Cananéia e Paranaguá

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    Sábado- 4- 11- 2006.

    Era perto das duas da tarde quando parei no bar “Buraco Quente”, em Pariquera- Açu, poucos quilômetros antes de Cananéia. Fazia tempo que sonhava com a chance de comer de novo o sanduíche de carne moída que deu fama e nome ao boteco. O mesmo padrão se mantém há anos. Fiz bem em parar. Ele continua delicioso, suculento, em seu molho à base de cebolas, tomates e minúsculos pedaços de calabreza. Em seguida uma generosa porção do recheio é colocada no interior de um pão francês, com a casca mole, cujo miolo foi arrancado para dar espaço à iguaria. Come-se com garfo e faca. E é de lamber os beiços.

    Depois do almoço tocamos para Cananéia, no centro náutico, onde estava o Mar Sem Fim, e nosso novo bote de apoio, um inflável, poderoso, de 17 pés, com motor de popa de 115 cavalos, ideal para uma viagem como a nossa. Vamos atravessar uma parte considerável do lagamar. Onde o veleiro não entra o bote pode nos levar. E com sua alta velocidade podemos percorrer dezenas de rios em pouco tempo.

    O Alonso, como sempre, já estava amigo da cidade inteira quando chegamos. E o mesmo prático que no levou para Paranaguá, seis anos atrás, veio se oferecer novamente.

    Melhor assim, com tudo rapidamente resolvido.

    Domingo- 5- 11- 2006.

    Para o segundo dia tínhamos programado ir até a ilha do Bom Abrigo gravar “nossa chegada”, registrar a ilha e velejar um pouco. Faz tempo que não levantamos o pano. A última vez foi quando voltamos de Abrolhos. Depois, até aqui, viemos no motor. Ou tem vento demais, quando entra uma frente, ou não tem vento nenhum. Não há meio- termo, justamente o ideal para um barco como o Mar Sem Fim.

    Logo cedo suspendemos em direção à barra. Ela já não suporta receber navios, como no passado, mas barcos de pesca, e veleiros, sim. A parte mais rasa ultrapassa os 4 metros e, hoje, felizmente, há até bóias demarcando sua entrada.

    Esta noite ventou bem forte, Josélia Pegorim (nossa metereologista) já tinha nos prevenido. No canal onde estávamos o sueste bateu nos 26, 28 nós. Esta manhã ele continua fustigando, agora com 20, 22 nós. Como conseqüência as ondas estavam bem altas, com dois, a dois metros e meio.

    Agora que temos o botão de apoio precisamos aproveitar para fazer mais imagens do Mar Sem Fim velejando. Com o inflável pequeno era impraticável. Passamos a manhã entre orças, contra- ventos, e vento de través. E, no final, esnobamos, e entramos na barra, descendo ondas, e velejando. Foi tão bonito que um barco de pesca com o qual cruzamos nos aplaudiu.

    Voltamos para o centro náutico no começo da tarde a tempo de descer em terra para gravar o casario e a linda igreja da praça Central.

    Aqui todo mundo nos conhece. Enquanto eu fotografava várias crianças e adultos vieram falar comigo, dar os parabéns, ou desejar uma boa estada em Cananéia. Tempos depois encontrei a Paulina que também estava impressionada. Não foram poucos os que a pararam na rua para perguntar do programa.

    Com uma hora de trabalho o centro estava registrado. Resolvemos ir ao bar mais famoso daqui, o do seu João Rios, especialista em preparar garrafas de pinga misturada com frutas, raízes ou folhas. No caminho vi, no saguão de um hotel, uma linda miniatura de baleeira, um dos modelos tradicionais do sul do país. Entrei e perguntei quem era o artesão. E, imediatamente depois, comprei uma para minha coleção.

    Fui comemorar, feliz da vida, no seu João Rios. Naquela noite enchemos a cara de cachaça. Com goiaba para mim, com cataia, um tipo de folha, para a Paulina e o Cardozo.

    Segunda- feira 6- 11- 2006.

    Às 9hs30 estávamos no píer da Ceagesp, conforme havíamos combinado na véspera, esperando o pescador Pedro que iria nos levar até o seu cerco. Enquanto ele não aparecia aproveitamos para registrar o desembarque de um barco pesqueiro grande, o mesmo que tínhamos visto entrando na barra. Ele estava chapado de pescado e a tripulação ocupada na faina do desembarque. Um cesto jogado dentro do porão logo era suspenso lotado. Em seguida os peixes eram passados do convés para o entreposto.

