Como sempre faz, o Alonso soltou uma linha, e há pouco puxamos para bordo uma cavala que já está sendo preparada.

    A viagem correu tranquila até a meia noite, quando fundeamos em frente ao Iate Clube de São Luis, na ponta da praia, onde agora está o Mar Sem Fim, a espera de nossa próxima etapa.

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