Baía de São Marcos, e Alcântara, no Maranhão

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    Segunda feira, 16- 05- 2005

    Chegamos de São Paulo às duas horas da tarde, e para esta etapa viemos com tripulação reduzida: eu, Paulina, e o cinegrafista Paulo Cezar Cardozo.

    Nosso objetivo é gravar dois programas. Um deles mostrando a baía de São Marcos, e seu entorno, onde foi fica São Luis, e o outro pretendemos fazer em Alcântara, que fica a dez milhas de distância.

    Mas, como sempre, antes de iniciarmos uma viagem é preciso abastecer o barco.

    Deixamos nossa bagagem no Mar Sem Fim, ancorado em frente ao Iate Clube, e lá fomos nós para o supermercado. Esta é uma das tarefas mais chatas, repetitiva, demora horas, e dá um trabalhão depois, para levar todos os sacos de comida, caixas e mais caixas de água, refrigerantes, e uma infinidade de outros itens para o barco.

    Desta vez não foi diferente, e tivemos um trabalho ainda maior, porque não há píer no Iate Clube. Quando chegamos de volta, em dois táxis abarrotados de mercadorias, a maré estava baixa (vide fotos), e aqui, no Maranhão, as marés são violentas. O mar sobe e desce de quatro até seis metros, ou mais. Tivemos que desembarcar as compras na praia, e andar com elas uns bons 200 metros, até chegarmos numa extremidade onde a profundidade era suficiente para que nosso imediato, o Alonso, pudesse nos buscar com o bote de borracha.

    Para trazê-las até o bote cada um de nós fez pelo menos três caminhadas, carregando todo aquele peso. Para resumir : quando eram nove e meia da noite estávamos finalmente colocando os últimos itens nos compartimentos adequados, já dentro do barco. Exaustos pela viagem, e a faina do dia, dormimos em seguida.

    Terça feira, 17- 05- 2005.

    Às sete da manhã estávamos de pé. Tomamos um rápido café, e esperamos a visita de jornalistas de O Imparcial, jornal local que queria fazer uma entrevista conosco (vide- Notícias do Projeto-no menu do site) .

    Enquanto esperávamos, e durante a entrevista, pudemos ficar observando as manobras de um dos tipos de barco artesanal, mais bonitos da costa brasileira, o Cúter, também conhecido como canoa costeira do Maranhão (veja fotos).

    Estes barcos, cuja técnica de construção vem sendo passada de pai para filho, há séculos, ainda estão em pleno uso nesta região. Eles usam duas velas, a de proa, menor, conhecida como bujarrona, ou vela de estai, e a maior, carangueja, ou “grande”. Ambas são tingidas com corantes, em tons fortes, nas cores azul, vermelha, amarela, etc.

    Os cascos também são pintados em várias tonalidades, o que dá ao conjunto um aspecto peculiar, de muito bom gosto. São barcos bastante rústicos, que não utilizam motor ou qualquer outro tipo de instrumento, nem mesmo bússola. No máximo eles têm luzes de navegação para serem usadas de noite.

    Nosso veleiro está ancorado num lugar especial. Parece que o vento faz uma curva bem aqui onde estamos, de modo que, para entrar para a cidade de São Luis, os cúteres são obrigados a bordejar (navegar em ziguezague) na nossa frente. Eles vêm ao longe, na baía, já com a proa em nossa direção, e quando estão bem na frente, começam a virar, ora para a esquerda, ora para a direita, nunca passando a mais que dez metros de nosso barco. Posso garantir que nunca tomei café da manhã acompanhado por um cenário tão deslumbrante.

    E toda esta habilidade náutica, nata, tem filiação, produto de uma somatória de fatos. Veja alguns dos mais importantes:

    – a técnica indígena.

    -a arte da marinharia por parte dos portugueses, a mais avançada potência náutica na época de sua epopéia marítima, que trazia de suas viagens, além de especiarias, segredos e soluções náuticas, que eles aprendiam nos lugares que visitavam, para problemas que também experimentavam.

    – O forte tempero africano.

    -A colonização Holandesa, as tentativas francesas, o encontro freqüente com navios espanhóis e ingleses.

