Búzios – Macaé – Cabo Frio – Baía da Guanabara

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    Quinta- feira, 11- 05- 2006.

    Oba! Mais uma etapa está começando. Não sei o que vai ser de mim quando este projeto terminar. Poucas vezes trabalhei em algo de que gostei tanto, e olha que adorava o que fazia nos tempos de Rádio Eldorado. Além do prazer, do aprendizado dos macetes, linguagem e ritimo da TV, tenho aumentado demais meus conhecimentos sobre o mar e seus problemas com as entrevistas com especialistas e leituras específicas sobre os temas que vão surgindo. Visitei lugares espetaculares e tenho certeza que outros ainda mais bonitos nos aguardam. E não passa um mês sem que reveja meu veleiro onde me sinto melhor do que em minha própria casa. O que mais eu poderia querer?

    Bem, pegamos um avião em São Paulo e voamos para o Rio de Janeiro. Às nove da manhã pousamos no Santos Dumont. Aluguei um carro e tocamos, eu, Paulina, e Cardozo, para o Campus da Universidade Federal para as duas primeiras entrevistas que havíamos agendado. Eu queria aprender sobre o fenômeno conhecido como “ressurgência”, que ocorre em Cabo Frio, para onde esta etapa vai nos levar.

    Conversamos com o professor Jean Louis Valentin, do Instituto de Biologia da Universidade carioca. Desde 1972 ele se dedica ao tema. Em seguida falamos com o geólogo Edson Farias Mello, que nos contou sobre as jazidas de minerais que se encontram nos oceanos. E ainda marcamos novas entrevistas com professores do departamento de Geologia, especializados em extração de petróleo, já que vamos navegar pela bacia de Campos.

    Terminamos ali pelo meio- dia. Tocamos, então, para Búzios, aonde chegamos no meio da tarde. Alonso, sempre ele, nos aguardava no Iate Clube. O Mar Sem Fim estava lindo, amarrado a uma das bóias deste charmoso clube que fica na praia dos Ossos. Amanhã começamos a explorar as redondezas.

    Hoje deu tempo apenas para guardarmos nossa bagagem, depois desembarcamos de novo para “almoçar” (eram sete da noite), e voltamos em seguida para dormir a bordo.

    Sexta- feira, 12- 05- 2006.

    Pela manhã tivemos notícia de nova frente fria que estava subindo a costa brasileira, com previsão de chegar aqui amanhã. Corremos para poder registrar suas belas praias ainda com céu azul. A partir de agora será uma constante nossa briga contra as frentes frias. Enquanto estávamos no Norte e Nordeste eu nem me preocupava. Elas raramente chegam até lá, mas no Sudeste, especialmente nesta época do ano (Outono e Inverno), não se pode brincar. Se forem apenas fracas prejudicam o colorido e a beleza dos programas, já que gravar imagens da costa com o céu aberto é sempre mais bonito. Mas se forem fortes podem nos causar desde desconforto até problemas bem mais sérios, podendo colocar em risco a integridade do barco e da tripulação.

    No Outono e Inverno não há mais as massas de ar quente que ficam estacionadas sob o Brasil, que impedem ou, no mínimo, dificultam a penetração de frentes frias. Agora é diferente. Com a temperatura mais fria não há nenhuma barreira para estas frentes que sobem a partir da Antártica. E vem uma trás da outra numa sucessão às vezes interminável. Assim que cheguei a bordo Alonso confirmou que desde que está aqui o sudoeste não pára de soprar. O vento apenas diminui ou aumenta de intensidade, mas sempre vindo lá de baixo, trazendo nuvens negras, frio, chuva, e fazendo com que o mar cresça contra nosso avanço.

    Búzios é um belíssimo balneário carioca que ganhou fama nacional e internacional quando Brigitte Bardot, nos anos sessenta, visitou e se encantou com o lugar. Depois disso, já viu, o lugar parece que nunca mais saiu da moda. E “ferve”, como se diz, até hoje. Cresceu muito mais que sua infra-estrutura, este o primeiro problema que registramos. Para se ter uma idéia, de acordo com dados do IBGE (ano 2000), a população é de 18.200 habitantes que moram em 5.340 domicílios particulares. Apenas 212 deles, ou 0,04 %, têm rede de esgotos! Como sempre os dejetos humanos vão pro mar.

    Imagine este lugar em feriados e nas férias quando centenas de hotéis, pousadas, e condomínios ficam abarrotados de turistas. Preciso dizer o que acontece?

    Passeando por aqui pude ainda ver que a capa vegetal perde espaço para o cimento. Não há prédios, felizmente o plano diretor não permite e apenas isto já merece um elogio, em compensação há casas nas encostas e no topo de quase todos os morros. Mas a beleza das praias e enseadas resiste apesar de tudo. E a cor da água também é especial, oscilando entre o verde e o azul escuro. O centro da cidade é muito charmoso, com lojas de grife, ruas estreitas calçadas com pedras, e restaurantes e bares de todo tipo. E ainda existe gente que vive apenas da pesca, poucos, em razão, provavelmente, da “ressurgência” que ocorre tão perto daqui.