    Paulina aproveitou e gravou uma entrevista.

    Quando estávamos terminando vimos Pedro partindo em sua baleeira. Fomos atrás.

    Não demorou mais que 15 minutos. O suficiente para atravessarmos o canal e navegarmos um pouco em direção à saída da barra. Logo o cerco estava em nossa frente.

    Pedro nos contou que seu pai passara a noite aqui para não deixar que os biguás, um tipo de pato selvagem, fizessem a festa.

    Primeiro ele mergulha para se certificar que não há nenhum buraco na parte submersa. Em seguida sobe pelas laterais até poder jogar uma rede em seu fundo. Então Pedro e seu ajudante começam a puxar. Logo uma massa enorme de peixes saltitando, lutando por seu espaço, começa a aparecer. O cerco estava abarrotado com mais de 200 quilos de pescado.

    Foi maravilhoso registrar o processo para o programa. Especialmente porque Pedro tem um ajudante incomum: um boto cinza que conhece há 13 anos, “desde que era um filhote”. O animal o ajuda cercando e encurralando o peixe na direção de sua armadilha de modo que entre em seu labirinto de paredes e fique preso. Em compensação todo dia, quando ocorre a despesca, ele escolhe suculentos paratis que dá para o “amigo” como uma pessoa faria com seu cão de estimação. Faltou só afagar a cabeça e o bicho abanar a cauda.

    Registramos tudo. Entrevistamos Pedro e voltamos para Cananéia. Iríamos conversar agora com o diretor do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, desde 1997, o oceanógrafo Marcos Bürer Campolim.

    Gostei muito de conhecê-lo. Marcos conhece profundamente a região e seus ciclos econômicos. E faz um trabalho na área do Parque que me pareceu exemplar.

    Ele contou que no século passado havia mais gente na ilha do Cardoso que em Cananéia. Com a derrocada do porto ficou difícil escoar a produção agrícola. Começava a migração da ilha para o continente. O declínio da agricultura também foi responsável pelo nascente ciclo da pesca artesanal, atividade preponderante até os anos 70 quando seu esgotamento já mostrava os primeiros e evidentes sinais. Então surgiu o turismo que movimenta a economia até hoje.

    Em seguida a estas mudanças históricas veio a restritiva legislação dos parques, o que contribuiu para acelerar ainda mais a mudança das populações tradicionais que resistiam na ilha do Cardoso.

    Perguntei o que ele acha do modelo brasileiro que, como comentei no diário anterior, restringe de modo quase absoluto a ação daqueles que moram dentro de seu perímetro.

    Marcos concordou e explicou que no Brasil há duas correntes do movimento ambientalista: os preservacionistas, para quem tudo deve ser proibido e, os sócio-ambientalistas, que são contrários às imposições mais severas. E ele também não está de acordo em proibir as atividades das populações tradicionais. Considera que são os melhores guardiões para suas áreas e contou que até o ano 2000 a legislação das Unidades de Conservação, no Brasil, não era clara quanto à presença de comunidades tradicionais.

    De acordo com ele o grande avanço aconteceu a partir deste ano, com a legislação que acompanhou o lançamento das “SNUCs”, Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que, pela primeira vez, reconheceu que as comunidades tradicionais não têm necessariamente que deixar uma área protegida. Ela também responsabiliza o Estado pela transferência dos nativos, quando for o caso, e garante que possam continuar a manter seu modo de vida ao optarem por ficar.

    Marcos reconhece que o modelo adotado inicialmente no país era oriundo dos Estados Unidos, da década de 40, do tempo em que criaram o Yellowstone, e muito restritivo. Ele acha “que foi um mal necessário”. Foi através dele “que seguraram a Juréia”, entre outras áreas, “mas hoje tanto os gestores (das unidades), como a Academia, evoluíram”.

    Quando comentei o depoimento de Dauro, o caiçara que saiu de lá (diário de bordo anterior), ele considerou o caso como “deficiência de gestão”. Marcos, mais uma vez, recorreu à legislação do SNUC e disse que desde então existe a obrigatoriedade de um Conselho. “Quem mandava antes era o gestor”. “Agora as Unidades de proteção Integral exigem um Conselho Consultivo e, as de Uso Sustentável, um Conselho Deliberativo. Nos dois casos os nativos têm assento”.