    – a imensa extensão de nossa costa, que vai de 04 graus de latitude Norte, até 32 graus de latitude Sul, passando por todo tipo de clima, regime de ventos, e relevo do litoral.

    Além destes, há o fato histórico de que, nos primeiros 200 anos após a descoberta, o colonizador parou na altura da orla, pouco penetrando para o interior. E durante todo esse período, a comunicação, e o comércio, além das atividades de defesa, como os pedidos de socorro, etc, dependiam apenas de barcos.

    São estes alguns dos fatores que nos fizeram uma nação marítima, e como tal, produzimos uma imensa variedade de modelos de barcos, para todos os usos, e em todo tipo de clima. A diferença principal destes barcos típicos para os outros, que se vê hoje em dia, é que sua construção continua artesanal. E por isto, e por respeitarem antigas técnicas de construção, mantendo até hoje suas características originais, são considerados bens culturais do país, parte significativa de nosso patrimônio artístico.

    Mas entre os 17 estados costeiros brasileiros, o que produz, até hoje, a maior variedade, e possivelmente quantidade de barcos artesanais, é o Maranhão.

    Um dos motivos é que este Estado tem três mil quilômetros de rios navegáveis. O outro, é que seu litoral é o segundo em extensão, com 640 quilômetros de Atlântico, perdendo apenas para o da Bahia. Mas isto só não justifica tanta diversidade, a diferença é a formação da zona costeira daqui, que tem, ao norte, as Reentrâncias Maranhenses, e ao sul, a região de dunas, em Barreirinhas, seguida pelo Delta do rio Parnaíba, fronteira com o Piauí. Todas elas são áreas alagadas, com cidades, vilas, aldeias, e vilarejos, onde as estradas de rodagem são poucas, e ruins, o que faz com que a verdadeira via de comunicação, sejam os barcos, quase como nos primórdios da colonização.

    Não importa qual o motivo: transporte de cargas, de pessoas, ou a pesca, os barcos, aqui, continuam sendo protagonistas principais, como meio de locomoção, e sobrevivência de parte da população.

    Por isto, passear por este litoral, ou apenas ficar fundeado na baía de São Marcos, é por si só, um espetáculo de rara beleza plástica, que merecia ser conhecido por todos os brasileiros.

    Depois da exibição do café da manhã, resolvi alugar uma canoa costeira, para podermos gravar e registrar, “também por dentro”, a arte das pessoas que fazem o show todos os dias. Escolhemos a Flor de Natal, um belíssimo exemplar das canoas costeiras (vide fotos), e com ela navegamos pela baía, passando em frente ao Centro Histórico de São Luis, em seguida por debaixo da ponte José Sarney, através do rio Anil, até o portinho do Camboa, mais adiante, onde elas ficam fundeadas.

    Foi um espetáculo. Entrevistamos os três tripulantes. Mais adiante tivemos que fundear, num momento de forte chuva, quando ficamos no porão do barco, conversando. Em seguida seguimos o caminho, dando bordos (fazendo curvas) aqui e ali, até a parada final.

    Ganhamos o dia. No fim da tarde, já escurecendo, voltamos para o Mar Sem Fim.

    Depois do jantar, olhamos pela TV o material gravado, fizemos uma pré-edição, e ficamos maravilhados com a beleza das imagens. Em seguida a tripulação do Mar Sem Fim se retirou para suas camas, enquanto eu, na mesa de navegação, computador aberto, relatava nosso dia.

    Agora já é tarde, são 03h40 da madrugada, está mais do que na hora de dormir. Amanhã, assim que “der maré”, saímos para Alcântara.

    Quarta feira, 18- 05- 2005.

    A maré hoje estava preguiçosa, e só começou a encher por volta de 11 horas da manhã. Tivemos que aguardar, não há como disputar com a Natureza. Mas neste exato momento, nós levantamos o ferro, e zarpamos de nosso abrigo em frente ao Iate Clube de São Luis.

    No trajeto cruzamos com vários cúteres, que velejavam ao largo, pela baía de São Marcos. Uma beleza a forma plástica deles, vista apenas como uma silhueta negra, em forma de sombra, devido aos efeitos da luminosidade.

