Santos – Laje de Santos – ilha Queimada Grande – Juréia – Iguape

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    Domingo, 15- 10- 2006.

    Nesta madrugada o veleiro deixou Santos. O Mar Sem Fim já estava se habituando com sua casa, o Píer 26, quando nós precisamos partir novamente. Por mais que estejamos gravando na frente as semanas se sucedem, com ou sem tempo bom, e os programas em estoque vão acabando. Hora de navegar de novo.

    Desta vez vamos gravar um só programa com todo este conteúdo. Fico até com pena de colocar tanto material interessante em míseros 24 minutos, mas esta é a regra. Tenho que seguir. E a série também precisa terminar por mais que eu goste dela. Acertamos cobrir a costa brasileira em 90 episódios. Assim será.

    Desta vez estavam a bordo Alonso, Paulina, e o cinegrafista, Cardozo. Eu havia marcado uma visita a um possível patrocinador justamente na terça, dia 17, e nós não poderíamos atrasar tanto a saída do barco sob pena de ultrapassar o limite de nosso estoque de episódios inéditos.

    O jeito foi fazer a tripulação sair na frente e ir gravando as ilhas, nos primeiros dias, até que eu me reúna com eles na terça, em Iguape.

    A partir desta etapa nossa equipe conta com duas novidades. Estreamos um novo patrocinador, além da Semp Toshiba: a Sagatiba. Daqui até o final da série, espero, temos este grande reforço. Também passamos a contar com a ajuda de uma meteorologista. Estamos numa latitude que começa a ser perigosa, e vai ficando pior à medida que descemos mais para o sul. As frentes por aqui entram bem fortes e, muitas vezes, não há nenhum abrigo no mar, num raio de mais de cem milhas.

    Pedi à minha grande amiga, Josélia Pegorim, da Climatempo, empresa que descobrimos, e contratamos, para fazer as previsões da Rádio Eldorado, desde a década de 80.

    Ela é extremamente competente, muito simpática, e já fez trabalhos semelhantes para a flotilha da regata Eldorado- Brasilis, Refeno, e várias outras.

    A partir desta etapa ela está trabalhando. Mas de São Paulo mesmo, não a bordo. Ela vai monitorar o tempo e nos informar. Quem marcou a data de saída do veleiro foi a previsão que ela fez, avisando, desde ontem, que uma frente chega a Iguape na segunda de noite. E “a massa (de ar frio) é bem fortinha”, disse ela. Como a barra lá é bem perigosa, relativamente rasa, não se deve tentar entrar com vento sul. As ondas ficam ainda maiores. O jeito é chegar antes dela.

    Por isto mandei a tripulação na frente. Eles saíram do Guarujá e navegaram para a Laje de Santos. De lá seguem para a ilha da Queimada Grande, onde dormem esta noite. E amanhã cedo vão para Iguape.

    Liguei para um amigo, o prof Antonio Carlos Diegues, que mora por lá. Informei a ele o dia e hora da chegada e pedi que conseguisse um prático para ajudar o Alonso.

    Em poucos minutos tudo foi arranjado. Diegues me deu o telefone do “Mingo”, um personagem notável de Iguape, com quem falei há pouco. Amanhã ele vai até a barra, em Icapara, descobrir um pescador que esteja por aqui para guiar o Mar Sem Fim na entrada.

    Segunda- feira, 16- 10- 2006.

    Antes das 8h da manhã Mingo já tinha me ligado. Ele falou com Amarildo, que mora na ponta de Icapara, e que será nosso prático.

    Já liguei para os celulares de todos a bordo para passar o nome e telefone. Amarildo vai esperar por eles. Agora vou me concentrar para a reunião de amanhã. E torcer.

    Terça- feira, 17- 10- 2006.