    Perguntei quais atividades eram permitidas. Marcos explicou que todas, “até mesmo o corte de árvores para fazerem canoas”, desde que se cumpram certas regras e, “que elas sejam para uso próprio”. Pequenas roças, reformas em casas, construção de novos quartos para turistas, etc. Tudo isto é feito às claras, discutido no Conselho com todos os principais protagonistas participando, e sem peso pré-estabelecido para um dos lados.

    No caso do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o Conselho foi montado em 1988 e, desde então, funciona regularmente. A cada mês duas novas reuniões são feitas. No mesmo período da nossa visita uma delas estará acontecendo. As pessoas são naturalmente mobilizadas, participam mesmo.

    Olhando ao redor desta paisagem que tive o privilégio de conhecer nos anos 60, quando vinha para a casa de meu pai, em Porto Cubatão, acho que finalmente encontrei outro bom exemplo. Aparentemente muito pouca coisa mudou, a não ser o fato desta imensa biodiversidade animal, vegetal e cultural estar “garantida por leis” e, ao menos neste caso, seus fiscais são atentos, diligentes, sérios, e compenetrados. E seu modelo de área protegida é vitorioso.

    Ao perguntar ao Marcos sobre as maiores ameaças fiquei espantado com a sinceridade. “A caça, que é uma questão cultural entre esta gente, e a extração do palmito, conseqüência direta da falta de alternativa econômica”.

    Além destes problemas, provocados pelos moradores, há os que vêm de fora e, entre estes, os mais freqüentes são a coleta de caranguejo no mangue, redes de arrasto na costa e, uso do gerivau, espécie de rede de arrasto de deriva, pequena, para capturar camarões. Hoje elas são puxadas por carros! Por fim citou outra rede que às vezes é colocada na boca dos rios pelos nativos.

    Outro problema, bem típico, foi o aumento de cercos. Como a região é monitorada por fotos de satélite é fácil determinar seu crescimento, fruto da ação de gente de fora. E eles são destruídos em seguida. Idêntico fim têm as casas irregulares, construídas em área do Parque.

    Depois da ótima entrevista saímos de bote até Marujá, com a companhia de Selmo, um monitor por ele designado. Voltamos para bordo já no fim do dia.

    Terça- feira 7- 11- 2006.

    O dia hoje foi tirado para irmos até Iguape. Convoquei a tripulação para me ajudarem na conversa com o senhor Nishidate, da salga. Eu comprei uma canoa e recebi outra. Precisava trocá-la. Paulina e Cardozo foram comigo. Foi uma dura tarefa, mas, ao final, tínhamos convencido o proprietário. Amanhã o caminhão faz a troca.

    Chegamos de volta, em Cananéia, às 3h da tarde. Meu amigo, Plínio Romeiro, já estava a bordo nos esperando. Cheio de ordens para dar. Ele é um dos “seres náuticos” mais completos que conheço. Mas, ao entrar no Mar Sem Fim, às vezes parece que fica alucinado e tomado por este tique nervoso : dispara ordens, indistintamente, e sem parar. A cada uma Paulina respondia com um sonoro : ” Sim- senhor- SENHOR ! ” Recebeu o troco. Antes do final da viagem já o chamávamos de Sargento Tainha. A vingança tarda mas não falha, diz o ditado popular…

    Plinio havia nos ajudado na etapa de Ilhabela. Agora participaria desta viagem.

    Com ele embarcara nosso prático, de nome Catraca.

    Desatracamos e partimos.

    Nesta noite dormiremos no Marujá.

    Quarta- feira 8- 11- 2006.

    Esta manhã tivemos a chance de confirmar as informações do diretor do Parque. Conversamos com um dos mais notáveis cidadãos do Marujá, um líder natural dos caiçaras, seu Ezequiel.

    E ele nos pintou o mais idílico dos quadros. Quase todas as pessoas da vila participam das decisões do Conselho. Antes dele, até 1997, quando não havia plano de gestão “não podia fazer nada, mas as pessoas faziam e o Estado fingia que não via”. Neste período os próprios caiçaras trataram de se organizar. Eles mesmos criaram normas para o turismo em suas várias modalidades e, quando o plano de gestão ficou pronto, ofereceram este capítulo.