    Mas apesar da distração que foi observar a forma dos cúteres, o céu carregado, mal encarado, cinzento, deixava claro que dali a pouco ia desabar uma chuvarada daqueles.

    E quando estávamos no meio do canal de acesso à baía de São Marcos, que tínhamos de atravessar para chegar a Alcântara, desabou um aguaceiro forte, que em pouco tempo baixou a visibilidade para poucos metros além da proa.

    Navegar só por instrumentos, no meio de uma baía movimentada e rasa, com a qual você não tem intimidade, não é agradável. Mas não tivemos opção. Tive que baixar a rotação do motor, diminuindo a marcha, à espera que o tempo abrisse. Durante este período, meus olhos estavam grudados no radar, até que clareasse de novo, e pudéssemos ver nosso caminho livre, além do contorno da costa. Alcântara estava à vista quando aconteceu. E foi uma cena belíssima. Do mar já podíamos ver os contornos da igreja dos Carmelitas, do século 18, em cima do morro. Navegamos mais meia milha, e estávamos na foz do igarapé Jerijó, onde fica o “Porto Jacaré” , na verdade uma plataforma de ferro flutuante, a guisa de atracadouro, que dá acesso à cidade.

    O pequeno porto é raso, e bastante movimentado. Muitos barcos grandes, de ferro e de madeira, trazem passageiros, e carga, de São Luis, além de engenheiros, técnicos e militares, da Base de Lançamento da aeronáutica. Resolvemos sair da foz deste igarapé, para fundear numa profundidade mais adequada.

    Antes de terminar a faina, o céu escureceu outra vez, denunciando que a chuva viria na seqüência. Adiamos nossa descida em terra, quando aproveitei para ler um pouco mais sobre a cidade e entorno. Alcântara foi fundada em 1648, e era o lugar preferido da aristocracia e dos latifundiários do Maranhão. Algodão, arroz, e cana- de- açúcar, eram as culturas principais, tocadas pelos escravos. Nesta época, o Maranhão era capital do estado do Grão- Pará, uma espécie de capital do Brasil, umbilicalmente ligada ao centro nervoso , em Lisboa. Sua economia floresceu, sobretudo por causa da guerra de independência americana, que fez com que a Grã- Bretanha tivesse que importar algodão para sua indústria nas possessões portuguesas, ou seja, no Brasil. E foi justamente no Maranhão que o algodão se deu melhor, especialmente nas fazendas da região de Alcântara. A cidade cresceu. Imensos casarões em pedra foram construídos, assim como, igrejas, lógico. Os filhos da aristocracia estudavam na Europa, especialmente Portugal. A cidade importava mão de obra escrava, às carradas. De 1757 até 1777, 25 mil escravos foram trazidos para o Pará e o Maranhão, para trabalharem nas lavouras. Este fato acabou gerando uma frase famosa do historiador Caio Prado Junior, que disse: “O Algodão branco, transformou o Maranhão negro”.

    E assim, com muita riqueza e fausto, a cidade de Alcântara foi sendo construída, até que em 1808 aconteceu a vinda da família real para o Brasil, com suas cortes, fugindo das tropas napoleônicas. Como se sabe, o governo central foi estabelecido no Rio de Janeiro. Começava aí a decadência da primazia da região Norte. A pá de cal veio com as leis abolicionistas, culminando com a definitiva, assinada pela Princesa Isabel, em 1888. Alcântara e seus barões não resistiram à mudança, e a cidade foi abandonada aos escravos, antiga força motriz.

    Hoje esta região é muito pobre- o Maranhão é um dos estados mais miseráveis da União, com um índice de idh (índice que mede o desenvolvimento humano), dos mais baixos do país- e a população sobrevive do turismo interno, do extrativismo, e da pesca artesanal. O outro grande problema, além da pobreza, é que há grandes comunidades quilombolas, que lutam pela regularização dos títulos de posse de suas terras, enquanto a aeronáutica desapropria quase metade do Município, por causa da base de lançamentos de foguetes. Em seguida à desapropriação, veio à transferência das famílias, que há gerações estão na costa, vivendo da pesca, mas que foram forçadas a mudar para agrovilas, no interior. Elas perderam a referência, e a forma de subsistência, gerando ainda mais problemas sociais. Esta é a conseqüência imediata, para parte da população, da Base de Lançamentos da Aeronáutica.