    A reunião foi ótima. Ou muito me engano, ou consegui vender outra cota. Vou saber quando retornar desta etapa. Assim que acabou a apresentação do projeto peguei a estrada. Cheguei a bordo esta tarde, por volta das 4 horas. Estava distraído com a beleza do centro histórico da cidade, me dirigindo para o rio, à procura do cais, quando ouvi um assobio dos mais fortes, logo após eu ter passado. Eu conhecia aquele som. Parei e olhei pra trás. Era o Cardozo saindo de dentro de um barracão.

    Fora do carro ele me apresentou o Mingo, com quem eu já tinha falado tantas vezes. Ele era justamente o dono daquela oficina. Cardozo e Paulina estavam lá atrás de um cabo da manete (espécie de câmbio) de engate do motor do Mar Sem Fim. Foi divertido e inesperado encontrar logo de cara com os três de uma vez. Chovia e fazia um pouco de frio.

    Paulina e Cardozo estavam a mil por hora pela emoção da entrada na barra. Falaram várias vezes sobre o tamanho das ondas. Elas estouravam dos dois lados do costado, enquanto o Mar Sem Fim surfava ao descê-las.

    Contaram que, durante a entrada, o Alonso, no leme, narrava a manobra para a câmera do Cardozo visivelmente “acelerado” com tamanha emoção. E dizia que “aquela tinha sido a pior barra desde o início da viagem”. Fiquei gelado, mas eles garantiram que o prático era realmente do ramo, conhecia perfeitamente a entrada, e me acalmaram.

    Assim que subi a bordo pedi para ver. Barrabás! Que barbaridade. Foi pura emoção. A adrenalina de bordo subiu a níveis explosivos. Eles nem precisavam ter me dito. Seus rostos, na gravação, denunciavam o que estavam sentindo enquanto o barco “voava” deslizando pelas ondas na barra.

    No canal da entrada as ondulações faziam o Mar Sem Fim acelerar como uma prancha de surfe nas descidas. Dá pra ver nitidamente. Só que, ao contrário de uma prancha, que é leve e com o casco liso, o veleiro tem quilha e é muito pesado. É difícil controlá-lo se a velocidade for muito alta. Só de ver a cena meu coração bateu mais forte. Se estivesse a bordo não sei se teria coragem de autorizar a entrada.

    Muitos dos problemas de assoreamento da barra e erosão, em Iguape, foram causados pela mão do homem que, em 1852, abriu o famoso canal artificial do Valo Grande. A idéia era facilitar o transporte de carga, especialmente o ouro extraído, e a produção do vale do Ribeira até o Mar Pequeno e daí para o porto de Iguape.

    Inicialmente o canal tinha pouco mais de 4 metros de largura mas, depois de aberto, a força das águas do Ribeira começou a erodir e “empurrar” suas margens mais para adiante.

    Passados 150 anos a largura hoje chega quase aos 300 metros. Parte da cidade de Iguape veio abaixo. O antigo cemitério, ruas, casas, tudo foi tragado pela força da água. E pior: os sedimentos trazidos assorearam completamente o porto. Mas não foi apenas este o principal problema. Com o excesso de água doce canalizada para o sistema estuarino diminuíu drasticamente a quantidade e os tipos de peixes. A riqueza da cidade foi embora com a abertura do Valo Grande. E esta ação mudou completamente a barra. A entrada do Mar Sem Fim causou perplexidade aos moradores que há muitos anos não viam um barco deste porte nestas bandas.

    Depois deste desastre os moradores passaram cerca de cem anos pedindo o fechamento do canal que só aconteceu, via a construção de uma barragem, em 1978. Mas a felicidade da população não durou muito tempo. Em 1983 as cheias do Ribeira de Iguape, a maior e mais importante bacia hidrográfica dos quase 400 quilômetros da costa paulista, destruíram as obras de fechamento do Valo Grande e o rio voltou a desaguar no Mar Pequeno.