    Quando eram três horas da tarde o vento de sudoeste aumentou. O céu, antes azul, deu lugar ao cinza claro. Minutos depois escureceu ainda mais. Lá em cima tudo ficou negro. E veio a chuva e muito frio. O mar de ressaca subiu até quase invadir as ruas. Ondas fortes quebravam na praia da Armação onde fica o centrinho. A frente fria parece bem mais forte do que foi anunciada. Não pudemos nem mesmo entrevistar alguns antigos moradores para saber como eles vêm a transformação da pacata cidadezinha em que nasceram. Tivemos que voltar ao conforto do Mar Sem Fim onde estamos até agora, onze horas da noite.

    Nosso plano era navegar amanhã para Macaé, 20 milhas ao norte, mas se continuar este vento não sei se vale a pena. Aqui ao menos estamos bem abrigados, e ainda não entrevistamos os moradores como pretendíamos. É fundamental saber o que eles pensam a respeito de sua cidade. Quanto aos turistas não temos dúvida: adoram o agito.

    Sábado, 13- 05- 2006.

    Apesar de ontem o tempo estar arruinado, hoje amanheceu um dia cheio de azul no céu. Mas fazia frio. Descemos em terra para procurar alguns pescadores e conversar. E não demorou nada encontrá-los. Ao lado de onde estamos há uma colônia de pesca, e na praia havia um grupo conversando próximo a alguns barcos. Pelo jeitão logo vimos que era quem procurávamos. Nossa repórter, Paulina Chamorro, em poucos minutos estava íntima e no maior bate- papo com um deles. Seu nome era Tinho. Um cara forte, de seus 40 e poucos anos.

    Como vai a pesca hoje em dia? , perguntou. Simpático e muito expansivo, Tinho deitou falação: não se pesca quase mais nada. Não há mais garoupas nem badejos. A lagosta desapareceu, está cada vez mais difícil viver da profissão. Mal dá pra pagar os custos.

    E quanto ao turismo, não movimenta a economia o bastante? Que turismo que nada, desancou.

    Apesar de termos visto vários argentinos, uns poucos ônibus de turistas, e alguns chilenos passeando, parece que esta atividade não tem sido forte o suficiente para gerar renda e quem sabe criar novos postos de trabalho para a população, ao menos fora da temporada como agora. Tinho contou que a maioria dos pescadores vendeu suas casas em frente ao mar e se afastou, morando cada vez mais longe de onde tira seu sustento. Segundo ele não conseguiram outra fonte de renda. Continuam a depender dos humores do mar.

    Ficamos ali proseando uma boa meia- hora. Depois quisemos ouvir algum morador mais velho que tivesse cruzado com Brigitte Bardot. Por acaso ele conhecia algum? Nosso amigo apontou uma peixaria ali ao lado e recomendou que fossemos até lá.

    Encontramos seu Manoel Lopes, quase octogenário, sentado num banquinho lá dentro, com o olhar perdido em direção ao mar, enquanto o dono cuidava de colocar gelo nos peixes do balcão. Sim, ele viu diversas vezes a atriz francesa, “que se encantou com uma nativa, Dalva, baixinha, que a levava para cima e para baixo”. Bardot era muito bonita, “com um cabelo loiro que parecia da cor do ouro”. Seu Manoel também conheceu Juscelino Kubitschek, que de tanto freqüentar o local acabou recebendo uma homenagem. Numa das ruas de Búzios há uma estátua do ex- presidente sentado numa cadeira com o chapéu na mão. Manoel Lopes diz ter pescado camarão com JK, “que era muito simpático e simples, gente boa”. Em seguida ele confirmou o que havia dito o pescador Tinho, reclamando muito da prefeitura que, ao invés de prestigiar os buzianos, traz ônibus de fora cheio de trabalhadores para ocupar os empregos abertos pelo turismo. “Não está certo isto, vocês não acham? ”

    É, seu Manoel, não é fácil, não. Já vimos este filme em quase todos os estados do Nordeste.

    Com as entrevistas encerrávamos nossa visita a Búzios. Faltava pagar a conta da estadia do Mar Sem Fim no Iate Clube e tocar para Macaé.

    Enquanto Paulina e o cinegrafista Cardozo embarcavam no veleiro, lá fui eu, no escritório, dar conta da dolorosa. Mas… surpresa! O Comodoro foi gentil. “Me mandem uma cópia do programa e boa viagem”. Legal, nos livramos ao menos de uma.

    Embarquei e seguimos viagem. Antes de rumar para Macaé dei uma volta de barco por todo o cabo de Búzios, para podermos gravar sua ocupação da perspectiva do mar. Só assim as pessoas se dão conta do estrago cênico de casas nas encostas e em cima dos morros, da falta da vegetação causada pela ocupação desordenada, ou da monotonia dos condomínios com suas casas normalmente sem charme ou graça, idênticas umas às outras, tal qual um imenso eucaliptal…

    Depois colocamos 030 graus na bússola, levantamos a mezena (vela pequena de ré), abrimos a genoa (vela grande de proa), e fizemos uma deliciosa velejada empurrados pelo sudoeste, deslizando pelas ondas a mais de oito nós. Chegamos em Macaé no final do dia.