    Com todo este caldo de cultura, desembarcamos na vila depois do fim do forte toró, que terminou quase às cinco da tarde.

    O tempo foi suficiente apenas para uma rápida volta, e para marcarmos algumas entrevistas para amanhã. Mas pude pra ver que a cidade antiga é uma beleza, com casarões imponentes, alguns mais recentes, ainda de pé, e muitos outros, em estado de ruína total. O calçamento das ruas é de pedras pretas e brancas, formando enormes losangos, símbolo da Maçonaria apreciada pelos barões. E a fiação de telefone, e luz elétrica é subterrânea , com a iluminação das ruas vindas de luminárias antigas, pregadas nas fachadas na casas, ou em alguns postes, como os lampiões de antigamente. Aqui e ali, uma imponente igreja, algumas em bom estado de conservação, com altares pintados a ouro, atestando a importância e riqueza da igreja Católica no princípio da colonização portuguesa.

    Mas, saindo do pequeno núcleo histórico, tombado como Patrimônio Histórico Nacional, tudo está cercado por um acelerado processo de favelização, e sinal dos tempos, diversos templos adventistas. A paisagem mesmo assim é linda. A cidade foi erguida em cima de um morro, com ampla visão da baía de São Marcos, tendo São Luis ao fundo. De outro ângulo, dá para ver alguns canais, e algumas ilhas, todas cercadas por mangues, com florestas de porte no interior. Barcos passam de um lado para o outro. No porto, Guarás, com sua impressionante cor vermelha, ciscam no lodo, atrás de comida.

    E quando voltamos para o barco, para o jantar, pudemos ouvir o som do reggae, despejado no ar pelos alto-falantes dos bares ao redor.

    Mesmo por pouco tempo, a visita valeu a pena. Amanhã temos mais.

    E ao chegarmos ao barco, o Alonso havia preparado um picadinho delicioso para a tripulação. Jantamos otimamente, tomamos um bom vinho, e depois assistimos a programas de nossa série na TV Cultura, que tinham acabado de ser editados, alguns ainda não exibidos.

    Fantástico poder almoçar no cockpit, o “terraço no barco”, com linda vista ao redor, e depois assistir capítulos inéditos, que irão ao ar enquanto desenvolvemos mais esta etapa. Nestas horas, mais do que nunca, dou vivas à tecnologia que nos permite assistir DVDs no computador da Semp Toshiba, instalado lá fora, como uma TV comunitária. Teve até pipoca.

    E depois, cama.

    Quinta feira, 19- 05- 2005.

    Hoje passamos o dia na vila de Alcântara. Desembarcamos por volta de nove e meia, e fomos direto para a casa da Batiçá, uma moradora extremamente entusiasmada, fã da festa do Divino, que havia acabado alguns dias atrás. Ela nos explicou como acontece a festa, falou de sua vida dura com uma alegria exemplar, mesmo tendo tido 17 filhos, sendo que dez morreram ainda bebês. Ela reclamou da Base da Aeronáutica, mas não perdeu o bom humor em nenhum momento. Depois continuamos nosso passeio pela vila. E que vila! Passamos o dia todo gravando, e passeando. Uma vez mais, constatamos a falta de infra-estrutura para turistas. Os monumentos não têm placas explicativas, os guias locais só falam o português, não há passeios programados, não existem hotéis, apenas rústicas pousadas, nem restaurantes, só alguns barzinhos. Mais um desperdício, ao não dotar um local tão especial, tão bonito, de estrutura turística.

    A praça principal, da Matriz, é cercada por um casario esplêndido, bem conservado, tendo no meio um imenso gramado, com um verde muito vivo, no centro do qual estão as ruínas da igreja principal, dedicada a São Mateus. Ao lado dela, o Pelourinho, lembrando que quem construiu tudo aquilo foi à força escrava.