    “O coordenador gostou da idéia e a colocou no plano de gestão”.

    A partir daí descobriram que havia uma nova legislação que regia a área, impedia a especulação, e podia ajudá-los. Passaram a estudá-la, ainda que contra sua natureza, muito mais intuitiva, como lembra seu Ezequiel, e conseguiram fazer bom uso dela. Até hoje estão mobilizados em razão das várias reuniões mensais. Os conflitos diminuíram, eles atingiram a almejada auto-sustentabilidade e, a cultura e modo de vida, estão preservados. O que mais alguém poderia querer?

    É o melhor dos mundos? A pobreza não existe?

    Ao contrário. Esta gente é simples e vive com pouco mais que o mínimo necessário. Mas não passa fome. E tem dignidade. Já é alguma coisa e, até agora, foi o melhor que vimos em se tratando de populações tradicionais.

    Seu Ezequiel contou que conhecia o litoral norte. Tinha visto o que aconteceu com as populações de Toque- toque e outras praias: as favelas. E não queria o mesmo fim para sua gente. Ele teve que ir à luta. Reclama que não foi fácil abandonar o ciclo da natureza, quando só tinham que vigiar as marés ou os ventos, e passaram a ter que agir de acordo com a agenda dos ongueiros. Mas valeu a pena. Hoje desfrutam destes benefícios.

    Depois abusei e pedi a ele para contar do tempo em que abriram o Canal do Varadouro.

    Ele não se fez de rogado. Disse que Ararapira era a maior cidade da região “com várias casas de comércio e, maior, até, que Cananéia”. Hoje ela não passa de uma vila fantasma na divisa de São Paulo com o Paraná.

    Com a abertura do canal, em 1954, “o processo erosivo que já era forte se acentuou e as pessoas acabaram indo embora”.

    Até este tempo não se sabia bem a qual Estado pertencia a comarca. Até que, nos anos 50, um processo político se instalou e o futuro de Ararapira foi decidido no Senado: a vila , e toda a ilha de Superagui, passou a ser parte do Estado do Paraná.

    Depois da entrevista seguimos navegando.

    Paramos em frente à Ararapira, para as fotos e gravações, depois seguimos até a vila do Ariri. Ali jogamos nosso ferro e esperamos mais uma hora, até a maré estar mais cheia.

    Reiniciamos, em seguida, a navegação. E prosseguimos até a ilha dos Pinheiros, na baía do mesmo nome, onde passaríamos a noite.

    Nosso prático se despediu e retornou para Cananéia em sua canoa. Nós preparamos o jantar enquanto ouvíamos o barulho dos papagaios de cara- roxa, ameaçados de extinção, e habitantes desta ilha.

    Depois jantamos e fomos todos dormir.

    Quinta 9- 11- 2006.

    Esta noite fiquei pensando sobre o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, em seu sucesso na manutenção da biodiversidade com inclusão dos caiçaras que aqui vivem, e nos outros que temos visto onde os nativos são ignorados, praticamente expulsos ou, então, impedidos de continuarem suas práticas centenárias. Me lembrei da conversa que tivemos com o professor da USP, o antropólogo Antonio Carlos Diegues, autor de vários livros e estudos sobre os caiçaras. Para Diegues o Parque da Ilha do Cardoso é um exemplo em termos de administração. “Um dos melhores do Brasil”, foi o que disse.

    Quando perguntei o que achava do modelo que exige a exclusão das populações tradicionais ele repetiu, mais ou menos, o que o atual chefe do Parque havia dito, ou seja, foi um mal necessário. Para o professor se não houvesse o Parque da Juréia “não haveria mais os caiçaras que ainda moram por lá”.

    Ante meu inconformismo com relação ao modelo, Diegues me deu um artigo que havia mandado traduzir. Seu autor é o norte-americano Mark Dowie. Ele foi publicado na Orion Magazine, em janeiro de 2006. Título: “Refugiados da Conservação”. Dowie é professor no curso de pós- graduação da Universidade Berkeley de Jornalismo.

    Li e reli diversas vezes. E comecei a entender de onde veio o modismo.