    Durante o trajeto meu amigo Alonso se divertiu no leme com a força das vagas. Cardozo dormia na sala e Paulina na cabine. Eu matei a saudade de uma boa navegada, e me dividi entre leituras no cockpit, fotos da tripulação, e a preparação do almoço. Queria que tudo estivesse pronto tão logo jogássemos a âncora em Macaé. E deu certo. Bastou aquele peso tocar o fundo de lama, e servi uma bela carne assada, guarnecida com arroz e batatas gratinadas. Para acompanhar, um bom vinho tinto. Estava bom pra dedéu. Comemos e fomos dormir.

    Amanhã temos muito trabalho. Vamos de carro até a foz do Paraíba do Sul, cerca de cem quilômetros para o norte, quase na divisa com o Espírito Santo.

    Domingo, 14 de Maio de 2006.

    Logo cedo iniciamos nossa viagem. No caminho paramos no município Farol de São Tomé, na altura do cabo de mesmo nome, ponto mais que notável da costa brasileira.

    É exatamente aqui que muda o contorno da costa do Brasil. Do Rio Grande do Norte até este ponto ela desce acompanhando a linha norte- sul, mas na altura do Cabo de São Tomé acontece a mudança, e ela passa a correr no sentido leste- oeste.

    Já passei por aqui navegando um monte de vezes, e sempre fiquei curioso em saber como era a cidade e suas praias. Hoje eu iria descobrir.

    A cidade em si não tem nada demais. Não é feia nem bonita. Mas simples. O Farol fica há uns 200 metros da praia, e também não é grande coisa. Finalmente a praia, enorme, super comprida, com ondas fortes estourando, e águas de cor marron. Este tom vem do fato da região ser de pouca profundidade, e sempre assolada por ventos fortes. Isto faz com que a agitação revolva o fundo do mar gerando este colorido pouco comum. O curioso é que os barcos de pesca “estacionam” na praia. Isto mesmo. Como não há nenhum abrigo e a frota é grande, todo dia os pescadores têm o trabalho de recolherem os barcos com tratores e sem carretas. Eles arrastam os cascos por cima da areia mesmo. Este é o único modo de ficaram a salvo. Imagino o trabalho insano, diário, ao terem de puxar dezenas de barcos, alguns com 40 ou 50 pés, com correntes atadas a tratores. Fora o custo da pescaria que acaba aumentando muito pelo trabalho extra. Gostaria de poder ficar aqui alguns dias para gravarmos esta faina, mas, como sempre, estamos com pressa. Pudemos gravar e fotografar todos os barcos na praia, para ao menos dar uma idéia àqueles que nos acompanham desta solução inusitada. E seguimos viagem.

    Às três da tarde chegamos no município de Atafona, onde fica a foz do Paraíba do Sul, uma beleza de lugar. Pouco adiante está a fronteira com o Espírito Santo. Este rio nasce em São Paulo, é um dos afluentes do Paraíbuna. Ele cruza o sudoeste de Minas Gerais e entra pelo Rio de Janeiro. Na região metropolitana carioca, abastece dez milhões de pessoas. Ao longo de seus 1.150 quilômetros recebe UM Bilhão de litros de esgoto doméstico (fonte: SEIVAP, Comitê de Integração do Paraíba do Sul) todos os dias, por causa da falta de saneamento básico das cidades ribeirinhas. Do total de sua mata ciliar restam apenas onze por cento. O rio, claro, está assoreado. Suas águas já não trazem sedimentos e provocam erosão nas praias. Ela é tão forte que destruiu muitas casas de veraneio que haviam sido construídas próximas demais do mar. É isto aí, negão. A história se repete de novo, insistimos em não aprender com os erros já cometidos…Mas o lugar é de uma beleza paradisíaca, isto não tenho dúvidas.

    Retornamos já de noite para Macaé. Amanhã vamos entrevistar o secretário municipal Alexandre Gurgel, e vamos checar se os royalties do petróleo estão sendo bem empregados por aqui.

    Segunda- feira, 15- 05- 2006.

    Macaé é uma cidade sem graça. Suas praias também deixam a desejar. De qualquer modo não foi por este motivo, beleza natural, que quisemos conhecê-la. Viemos para ver como são aplicados os royalties. Para quem não sabe: a Petrobrás paga este tipo de imposto desde 1997, como uma medida compensatória da atividade de extração. A Bacia de Campos, de onde a companhia extrai a maior parte do petróleo no Brasil fica nesta região. Em 2006 serão 350 milhões de reais para Macaé, o que representa mais ou menos metade da arrecadação do município. O volume de dinheiro é regulado pela ANP (Agência Nacional de Petróleo), que audita e faz os cálculos para cada região do país.

    Macaé tem 124 mil habitantes, distribuídos em 38 mil domicílios particulares. Destes, 66,5% contam com esgotos tratados, e 94% têm coleta de lixo. É quase um recorde. Até agora só Salvador tem índices mais elevados (68%), e a cidade é uma capital, não um município.