    Vale a pena ver as fotos dos sobrados, e ruas de Alcântara, uma cidade que chegou a ser uma das mais importantes do Brasil nos anos 1700, com cerca de oito mil escravos, mas que hoje vive meio parada no tempo, com a vasta maioria dos habitantes quase sem ter o que fazer. Eles apenas esperam a próxima festa, e nova leva de turistas que, vindos de São Luis, sobem suas íngremes ruas, e passeiam pela cidade.

    Entrevistamos um funcionário do IPAHN que trabalha por aqui, visitamos o Museu local, conversando com o curador, fotografamos o altar da igreja Nossa Senhora do Carmo, barroca, folheado a ouro; estivemos num prédio da Aeronáutica, onde um soldado nos explicou como funciona a Base de lançamentos de foguetes, vimos favelas que cercam o núcleo histórico, e no fim do dia, exaustos, voltamos para o barco, para jantar, e dormir. O Mar Sem Fim estava fundeado no meio do canal, que fica entre a pequena ilha do Livramento, e a costa.

    Sexta feira, 20- 05- 2005.

    Esta noite tivemos chuva forte, acompanhada de rajadas de ventos consideráveis, mas pela manhã, ao acordarmos, um lindo dia estava a nossa espera.

    Nossa idéia para hoje é circundar a ilha do Cajual, aqui ao lado, para acabarmos o programa que começamos a fazer em São Luis. Assim ficaremos com mais dois: um sobre Alcântara, outro sobre a baía que cerca São Luis.

    Esperamos a maré começar a encher, para levantar o ferro, e navegar pelo igarapé Cajupe, que circunda a ilha. Passamos por pequenas comunidades de pescadores, instaladas nas margens, cruzamos com vários barcos artesanais, sempre bonitos, até que fundeamos. Em seguida descemos e caminhamos por uma linda trilha que nos levaria até duas minúsculas e paupérrimas comunidades no seu interior : Vila Nova e Tijuca.

    Antes, entramos de bote num pequeno igarapé, onde filmamos Guarás, e um casal de Guaximins que passeava. Os bichinhos são tão desacostumados de ver gente, que ainda não têm medo, e enquanto gravávamos e fotografávamos, eles continuaram tranqüilamente procurando comida no mangue (veja foto). A ilhota fica somente a dez milhas da capital, mesmo assim não há luz elétrica. Bandos gigantescos de Guarás cruzam os céus, ao mesmo tempo em que pios dos mais diversos passarinhos ecoam pelas matas. E isto tudo nos dá a impressão que estamos a milhares de quilômetros de qualquer pessoa. É impressionante como as duas vilas do interior desta ilha estão, ao mesmo tempo, tão próximas, e tão longe da civilização.

    De qualquer modo valeu a pena termos andado cerca de uma hora até chegarmos às vilas. O caminho foi uma das trilhas mais bonitas que conhecemos desde que começou esta viagem. Poucas vezes vi um tom de verde, da mata ao redor, tão vivo, e bonito. Durante o trajeto encontramos casas isoladas, no meio do mato, sempre muito pobres, feitas de barro, e com telhado de sapé. Provavelmente sua origem são os antigos quilombos, já que por aqui a força escrava imperava. Fomos muito bem recebidos por todos, e assistimos cenas curiosas, como a de meninos e rapazes montados em bois, andando pela trilha, ou algumas mulheres sentadas em roda, em frente de casa, todas com cabelo alisado, fazendo as unhas, dos pés e das mãos, umas das outras. E elas não se acanharam conosco , ao contrário, conversaram animadamente. É curioso, para mim, perceber que até aqui, no meio do mato, isoladas, estas mulheres conservam a dignidade, e a vaidade. Depois de algum tempo batendo papo, tirando fotos que mostrávamos em seguida às crianças, encantadas por poderem se ver “dentro das câmeras”- vantagem das máquinas digitais de hoje- retornamos ao Mar Sem Fim.

    Sábado, 21- 05- 2005.