    As águas do Ribeira de Iguape trazem também enorme quantidade de agrotóxicos usados na agricultura, e resíduos liberados pela grande quantidade de lavras de extração de minério, chumbo, manganês e zinco, do vale onde corre seu leito. A água doce diminui a salinização de toda a região do Lagamar, com cerca de 90 milhas de extensão, que começa em Iguape e vai até Paranaguá, já no Estado do Paraná. Camarões e ostras são os crustáceos mais afetados neste caso mas não os únicos. O Lagamar Iguape- Cananéia- Paranaguá é considerado o maior criadouro de peixes da costa sul e sudeste brasileira.

    Este caso poderia ter servido de exemplo e, talvez, evitado outras alterações provocadas por obras feitas na costa brasileira.

    Infelizmente o tempo está fechado. Eu já sabia disto. E não podemos esperar. Vamos ter que gravar assim mesmo.

    Ontem e hoje, Paulina me contou, com o tempo menos ruim, o trabalho rendeu muito. Várias entrevistas foram feitas e a maior parte do lindo casario colonial da cidade já está registrado. Ainda assim amanhã temos muito pra fazer.

    Quarta- feira, 18- 10- 2006.

    Hoje cedo tínhamos um encontro com Dauro Marcos do Prado, um caiçara oriundo da praia da Juréia. Desde 1987 a área é uma Estação Ecológica, uma unidade de proteção integral.

    O modelo de Parques, e unidades afins, no Brasil, não permite que haja moradores nestes lugares, ou restringe barbaramente sua ação. E esta é uma questão polêmica que ainda precisa ser analisada. Eu, por exemplo, não estou convencido que deva necessariamente ser assim. Tenho lido a respeito e, a partir de agora, vou levantar o assunto com os ambientalistas e gente da academia com quem ainda vou conversar e entrevistar até o final desta série.

    O caso do Dauro, por exemplo, é emblemático. Sua versão, e as questões que levanta, sobre o que aconteceu na Juréia depois do decreto estadual de 1986 que selou seu destino como Unidade de Conservação precisam ser respondidas.

    Perguntado sobre a origem da família ele falou de seu bisavô que nasceu, teve filhos e morreu naquele lugar. Sempre viveu da prática do extrativismo e agricultura de subsistência. De tempos em tempos entrava no mato e derrubava alguma árvore que transformava em canoa. Ele dependia, sobretudo dela pra sobreviver.

    Em terra firme capinava uma pequena área para fazer uma roça. Mas a base do sustento era a pesca e, de vez em quando, a caça.

    E assim fizeram seu avô e seu pai. Até que chegou a sua vez.

    Então, depois de uma disputa entre os militares que queriam construir uma Usina Atômica, a especulação imobiliária, e os ambientalistas, venceram estes últimos. E a Juréia foi transformada em Unidade de Conservação. A área tem 80 mil hectares de mata atlântica e abrange parte dos municípios de Iguape, Peruíbe, Itariri e Miracatu. Foi uma vitória. Mas ela trouxe conseqüências.

    De acordo com a nova ordem 90% da área deveria ser preservada. E 10% poderia ser explorada para fins científicos.

    De um momento para o outro, Dauro, e outras cerca de 350 famílias, foram impedidos de manter suas tradições, usos e costumes. E, como num passe de mágica, quem era vítima passou a ser vilão. Este é, mais ou menos, o caso de nosso amigo.

    Ele conta que, na época, não houve conversa com os moradores das 22 comunidades do entorno. “Apenas foi dito que com o decreto acabariam com a especulação imobiliária”. E arremata: “Em seguida tudo passou a ser proibido: a roça, a pesca, o extrativismo. Tudo acabou de uma vez”.

    Como era de se esperar houve protestos. Em todas as comunidades algumas pessoas reclamavam e procuravam organizar as outras. Eram os cabeças do movimento. Pois, nas palavras de Dauro, estas mesmas pessoas foram contratadas pelo Estado como guarda-parques. De detratores passaram a defensores; e, muito pior, fiscais da estação.

    Segundo Dauro eles foram investidos desta autoridade ao ganharem uniforme, coturno e revólver. E passaram a vigiar, especialmente, os membros da própria comunidade ou família. O caos se instalou em seguida.