    Entre outras afirmações, Dowie explica que milhões de povos nativos foram expulsos de suas terras para dar lugar a grandes companhias de petróleo, mineração, madeireiras e à monocultura. Mas “hoje a lista de instituições destruídoras de culturas, denunciadas por líderes tribais em quase todos os continentes, inclui nomes mais surpreendentes como a Conservation International (CI), a Nature Conservancy (TNC), o Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF), e a Wildlife Conservation Society (WCS)”. O autor conta que, em 2004, uma reunião das Nações Unidas foi realizada em Nova Iorque para “aprovar uma resolução protegendo os direitos humanos e territoriais dos povos nativos”.

    Mais tarde, naquele mesmo ano, em Vancouver, no Canadá, em uma reunião do Fórum Internacional de Mapeamentos Indígenas, todos os duzentos delegados assinaram uma declaração indicando que “as atividades das organizações de conservação representam agora a maior ameaça à integridade das terras indígenas”.

    Em seu trabalho ele diz que “curioso com este tipo de conservação que põe o direito da natureza antes dos direitos dos povos eu me organizei para confrontar o assunto face a face”. Em seguida viajou pela África, Ásia e América do Sul para ver in loco a situação das várias reservas.

    Eis o que descobriu: “O apoio financeiro para a conservação tem se expandido nos últimos tempos e, hoje, inclui fundações muito fortes como a Ford Foundation, MacArthur, Gordon e Betty Moore, o Banco Mundial, a USAID, um conjunto de bancos bilaterais e multilaterais, assim como grandes corporações transnacionais”.

    “Durante os anos 90, a USAID, sozinha, disponibilizou US 300 milhões para o movimento internacional de conservação e, as cinco maiores ONGs, a CI, TNC, e WWF, absorveram 70% destes gastos, enquanto as comunidades nativas não receberam nada”.

    E mais : “A fundação Moore reservou US 280 milhões em dez anos, a maior doação ambiental da história, a apenas uma ONG, a Conservation International, e todas as BINGO ( Big International ONGs) tornaram-se cada vez mais corporativas em anos recentes, tanto na orientação como na filiação”.

    Segundo o autor “com este tipo de apoio financeiro e político as Ongs deram um grande impulso para aumentar o número das chamadas áreas protegidas mundo afora”.

    “Em 1962 havia cerca de mil áreas protegidas mas hoje elas são cerca de 108.000”.

    E prossegue: “Atualmente 11.75 milhões de milhas quadradas são protegidas, uma área maior que a superfície total da África”. A descoberta sensacional é que, apesar disto, ou, por causa disto, e do modelo de que desconfio, “as estimativas feitas pela ONU e alguns antropólogos variam de 5 até 10 milhões de refugiados da conservação”. É mole? Vale dizer que, para esta gente, animais vivos e protegidos valem mais que pessoas!

    Fiquei atônito com estes números. Ainda custo a crer e digerir.

    Em seguida Dowie mostra o pensamento de alguns “titãs” do conservadorismo mundial.

    O presidente da WWF, Steven Sanderson declarou o seguinte: “Toda a conservação foi sequestrada pelos que advogam a causa dos povos nativos, colocando a vida selvagem e a biodiversidade em perigo”. Em seguida declarou que “os povos nativos e seus defensores podem falar pela sua visão da floresta mas não falam pelas florestas que nós queremos conservar”. O cara é um pouco arrogante ou estou enganado?

    Dan Campbell, diretor da TNC em Belize, afirmou o seguinte: “nós temos uma organização que tenta, às vezes, empregar modelos que não cabem na cultura das nações onde trabalhamos”.

    E há outras tão bombásticas ou mais, que as anteriores. Uma delas saiu da boca de outro destes titãs, John Terborgh, da Universidade de Duque, que disse: “Meu sentimento é que um parque deve ser um parque, e não deve ter nenhum povo residente nele”. O trabalho finaliza as declarações com uma, do paleontólogo Richard Leakey, proferida em 2003, na África do Sul, durante um congresso ambientalista. Felizmente a declaração “precipitou uma torrente de protestos” porque seu autor, que é africano, negou a existência de povos nativos no Quênia e finalizou dizendo que “ os interesses globais pela diversidade devem, algumas vezes, estar acima das comunidades locais”.

    Mark Dowie, em seu artigo, insinua que por trás deste tipo de pensamento estão os interesses das grandes corporações, justamente as que financiam os ambientalistas.