    Para você saber, Natal, no Rio Grande do Norte, tem um milhão de habitantes mas conta com apenas 20% de saneamento em suas residências. A grande São Luis, no Maranhão, com os mesmos um milhão de habitantes, divididos em 246 mil domicílios, tem só 37% deles com este benefício…

    Aqui entrevistamos o secretário Alexandre Gurgel, que nos explicou que dentro de dois anos, antes do fim do mandato do prefeito atual, a cidade terá cem por cento de esgoto tratado. Bravos! Ao menos um dos municípios da costa não estará mais usando o mar como local de despejo. Só isto já valeu a viagem. Mas não é só. Os royalties fizeram com que nenhuma criança em idade escolar esteja hoje sem estudar. E o Hospital Municipal é um dos orgulhos do secretário e dos macaenses em geral. É um hospital modelo, onde os remédios são enviados para os quartos dos pacientes através de uma linha pneumática, entre outras melhorias. Macaé recebeu um prêmio da ONU pela educação proporcionada aos habitantes, e hoje é o terceiro município brasileiro em qualidade de vida. E tudo isto graças ao petróleo.

    Não há, então, nenhum problema? “Claro que sim”, diz o secretário, “milagre não existe”. Em 20 anos dobrou a população, especialmente pela migração, justamente por causa desta melhor qualidade de vida. Com o crescimento veio o crime, o tráfico de drogas, e até favelas. Ainda assim Macaé se destaca no cenário nacional.

    E a pesca? Vimos muitos barcos pesqueiros. “Sim”, diz Alexandre Gurgel, “esta atividade continua a ser importante, empregando cerca de 15 mil pessoas, em uma frota de cerca de 600 embarcações. Nossa produção é de 700 toneladas por ano, e representamos algo como 15% de todo o pescado do Rio de Janeiro”.

    Missão cumprida. Vimos o que uma das riquezas do mar pode gerar para as cidades atingidas. Hora de ir embora. Felizmente hoje temos uma janela de tempo, o vento está fraco, e oscila entre leste e sul. Saímos da casa do secretário, onde aconteceu a entrevista, e corremos para o porto onde estava o Mar Sem Fim. Embarcamos sem perda de tempo e rumamos para Cabo Frio, nossa próxima parada.

    Aproveitei para descansar. Fui para o conforto da cabine de popa e dormi profundamente. Acordei horas mais tarde, com o balanço do mar bem mais forte que no início de nossa navegação. Saí lá fora e me espantei com a violência das ondas e a negritude do horizonte. Nuvens pretas, carregadas, se aproximavam perigosamente. Mais uma frente estava entrando. Felizmente estávamos na altura de Búzios, onde arribamos para nos abrigar esta noite. Enfrentar as forças da Natureza só em último caso.

    Desviamos nossa rota e, em meia- hora, estávamos de novo na baía da praia dos Ossos, na mesma poita do Iate Clube onde havíamos ficado. Eram sete da noite. Pelo telefone fomos informados da guerra civil em São Paulo decretada pelo PCC, porque um de seus líderes, o conhecido Marcola, havia sido transferido para uma prisão de segurança máxima. É muito triste se dar conta que uma cidade como São Paulo, a maior do Brasil, se transforma em campo de guerra por tão pouco. É mais uma prova da falência do Estado. Nossa TV não pega onde estamos, e todos da tripulação estavam querendo mais informações. Descemos em terra para ver o noticiário das TVs.

    Que barbaridade. Ônibus em chamas, escolas e faculdades fechadas, clima de Bagdá nas ruas. Marcola colocou São Paulo de joelhos. Quase cem mortes. É triste, mas esperado. Legislação anacrônica, morosidade da Justiça, advogados inescrupulosos entrando e saindo toda hora dos presídios sem serem revistados, levando e trazendo mensagens à seus clientes, deputados que não trabalham, engavetando projetos de lei, dá nisto. Que sejamos mais felizes nas próximas eleições.

    Terça- feira, 16- 05- 2006.

    Tão logo nasceu o dia iniciamos nossa navegação para Cabo Frio. Apenas 14 milhas nos separam. Em pouco mais de duas horas estaremos lá.

    Acordei com o barulho do motor e fui para fora sentir a brisa e olhar a paisagem. Diversas ilhas estão em nosso caminho. Navegamos próximos o suficiente da costa para podermos ver nitidamente seus contornos. Estávamos curtindo aquela beleza, em pleno devaneio, quando subitamente senti um tranco vindo por baixo do casco. O motor do barco parou em seguida. Gelei. O que será? Travou o motor? Alonso largou o leme e foi verificar a casa de máquinas, enquanto eu, depois de pensar um pouco, fui olhar a popa imaginando que talvez tivéssemos enroscado nossa hélice em alguma rede. Na primeira visada parecia não haver nada. Voltei ao cockpit e esperei o Alonso sair lá de dentro. Nada de anormal na casa de máquinas, disse ele. Então tornei a olhar pela bandeja de popa. Ajoelhei no tablado, me equilibrei, e estiquei o pescoço até quase dentro dágua. Agora sim dava pra ver. Pegamos um cabo grosso, da espessura de meu braço ou ainda maior. Pelas barbas do profeta! Vou ter que mergulhar. Ai de mim. Cabo Frio tem este nome justamente pela temperatura de suas águas, fruto da “ressurgência”. Meti o pé no mar, a guisa de termômetro, devagar, com medo da sensação. Mas não, estava até quente. Então lembrei do que disse o professor Jean Valentin que entrevistamos no Rio. Quando venta o sudoeste as águas da região tornam a ser quentes. Elas ficam frias somente quando sopra o nordeste. Ainda bem. Coloquei a máscara, mergulhei e fui verificar nosso eixo. Caramba, o cabo era super- espesso, daqueles que navios usam para atracar no cais. Se pudesse matava o desgraçado que o deixou à deriva.