    Dauro contou dos problemas que teve com um primo que se tornou guarda, ou o próprio pai, que seguiu o mesmo caminho. E relatou vários casos em que os fiscais, sabendo que haveria caça para o jantar, aplicavam um flagrante no próprio parente.

    Além das proibições impostas aos moradores houve também esta medida descabida de transformar alguns deles em fiscais, semeando a discórdia em quase todos os núcleos populacionais. É inacreditável! Imagine um irmão fiscalizando outro e os problemas que isto pode trazer.

    O resultado não poderia ter sido outro. Aproximadamente 60 famílias abandonaram a área e foram morar em bairros periféricos de Iguape, e outras cidades próximas. Pouco depois, segundo Dauro, “alguns morreram em confrontos coma polícia, ou foram presos porque entraram nas drogas”.

    É óbvio. Não podendo sobreviver do modo tradicional os caiçaras caíram no conto da “vida fácil” e, se arruinaram no tráfico ou na prostituição.

    Muitos não suportaram a situação e, em 1989, fundaram a União dos Moradores da Juréia. E passaram a lutar pelo que consideravam seus direitos, entre eles ter áreas onde poderiam desenvolver seu modo de vida.

    Em 1992, depois de ser proibido de construir na região da Juréia, Dauro veio para Iguape e se integrou ao movimento.

    Mais recentemente eles conseguiram apoio de dois deputados que entraram com um projeto de lei para transformar duas áreas, uma no interior, Despraiado, e outra no costa, Barra do Una, em RDS- Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Nelas eles estariam livres para seguir sua vida e ainda explorar o ecoturismo. Segundo Dauro até o final deste ano o projeto deverá ser votado.

    O depoimento deste caiçara sobre a transformação porque passou esta região e seus habitantes tradicionais dá bem a medida de como é, ou como vem sendo aplicada a política ambiental no Brasil. Entre outros problemas quase sempre a parte mais fraca é a que mais sofre. E eles acabam pagando um preço às vezes alto demais sem ter quase nada de volta em compensação. Para mim é uma política, no mínimo, questionável.

    Lembro que desde que começamos esta reportagem temos visto dezenas de artesãos tradicionais, especialmente carpinteiros navais, com notório saber acumulado ao longo da vida, impedidos de trabalhar e exercer sua profissão. Enquanto isto, como diz Dauro, “o governo exige mas não fiscaliza”, e os verdadeiros criminosos, aqueles que causam estragos imensos e quase sempre definitivos continuam impunes. O desmatamento na Amazônia segue forte. Os mangues são entregues a carcinicultores, de graça, para serem destruídos. Resorts acabam com as paisagens mais bonitas do nordeste, com ajuda da renúncia fiscal de vários governos Estaduais. O contrabando de animais silvestres continua. E os palmiteiros prosseguem derrubando as Palmeiras Juçaras, inclusive aqui, na Juréia, sem quase nunca serem molestados. Para todos estes casos a política oficial do governo é ineficiente. Por que será que só para os pobres caiçaras, ou populações tradicionais, a fiscalização é sempre implacável? É de se pensar…

    Antes de encerrar o assunto torno a lembrar que a Juréia quase acabou nas mãos dos militares para ser base de uma usina nuclear. Depois escapou da sanha dos condomínios, quando conseguiram que a Gomes de Almeida Fernandes, que queria construir um gigante deste ramo aqui, desistisse também. Finalmente virou área protegida. Mas pagou este alto custo social.

    Antes de encerrar fiz um teste e perguntei a Dauro quando foi a última vez que ele lembrava ter visto a polícia florestal prendendo algum palmiteiro ou loteador clandestino. Ele puxou pela memória e pensou. Durante alguns segundos houve silêncio. Depois ele olhou nos meus olhos e maneou a cabeça de um lado para o outro.

    Fomos almoçar na cidade.