    Transcrevo na íntegra: “Muito problemático é o fato que grande organizações conservacionistas internacionais persistem em trabalhar confortavelmente com algumas das corporações mais agressivas e utilizadoras dos recursos globais, como a Boise Cascade, Chevron- Texaco, Mitsubichi, Conoco- Philips, Internacional Paper, a mineração de Rio Tinto, a Shell, e o Weyerhauser, todas sócias da entidade criada pela CI, chamada de Environmental Leadership in Business. De fato se as BINGOs (as grandes Ongs internacionais) fossem renunciar a seus sócios corporativos perderiam milhões de dólares em renda e acesso ao poder global sem os quais elas sinceramente acreditam que não poderiam ser eficientes”.

    Dowie finaliza, no entanto, com um parágrafo alentador. Vamos a ele:

    “Mais e mais conservacionistas parecem querer saber como, após ter reservado uma área protegida do tamanho da África, a biodiversidade global continua a declinar. Pode haver algo terrivelmente errado com este plano- particularmente depois que a Convenção da Diversidade Biológica documentou o fato surpreendente que, na África, onde tantos parques e reservas foram criados e onde a expulsão dos povos nativos é a maior, 90% da biodiversidade encontra-se fora das áreas protegidas. Se quisermos proteger a biodiversidade em todos os lugares do mundo, frequentemente ocupados por nativos e de forma ainda ecologicamente sustentáveis, a história nos mostra que a coisa menos inteligente a fazer é expulsá-los de suas terras”.

    Oxalá este viés seja, de fato, vencedor entre todos os que se preocupam com o meio ambiente.

    Bem, o dia de hoje foi gasto em visitas à comunidade de Superagui, aqui perto.

    Em seguida levantamos o ferro e navegamos até a próxima, a vila de Tibicanga. Esta, como a anterior, é uma pequena aglomeração onde os caiçaras ainda vivem do extrativismo. A região é de uma beleza singular e, sua biodiversidade, espetacular.

    Tivemos dois encalhes no trajeto, logo superados com ajuda do botão. A manobra é interessante e vale a descrição. O bote puxa a adriça da vela grande, que sai do mastro principal do Mar Sem Fim, em um ângulo de 90 graus em relação à proa. Com isto o veleiro “deita de lado” e, com a manobra, a quilha desgruda da lama.

    Fundeamos em frente a Tibicanga, às margens da ilha das Peças, onde passamos a noite. Já estamos próximos da baía de Paranaguá. Amanhã vamos atravessá-la para chegar na cidade paranaense de mesmo nome.

    Estamos, já, no décimo quinto estado costeiro que visitamos. Faltam só dois para terminarmos: Santa Catarina e, o derradeiro, o Rio Grande do Sul.

    Plínio passa pela mesa de navegação, onde escrevo e, sarcasticamente, pergunta qual roupa deve usar esta noite…Paulina foi tomar banho. Cardozo e Alonso tentam ligar a tv para não perderem a novela.

    Amanhã tem mais.

    Sexta 10- 11- 2006.

    Cedinho embarcamos no botão e tocamos para Guaraqueçaba. Para chegar até lá é preciso atravessar a baía das Laranjeiras e navegar para o lado oeste, até o fundo da baía, onde fica a pequena cidade.

    Guaraqueçaba é um lugar meio perdido, onde quase só se tem acesso por mar. Por terra é preciso pegar uma “estrada de chão”, péssima, a partir de Antonina. Por sua dificuldade de acesso ela tem esta característica de ser um tanto isolada. Durante todo o trajeto pudemos ver que, apesar da especulação que aconteceu nos anos 70 e 80, combatida duramente pela imprensa, especialmente O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, em campanhas sucessivas junto com ambientalistas, e da criação de búfalos que se instalou pela área, a região, para quem chega pelo mar, parece continuar intacta. A mata atlântica cerca toda a baía e morros adjacentes.

    Também chamou minha atenção a quantidade e beleza das canoas. Sejam as de popa e proa arredondadas, herança dos índios, sejam as de proa afilada e lançada, e popa reta. Estas são as mesmas que vi, descrevi e fotografei na região de Iguape e Cananéia. Seu Ezequiel me contou de onde vêm. São originárias de Santa Catarina. Elas são canoas de bordadura que têm a proa alta e lançada justamente porque saem para o mar, tendo que enfrentar ondas altas e arrebentação. No geral são imensas, muito coloridas, como sempre e, extremamente rápidas com seus motores de centro.