    Com uma faca tornei a mergulhar e, lá embaixo, me pus a cortá-lo de modo que pudesse liberar o eixo. Mas este seria um trabalho duro e cansativo. Custou uma hora e meia entre mergulhos seguidos de descanso. Finalmente, com meu pulmão quase estourando, terminei. Em seguida prometi a mim mesmo que este ano é o último em que fumo. No passado eu tinha um fôlego excepcional, ficava quase dois minutos sem respirar. Era a época em que estudava clarineta seis, sete horas por dia. Além de domar o instrumento, depois de dez anos de estudo, adquiri um fôlego impressionante. Hoje, aos 50, não sou nem uma sombra do que fui. Mas vou parar. É questão de tempo.

    Retomamos a viagem trazendo no convés o peso extra do cabo extraviado (vide fotos) e ao meio- dia, mais ou menos, atracamos no Iate Clube.

    Não perdemos tempo. Descemos rapidinho para gravar cenas da cidade. Antes, ficamos felizes: o pessoal de serviço, tanto os marinheiros como os funcionários da bomba de diesel, já nos conhecia da TV. Fomos efusivamente cumprimentados e recebemos parabéns pelo programa. Todos receberam bonés e adesivos do Mar Sem Fim.

    Ganhamos a rua em seguida. Minutos depois um taxi nos levava para rodar de um lado ao outro.

    Cabo Frio é mais uma cidade balneário da costa do Rio de Janeiro, na Região dos Lagos. No passado a economia era puxada pela extração de sal, especialmente da lagoa de Araruama. Era a época em que o Rio de Janeiro era a Capital Federal, e o sal era escoado para os Estados do Sul, e do Centro do país. Nos anos 60, do século passado, usinas de beneficiamento foram instaladas o que turbinou ainda mais a economia. Mas não durou muito a fartura. Aos poucos as salinas de Cabo Frio, de métodos antiquados, foram perdendo importância para o sal extraído do Nordeste. A competição foi dramática. Empresas fecharam e o desemprego explodiu. Hoje quase não existem mais nenhuma em operação. As antigas deram lugar a loteamentos, condomínios. Aos poucos o turismo passou a ser o motor da economia. Como em quase todos os municípios costeiros, o saneamento anda em baixa. Cabo Frio tem uma população de 127 mil habitantes que moram em 36 mil domicílios. Destes, apenas 27% tem seus esgotos tratados, enquanto 93% contam com coleta de lixo. Mais uma vez o mar daqui não tem sido bem usado por parte considerável dos habitantes e turistas.

    Nosso giro pela cidade nos levou a alguns sítios históricos, como a Capela Nossa Senhora da Guia, do século 18, que fica no topo do morro do mesmo nome, e que tem uma linda vista panorâmica. De um lado fica o mar e algumas praias, sempre com areias muito brancas, e dunas ao fundo. Do outro a cidade propriamente, e parte da imensa lagoa de Araruama com seus 35 quilômetros de comprimento por 20 de largura, sempre se estendendo paralelamente à costa. Na descida gravamos ainda o belo Convento Nossa Senhora dos Anjos, na base do morro, cuja construção terminou em 1696.

    Durante nosso passeio cruzamos algumas pontes que atravessam o canal Itajuru, o mesmo por onde entramos com o veleiro, que liga a lagoa de Araruama ao mar. A maré estava baixa deixando aparecer o lodo, alguma sujeira, e um mangue já bastante exaurido pela urbanização. Enquanto isto o sol alto no céu esquentava a atmosfera. A combinação de fatores, como não poderia deixar de ser, produzia um cheiro “carregado”, fétido, de dar pena dos moradores das redondezas. É lamentável constatar, mais uma vez, que os serviços públicos no Brasil são uma excessão.

    Voltamos ao veleiro no final da tarde e não perdemos tempo: Soltamos as amarras e navegamos até o Boqueirão, poucas milhas ao sul, onde pretendemos dormir.

    Amanhã cedo vamos descer em Arraial do Cabo para entrevistar alguns especialistas do Instituto de Estudos do Mar, Almirante Paulo Moreira, da Marinha do Brasil.

    Quarta-feira, 17- 05- 2006.

    Nós queríamos aprender mais sobre a inclusão de animais exóticos via água de lastro dos navios. Nada melhor que conversar com os pesquisadores deste Instituto, que há anos se dedicam a esta questão. O primeiro bate-papo foi com o oceanógrafo Rogério Candella, que estuda a “ressurgência”, e desenvolve estudos para a Petrobrás sobre recifes artificiais usando partes de antigas plataformas.

    Rogério contou que aqui existem diversas espécies exóticas trazidas por plataformas.