    Em seguida fotografei o centro histórico de Iguape, fruto da riqueza da exploração do ouro, e, depois, da cultura do arroz.

    Antes de retornar ao Mar Sem Fim ainda visitamos uma das últimas salgas de Iguape para gravar como é esta antiga e tradicional técnica de beneficiar o peixe.

    Ela fica no bairro do Rocio e pertence ao senhor Nishidate, um japonês, claro. No galpão, atrás das instalações, havia uma espécie de cemitério de canoas de tronco que faziam parte de sua velha frota agora renovada em fibra de vidro.

    Fui avisado pelo professor Diegues sobre a salga que trocava sua frota e não perdi tempo. Acabei comprando uma linda canoa, desta vez em tamanho natural, que vou mandar de caminhão para São Paulo.

    E por hoje foi tudo.

    Quinta- feira,19- 10- 2006.

    Esta manhã fomos com Dauro assistir a uma apresentação especial do Fandango, tão vivo por aqui e no litoral do Paraná. Fomos até a vila de Barra do Ribeira, já na divisa com Juréia, onde o grupo se apresenta. Estivemos também na oficina onde um dos participantes constrói a famosa rabeca, principal solista entre os instrumentos de cordas usados.

    Perguntamos sobre a origem do fandango mas seus atuais protagonistas não sabiam responder. Esqueceram da origem lusa, com influências hispânicas, especialmente forte nesta região devido à presença próxima de açorianos que se fixaram, sobretudo no litoral sul do Brasil. Em todo o caso eles dançaram e tocaram.

    Para chegar até a vila tivemos que atravessar de balsa o Ribeira de Iguape, até chegarmos na vila. Ali encontrei uma das maiores e mais bonitas canoas caiçaras: Vanda (vide fotos). Ela estava no seco o que me permitiu tirar muitas fotos e oberservar atentamente seu desenho.

    Apesar de já conhecer esta região, em viagens passadas, não lembrava da forma das canoas. Ao contrário de quase todas as outras que vimos pela costa brasileira, as daqui tem a proa bem afilada, lançada, e a popa reta. Parecidas com estas só mesmo as canoas do São Francisco. E são lindas. Gravamos e fotografamos.

    Em razão da riqueza do material decidi fazer dois programas ao invés de apenas um. Ainda nem chegamos na Estação da Juréia mas já temos tantas imagens de assuntos tão diversos, que a edição seria quase impossível em um único episódio.

    Além da beleza das canoas e seu “shape” quase único, a outra coisa que me impressionou em toda a região de Iguape, mas especialmente na Ilha Comprida (74 km de extensão, por 4 de largura), que é mais uma Área de Proteção Ambiental, uma APA, é a quantidade assombrosa de pinus. É impressionante. Em certas áreas, como na restinga da ilha, ela rivaliza com as nativas.

    Desde o Ceará temos visto, e denunciado, o absurdo de se plantar pinus na orla quando temos tantas e tão lindas árvores nativas. Mas, se no nordeste há poucas, aqui elas são muitas.

    O pior é que o disparate só chama a minha atenção. Até mesmo o pessoal da tripulação não se mostra tão indignado quando as vemos. Às vezes me dá impressão que só a mim elas causam ojeriza. Mesmo os ambientalistas demonstram complacência e não se incomodam, apesar de saberem do problema da bioinvasão considerado o segundo pior em termos de prejuízos ecológicos, só perdendo para a destruição dos habitats naturais.

    Este é um caso parecido com os animais introduzidos em ilhas. Por que não matá-los antes que eles acabem com a diversidade do local onde foram inseridos?

    Veja-se o caso da ilha Anchieta no litoral norte de São Paulo. Ali, há 20 anos, a Fundação Zoológico introduziu capivaras, cotias e saguis. Hoje eles são uma praga. Se proliferaram às centenas e os responsáveis pelo Parque ( ilha Anchieta é Parque Estadual) dizem que “agora vão se reunir e estudar o que fazer”. Esperaram 20 anos para “estudar” o caso. É possível?