    O porto de Guaraqueçaba é repleto delas.

    Demos uma rápida volta pela cidade, comemos uma deliciosa casquinha de siri, a melhor que provei em toda esta aventura, no bar do Barbosa, que fica na curiosa praça central da cidade.

    Em seguida retornamos para o Mar Sem Fim. Era preciso chegar com dia claro em Paranaguá.

    Suspendemos e iniciamos a navegação. Desta vez não tivemos qualquer problema. Nenhum baixio estava em nosso rumo.

    No fim do dia atracamos no Iate Clube de Paranaguá.

    Sábado 11- 11- 2006.

    Tiramos o dia para conhecer o porto de Paranaguá, muito importante para o escoamento da soja do centro- oeste, e a cidade de Antonina, no fundo da baía de Paranaguá.

    Ao passarmos pelos navios no porto, duas coisas chamaram nossa atenção. Primeiro uma espécie de fumaça que envolvia um deles. É que o imenso navio estava sendo carregado. Chegando mais perto sentimos o cheiro inconfundível do farelo de soja. Parecia uma imagem fantasmagórica aquela enormidade envolta em nuvens espessas de “poeira” de soja.

    A segunda foi vê-lo descarregando água de lastro em pleno porto sem nenhuma fiscalização. Já disse, em diários anteriores, do perigo da bioinvasão que é considerado como o segundo pior problema causador da diminuição da biodiversidade no planeta. Ainda assim a comunidade internacional ainda não chegou a uma solução quanto a ele.

    Navegamos uma boa meia- hora, com o botão, até chegarmos em Antonina. No caminho ainda passamos pela refinaria da Petrobrás que, volta e meia, prejudica os mangues da região e a água do estuário, com derramamentos de petróleo. Não é por outro motivo que a Petrobrás apoia e patrocina várias ações em prol do meio ambiente como o Projeto Tamar e o Projeto Peixe- Boi, entre outros. Ela sabe que sua atividade é perigosa e causa frequentes danos ao meio ambiente, por isto, ao menos, desenvolve também atividades que protegem e procuram assegurar nossa biodiversidade. Menos mal.

    Antonina, no passado, era um importante porto do sudeste brasileiro. Recebia enormes navios a vela. Foi aqui, aliás, que naufragou Joshua Slocum, um dos ícones da vela mundial, em 1887. Um banco de areia fez com que ele perdesse seu navio, um cliper, de nome Aquidneck. Com ele Slocum perdeu também quase todo o dinheiro que tinha.

    Estavam a bordo, entre outros, sua mulher e dois filhos. Da adversidade ele fez história, escrevendo um dos mais belos capítulos da náutica mundial.

    Simplesmente resolveu construir um barco inspirado nas canoas brasileiras que tanto admirava, armado ao estilo das sampanas orientais. O pequeno veleiro, de 35 pés, foi feito com madeiras que ele mesmo escolhia na mata atlântica, e suas velas foram costuradas pela mulher. O barco acabou sendo lançado n’água dia 13 de maio de 1888 e, por isto, recebeu o nome de Liberdade, em português mesmo. Depois de uma travessia de 55 dias, chegou de volta em sua terra natal, os Estados Unidos. Um feito e tanto!

    Antonina é uma graça de cidade. Ela ainda conserva um belo casario colonial, com destaque especial para o fantástico teatro Municipal que, por seu tamanho e imponência, é uma prova da grandeza que ela teve no passado.

    Gravamos e fotografamos. Em seguida almoçamos num dos melhores restaurantes que conhecemos nesta viagem: o Caçarola do Joca, na praça principal, dirigido pelo paulista Joca. Ali experimentamos o famoso Barreado, prato típico da região. Estava simplesmente delicioso.

    No fim do dia estávamos de volta ao Iate Clube de Paranaguá.

    Amanhã retornamos para São Paulo, via Curitiba. Vamos subir a serra da Graciosa de trem até a capital do Estado e, de lá, seguimos de avião para São Paulo.

    Na próxima etapa faremos a Ilha do Mel e Guaratuba.

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