    Não são apenas os navios que contribuem para a entrada destes animais e vegetais em nosso ecossistema, mas seguramente eles são os principais meios para sua proliferação. Segundo Rogério o mexilhão que hoje comemos veio para o Brasil de carona, desde a África, provavelmente grudado nos cascos dos navios negreiros.

    Em seguida conversamos um pouco mais sobre o fenômeno da “ressurgência”, que em nossa costa acontece mais fortemente em Cabo Frio, mas também, e com menor intensidade, no Cabo de São Tomé e até mesmo em Vitória- ES.

    Sobre animais exóticos Rogério explicou que a Marinha do Brasil desenvolve estudos através do Projeto Água de Lastro. E sobre a “ressurgência” contou que Cabo Frio ainda tem a vantagem de ser um dos locais cuja costa registra as maiores profundidades próximas de terra, de todo o litoral brasileiro. “Há paredões onde a profundidade chega a 50 metros ou mais”, informa, e isto, mais o vento nordeste, contribui para a afloração da água fria tão típica, criando condições excepcionais para o fenômeno.

    Pedimos a ele que conseguisse uma autorização para que nossa equipe possa subir o morro da ilha de Cabo Frio, até o seu topo, de modo a gravarmos cenas dos enormes costões rochosos que ficam do outro lado. Como sempre há certa burocracia, o responsável estava ocupado, mas equanto fazíamos outras entrevistas ele iria tentar.

    Em seguida fomos conversar com a bióloga e pesquisadora Karen Tereza Sampaio Larsen, envolvida com a questão da água de lastro dos navios que procuram nossos portos.

    E foi uma conversa altamente esclarecedora. Faz tempo que acompanhamos o problema e em nossa viagem, a cada parada, sempre flagramos navios despejando tranquilamente água de lastro captada no estrangeiro. Queríamos saber qual a legislação que previne esta contaminação tão indesejada, prejudicial, e cara ( De acordo com a Convenção sobre Diversidade Biológica, da ONU, só nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, África do Sul e Brasil, o prejuízo é de 300 bilhões de dólares por ano).

    Em tempo: os grande navios quase sempre cruzam os mares com água de lastro em seus porões. Ela é captada no mesmo porto de embarque das mercadorias a serem transportadas, e serve para dar estabilidade aos navios. Karen nos explicou que não há uma legislação ainda. O que existe é uma resolução da IMO, organização marítima internacional, que pede aos comandantes que preencham uma ficha indicando onde pegaram água de lastro, e em qual porto pretendem liberá-la. A resolução sugere que sempre que possível estes navios devem fazer a troca em pleno oceano (organismos costeiros não sobrevivem no meio do mar), antes de chegar aos portos de destino. Acontece que nem sempre isto é possível. Para trocar a água de lastro de enormes porões, e sem riscos, os navios devem estar em águas calmas, sem ondas ou vento, de modo a não precisarem deste peso extra para permanecerem estáveis. Como raramente isto é possível o local mais frequente do despejo passa ser o porto de destino mais próximo.

    Este problema sempre foi crítico mas acentuou-se depois do fim da Segunda Guerra Mundial com navios maiores e o incremento do comércio. Apesar de vivermos numa época de tecnologia extremamente desenvolvida, hoje três quartos do intercâmbio entre as nações é feito por navios mercantes. Em nosso caso 95% das mercadorias exportadas ou importadas dependem do mar para saírem ou chegarem ao país.

    Para começar Karen nos fala de alguns problemas já dectetados no Brasil e exterior. No Mar Negro um tipo de plâncton exótico acabou com a pesca. Os Grandes Lagos, nos Estados Unidos, foram invadidos pelo mexilhão zebra, um tipo estranho àquele ecossisema, introduzido por água de lastro. Entre nós prolifera, sem concorrentes, o “mexilhão dourado”(originário da China), um tipo exótico introduzido a partir da Argentina, via o porto do Rio Grande, e que hoje infesta até as águas do Pantanal. Como os outros ele não tem predadores por isto acaba tomando o lugar da fauna nativa depois de fazer uso de seu alimento. Mas não é só. No porto de Sepetiba, RJ, “há inúmeros invasores”. Na Baía de Todos os Santos, um caranguejo exótico já toma o lugar dos nativos. Em Porto Seguro e Arraial do Cabo há o Coral Mole, que é outro invasor, e assim por diante. Estas espécies são consideradas, hoje, a segunda maior ameaça à biodiversidade no mundo, perdendo apenas para a destruição de hábitats. Finalmente, por aqui, o problema não está fora das maiores preocupações de pesquisadores e estudiosos. Estimativas das autoridades do Meio-Ambiente indicam que são quase 545 as espécies invasoras no Brasil. Por isto o CNPQ acaba de liberar recursos para que seja feito um estudo de modo a controlar estas pragas, já que é impossível se livrar totalmente delas.

    A questão aqui é regulamentada pelo DPC- Diretoria de Portos e Costas, órgão vinculado à Marinha do Brasil, que a partir de 15 de outubro de 2005 editou o NORMAM-20, estabelecendo que “as embarcações deverão realizar a troca de água de lastro a pelo menos 200 milhas náuticas de terra mais próxima, com pelo menos 200 metros de profundidade” .Como nem sempre isto é possível, pelos motivos já explicados, “deverão preencher (os comandantes dos navios), o formulário para informações relativas à água utilizada como lastro”. Estes formulários são, em seguida, enviados justamente para cá, o Instituto Almirante Paulo Moreira, onde são analisados. Ao dectetar qualquer ameça mais grave, os pesquisadores entram em contato com o porto onde o navio vai atracar a fim de dar instruções, e por vezes impedir seu deslastreamento.