    Se não tivesse visto e ouvido não acreditaria. Em Abrolhos a mesma coisa acontece com os bodes que os portugas lá deixaram e que destruíram com o que restou da vegetação. Mesmo assim eles permanecem devastando. Quando perguntei ao guarda- parques, nesta viagem, o rapaz nem se incomodou. Simplesmente o assunto não era com ele.

    Quando vejo os pinus sem graça crescendo livremente pela costa, e os malditos bodes comendo sem parar, lembro do ambientalista famoso que ataca navios baleeiros. Nestas ocasiões sempre digo aos meus companheiros que, na próxima viagem, levarei a bordo moto-serras e espingardas…

    Depois do almoço tivemos outro bom programa. Fomos gavar e fotografar o último canoeiro que ainda usa a vela como propulsão em Iguape. A dica preciosa me foi passada, mais uma vez, pelo professor Diegues.

    Seu Apparício, assim mesmo, com dois pês, foi mito simpático e não se incomodou com o trabalho de colocar o mastro em sua canoa, a Pantera, pintada de vermelho e, esta sim, com proa e popa levemente arredondadas como a maioria das canoas do litoral brasileiro.

    Seu Apparício velejou pelo canal do Valo Grande, para cima e para baixo, enquanto nós gravávamos.

    É incrível como é fácil manejar estas canoas. O mastro é leve e a vela trapezoidal, muito simples, que ele mesmo desenhou e sua mulher costurou. Para controlar a vela ele usa apenas uma escota, atada à ponta da retranca. Com uma das mãos segura este cabo e, com a outra, o remo, que é o leme. Tudo muito simples sem aquele sem-número de cabos e estais (cabos de aço que seguram o mastro) dos veleiros mais modernos.

    Retornamos para bordo do Mar Sem Fim fundeado poucos metros antes da ponte que vai de Iguape para a Ilha Comprida. Mais um dia estava encerrado. Antes de dormir ainda tivemos pequenos contratempos para resolver. Os pescadores de Iguape passam boa parte do dia soltando enormes redes, no canal, atrás de manjubas. Como a correnteza é muito forte, volta e meia uma delas se enrosca na corrente da âncora do Mar Sem Fim e acaba envolvendo todo o barco. Ontem foi assim, hoje, de novo aconteceu a mesma coisa. Mas nada que dê muito trabalho para a gente soltar.

    No momento Paulina decupa as fitas que gravamos hoje, enquanto eu, aqui na mesa de navegação, sigo escrevendo. Alonso já foi dormir faz tempo e o Cardozo curte a noite lá fora.

    Amanhã tem mais.

    Sexta- feira, 20- 10- 2006.

    Hoje cedo fomos ver o ninhal de Guarás, e outras aves, na restinga da Ilha Comprida.

    No trajeto mais uma vez me impressionou a quantidade de pinus . Ele já está se infiltrando nas margens e começa a substituir o manguezal.

    Ilha Comprida já está bastante tomada por construções. Aqui a especulação imobiliária começou em fins da década de 70 e se acentuou depois da construção da ponte que liga Iguape até a ilha. São condomínios e casas de veraneio erguidos em áreas de restinga ou nas pequenas dunas. Nas férias a população triplica e o saneamento básico, como sempre, é muito precário. Estas são outras fontes constantes de pressão que atuam em conjunto no pior local possível.

    A função da ilha Comprida, no ecossistema, é de vital importância. É ela justamente que separa o mar da área lagunar permitindo a formação do manguezal. A queda das folhas do mangue no lodo forma uma massa orgânica que é a base da cadeia alimentar para peixes e crustáceos. Como estão sendo aos poucos substituídos por árvores “invasoras”, ou aterrados para dar lugar a marinas e casas, o estuário fica prejudicado em sua função maior de criadouro natural de vida marinha. O turismo hoje é a maior fonte de renda de Ilha Comprida.