    Estávamos fundeados na ponta Sul da ilha do Cajual, já quase na saída para cruzarmos o canal dos navios, que entram para o Porto de Itaqui, na baía de São Marcos. Logo pela manhã tentamos gravar os Guarás, mas parece que eles preferem a outra extremidade da ilha para o café da manhã… Apesar de ontem termos visto milhares deles, voando em formação bem acima de nossas cabeças, esta manhã não conseguimos achá-los. Por isto, quando o sol estava a pino, ao meio dia, resolvemos retornar para São Luis. Nossa missão na ilha do Cajual estava cumprida. Restava ainda gravar o centro histórico de São Luis, e seus imponentes casarões. Durante a navegada, de cerca de duas horas, minha cabeça não parava de pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Estamos rodeados de belezas naturais, tradição e história, tudo cercado por um rico ecossistema, formado principalmente por manguezais, mas também por restingas, florestas, dunas, lagoas, ilhas, praias, a foz dos rios, etc. Mas não dá pra deixar de notar que o núcleo histórico de Alcântara está cercado por algumas favelas, num processo que todo mundo sabe como, e porque, começa, mas que ninguém sabe dizer como vai acabar. A economia do município é pobre, não há muito o quê fazer. Há um incipiente comércio, e uma mínima estrutura de turismo, que bem poderia contribuir muito mais, se fizessem investimentos. Todos os dias chegam barcos de passageiros, dos grandes, de ferro, trazendo e levando pessoas ou mercadorias, além de barcos tradicionais, de madeira, que servem para carga e pesca. Escolas funcionam para crianças, mas a maioria da população vive da pesca, ou da subsistência. São pobres, e os meninos “acham um saco” morar lá, porque, “fora alguns turistas, que sobem e descem as ladeiras no mesmo dia, não têm nada para fazer”, como disseram alguns. E é verdade mesmo. Por isto as favelas que mencionei vão crescendo, e a infraestrutura, como saneamento básico, é quase inexistente. Mais uma prova da falência deste modelo, que cria um Estado clientelista e perdulário, além de grande demais, e eficiente de menos. Só em São Luis são quase um milhão de pessoas, mas apenas 16 % das casas têm rede de esgotos, e só 55% têm serviço de coleta de lixo. Podem ter certeza que os dejetos das outras 84% das casas, mais parte do lixo das 45% que não são atendidas pela prefeitura, vão parar no mesmo lugar : a baía de São Marcos. Por sorte, ela é favorecida pela foz de vários rios, entre eles o Mearim, além de muitos lagos, e por uma imensa maré, que levanta e abaixa o nível do mar, cerca de 4 até 6, 7 metros todo o dia, interligando todos esses ecossistemas, e fazendo com que este movimento, mais a vazão dos rios, acabe proporcionando uma certa limpeza aparente da baía, mas tudo tem limite. E se não se fizer agora as obras necessárias, é possível que em poucas décadas esta linda e rica baía acabe no mesmo processo por que passaram as de Santos, e Rio de Janeiro, e que também ameaça a baía de Todos os Santos, em Salvador.

    Isto porque a baía de São Marcos faz parte do que chamam de Golfão Maranhense, em cujas margens há 29 municípios, sendo o maior deles, a capital do Estado, São Luis, que sofre acelerado processo de industrialização, com a instalação de três terminais portuários: o da Alcoa, que serve o minério de Carajás, Itaqui, e Ponta de Madeira. Também há um pólo de minério, e metalurgia, instalado na ilha de São Luis desde os anos 80, que é formado por unidades de processamento de aço, alumina, e alumínio, entre outros. Para não falar em uma unidade da Alumar (vide fotos), consórcio formado entre ALCOA, a SHELL, e a Camargo Correia. Este pólo ocupa um quinto da Ilha de São Luis. Sua instalação causou vários problemas ambientais, entre eles, a contaminação dos lençóis freáticos. No mesmo período houve o desvio de curso do rio Itapecurú, o que, por sua vez, alterou a salinidade das águas da baía. É muita pressão ambiental ao mesmo tempo.

    Os especialistas nos informaram que a ALCOA deposita lama vermelha, uma espécie de efluente de sua produção, em lagoas, para decantar. Elas foram construídas sobre solo permeável, o que ameaça todo o lençol freático da ilha de São Luis.