    Segundo Karen não existe uma regra geral no tratamento da catástrofe. Há países que jogam cloro nos porões antes da troca de água, mas este é um procedimento por si prejudicial ao meio-ambiente. Outros estudam o seu aquecimento, ou a aplicação de raios ultra-som.

    O fato é que a introdução de animais exóticos não pode ser minimizada. Algo como três mil espécies de animais e vegetais são transportadas todos os dias. E estima-se que 10 bilhões de litros de água de lastro sejam transferidas de local todos os anos.

    Foram duas entrevistas bastante ricas. Eram 11 horas da manhã quando terminamos. Retornamos ao Mar Sem Fim, fundeado em frente à praia do Arrail do Cabo, e rumamos para o boqueirão, entre a Ilha Cabo Frio e o continente, para podermos fotografar seus costões. No caminho flagramos barcos de pesca em plena atividade, pescando peixes pequenos que mais tarde seriam usados como isca para atuns e outras espécies maiores. Estavam em plena faina quando passamos, e nem se incomodaram por termos nos aproximado tanto, parando a cerca de 5 metros deles, a fim de registrar em vídeo seu trabalho.

    Em seguida fundeamos em frente à praia da ilha Cabo Frio, virada para o continente, à espera da autorização que custava para chegar. Depois de muitas ligações conseguimos contato com o pessoal da Marinha. Eles nos autorizaram a subir “apenas até metade do morro”, não mais. Com a breca ! Eu só queria filmar e tirar umas fotos lá de cima. Alguém pode me explicar a diferença entre subir meio morro ou galgá-lo por inteiro?

    Não consigo aceitar estes regulamentos. Eles às vezes desafiam a lógica. Desanimado, no mesmo instante resolvi suspender. Levantamos o Grande ( mesmo nome dado à vela Mestra, a principal), aproamos para o Rio de Janeiro e iniciamos a navegação. Tínhamos 80 milhas pela frente numa deliciosa travessia.

    Não havíamos feito nem 10 milhas quando um grupo de golfinhos se aproximou de nossa proa. Pouco antes ouvi uma barulheira lá fora, Alonso esticou o corpo para dentro da cabine para dar o alerta: “Golfinhos, venham ver”!

    Algumas pessoas acham que estes mamíferos gostam de se divertir com as ondas levantadas pela proa dos barcos, mas segundo pesquisadores do Projeto Golfinho Rotador, de Fernando de Noronha, não é bem assim. Na verdade quando há uma movimentação do grupo e algum barco está na área, apenas uns pares deles vêm à frente destes barcos numa manobra divisionista, inteligente e avançada, executada para despistar. Agindo assim os “líderes do grupo” protegem o contingente que se desloca pelas redondezas, mas em outra direção.

    Pouco depois caía a noite. As primeiras estrelas surgiam no céu.

    Aproveito este momento especial da navegada para falar da “ressurgência”, fenômeno típico, notável, que nos trouxe até aqui.

    Em nossa passagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro tivemos uma bela aula particular sobre o mar, e este tema em especial, ministrada pelo professor francês Jean Louis Valentim, conforme informei no início deste diário. E de tão boas, suas informações merecem ser divididas.

    Jean Louis veio ao Brasil para trabalhar justamente em Cabo Frio quando o almirante Paulo de Castro Moreira da Silva, pioneiro da oceanografia, idealizou e implantou o Projeto Cabo Frio (anos 60) com esta finalidade: estudar a ressurgência.

    Ele começou sua aula explicando porquê no Brasil a biomassa pesqueira é tão pequena. Esta característica não é só nossa, mas de todos os mares tropicais “que apesar da intensa luminosidade têm suas águas quentes de superfície muito pobres em fitoplâncton. Faltam nelas sais minerais- abundantes nas camadas profundas”.

    Para entender bem a questão é preciso saber qual a função de cada uma das peças deste enorme quebra-cabeça: o ecossistema marinho.

    Talvez o passo número um seja ter em mente que na superfície da água do mar vivem os organismos do plâncton, que flutuam ao sabor das correntes e são formados por algas microscópicas, ínfimos crustáceos, medusas e larvas de peixes. Os vegetais desta massa de organismos vivos, invisíveis a olho nu, são conhecidos pelos cientistas como fitoplâncton (existem milhares deles numa gota d’água). Os animais, como zooplâncton. Estes seres dão início a cadeia alimentar dos oceanos, entre muitas outras funções importantes. E nos mares tropicias, frisou Valentin, a quantidade de fitoplâncton é pequena, só isto já justifica a pouca densidade de biomassa pesqueira.