    Chovia cântaros quando chegamos ao ninhal. Tivemos que gravar e fotografar debaixo de guarda- chuvas. E foi bem difícil. Já imaginou segurar um guarda- chuva com uma mão e, com a outra, uma pesada máquina fotográfica com uma enorme teleobjetiva? Pois foi assim que tive que fazer.

    Os Guarás daqui são os mesmos que habitam os mangues de Santos e Cubatão. E a quantidade deles, ao menos em Iguape, é bastante razoável. Fiquei feliz por vê-los de novo. No passado havia muitos. Agora estão de volta. É mais uma prova da força da regeneração da natureza. É só a gente dar uma pequena ajuda que o resto ela faz sozinha.

    O mesmo fenômeno tem acontecido com as tartarugas depois de alguns anos de trabalho sério do Tamar. Hoje é possível encontrá-las em quase todo o litoral brasileiro. Tudo isto me anima e são provas de que, se mudarmos um pouco nossos hábitos, se consumirmos com mais precaução e, se sujarmos um pouco menos o planeta, ainda há tempo para salvar grande parte dos ecossistemas.

    Encerrada a gravação retornamos para Iguape para almoçar. Depois seguimos de carro para a Juréia. Lá não há baías abrigadas para deixarmos o Mar Sem Fim. Nosso veleiro fica aqui, aos cuidados do Alonso, e nós seguimos de carro para Peruíbe.

    Fiquei muito mal impressionado quando chegamos na cidade. A orla de Peruíbe está toda tomada por prédios enormes, e os pinus estão em todas as ruas e avenidas. Foram, portanto, plantados pelo poder público.

    Alguns ambientalistas com quem encontramos em Iguape nos disseram a mesma coisa. Lá, nos anos 80, foi a própria prefeitura que distribuía as mudas a quem quisesse plantá-los. Muito provavelmente são reflexos da política de reflorestamento do antigo IBDF, assunto que comentei no diário de bordo anterior. Uma pena.

    Já era tarde quando chegamos. Tivemos tempo apenas de ir até a sede da estação Ecológica Juréia- Itatins para marcarmos nosso passeio para amanhã. Anoitecia quando saímos.

    Fomos para um hotel torcendo para a previsão de nossa amiga Josélia estar certa. Ela prevê sol para amanhã. Tomara. A beleza daEstação Ecológica merece tempo bom para ser gravada.

    Sábado, 21- 10- 2006.

    Cedinho estávamos de novo na sede da estação ecológica. Lá nos esperava o chefe da fiscalização com quem iríamos conhecer a área.

    Saímos numa perua 4 x 4 e percorremos parte da área protegida.

    Estivemos na praia do Una onde poucos caiçaras ainda mantêm suas tradições. A maioria das casas é de veraneio. São pessoas que compraram as posses e construíram discretamente, mais para trás. Apesar da imensa quantidade de gente que visita anualmente a estação, na casa dos 50 mil, a paisagem ainda se mostra exuberante e muito pouco alterada.

    A praia do Una é enorme, com areia dura, e larga também. A arrebentação ocorre em toda a sua extensão, com águas bem escuras, o que provoca um belo contraste com o tom claro da areia.

    De lá seguimos para conhecer outras duas, Caramborê e Praia Deserta. No trajeto paramos para fotografar Tucanos, a mata exuberante com o rio Una serpeteando entre ela, e vimos também o belíssimo Tiê- Sangue, entre outros inúmeros pássaros.

    Toda a região é belíssima. O colorido da mata em seus diferentes tons, com o sol batendo e provocando alterações nos matizes, é de arrepiar.

    Como o sol nos fez companhia quase o dia todo, conforme adiantou nossa meteorologista, gravamos um belíssimo programa.

    No fim do dia seguimos para São Paulo.

    Na próxima etapa saímos de São Paulo, através de Cananéia, e chegaremos ao décimo quarto Estado, o antepenúltimo de nossa expedição: vamos conhecer o litoral do Paraná. Até lá.

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