    A poluição gerada por esta empresa, dizem nossas fontes, teria sido a responsável, não só pela contaminação da água, mas pela erradicação de várias espécies aquáticas, além de sérios danos causados à cobertura vegetal nativa. E o pior é que ninguém parece se incomodar muito. Até agora não descobri as ONGS de sempre, que gritam e fazem barulho, nem a imprensa denunciando. Mas o alerta é sério, e feito por quem merece consideração: o especialista Antonio Carlos Diegues, em seu livro, que muito nos ajuda a bordo, o “Povos e Águas”, editado pela USP.

    E tem muito mais: a especulação imobiliária, e a industrialização, acabam expulsando as pessoas, numa região onde sempre houve conflitos de terra. Para piorar, a população de São Luis saltou de 450 mil habitantes, em 1980, para 870 mil em 2000, um acréscimo de quase 100% em vinte anos!

    Há ainda o conflito dos pescadores artesanais com os da pesca industrial, restando o extrativismo como única opção dos mais pobres. Além disto, há a pressão da pecuária aumentando, o tamanho das matas diminuindo, indústrias poluidoras se instalando nas margens do Mearim, etc. Todos estes são problemas graves e complexos.

    Voltaremos a eles nas próximas viagens, agora preciso encerrar esta em que estamos. Eu falava que navegávamos de volta para o Iate Clube, na Ponta da Praia. E quando estávamos chegando, uma lancha da Marinha sinalizou para que chegássemos perto. Queriam ver nossa documentação e itens de segurança. Como não havia calado onde estavam, fundeei o Mar Sem Fim no mesmo lugar em que ficamos antes, e esperei pela abordagem deles. Despreocupado, desci para o computador. De repente senti uma forte pancada no costado do barco, precedida por uma gritaria da tripulação alertando a lancha para a velocidade excessiva com que se aproximavam, e o lado errado, a favor do vento, que queriam atracar. Não deu outra: fomos abalroados com força, bem na parte do casco no qual está pregada uma barra de aço inox, grossa e comprida, em cuja ponta prende-se o principal cabo de aço que sustenta o mastro grande de bordo. A peça quebrou, e por um triz não se partiu de vez. Saí da cabine a milhão, ainda a tempo de ver o brandal, (nome do cabo de aço) vibrar para um lado e outro, como se fosse uma corda percutida num contrabaixo. Gelei. Imaginei o mastro poderia se quebrar. E saí gritando e gesticulando para a lancha, que ainda raspava seu casco, contra o costado do Mar Sem Fim.

    Pelas barbas do profeta ! Quase me arrebentam meu barco ! Foi muita sorte termos perdido apenas a peça. Mais um tiquinho de força, e talvez nosso mastro teria caído.

    Demorou até eu perder a cor verde, de raiva. Fui até duro com o oficial da Marinha, na hora de mostrar os documentos do barco.

    Com este acidente chato encerramos nosso dia. Amanhã vou tratar de mandar fazer uma nova peça, além de gravar o centro histórico de São Luis.

    Domingo, 22- 05- 2005.

    Desembarcamos cedo, e passamos o dia inteiro no centro histórico de São Luis, para mim um dos mais belos conjuntos de arquitetura do Brasil. Só mesmo assim para esquecer o desastre de ontem, que quase derruba meus sonhos, quer dizer, o mastro do meu barco.

    Amanhã cedo gravaremos ainda mais, e vamos fazer entrevistas com os responsáveis por toda esta recuperação do cenário espetacular. Veja algumas das fotos no site, vale a pena.

    Segunda- feira, 23- 05- 2005.

    Acabamos tendo que deixar as entrevistas sobre o centro para uma próxima viagem. Tínhamos apenas a manhã livre, e resolvemos ir até o complexo Alumar, de mineração, apontado como sendo o grande poluidor do Golfão Maranhense. Precisávamos registrar em vídeo, e fotos, aquela área.

    Foi difícil. Havia seguranças da empresa por todos os lados, mas conseguimos fazer as imagens.

    Corremos de volta pro Iate Clube, tomamos um banho, pegamos um táxi, e tocamos para o aeroporto.

    Em breve estaremos de volta para mais etapas no Maranhão.

    Agora São Paulo no espera. Temos que editar este material, e preparar os novos programas.

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