    Em geral os mares contribuem pouco- apenas 2%- com as necessidades de proteínas do homem. Para Valentin isto ocorre porque “o homem continua na condição de caçador e predador dos recursos vivos marinhos”. Segundo ele “o cultivo de organismos marinhos ainda é incipiente, e a riqueza biológica do mar é distribuída de maneira muito heterogênea: 90% do pescado concentram-se nas faixas costeiras, situadas sobre a plataforma continental, que correspondem a menos de 10% da superfície dos oceanos. A metade desta produção provêm das regiões onde ocorre o fenômeno da “ressurgência”. E esta explicação também ajuda a justificar a preocupação do Projeto Mar Sem Fim com a ocupação desordenada e predatória do litoral brasileiro, motivo principal desta série de TV.

    Agora sim, conhecidos estes detalhes, vamos voltar ao professor Valentin e suas explicações sobre como acontece a “ressurgência”.

    Segundo ele, “este foi o nome dado pelos oceanógrafos para designar um movimento ascendente das águas marinhas”, e para compreendê-lo em toda sua plenitude é importante ter algumas noções sobre oceanografia física.

    Com a palavra o professor: “O vento que sopra na superfície do mar provoca além de ondas, uma corrente de deriva de águas superficiais. A direção desta corrente sofre a influência da chamada força Coriolis, causada pela rotação da Terra. O movimento de conjunto desta massa deslocada apresenta um ângulo de 90 graus em relação à direção do vento, para a direita no hemisfério norte, e para a esquerda no hemisfério sul. Assim, prossegue ele, um vento de direção norte norte- sul soprando paralelamente à costa brasileira provocará um deslocamento de águas superficiais para o largo. Esta corrente de deriva será compensada por uma corrente de água profunda em direção à costa”. Ou seja, “o volume de água empurrado para fora da costa pelo vento é substituído por um volume semelhante carregado do fundo para a superfície. O cálculo deste volume transportado representa o índice de ressurgência, que estima a amplitude do fenômeno”.

    Tão simples como isto. Em nosso caso, Cabo Frio, a amplitude é de pequenas proporções. As maiores ocorrem no oceano Pacífico, na costa do Peru e da Califórnia, e no Atlântico nas costas da África do Norte, do Marrocos ao Senegal, e no Atlântico Sul, na região do Cabo; no Índico ele está presente na costa da Somália.

    O professor explica que também existem casos de ressurgência no meio dos oceanos, “causadas pela divergência de corrente de deriva”.

    E qual a importância disto tudo? Bem, segundo Jean Luis Valentin, “entre todos os fenômenos oceânicos, o de maior impacto sobre a situação socioeconômica do homem é justamente a subida, para a superfície, de uma massa de águas profundas. Elas não se caracterizam apenas pelas baixas temperaturas, mas também- e sobretudo- por seu elevado teor em sais minerais oriundos da remineralização dos detritos orgânicos pelas bactérias”.

    Ele arremata ensinando: “No mar, assim como na terra, a cadeia alimentar inicia-se pelos vegetais que sintetizam sua matéria orgância a partir de energia solar e assimilação de nutrientes. Está neste caso o fitoplâncton. Os animais herbívoros, que se alimentam destas algas representam o segundo nível da cadeia. Nos níveis superiores eles são predados por peixes numa sucessão que pode chegar ao homem”. Em resumo, “com o afloramento das águas profundas, ricas em nutrientes, são preenchidas todas as condições para que haja a produção biológica que se traduz por uma maior biomassa pesqueira”. Não é por outro motivo que o pequeno Peru está entre os três maiores países produtores de pescado do mundo.

    E é justmente por este motivo que no verão (época do vento nordeste) os turistas que vêm para esta região se espantam, por vezes, com a temperatura da água, que ao invés dos tradicionais 24°C, varia entre 15° E 18°C.

    Finalmente, Jean Valentin explica que no Brasil a ressurgência é mais forte em Cabo Frio (mas ocorre com menor intensidade do Rio de Janeiro até Vitória, ES), em função da topografia (mudança da linha da costa que vinha no sentido norte-sul para leste-oeste), e também pela profundidade da plataforma na região.

    Perguntamos como anda hoje a produção de pescado, turbinada pela ressurgência. Um tanto preocupado, o professor explica: “a cadeia alimentar nascida do enriquecimento das águas em nutrientes leva a uma intensa produção de sardinhas (sardinella brasiliensis), que vem declinando de forma significativa, sem sinais de recuperação, não se sabe se por causa da pesca excessiva, da poluição, do enfraquecimento do fenômeno, ou da combinação de todos estes fatores”.

    Eis aí, mais uma vez, a ação do homem prejudicando o curso natural.

    Nossa “mão” tem sido tão perniciosa que não se contenta em só ameaçar ecossistemas, ou introduzir animais exóticos. Agora impede ou enfraquece fenômenos físicos.

    E você, o que tem feito para contribuir ou preservar? Pense na importância dos oceanos e nas aflições por que ele passa, e faça sua parte. Não jogue nada no mar. Modifique seus hábitos, se for possível, e denuncie a destruição de áreas de preservação, ou ajude a difundir estas informações.

    Só conhecendo e respeitando os brasileiros terão o domínio de seu imenso mar territorial.

    Chegamos à Marina da Glória, na baía da Guanabara, às duas da manhã.

    Na próxima etapa tem mais.

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